Crédito: Daniel Rezinosky

A terra que fala com os seus filhos

Krenak fala sobre a situação dos povos indígenas no Encontro Budismo e Povos da Terra: Cosmovisões e Possibilidades

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Transcrição: Carolina Senna

Ambientalista e escritor, Ailton Krenak é uma das maiores lideranças do movimento indígena brasileiro. Ao lado do Lama Padma Samten e de representantes dos povos Kaigang e Mbya-Guarani, Krenak falou sobre a situação dos povos indígenas no Encontro Budismo e Povos da Terra: Cosmovisões e Possibilidades que aconteceu no CEBB Caminho do Meio em março de 2017.

Vivemos há 500 anos uma situação de grande desequilíbrio sobre a questão indígena. Assim, Lama Samten abriu o encontro e lembrou que “temos a responsabilidade de olhar com os olhos muito claros sobre o que acontece em meio à nossa vida aparentemente natural e normal”. Na atual cultura globalizada, dependente e orientada pelo paradigma econômico, a garantia dos direitos dos povos indígenas, a preservação da sua cultura e a demarcação das suas terras ficam extremamente fragilizadas.

“Para nós, é um momento muito delicado, sensível e profundo. Temos que dialogar com essas culturas e ajudarmos através da nossa ação para que esses ensinamentos possam ser preservados e esses povos, nações e famílias possam ser protegidos de algum modo. ”

Na visão budista, estamos todos dentro do samsara e esses desafios não terminam. “Temos essa oportunidade extraordinária de entender isso, documentar e ter a experiência de estar vivendo isso. São conhecimentos muito extraordinários, não apenas no nível material, no nível da natureza, mas na inseparatividade entre todas as dimensões, que inclui também a dimensão espiritual.

Embalado pelo respiro da terra

Para Krenak, essa dimensão espiritual vem da devoção pelo lugar onde os povos vivem. “Nossos antepassados puderam viver com prosperidade, porque a terra deu alimento, saúde e remédio. Em cada época do ano, a terra propicia trazendo chuva na época certa. A terra abençoando e falando com os seus filhos. A passagem do tempo trouxe muitas mudanças, mas talvez a mais difícil tenha sido a de separar os filhos dessa convivência tão próspera e cheia de presentes, de beleza e de coloridos da própria natureza. Esse jeito de viver, embalado pelo respiro da terra, é a herança mais rica e a mais importante que todos nós herdamos.”

Liberdade tolhida

O cenário mundial de instabilidade política e econômica e o avanço do agronegócio no Brasil são ameaças vivas aos povos indígenas. Krenak lembra que, por terem perdido as suas terras, famílias estão acampadas ao longo das estradas. “Outros estão cercados por soja e canaviais, passando “aperto” para se movimentar, porque os nossos vizinhos cercam tudo com sua soja e cana. Eles estão muito influenciados por um pensamento de ter e de reter as coisas.”

Krenak não vê sentido em grandes extensões de terra pertencerem somente a um proprietário. “Ele acaba tirando a liberdade das florestas e dos rios, além de atrapalhar a movimentação de pássaros e animais que precisam circular pelos campos para comer, esconder-se, reproduzir-se. Nós somos pessoas, e todas as pessoas têm o seu dom, têm o seu caminho e podem se mover aqui na terra sem constrangimento. ”

Pessoas precisam de pessoas

A cultura contemporânea privilegia o individualismo. O mito americano do self made man (algo como “o homem que se fez por conta própria”), que exalta o indivíduo em detrimento do coletivo, vai na contramão dos valores dos povos indígenas. “Nossas famílias são formadas por pessoas, umas precisam das outras para viver em coletivo, para compartilhar, para as crianças, os avós, os tios e primos viverem juntos. 

“Esse é o jeito de viver em coletivo que o povo indígena sabe viver. Ele não sabe viver sozinho, separadinho. Uma cultura individualista que esquece dos outros seres, esquece que não é somente nós que precisamos de água e da floresta. Compartilhar essas riquezas aumenta as riquezas”, explica Krenak.

Terra: um palco também para o sagrado

Num momento em que a bancada ruralista no Congresso tem o apoio da Funai, para que “os povos indígenas sejam inseridos no sistema produtivo”, Krenak argumenta que “quando os povos Guarani, Krenak e Kaingang buscam terra pra fazer aldeia, algumas pessoas pensam: ‘Ah, eles estão querendo muita terra!’ Uma pessoa sozinha tem muita terra. E ninguém critica. Consideram bonito fazer uma grande fazenda. São grandes latifúndios para plantar soja, cana, botar usina. Apropriam-se e cercam os rios, que são um bem comum, e o senso comum acha natural. Esses lugares da terra são sagrados, onde muitos povos precisam fazer seus rituais, para cantar e dançar, precisam para fazer sua casa de religião, ter seus terreiros e viver a sua vida com espontaneidade.

Para o líder indígena, a memória é fundamental para a continuidade da tradição e dos costumes dos povos. Krenak falou sobre a situação dos povos indígenas no Encontro Budismo e Povos da Terra: Cosmovisões e Possibilidades.

budismo e povos da terra

Ailton Krenak. Foto: Garapa / Coletivo Multimídia, 2010.

 

“Vocês não imaginam como é difícil para as nossas lideranças continuarem firmes ensinando isso paras as novas gerações. Diante de tantas dificuldades, ainda são capazes de se conectar com essa memória da tradição, não como uma representação, mas como uma forma verdadeira de estar vivo aqui na terra.

Tradição é aquilo que nos liga com a memória iluminada da nossa presença aqui na terra, no meio de nossos outros irmãos, independente de qual povo que seja. Todos nós ganhamos o presente de estar aqui vivendo nessa terra maravilhosa, podendo compartilhar essa riqueza que a terra propicia para a gente e diminuir a nossa carência, a nossa ânsia interior de ter coisas externas, porque tudo que nós precisamos nós já temos.

Acredito que a presença dos vários povos indígenas é como uma semente, uma bênção para este lugar que é o Brasil. Muitas famílias continuam insistindo numa maneira de viver com simplicidade, porque enquanto tiver essa memória, nós vamos continuar vivos.”

De uma forma quase poética, Krenak emociona a todos ao contar como os povos celebram o dom da vida.

“O nosso vínculo com toda a cosmogonia e a cosmovisão do mundo é quando Deus criou o mundo e o entregou para nós como seus filhos. Quando nossos parentes Guarani cantam para Nhanderú, estão cantando para o criador. Quando os Krenak cantam para Marét-khamaknian eles estão agradecendo ao criador — pela nossa vida, pelo nosso hálito da terra.

Cada povo, na sua tradição, se remete a uma origem que é a criação desse grande movimento que nós vivemos aqui na terra, que é a fonte da nossa própria existência em profunda comunhão com o criador.”

Diante das adversidades atuais, Ailton Krenak dá o seu recado aos brasileiros:

“Não desanimar com as dificuldades que todo mundo vive em cada lugar, na cidade e no campo. Manter essa coragem interior é o que faz a gente ser guerreiros e, quando for necessário e a gente precisar, falar com força.

Nós vamos ter que fazer isso, mas nós não precisamos virar uma pedra, mas precisamos receber o dom da vida com alegria e acreditar que a cada dia nós vamos fazer o caminho que temos que fazer. Temos que ficar com o nosso espírito e coração confiantes que nós estamos pisando na nossa terra, a terra que nos alimenta, nos guarda e protege.”


Para saber mais

Munido de pasta extraída do jenipapo, Ailton Krenak fez história. Como líder do movimento indígena, ele comoveu a opinião pública ao discursar em defesa da Emenda Popular da União das Nações Indígenas enquanto pintava o rosto de preto em sinal de luto pelo retrocesso na tramitação dos direitos desses povos no plenário do Congresso Nacional durante a Assembleia Nacional Constituinte.

Transcrição do vídeo (Brasília, 1987)

“Eu espero não agredir, com a minha manifestação, o protocolo desta casa. Mas eu acredito que os senhores não poderão ficar omissos, alheios a mais esta agressão movida pelo poder econômico, pela ganância, pela ignorância do que significa ser um povo indígena.

Temos um jeito de pensar, de viver. Temos condições fundamentais para a manifestação da nossa tradição, da nossa vida, da nossa cultura, que nunca colocaram em risco a existência dos animais que vivem ao redor das áreas indígenas, quanto mais a dos seres humanos.

Nenhum dos senhores poderia apontar atos da gente indígena do Brasil que colocaram em risco seja a vida, seja o patrimônio de qualquer pessoa, grupo humano, neste país.

Hoje, somos alvo de uma agressão que pretende atingir, na essência, a nossa fé, a nossa confiança de que ainda existe dignidade, de que é possível construir uma sociedade que sabe respeitar os mais fracos, aqueles que não têm dinheiro para manter uma campanha incessante de difamação. Que saiba respeitar um povo que sempre viveu à revelia de todas as riquezas, um povo que habita casas cobertas de palha, que dorme em esteiras no chão. Um povo que não deve ser identificado como inimigo dos interesses do Brasil e que coloca em risco qualquer forma de desenvolvimento.

O povo indígena tem regado com sangue cada hectare dos oito milhões de quilômetros quadrados do Brasil. Os senhores são testemunhas disso.”

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