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A bênção de abrir o coração

por 5/06/2009 12 comentários

chagdud-rinpoche-52Sabe quando alguma situação perturbadora perde seu poder e passamos por ela sem nos abalar? Sabe quando nos sentimos espontaneamente abertos e atentos ao outro, sem que nada externo ou favorável precise acontecer? Para uma mente como a minha, preguiçosa, orgulhosa e fortemente ancorada na separatividade, a “coisa” pode durar uns minutos ou uns dois dias. Mas é inconfundível. Parece que os nós se afrouxam e consigo ver melhor o que existe de potencial positivo em qualquer fenômeno que eu observe.

Percebi este tipo de mudança sutil na energia há algum tempo – por acaso foi numa época em que eu frequentava divã e é claro que fui comentar com a analista.

– Que sensação boa. Foi uma bênção do lama – eu disse, emocionada, ao final do relato.

– Ou pode ter sido um progresso seu, uma conquista sua – ela respondeu.

Desde então, todas as vezes em que uma situação libertadora surgiu, mesmo que por um minutinho só, resolvi contemplá-la. Não foi difícil perceber que em cada uma delas eu tinha sentido o coração abrir um pouco. Surgiam lampejos de amor e compaixão, a respiração ficava mais fácil, cessava a sensação de elevador lotado e de repente existia mais espaço no mundo e menos peso pra carregar.

Não, aquilo não me parecia um progresso pessoal; era algo bem mais tranquilo e natural do que passar numa prova difícil ou conseguir juntar dinheiro pra trocar de carro.

Encontrei na palavra “bênção” uma maneira de expressar surpresa e gratidão pelo presente vindo dos céus. Mas me parece que tenho pensado em “bênção” como se fosse um pacote que os lamas mandam entregar a seus alunos via Sedex, pessoais e intransferíveis, tendo o destinatário que comprovar recebimento mediante assinatura… Alguém já ouviu falar de um lama que faça isso?  Pensando bem, o que eles fazem é nos lembrar que se quisermos avançar temos que… abrir o coração!

Entendi então que o desejo de abrir o coração é a bênção que o ensinamento budista me proporciona todos os dias.

para-abrir-o-coracao-ps-web-chagdud-rinpocheFolheio o livro Para Abrir o Coração, coletânea de palestras de Chagdud Tulku Rinpoche, e encontro o seguinte:

“Um bom coração é o remédio que cura todos os conflitos, o grande antídoto para o egoísmo e para os problemas dele decorrentes. Faz brotar naturalmente a compreensão e a compaixão; nos torna mais abertos para escutar, mais hábeis para reconhecer a causa de nossos problemas com as pessoas e como solucioná-los. À medida que o bom coração emerge, vemos o florescer da felicidade pessoal e coletiva.”

“A morte não me amedronta, pois tenho confiança em minha prática espiritual e tenho tentado ajudar os outros o quanto posso. Sei, por experiência própria, que esses ensinamentos beneficiarão quem quer que os aplique, não apenas nesta vida, mas no momento da morte e em vidas futuras. Do fundo do coração, eu lhe digo: um momento de bondade para com um outro ser ou um ato com intenção pura valerão mais do que toda a riqueza do mundo na hora da morte. Portanto, pratiquem agora, enquanto podem, da maneira mais ampla possível em cada situação. Isso realizará o propósito supremo de suas vidas e, na hora da morte, você não sentirá remorso.”

E por fim lembro de uma instrução do lama Padma Samten sobre situações aflitivas, despachada, sim, via e-mail, no melhor estilo de bênção eletrônica e pós-moderna: “Refaz teus votos de trazer benefícios aos seres em todas as direções”. Talvez ele pudesse ter dito: “Retorna à tua intenção original de abrir incondicionalmente o teu coração”.

Escrevo tudo isso e ao mesmo tempo sinto um certo arrependimento por não ser capaz de acessar uma linguagem menos contaminada. Os mestres precisam recorrer à linguagem do mundo dual, por pura compaixão pelo entendimento limitado de alunos como eu, mas fico imaginando que efeito têm essas palavras quando se avança na realização do ensinamento de que não existe um eu separado dos fenômenos.

Imagino que seria o caso de dar risada e pensar assim: Abrir o coração? Ele sempre esteve aberto!

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Carmen Navas Zamora é aluna do lama Padma Samten desde 2003, pesquisa Comunicação, Memória Social e Cibercultura e colabora com as publicações do Cebb em diferentes mídias. É uma das editoras da revista Bodisatva. | Leia outros posts de


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12 comentários »

  • Sandra Leite disse:

    Carmen,
    fiquei emocionada com o tema deste post… talvez pq ele me seja profundamente necessário neste momento…. quanto a linguagem contaminada.. ela ás vezes é um instrumento de acesso para os que ainda não são alunos….o encontro entre mestre e aluno é tão profundo que nos permite o privilégio de receber bençãos… alguém capaz de olhar e amar incondicionalmente e por isso tem a clareza de iluminar nosso caminho…grata pela benção que vc me traz…

  • Vanessa Leite
    vanessa disse:

    eheh…uma vez li que no fim, era uma grande piada cósmica…rsrs.

    Carmem, esse ano consegui ouvir o Lama ensinar que o Bom Coração é a expressão da vacuidade. Salve ouvidinhos!!!!Tão simples, tão “piegas”…

    Ah, é uma conquista, sim, um progresso e tanto, reconhecer a benção…obrigada!!!

  • Pema Lodrön disse:

    Ah… acho que tive um déja-vu…

  • Stela disse:

    Lindo o texto, Carmen. Uma benção.

  • Sandra Leite disse:

    Pensando nas bençãos, lembrei de um dia em que estava no aeroporto em Redife ,quase perdendo o võo e cheia de aflições para voltar ao Ceará … De repente vi o Lama Padma Santem atravessando o aeroporto de longe… E esta inesperada visão foi para mim uma benção… Trouxe alegria e paz ao meu coração, embora não tenha podido falar com ele… Mas a visão me fez retornar aos ensinamentos, a impermanência , a paz e a serenidade que o Lama nos traz…. Me fez lembrar de que um outro mundo é possível (sem querer parafrasear o fórum mundial ), de que um outro ritmo é possível…. E eu simplesmente voltei a respirar…

  • Alice disse:

    Carmen, cheguei aqui por um acaso… pesquisando mais sobre a vida de Ani Drolma, o google me deixou aqui e aqui, fiquei. Gostei demais dessa postagem. Minha experiência me revela que fazer contato com o que transcende o ego, a realidade física é estar em contato com forças de bondade, de compaixão, de abertura para uma nova forma de sentir a vida. Penso que é isso que vc diz com o *abrir o coração*. Sinto que o coração tem uma possibilidade plena de assumir a guiança de nossas ações e de nossas vidas… sinto que ele dá a direção…e precisamos confiar e seguir! O universo, dizem os estdiosos dele, é o espaço de deleite, por isso, ele é associado, nmas tradições orientais, ao leite doce… mas, enfim.. como dizia Gandhi: ** o Deus que há em mim saúda o Deus que há em ti**. Prazer..bjs

  • paula vargas disse:

    Olá Carmen!

    Estás de parabéns. Escreve maravilhas e com muita sinceridade. Identifico-me muito com teus textos.

    Abraço.

  • José Benetti
    José Benetti disse:

    É, sempre aberto, Carmen.
    O entregar-se, contudo, se torna a prática mais difícil. E, com certeza, de acordo com o que li nas tuas palavras, a mais refrescantemente plena.

    Precisamos apenas nos posicionar e deixar que os mestres façam o resto.

  • Angela Bon disse:

    Olá Carmem querida!
    Eu aqui de novo com voce, como vc. é doce, leve,fluida, fresca como a brisa…Com um coração amoroso, que acredito ser incapaz de não tocar o coração mais fechado.
    Continuo amando seus textos.

  • Maria Helena Zamora disse:

    Eu li o texto e fiquei alegre e comovida. Também meu coração pareceu se abrir mais e mais. Quando fui ver o autor… era você!!! Alegria!!!

  • Merikol disse:

    Carmen,
    Cheguei a este texto por acaso, embora talvez o acaso não exista, talvez algo ou meu próprio coração e momento, me trouxe até ele. Interessante, quando estamos na mesma frequência de nossas vontades, anseios, as coisas parecem fazer mais sentido. Percebo que quando estamos com a mente e coração abertos, as vozes internas, os sussurros da mente, da energia divina nos trazem mensagens que condizem com a mudança e melhoria que biscamos em nosso ser.
    Hoje escrevi uma reflexão a respeito disso também.

    Que possamos nos tornar seres melhores a cada dia, sempre observando se estamos agindo conforme aquilo que expressamos através da fala.
    Que haja muito amor, cuidado, atenção em nossos gestos, atos, nas palavras, no toque… Obrigada por compartilhar conosco o seu pensamento.

    Abraços,
    Merikol

  • Merikol disse:

    Carmen,
    Cheguei a este texto por acaso, embora talvez o acaso não exista, talvez algo ou meu próprio coração e momento, me trouxe até ele. Interessante, quando estamos na mesma frequência de nossas vontades, anseios, as coisas parecem fazer mais sentido. Percebo que quando estamos com a mente e coração abertos, as vozes internas, os sussurros da mente, da energia divina nos trazem mensagens que condizem com a mudança e melhoria que buscamos em nosso ser.
    Hoje escrevi uma reflexão a respeito disso também.

    Que possamos nos tornar seres melhores a cada dia, sempre observando se estamos agindo conforme aquilo que expressamos através da fala.
    Que haja muito amor, cuidado, atenção em nossos gestos, atos, nas palavras, no toque… Obrigada por compartilhar conosco o seu pensamento.

    Abraços,
    Merikol

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