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A estrada encantada na montanha

por 27/02/2010 7 comentários

Foto: Generoso M. Rack

Conheço uma estrada na montanha onde todo mundo oferece carona.

Como assim? É isso mesmo. Quando vê alguém andando a pé, o motorista para e oferece carona. Em geral são uns carrinhos velhos, adaptados pra vida na roça, ou então umas caminhonetes onde a carga viaja melhor que os passageiros. Não importa, os motoristas vão te olhar, parar, perguntar onde você vai e caso as direções sejam compatíveis eles te levarão.

Subi a estrada incontáveis vezes e essa lei nunca falhou. Certo dia, sob um sol infernal, parou um senhor de bigodes branquinhos, montado numa pick-up velha. Quando lhe disse onde ia, ele me disse que iria numa outra direção. Coçou a cabeça meio chateado e falou: “Olha, moça, eu não vou pra lá não mas vou perto, vou entrar na rua da escola. A senhora economiza aí um quilômetro e meio”. Aceitei e agradeci silenciosamente cada milímetro poupado.

Percebo que eles não se sentem extraordinários por causa disso. Ajudam no que podem e não pensam muito a respeito. Se perguntássemos, talvez nem soubessem explicar a razão do gesto solidário. Eu os imagino franzindo as sobrancelhas e respondendo: “Fazemos porque esse é o costume. A subida é longa, não tem ônibus, e não nos custa nada ajudar alguém a abreviar o sufoco da viagem”. Fazer algo pelo outro de maneira natural: isso é um tremendo sintoma de cultura de paz. Mas eles não sabem.

Confesso que no começo maldosamente acreditava que a gentileza dos motoristas, quase todos homens, era um mimo que dedicavam somente às moças. Eu estava errada e quem confirmou foi um amigo que também passa longas temporadas naquelas montanhas. “Todas as vezes que passo a pé alguém pára pra me perguntar onde vou. E se não puder me levar, a pessoa se desculpa de um jeito muito sincero e aquilo de algum modo reforça o vínculo. Chato mesmo é quando saio daqui e tenho que reaprender a desconfiar de todo mundo”, desabafou ele.

Ah, sim, como doí desconfiar do outro! E custa caro também. Chaves, cofres, senhas, cercas, muros, trancas, alarmes, “olhos mágicos”, binas, tudo isso são dispositivos que brotaram da desconfiança. A proteção que eles oferecem é apenas ilusória. Cedo ou tarde teremos que enfrentar o fato de que somos vulneráveis. Precisaríamos lembar que solidariedade e compaixão nos tornarão fortes, se estivermos dispostos a praticá-las.

Mas gostamos de nos pensar seguros e auto-suficientes e queremos manter distância segura do outro, a quem supomos perigoso e ameaçador. Passamos pelos vizinhos da rua sem cumprimentar porque não queremos que eles saibam demais sobre nossas vidas. Procuramos nos esconder dos vizinhos do prédio, com medo de que roubem nosso jornal ou reclamem do volume do som que gostamos de ouvir. Achamos estranho que as pessoas puxem conversa na fila do caixa no supermercado. Como elas têm coragem de falar com desconhecidos?

Sua Santidade o Dalai Lama costuma dizer que trata qualquer pessoa como um amigo de longa data. Esta é uma aspiração que eu gosto de ter, porque me parece que a vida é curta demais e certas formalidades e cerimônias bem que poderiam ser atiradas à lata do lixo.

Recentemente comentei com a minha irmã, por email, sobre a “estrada encantada da montanha”, que é como eu costumo chamá-la.

Ela respondeu assim: “Querida irmã, não importa saber onde fica essa estrada, mas sim aprender a construí-la onde quer que a gente esteja”.

Então vamos construí-la e depois, alegremente, viajar por ela!

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Carmen Navas Zamora é aluna do lama Padma Samten desde 2003, pesquisa Comunicação, Memória Social e Cibercultura e colabora com as publicações do Cebb em diferentes mídias. É uma das editoras da revista Bodisatva. | Leia outros posts de


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7 comentários »

  • christiana disse:

    “…não importa saber onde fica essa estrada, mas sim aprender a construí-la onde quer que a gente esteja.” Lindo!

    Adorei pegar carona na sua estrada encantada. Ficarei feliz se for caminhar lá pelo meu blog. Há tempos escrevi um texto de que você, moça budista, talvez goste: http://www.novoaemfolha.com/2004/03/a-luminosa-senda-do-vazio-perf.html

    Um beijo,
    Christiana.

  • cris franco disse:

    Pois é. A estrada se torna encantada porque esse caminho é de fato o que deveria ser , qualquer que fosse o destino.Ser solidário, colocar-se no lugar do outro.E mais do que isso, em tantos momentos de nossa vida, estamos em posição privilegiada, possível de ajudar a quem está “subindo uma montanha a pé”.Outras vezes , somos nós que estamos subindo a montanha a pé , a espera de uma carona. Seria só uma questão de posicionamento.De se ver no lugar do outro, e isso não é tão distante assim, ou pelo menos não deveria ser.Porque as vicissitudes da vida nos mostram isso.Ora estamos aqui , ora estamos ali. Num momento no carro que sobe a montanha e em outro apenas na estrada que leva ao topo, e ávidos a espera de uma carona.
    Aprecio e saboreio seus posts.Maravilhosos.
    Que tudo te seja auspicioso!Tashi Delek!

  • Thiago dos Reis disse:

    Excelente texto!

    Vamos construí-la!

  • Ana Maria disse:

    Que todos possam encontrar esta estrada e caminhar por ela muitas e muitas vezes. E também por outras estradas ainda não encantadas, encantando-as ……

  • Guto
    Guto disse:

    Que linda reflexão, Carmen.
    Estava sentindo falta dos teus textos aqui no blog.
    Abraços,
    Guto

  • Generoso Mrack disse:

    Sou de um tempo e de um lugar em que essas belas coisas que descreves costumavam acontecer.
    Quando alguém passava por outro, pela estrada ou pela rua, conhecido ou não, lá vinha o cumprimento, sempre retribuído.
    E as caronas eram sempre oferecidas.
    E todo o tipo de socorro era prestado, a qualquer desconhecido.
    Os tempos mudaram! Para pior, muito pior…
    Incrível que o nosso senso de civilidade (de civilização, mesmo!) tenha decaído tanto. Temo que seja a barbárie chegando, outra vez…
    Excelente o teu texto, que teve o dom de evocar reminiscências da infância e da juventude.

    P.S.: fiquei feliz em ver minha foto ilustrando teu excelente comentário.

  • Marta disse:

    Muito lindo esse texto!!!

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