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A Verdadeira Era das Trevas

por 22/02/2012 5 comentários

Por Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche
The Buddhist Channel”, 30 de janeiro de 2012
Himachal Pradesh, India

Algumas pessoas dizem que a era das trevas, a era do vício – kaliyuga (o último dos quatro estágios que o mundo atravessará como parte do ciclo dos yugas descritos nas escrituras indianas), está acontecendo agora, ou no mínimo, se iniciará em breve. Alguns até mesmo temem que no final de 2012, o mundo do modo como o conhecemos, irá terminar.

Mas, o que determina se uma era é das trevas ou de ouro? Quais os sintomas e sinais? Terremotos, um céu púrpura, atividades meteóricas, estes não são presságios do juízo final, como nos fizeram crer.

Do mesmo modo, querubins voando, uma economia proeminente, liberdade de informação e tempos pacíficos não são necessariamente sinais de uma era de ouro.

A era de ouro ocorre quando as pessoas valorizam sentimentos como a empatia e o perdão, quando têm disposição para compreender o ponto de vista dos outros e se sentem contentes com o que possuem.

Quando tais valores são sistematicamente sabotados, então se pode dizer que o amanhecer do dia do juízo final já começou. Quando olhamos um mendigo inofensivo como sendo uma praga e invejamos os bilionários que destroem o planeta estamos contribuindo para o início do fim.

Como o Buda ensinou, tudo depende de causas e condições. Eras das trevas e eras de ouro não são uma exceção. Elas não são predestinadas, nem imprevisíveis ou caóticas.

O destino é algo condicionado. Nosso próprio “eu” determina tais causas e condições. Você pode criar seu destino, suas escolhas são o seu destino. Aquilo que somos e como somos nesse momento depende daquilo que fizemos no passado. E o que seremos no futuro depende do que somos e como somos agora.

Sakyamuni com seus pés de lótus, pode aproximar-se da sua porta e oferecer sua tigela, mas se continuarmos obcecados por relógios Patek Philipe, fama e amigos, ou por um abdômen malhado, então a verdade do Buda irá nos incomodar, se tornará uma verdade inconveniente.

Muito embora possamos estar no meio da Kaliyuga – sujeitos a uma infinidade de causas e condições de uma época de escuridão, facilmente distraídos e presos a pensamentos ligados a nossa própria auto-preservação e aspirando encontrar referenciais em valores materialistas ou consumistas – podemos tirar vantagem dessa situação.

Diz-se que durante os tempos de degenerescência a compaixão dos Budas e dos Bodisatvas se torna ainda mais fortalecida. Alguém espiritualmente capacitado pode tirar proveito dessa situação. A era da escuridão pode ser como um lembrete da urgência e da preciosidade do Buda, do Darma e da Sanga.

Como seres que dependem de condições, temos que buscar a luz, e cultivar as condições que nos tragam luz. Precisamos constantemente nos lembrar do oposto do materialismo. Para isso, precisamos da imagem do Buda, do som do Darma, e da estrutura da Sanga.

Nos últimos anos perdemos algumas das maiores manifestações do Buda, como Kyabje Trulshik Rinpoche, Mindroling Trinchen Rinpoche e Penor Rinpoche, que foram grandes inspirações e lembranças. Mas, embora essas manifestações tenham se dissolvido, tenha em mente que a sua compaixão desconhece o significado das limitações.

Dentro do espírito de onde há uma demanda, há uma oferta, devemos ter aspirações e  anseios de que as manifestações dos Budas e Bodisatvas nunca cessem, e – usando um termo da moda – que seus renascimentos sejam rápidos.

Mas tal renascimento não deve se limitar à figura de uma criança tibetana, criada no interior da tradição e de uma cultura particular. Podemos aspirar que os Budas renasçam de todas formas, mesmo como algo aparentemente tão insignificante como uma brisa, para nos lembrar de valores como amor, compaixão e tolerância.

Devemos gerar um campo magnético para que miríades de manifestações do Buda possam surgir e não apenas tulkus que slata de trono em trono ou que dirigem um Rolls Royce, produtos muitas vezes de um nepotismo religioso.

Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche, também conhecido como Khyentse Norbu, é um lama butanês, cineasta e escritor. Seus dois filmes mais importantes são A Copa (1999) e Viajantes e Mágicos (2003). Ele é o autor do livro “O Que Faz Você Ser Budista?”.

Tradução Brenda Neves. Revisão Letícia Ramos, Miguel Berredo e Carmen Jinpa.

 

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5 comentários »

  • Vânderson disse:

    Muito verdadeiro o seu texto.
    Luz e paz.
    Vânderson Godoi

  • Ana Ricl - Cebb SSA disse:

    Obrigada por compartilhar este maravilhoso texto. Nos aquece e nos vivifica!

  • ieda disse:

    Obrigada pelo envio, Miguel, é tudo a ver, tudo muito contemporâneo, poético e lúcido. Abraço

    Ieda

  • jacira bastos disse:

    Oh! Ana que maravilha ! Esta semana já havia pensado na hipótese do nosso CEEB salvador,escrever coisas lindas sempre e até fazermos um tipo yahoogrupo,onde pudéssemos, toda a sanga, se comunicar marcar ou desmarcar atividades,trocar idéias ,enviar notícias,enfim… coisas bonitas e enriquecedoras como esta.Parabéns ! ! !

  • Rosani Ries disse:

    Diante de fatos incontestáveis, permito-me, dizer a importância de refletir sobre o mundo em que vivemos e a possibilidade de vislumbrar novas situações para a construção do ser humano enquanto pessoas.
    Fica a pergunta que não quer calar… E nós, o quê estamos fazendo?

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