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A minha, a sua, a nossa… raiva

por 3/03/2010 19 comentários

raulseixas2_300x275Coisas muito interessantes acontecem de vez em quando. Alguns diriam, com razão, que coisas interessantes acontecem toda hora, quando não estamos distraídos.

Tentando desenvolver concentração, sento de vez em quando no banco da frente de casa para praticar shamata impura. Meus cães me fazem companhia, parados no portão do jardim. Eles adoram ficar controlando o movimento da rua, farejando quem passa, de orelhas em pé, atentos. Dependendo do estímulo oferecido, eles latem, abanam o rabo ou ignoram. É uma rua tranquila, deve ser meio entediante para eles.

Teve um dia, entretanto, em que aconteceu algo excepcional. De um silêncio tranquilo, com passarinhos cantando, de repente explode um pandemônio. Os cães enlouquecem! Se jogam contra as grades, latindo furiosamente, girando, pulando aos urros. Eu meditando… Engraçado, não cheguei a me abalar.

Vi, pelo canto dos olhos, que era um enorme pitbull, mas sabia que não havia perigo com as grades protegendo. O cachorrão passou e os pequeninos ficaram do lado de cá, ainda um bom tempo, latindo e arfando, arrepiados e agitados.

Passados alguns minutos, quando os cães já estão tranquilos novamente, de súbito, me invade uma onda de energia! Meu coração dispara, um calor sobe para a cabeça, meu corpo estremece e começo a arfar. Me falta o ar, a mandíbula se crispa, o corpo se tenciona todo. Procuro manter a imobilidade; afinal, estou meditando, mas, o que está acontecendo?!

Aos poucos, tudo esmorece e minha respiração volta ao normal. Porém, não posso deixar de sentir uma curiosidade avassaladora: o que foi isto? Uau! Que interessante! Foi uma nuvem de raiva? Pode a raiva se deslocar assim? Uma reação de susto retardada? Que barato! Vale a pena investigar.

A partir daí, comecei a prestar atenção ao surgimento das manifestações de raiva. E algum tempo depois, aconteceu outra experiência interessante para explorar. Na sala onde trabalho resgatei um antigo quadro negro, daqueles empoeirados. Assim que eu levei uma caixinha de giz colorido, os colegas começaram a colocar frases, pensamentos e caricaturas. O pessoal entrava na sala e já ia comentando, animava a sala.

Nesta mesma época, fiquei sabendo em uma conversa informal, que nosso querido Lama Samten curtia o Raul Seixas. A curiosidade foi despertada e então fui  familiarizar-me com seu trabalho artístico. Encontrei uma reportagem com algumas citações super instigantes atribuídas ao Maluco Beleza e uma delas me chamou a atenção em particular. Então, no dia seguinte, escrevi a mensagem no quadro negro do escritório. Era um pensamento polêmico, transgressor e provocante, mas ao mesmo tempo muito verdadeiro e profundo. Na minha opiniãozinha.

Algumas horas depois, estou trabalhando na frente do computador, muito concentrada em um desenho arquitetônico bem detalhado. Desloco uma janela para cá, giro uma porta para o outro lado. Clico aqui, dou um zoom na tela. Completamente envolvida na tarefa.

Só que uma conversa entre colegas começa a se infiltrar naquele momento:
– Ridículo!
– Mas, também, era um débil mental…

Os comentários começam a captar minha atenção, mas ainda estou muito envolvida com o projeto. Quem sabe se eu colocasse mais uma janela nesta sala não ficaria melhor? A minha consciência auditiva, entretanto, agora está focada na conversa:
– Era um louco mesmo!
– Me admira muito colocar isto aí…

Bom, a partir daí, se eu tinha alguma dúvida de que o assunto me envolvia, agora ficava bem claro. Meus colegas estavam mesmo debochando da frase no quadro negro! A partir deste instante, meu corpo e minha energia começam a reagir de forma intensa. Um calor toma conta do rosto, a respiração fica curta e rápida, os músculos se tensionam e o coração dispara. Estou pronta para pular em defesa do Raulzito!

Só que a arquiteta ainda está concentrada no desenho: menu, clique, zoom; parede, porta, janela. A atenção se alterna, mas a raiva já inunda os sentidos: os dentes crispam, os olhos lacrimejam e a garganta aperta. O curioso é que o processo se passa em câmera lenta, permitindo observar que a mente dividiu-se: uma parte está se enfurecendo com os comentários, outra está envolvida em resolver uma planta baixa e uma terceira está observando a confusão e achando tudo incrivelmente interessante!

Claro que, passado alguns instantes, tudo se acalmou. As críticas cessaram, a respiração voltou ao normal e eu continuei trabalhando. Mas ficou a deliciosa descoberta de que, como os mestres seguidamente ensinam, é possível a gente não se engajar na raiva, percebendo-a apenas como uma manifestação de energia.

Voltando aos cachorros, agora. Ultimamente ando fascinada com um programa de TV chamado O Encantador de Cães. O adestrador Cézar Milan (ou reabilitador de cães, como ele prefere ser chamado) mostra algumas técnicas fabulosas para docilizar e equilibrar os animais, as quais, me parece, se aplicam também ao treinamento da mente humana. Lembro de já ter lido sobre mestres de meditação tibetanos comparando nossa mente com um cavalo selvagem, mas acho que cães neuróticos estão mais próximos da nossa realidade, fica mais fácil de entender.

Uma das técnicas que o adestrador utiliza frequentemente é: nunca permitir que a perturbação mental atinja o nível dez (que seria um nível perigoso e imprevisível). Nos primeiros sinais de atenção tensa mal dirigida, deve ser usado algum toque para distrair a mente do cão, restabelecendo o equilíbrio que, segundo ele, é o estado natural do animal. Alguma semelhança com instruções de meditação? Certamente.

Então, fica a sugestão: que tal tentarmos criar algum meio hábil para distrair nossa atenção de forma benéfica antes que a emoção perturbadora tome conta? Pode ser algo como respirar fundo, contar até dez, cantarolar uma melodia ou pedir que um amigo nos dê um peteleco na orelha!

No futuro, quando os malefícios da ira ficarem cientificamente comprovados, talvez passemos a usar dispositivos eletrônicos invisíveis para nos alertar, amorosamente, quando estivermos precisando. De preferência com cócegas que nos provoquem um sorriso.

Qual era a frase no quadro negro?

“Quero a certeza dos loucos que brilham. Pois se o louco persistir na loucura, acabará sabio.”

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Luisa é uma leonina com ascendente em Capricórnio que não consegue mais se levar tão a sério... e acha isto um alívio! É torcedora fanática do CEBB Porto Alegre. | Leia outros posts de


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19 comentários »

  • patricia disse:

    Muito Interessante seu post. A única coisa é: tomara que não venhamos de fato a precisar deste dispositivo eletrônico invisível para gerar este sorriso, tomara que um dia de fato consigamos compreender o que significa este instrumento fantástico que é a mente, inteligente e emocional. E que consigamos de fato dirigí-la, guiá-la e não o contrário.

  • Denise disse:

    Engraçado, Luisa…já faz algum tempo que eu venho usando “estratégias” de distração, nos momentos de raiva…procuro pensar em pessoas de quem gosto muito…outras vezes penso em algo bom prá fazer, é algo totalmente intuitivo, nunca tinha parado prá pensar a respeito…
    Adorei teu post, me fez refletir…e isso comprova que a experiência e o tempo também nos tornam mais sábios! Beijo!

  • Silvia disse:

    Mais uma bela reflexão. Poder observar nossas atitudes nos faz crescer. Seria bom que todas as pessoas pudessem ser filmadas para ver seus póprios deslizes. Acho que grande parte se tornariam melhores.
    Eu costumo ouvir música para baixar a poeira. A música eleva ou se for uma boa banda de rock espanta os bichos.
    Bjs, Bjs

  • Maria Helena Caldas disse:

    Luisa, muito legal o que vc escreveu!
    Muitas vezes senti coisas absolutamente estranhas enquanto meditava.Estranhas para o momento, claro, onde estamos ali paradinhos, em silêncio.
    Algumas vezes senti tanto medo, tanto pânico, que achava que ia sucumbir ali mesmo.
    Mas olhava aquilo tudo passar. E passava…

    beijos
    Maria Helena Caldas

  • Clarice disse:

    Luzinha.
    Que constatação tão óbivia q todos vivemos e não verbalizamos, escondemos de nós mesmas através da “cara de meditante”.
    Espero podermos encontrar, cada um de nós, o pensamento, ação, palavra,qualquer que seja, mágica assim, que aplaque com docilidade, esta reação que surge, em todos, por algum motivo.
    É como um riscar de fósforos,surge e a levamos a diante, queimamos os dedos; sofrimento desnecessário.
    Confesso q tenho medo do chip. Quem garante que será usado somente para este fim?
    Amei !
    Podias levar o texto e colocar no mural, q achas?
    com muito carinho
    Clarice

  • tiago casagrande disse:

    oi Lu!

    bah, excelente o teu texto. é um assunto que me interessa, porque tenho vários momentos de ódio durante o trabalho. claro que trabalho neles; não gosto e não me gosto assim, quero resolver o que os causa, e sou prático. mas nem tudo tem uma saída objetiva e, na soma dos eventos, eu acabo faiscando demais. às vezes respiro e vou pra longe; salto pro teto da sala como homem-aranha e fico olhando a cena de fora até eu achar tudo ridículo e colocar a situação na verdadeira escala (porque, na hora, todo o resto desaparece, né?). quando não controlo, deixo que escape, pra evitar uma úlcera; mas depois fica uma “ressaca” que, certamente, também não faz bem nenhum ao organismo. vou usar o teu texto como companhia, incentivo! :D

    agora, e o pânico dos teus colegas quando confrontados com a ‘loucura’, a irregularidade? quanto medo existe neles pra ficarem tão apegados a uma sensação de linearidade, de certeza, de segurança? não sou grande fã do Raul, mas ele tinha um senso provocador muito próprio, muito sensível, e mais uma vez ele tirou seu público fora da casinha do falso conforto. ponto pra ti :)))

    sempre muito bom ler tuas crônicas tão belamente construídas. beijão!

  • Milton Sato disse:

    Luiza,

    Sou fã do Lama Samten e do Raul Seixas que apontam um caminho fácil a seguir, por não ter onde ir.

    Abração;

    No Buda, Darma e Sanga

    Milton

    =========================

    Maluco Beleza – Raul Seixas

    Enquanto você se esforça pra ser um sujeito normal
    e fazer tudo igual
    Eu do meu lado, aprendendo a ser louco um maluco total
    na loucura real

    Controlando a minha maluquez
    misturada com minha lucidez
    Vou ficar, ficar com certeza
    maluco beleza

    Este caminho que eu mesmo escolhi é tão fácil seguir
    por não ter onde ir
    Controlando a minha maluquez
    misturada com minha lucidez

    Controlando a minha maluquez
    misturada com minha lucidez
    Vou ficar, ficar com certeza
    maluco beleza

    Vou ficar, ficar com certeza
    maluco beleza…

  • Gustavo Gitti
    Gustavo Gitti disse:

    Vocês perceberam que nessa foto o Raul Seixas está MUITO parecida com o Lama Samten? ;-)

  • Luisa disse:

    Que bacana compartilhar experiências!
    Há muito tempo, antes mesmo de me envolver com budismo e meditação e de fazer psicoterapia, já tinha chegado à conclusão que não podia mais me dar ao luxo de ter chiliques de raiva. No dia seguinte me doia o corpo todo! Sem falar nas repercussões! Claro, não estou imune, é apenas uma intenção, até porque estamos vulneráveis a outras emoções que são parentes da ira e também causam ressaca: má vontade, irritação, mau humor… estas vão se infiltrando de forma mais inocente e nos convidando a nelas permanecer, mas nos deixam perigosamente desequilibrados e prontos para explodir mais adiante!
    Adorei todo mundo dando sua receita pessoal… É isto aí vamos controlando nossa maluquez e abrindo espaço para a lucidez!
    Beijos a todos

  • Maristela disse:

    Oi Luisa,
    Muito interessante teu texto. Adorei a leitura. Fico feliz por ti e por todos que fazem estas buscas interiores e estas descobertas fascinantes a respeito das emoções e seus efeitos em nós, enquanto seres espirituais. Tantos nem começam, não é mesmo?
    Um grande abraço, da colega.

  • LUIZ CARLOS disse:

    LU

    TEU PADRINHO GOSTAVA DE FALAR QUE OS PENSAMENTOS
    EMITEM VIBRAÇOES. AS POSITIVAS TEM FORÇA 1 ENQUANTO AS
    NEGATIVA TEM FORÇA 10.
    POR ISSO É QUE PARA SERMOS BONS É NECESSÁRIO UMA PRATICA CONTINUADA
    MAS PARA AGIR MAL BASTA UM MOMENTO DE DESCONTROLE…
    CLARO QUE QUEM TEM SENSIBILIDADE CAPTA ESTAS ENERGIAS VIBRATÓRIAS
    E POR ISSO, PESSOAS NEGATIVAS NOS FAZEM TANTO MAL PORQUE NOS
    EXAUREM…SUAS CARGAS NEGATIVAS DESCARREGAM NOSSA POSITIVIDADE,
    DAI MUITA MEDITAÇÃO É NECESSÁRIA PARA QUE POSSAMOS ARMAZENAR
    NOSSA POSITIVIDADE…
    LINDO TEXTO… CONTINUA ESCREVENDO…

    ABRÇS & BJS
    LCBOLZE

  • ROSY disse:

    Luiza

    Adorei ler seu texto.Preciso dizer que fui lê-lo exatamente porque hoje tive um acesso de raiva ,no trabalho.Detesto quando isto acontece,sempre fico com a sensação de que a perdedora fui eu,pelos malefícios que a situação trás para meu corpo.Mas, também não consigo ,ainda, passar batida pelas injustiças e provocações…Uma amiga que vive em Londres ,sempre me diz: você precisa praticar meditação! Procurando informações sobre o tema ,achei seu texto e,gostei muito do que li.
    Vou buscar mais sobre a meditação, estou precisando, urgentemente , controlar a minha maluquez!!!
    AH! Em tempo, sou uma apaixonada pelo “filósofo” Raulzito!
    Obrigada pelo texto, que me leva a reflexão e, abraços.

  • Maria Helena Bairros disse:

    Luisa,
    Gostei muito de ler seu texto. Especialmente, porque, há algum tempo, comecei a tomar consciência das “ondas” de raiva que eventualmente inundavam o meu corpo, sobretudo, a cabeça. Hoje, com um pouco mais de consciência procuro não ser “levada” por tais sensações, mas ainda não cheguei ao nível dos cães encantados.
    A indicação de seu texto foi dada pelo seu maior admirador: seu pai, Carlos Levandowski, um grande colega de trabalho.
    Parabéns!
    Maria Helena Bairros

  • Stela
    Stela disse:

    Lindo texto, Luisa!
    abração!

  • ROSSINI disse:

    BOA TARDE LUISA

    SOBRE O ENCANTADOR DE CÃES… Cesar Milani nos proporciona o darma sem falar de darma e de buda…. tudo o que demonstra pode e deve ser apklicado aos seres humanos… lembremos queo budismo é experimental…

    portais do darma são infinitos…

    mãos em prece
    rossini

  • Daniel disse:

    Muito bom Luisa…

    Realmente já tive experiências semelhantes, principalmente com acessos de raiva. Comecei então a esperear este momento passar com “um nada fazer”. Todos os sintomas cessam… e pronto.
    Se há alguma tentativa de demonstrar a sensação de raiva, durante estes momentos de turbilhão, muitas vezes isto pode ser desastroso.

    Gostaria de acrescentar que: como o sabio é aquele a que nada o abala ( pois qualquer comentario alheio que possa lhe trazer felicidade, tristeza ou raiva não é processado em sua mente), o sabio compreende que és de tal forma, devido a todos que o cercam. Compreende ou tem a consiciencia (está desperto), que aquele pensamento de sabio não é ele que o detêm. Mas são pensamentos que perpassam por ele.

    Sendo assim, “raivas” ou “felicidades” extremas são instantes provindos dos ambientes que nos cercam, adotando a postura de sabios, talvez aniquilando nosso ego, possamos compreender que estes instantes furtivos não devem se deter em nós. Pois o verdadeiro eu, a isto não esta sujeito.

    Adorei sua exploração cientifica, me ajudou bastante!
    Abraços,
    Daniel – Minas Gerais.

  • Reiny disse:

    Sou fã do Raul desde de meus 6 anos, as musicas deste cara me ajudaram
    incrivelmente em todas as etapas da minha vida, sei todas de cor =)

    Admiro sua prática, talvez possa não ser o único caminho, porém para mim parece o mais consciente, e como diria o mesmo criticado e amado maluco beleza “Antes de ler o livro que o guru lhe deu, você tem que escrever o seu !”, por isso sempre faço minha prática !

    Observação:

    Acho divertido as reações sobre a obra do Raul, pois como ele mesmo dizia, não tinha certeza de nada, pode ate ser que ele seja mesmo um idiota, porém, me parece que na maioria do tempo (mais do que e comummente encontrado por ai) ele vivia no presente, sem certezas absolutas e sempre flexível, sem medo do novo “Uma metamorfose ambulante” !

    Uma frase que sempre me lembro sobre a capacidade que ele tinha de perceber que sua mente poderia projetar mentalmente algo que em sua realidade ultima, não significa aquilo, ele certa vez cantou em uma musica “Que o meu e doce , e coisa de que me nego a afirmar, mais que parece doce eu afirmo plenamente” !

    Um abraço otímo texto =) !

  • Leila disse:

    Luisa,

    adorei a forma, a linguagem e o conteúdo me ajuda toda vez que leio, releio, volto a ler, …
    mto bom
    mto grata

  • Luiz disse:

    Luisa !
    Tenho certeza de que você “nos ouve” ;D

    … então receba nossas vibrações de gratidão !

    Valeu.

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