Título: “Janela”. Local: Av. Cardeal Da Silva, Federação, Salvador – BA. Foto: Aruane Garzedin

Seção Praticantes | Aruane Garzedin

A arte em grafite de uma praticante em Salvador

Por
Revisão: João Yuri
Edição: Lia Beltrão

Seu interesse pelo espaço urbano já é antigo: na dissertação de mestrado na FAUBA — Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Bahia — estudou as calçadas de Salvador e, no doutorado, na Universidade de Barcelona, tomou como tema os espaços públicos da capital baiana, entre as décadas de 1930 e 1970. Quem ilustra a segunda entrevista desta seção é a artista plástica, arquiteta e grafiteira Aruane Garzedin.

Aruane Garzedin

Durante mais de trinta anos, esta soteropolitana exerceu atividades profissionais ligadas à arquitetura, primeiro no setor público e depois como professora de urbanismo e paisagismo na FAUFBA.

Neste período, em seu tempo livre desenvolvia um trabalho artístico em pintura sobre tela, tendo realizado algumas exposições individuais e participado de várias coletivas, no Brasil e no exterior. Em 2015, optou por conceder um espaço maior à atividade artística em sua vida e se afastou das atividades acadêmicas. No ano seguinte, os muros tornaram-se telas para suas pinturas.


A arte grafite e a cidade

Perguntamos para Aruane o que a motivou a interferir na cidade como artista: “Eu costumo dizer que nasci artista e me tornei arquiteta por amor à cidade, para mim a obra mais complexa da civilização, se pensada como uma construção coletiva na qual devem coexistir, em um mesmo espaço, interesses múltiplos e identidades diversas”, revela a artista.

No Brasil, segundo ela, esta ideia de cidade, parece ser apenas uma utopia, considerando a forma como são construídas, sem o devido planejamento, sem a adequada preocupação com a paisagem e, sobretudo, pelo predomínio da influência de interesses privados em detrimento dos técnicos nas soluções adotadas. E desabafa:

Certo desânimo com esta conjuntura foi uma das razões que me levaram a tentar outra forma de abordagem mais subjetiva e uma ação mais direta na cidade.”

Foto: Aruane Garzedin

A cidade brasileira é um espaço segmentado com muitas barreiras e exclusões, fruto da desigualdade social e suas mazelas, entre elas, a violência social”, reflete Aruane, que diz serem o medo e a ideia de “cada um por si” os responsáveis pelos muros aumentarem em altura e extensão nas cidades, contribuindo para tornar a cidade mais insegura, porque subtrai das ruas o olhar do outro e desvaloriza o principal espaço público: a rua. Para um aprofundamento maior sobre o tema, Aruane escreveu um artigo que pode ser lido na revista VER A CIDADE.

“A arte torna a cidade mais humana e é capaz de trazer novas percepções aos lugares, modificando-os. Neste sentido, o que me estimula são os ambientes e contextos específicos, e a ideia não é embelezar, mas trazer significados, sensibilização onde há indiferença, a poesia onde há apenas carência e medo… mais ou menos por aí. O graffiti é também uma forma de integrar os muros à paisagem, de torná-los menos opacos à percepção das pessoas que circulam e vivem na cidade.”

A experiência de trabalhar nas ruas de Salvador

A arte sempre nos recorda que temos a liberdade de recriar o mundo e isso é o que está por trás da criminalização do graffiti por governos autoritários. Por isso, quando saio para grafitar, busco estar acompanhada, sempre que possível e, em geral, conto com a autorização dos proprietários, de modo que posso pintar durante o dia”, afirma Aruane.

Algumas pessoas que passam se aproximam, fazem perguntas, elogiam e até agradecem. As interações com estranhos faz parte do trabalho na rua e são a essência do espaço público valorizado, ativo e seguro. Sentimo-nos realmente seguros quando não vemos o outro como inimigo, mas sim como alguém com quem temos muita coisa em comum – ou, no mínimo, com quem compartilhamos o mesmo espaço, a mesma cidade”, completa.

 

O budismo e a arte de Aruane

Aruane aproximou-se do budismo há cinco anos, quando passou a frequentar o CEBB em Salvador. Para ela, a filosofia budista está totalmente conectada com a arte em seu trato com a plasticidade do mundo e com o papel do sujeito na criação da realidade. Acrescenta que o conceito de coemergência, por exemplo, ao mostrar a vacuidade dos fenômenos, também enfatiza a luminosidade de tudo, a existência, portanto, de um campo aberto à criatividade.

O budismo tem me ajudado a tentar controlar menos as coisas, a confirmar a motivação mais ampla como o motor em tudo que faço, e isso dá coragem para seguir em frente, arriscar, preocupar-se menos com os resultados e mais com o processo. O graffiti e outras técnicas de arte urbana são obras efêmeras e sobre as quais eu não tenho ingerência após acabada.

Aruane Garzedin

Foto: Aruane Garzedin

De certo modo elas nascem da vontade de participar da criação do mundo. Talvez todo artista tenha esta necessidade, mas no meu caso, eu gostaria muito de contribuir para tornar a cidade mais humanizada, trazer novos significados a elementos e espaços que passam despercebidos, ou simplesmente romper a indiferença de quem olha para uma paisagem conhecida e monótona.”


Além do grafitti

Além de grafitti, Aruane também usa outras técnicas artísticas, inclusive instalação. Em 2014, realizou uma instalação artística interativa chamada Copas São Mundos, que buscava chamar atenção para a estética e para o simbolismo das árvores, questionando também as obras de caráter monumental que se realizavam no país às vésperas da Copa do Mundo.

Como uma obra interativa, buscava ressaltar que uma situação de sociabilidade e de lazer contemplativo poderia acontecer com recursos mínimos – a presença de uma árvore e sua imensa copa. Neste sentido, chamava a atenção para a importância do corpo que vivencia a cidade, para a escala do bairro e da rua no urbanismo. E isso passa por soluções urbanísticas simples, porém fundamentais ao desenvolvimento de situações do cotidiano e à melhoria da qualidade de vida. Esse belo trabalho também está disponível no YouTube e pode ser acessado neste link.


Dona Nita, uma colagem nos muros

Personagem feminino fictício construído, ou melhor, em permanente construção, como Aruane define, D. Nita nasceu a partir de memórias e afetos e da vontade de iluminar perfis de mulheres comuns, em geral invisíveis para a mídia, verdadeiras heroínas em suas sagas particulares. Elas existem em todos os lugares, verdadeiros bodisatvas, irradiando coragem e compaixão, estruturando a vida de muitas pessoas em torno delas, construindo redes e lugares, anonimamente.

Levando D. Nita para passear” – Esse era o projeto que consistia em levar esta baiana para conhecer outros lugares. “A primeira cidade dela fora de Salvador foi o Rio de Janeiro, onde a colei no Largo João da Baiana, Pedra do Sal, marco da cultura africana e onde estão as raízes da música popular brasileira. Esse ano, ela também ocupou um lugar nos muros da cidade mineira de Lambari, na rua onde aconteciam as Congadas naquela cidade”, relata a criadora da simpática D. Nita.

D. Nita também já foi a São Paulo, e durante a Residência Artística Inquietudes da qual Garzedin participou no Instituto Tomie Ohtake, esse projeto artístico foi apresentado e ela, além de estar presente em alguns muros da cidade, participou da exposição de encerramento da residência. “Considero a possibilidade de D. Nita vir a estar em outros lugares virtualmente, bem como, por seu intermédio, histórias de vida de mulheres como ela tornarem-se conhecidos, através de imagens e textos”, completa.

E, para quem quiser conhecê-la melhor, também pode acessar o Instagram, onde ela atende pelo nome de D. Nitabaiana.


Referências

O Brasil tem uma excelente produção de arte urbana; Os Gêmeos, com seus poéticos murais e Alexandre Órion, que usa a técnica de grafite reverso, são alguns dos meus preferidos por aqui”.

6 Comentários

  1. Iris Lopes disse:

    Que massa! Eu tb participo de um coletivo aqui em Curitiba, o Confraria da Cola. Tem até uns trabalhos semelhantes com janelas coloridas…
    Se quiserem dar uma olhada: https://www.facebook.com/pg/ConfrariadaCola/photos/?tab=album&album_id=816050138487860

  2. Raimundo Mundin disse:

    Muito legal ARUANE, fico feliz pelo trabalho e pela matéria coisas boas para uma pessoa especial como você.

  3. Maria adelina disse:

    Parabéns Aruane pela realização desse sonho de dar vida à cidade através da sua arte, e pelos frutos dessa realização.
    A sua arte ganha espaço e vida a cada dia.
    Continue com esta garra e com este inconformismo com o que não é certo!!!

  4. Adolfo Guerra disse:

    Essa Nane é fantástica. Simplicidade, elegância e beleza juntos. Nossa cidade merece!

  5. Laís Retamoso disse:

    Lindo trabalho!! É muito bom cruzar pela cidade e ver a arte tão proxima de todos!

  6. RICARDO BARROS DURAN disse:

    Parabens bjs

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