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A Face Feminina de Buda

por 8/10/2014 14 comentários

Por Miguel Berredo

Como as mulheres contribuem para a formação do budismo contemporâneo? E de que forma contribuíram no passado? Poderíamos dizer que se não fosse uma simples menina camponesa indiana, não haveria Buda e nem o budismo?

O príncipe Sidarta, que mais tarde  ficou conhecido como o Buda, em alguma parte de seu caminho à iluminação, se tornou um asceta muito rigoroso, praticando jejum entre outras privações. Fala-se em 80 dias sem comer nem beber nada. Os relatos dão conta de que o jovem asceta era pele e osso e que seus olhos afundaram em suas órbitas. Já sem nenhuma força, por tanto tempo em jejum, caído ao chão, quase morrendo, Sidarta foi socorrido por uma menina camponesa, que ao vê-lo naquela situação, derramou leite com mel em sua boca. Talvez isso tenha acontecido por mais alguns dias e o homem quase morto ressurgiu para uma nova etapa da sua caminhada que o levou à iluminação, o caminho do meio, além dos extremos do prazer e da negligência com o corpo.

A menina camponesa que salvou o Buda não recebeu a devida importância nessa história muito rica. Muitas mulheres trilharam esse caminho sem serem notadas. A presença da mulher no budismo merece ser revista e resgatada. De Mahaprajapati, a tia de Sidarta, que o criou e se tornou a primeira monja, passando por Yeshe Tsogyal, Magig Labdron e Alexandra David Neel, até Pema Chödron, Tenzin Palmo e Joko Beck, entre outras grandes mestras do passado e do presente, do Ocidente e do Oriente.

O budismo no Ocidente ainda é recente. O renomado historiador britânico Arnold Toynbee, falecido em 1975, afirmou que a chegada do budismo no ocidente foi o maior evento do século XX. Junto com esse fenômeno, acontece também uma maior inserção da mulher dentro de um novo contexto e paisagem. A presença da mulher é muito bem vinda, areja e amplia as perspectivas. Um fenômeno do budismo ocidental é a forte presença feminina, há monjas, mestras e alunas, em igual ou maior número que homens. Nos Estados Unidos muitas mestras.

No Brasil, estamos no tempo de Chagdud Khadro, das lamas Tsering, Sherab e Yeshe, das Monjas Coen, Isshin, Reverenda Yvonette Gonçalves, Ani Zamba, Tenzin, Namdrol, Jigme Choedzin e ainda de Tiffani Gyatso, com a sua arte tibetana, de Melissa Flores, cineasta que filmou “Yatra” nos locais sagrados de Buda, de Maria Theresa Barros, psicanalista, que da sua tese de doutorado fez o livro – O Despertar do Budismo no Ocidente, de Isabelas, Marianas, Marias e Anas que com um colo maternal cantam para despertar o Buda que está em cada ser.

Essa presença no budismo pode nos ajudar na construção de uma sociedade mais feminina, na medida que o budismo começa a dialogar com os diversos setores da sociedade, educação, ciência, medicina, psicologia, nos lembrando das qualidades de uma mãe que acolhe e protege sem impor condições.

A verdadeira presença feminina deve se dar tanto na construção ativa da sociedade como na manifestação das qualidades como compaixão, cuidado, acolhimento, proteção e amor. Embora essas qualidades não sejam restritas ao gênero feminino, as mulheres podem ajudar a construir um mundo mais justo e equânime.

Sua Santidade o Dalai Lama diz que de fato o que rege o mundo não é a economia e sim a compaixão. Se não houvesse alguém para nos acolher, alimentar e aquecer quando nascemos, ninguém estaria aqui. Para que os valores femininos tenham a devida importância precisamos olhar para eles, dar atenção, empoderá-los, se não eles passarão desapercebidos e não avançaremos enquanto civilização. Sua Santidade também afirmou em um encontro pela paz, em Vancouver, Canadá, em 2009: “O mundo será salvo pela mulher ocidental”. Um novo paradigma passa pela valorização do princípio feminino.

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Texto: Miguel Berredo

Edição de texto: Liane Alves

Ações que apoiam e preservam a memória da mulher no budismo:

Michael Ash (foto do post) criou o Yogini Project que apoia as mulheres no Dharma e preserva a memória da presença feminina. Confira o bela fotografia de Michael em Oddiyan’s Gate e em Dharma Eye, projeto de um grupo de fotógrafos budistas que beneficia e preserva a prática e memória do Dharma.

Michaela Haas, jornalista internacional, palestrante e consultora, escreveu Dakini Power, livro que conta a história de 12 mestras do budismo contemporâneo. Assista um breve vídeo sobre o livro.

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14 comentários »

  • Maria Theresa Da Costa Barros disse:

    Miguel você foi muito inspirado ao falar da face feminina do Buddha, e sinto-me verdadeiramente honrada por poder estar incluída entre todas essas budistas tão veneráveis! E, mais ainda por ter sido incluída na sangha do Buddha, por você! E por você ter me lembrado que o Buddha está dentro de mim! Agradeço muito ainda por você ter destacado esse gesto tão feminino de cuidar do desamparo do Buddha, pois esse é um ponto fundamental e, que me passou desapercebido! Com muito carinho e agradecimento, Maria Theresa da Costa Barros!

  • vera helena disse:

    Olá Miguel!

    Como posso adquirir o livro Dakini Power? Outra coisa: Senti falta da Joko Beck nos seus comentários e no livro da Michaela Haas

    namastê

    Vera Helena

  • Mariana disse:

    Que lindo artigo! Parabéns Miguel!

  • Por que os Budistas Rezam? | Bodisatva: um olhar budista disse:

    […] Namgyel é uma das muitas mestras budistas norte-americanas contemporâneas (leia “A Face Feminina de Buda”), foi aluna de Dilgo Khyentse Rinpoche e é casada com Dzigar Köngtrul […]

  • Ademir Vilar disse:

    Ai de nos senão for um Mulher, ela tem um Alma pura ao lado de um Grande Homem Sempre Tem UMA Grande Mulher, quer á prova UMA MULHER ajudou o BUDA quando ele estava 80 dias meditando

  • Cilene Camargos disse:

    Olá Miguel tudo bem? Gostei bastante do seu texto, pois o feminino é pouco falado no budismo, pelo menos nos eventos em que eu participo. Sendo assim, eu me sinto bastante afortunada, pois temos já dentro do Budismo, práticas surgindo e, juntamente com elas, o EMPODERAMENTO DO FEMININO tendo espaço. Eu, talvez por ser sou Devota de Tara, e praticante da Mandala de Tara, uma prática criada por Prema Dasara – teve bênçãos de SS Dalai Lama – que viu a Dança e aprovou, apreciei bastante seu texto, principalmente por ter sido escrito por um Homem!! Eu também conheço Tiffani ( nossa professora Titi, outra auspiciosa oportunidade) e tenho a felicidade de ser aluna dela, no curso de arte sagrada tibetana. Também já participei da Oferenda da dança de Tara em várias oportunidades, dentro e fora do Brasil. Ver o feminino ser valorizado é sem dúvida importante, não só no empoderamento das mulheres, mas também com a participação dos homens também neste processo, pois o equilíbrio nas relações de gênero é algo que todos anseiam, bem como em nossa energia interna, pois todos temos ambas presentes em nosso ser. Portanto o equilíbrio é algo que muitos anseiam. É incentivador ver que o Budismo tem espaço para o feminino!!! Om Tare Turare Ture Sohá!!!

  • Maria Auxiliadora disse:

    Belíssimo e profundo texto!

  • Edivane Maranhão disse:

    Adorei o texto Belo o seu trabalho! Parabéns!

  • Helen disse:

    Sabemos que toda história que chega aos dias de hoje é aquela que foi criada e repassada por homens, porém eu sinto Buda como uma entidade feminina/masculina, que teve corpo senão em uma mulher talvez num homem com a energia do princípio feminino muito presente…

  • Carlos Comerlato disse:

    Com toda a certeza, a mulher será o diferencial à evolução da humanidade, rumo a construção de uma sociedade mais espiritualizada, onde a compaixão e a caridade sejam a tônica das ações humanas. Parabéns Miguel pelo artigo excelente.

  • Fatima disse:

    Lindo texto Miguel!

  • Ana Glafira Malta Cavalcanti disse:

    Poético, Miguel!_/|\_

  • Margaret disse:

    Texto inspirador, belo trabalho o de vocês ! Muito obrigada

  • Nathalia Bonato disse:

    Muito pertinente a sua escrita. Obrigada!
    O lado feminino deste mundo está finalmente acordando. Sinto-me privilegiada por ter nascido mulher nestes tempos, agente direta e indireta desta mudança!

    Um abraço no coração de todas e todos! :)

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