Alternativas para a cultura tibetana

por 31/07/2012 1 comentário

Por Carmen Navas Zamora

A construção de uma mandala de areia, fato inédito no Brasil, foi o símbolo da 2ª Semana de Cultura e Arte Tibetanas, em Florianópolis, entre 28 de maio e 4 de junho. No saguão da reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), centenas de pessoas encantaram-se com o minucioso trabalho do monge indiano Tenzin Tuthop, que criou a mandala consagrada ao Buda da Medicina, deidade relacionada à cura das doenças. Nada mais adequado para acompanhar a semana de discussões sobre a questão tibetana, que evoca a necessidade de cura nos aspectos social, cultural e também ambiental.

Vista Imagem: José Paiva

Idealizada pelo Centro de Cultura Tibetana (CCT), a semana reuniu palestrantes de diferentes formações com a proposta de discutir a sobrevivência da cultura do Tibete, ocupado pela China desde 1959. Um dos assuntos mais comentados foi a ameaça de esvaziamento cultural. A cultura produzida pela população tibetana é vigiada de perto. Monges sofrem constante vigilância, inclusive com câmeras nas entradas e saídas e dentro dos pátios. Intelectuais leigos buscam apoio do Ocidente pelas redes sociais, tentando driblar os mecanismos de censura do governo chinês. Qualquer atitude suspeita pode resultar em muitos anos de “educação patriótica”, como são chamadas as condenações à prisão.

Desaparecimentos, tortura e execução estão presentes nos relatos dos que sobreviveram ao cárcere. A maioria dos presos tem entre 16 e 30 anos, uma geração que está aos poucos assumindo a liderança da resistência ao regime de Beijing. A situação tornou-se mais dramática após os protestos ocorridos em 2008, que começaram em Lhasa e espalharam-se por várias cidades do mundo.
“Estamos vivendo uma situação devastadora e os tibetanos fazem um enorme esforço para preservar sua cultura e seu idioma e transmiti-los às novas gerações”, descreveu em sua palestra Tsewang Phuntso, do Tibetan Office (representação do povo tibetano no exílio).

Phuntso explicou que cerca de 80 mil tibetanos fugiram do país nos primeiros anos da invasão chinesa e hoje estima-se que 130 exilados estejam vivendo fora do país, principalmente na Ásia, Europa e Estados Unidos. Sua Santidade, o Dalai Lama, solicitou que houvesse escolas dominicais tibetanas para as crianças e jovens no exílio e, de acordo com Phuntso, 40% do orçamento do governo no exílio é destinado à educação.

Francine Canto

Um dos aspectos mais ressaltados nos diálogos da Semana Tibetana foi o risco ambiental que a ocupação e exploração de recursos naturais dos Himalaias pode representar para o planeta, se não houver parâmetros de sustentabilidade. A presidente do CCT, Cerys Tramontini, destacou:
“A questão é crítica com relação à água. No platô tibetano estão as nascentes de oito dos mais importantes rios da Ásia, como o Ganges (Índia) e o Yangtze (China), e avalia-se que um quinto da população do planeta dependa deles”, alertou ela.

O professor Robert Barnett, fundador do Programa de Estudos Modernos Tibetanos da Universidade de Colúmbia, em Nova York, ressaltou que o Partido Comunista sustenta o discurso de que sua presença trouxe modernização ao Tibete, como os trens e as estradas, e elevou a renda. Na verdade, poucas dessas supostas melhorias beneficiaram a população tibetana. O alvo dos subsídios e incentivos do governo é a população de origem chinesa, que em certas faixas etárias e na região de Lhasa já é maior do que a tibetana. Fora da capital, existem planos de assentar a população nômade em grandes conjuntos habitacionais. Teme-se que os nômades sejam vítimas de uma modernização forçada que os descaracterizará enquanto cultura viva.

A visão de mundo de que a ocupação representou a liberação dos tibetanos tem sido formatada nas mentes dos chineses há várias décadas, com o apoio de um amplo material de propaganda. Como a China filtra e censura toda a informação que vem de fora, a população não toma conhecimento das denúncias de atrocidades contra os tibetanos.

A paisagem sutil que está por trás dos fatos políticos e dos movimentos sociais foi comentada durante o debate inter-religioso, com a presença do Lama Padma Samten, do padre jesuíta João Lupi, do monge da tradição budista japonesa Terra Pura, Joaquim Monteiro, e do monge Gensho, da tradição Zen.
“A organização social não depende da economia, e sim do nosso mundo interno, este mundo que subverte as categorias de pensamento que parecem sólidas e preexistentes. Quando acreditamos que temos a verdade, imediatamente tentamos pregar para os outros, mas vamos precisar de uma transformação interna, e não apenas agir externamente para mudar opiniões”, destacou o lama.

Francine Canto

No fim do evento, a mandala construída pelo monge Tenzin foi dissolvida e a areia abençoada foi espalhada nas águas do córrego que corta o campus da UFSC. O monge reconheceu que a destruição da mandala causaria um certo desconforto entre as pessoas que observaram todas as etapas de sua cuidadosa preparação, mas destacou que a impermanência está presente em todas as esferas da vida. “As mudanças nos lembram que somos viajantes nesta vida. Se quisermos ser bons viajantes, devemos levar a paz e a amizade às pessoas que encontrarmos”, comparou.

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A revista Bodisatva foi criada na primavera de 1990 e parou de ser publicada em 1998. Em 2007, voltou a ser editada devido a uma nova fase do Budismo no Brasil, na qual se torna prioritário responder aos desafios culturais e sociais contemporâneos. O conteúdo continua oferecendo um olhar budista para todas as áreas da vida, da economia à ecologia, das artes à psicologia, dos relacionamentos amorosos aos corporativos. | Leia outros posts de


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Um comentário »

  • Zé Paiva disse:

    Carmen, a matéria está ótima, mas você esqueceu o crédito das fotos! beijo

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