Ilustração: Lian van Meerendonk – vanlian_illustrations

As pessoas podem estar inteiras

Em conversa aberta e online sobre seu texto “Para abrir o coração”, Marcia Baja compartilha abertura, silêncio e inteireza


Por
Revisão: Caroline de Souza
Edição: Bruna Crespo
Transcrição: Bruna Crespo

Na semana passada, tivemos a alegria de realizar a segunda edição do Conexão Bodisatva com a presença da querida Marcia Baja. Neste encontro online, ela compartilhou um pouco sobre seu texto “Para abrir o coração”, que compõe a sessão Darma na Vida Cotidiana da Bodisatva nº29 – uma edição impressa especialmente dedicada ao Som Feminino do Darma.

Partilhamos com vocês, leitores, os trechos que mais ressoaram em nossos corações e nas redes da Bodisatva durante a conversa!

“Quando sabemos quem somos, nosso coração é puro espaço, amplo e acolhedor. Espaço de liberdades, espaço de possibilidades, capaz de gerar verdadeiros tesouros a serem oferecidos.” (Trecho do texto “Para abrir o coração”)


Como surgiu o texto “Para abrir o coração”?

Esse texto surgiu de um encontro em João Pessoa, no ano passado, logo depois que saí de um retiro. Ele tem muito a atmosfera do momento de transição do silêncio mais recluso para ir ao encontro da Sanga, das pessoas… Ele fala das pausas: inspire, expire e faça uma pausa. Essa abertura, essa conversa que se transformou no texto e agora está voltando a ser uma conversa, fala da possibilidade da nossa vida que já é abertura. Nós só não percebemos a abertura da própria vida e da nossa interação com tudo que ocorre por falta de pausas, observação, contemplação, desacelerar.

O conteúdo desse texto é um convite a essa postura mais silenciosa para nos conhecermos. Começa falando um pouco sobre o que o Buda e os mestres contemplativos nos deixaram. Eles vão dizer que nos fechamos, na verdade, quando perdemos a visão para a verdadeira natureza da vida. E esse fechamento não é real, não é uma coisa sólida. É só uma sensação de fechamento. Então, “Para abrir o coração” é isto: como ter uma vida sem reservas, como viver as experiências e os encontros sem limitar a possibilidade de troca, interface, expansão.

Nesse lugar, eu me solto daquilo que gostaria de projetar sobre as coisas como sendo o melhor e ouso entregá-las para um rumo desconhecido, mas que certamente está ali. Nós consideramos a nossa interferência fundamental para o andamento das coisas, mas ela não é.

Somos muito mais interessantes dentro de uma experiência quando nós conseguimos ser o mensageiro do espaço que está disponível.

Um convite do Buda e do meu mestre

O convite compartilhado no texto é o convite constante do Lama Padma Samten, que eu considero o mestre do silêncio. Quando lembro do Lama como meu mestre, é incrível, mas nem me lembro tanto das palavras como me lembro do silêncio que recebi dele, logo nos primeiros encontros.

Lama Padma Samten. Foto: arquivo site Budismo Petrópolis

O que mais me encantou foi a possibilidade de encontrar alguém que nos encoraja a fazer silêncio, olhar para o mundo interno, desacelerar e simplificar a vida.

Ele nos encoraja a não mais sair correndo em direção nenhuma, a não mudar nada ao redor, mas a fazer o trabalho onde realmente importa, no único lugar possível para alguma coisa ser feita. Esse silêncio foi o convite do Buda e segue sendo o de todos os mestres contemporâneos.

As pessoas podem estar inteiras sobre os próprios pés

Talvez seja um equívoco, da nossa parte, adiar a prática pela demanda nas relações cotidianas. Não quer dizer que não vamos estar ao lado das pessoas, mas sinto que isto é fundamental para que a abertura do coração ocorra: nós compreendermos que não vamos conseguir fazer pelos outros o que só eles podem fazer.

Podemos lavar o prato dos nossos filhos, dar carona, pagar contas ou pentear o cabelo de alguém… Podemos fazer muitas coisas. Mas é muito importante entender que isso não é o principal. O principal – o que cada um tem a fazer – é o que estamos fazendo. Eu imagino que todos nós aqui, em algum nível, estejamos fazendo isto agora: conhecer nosso espaço interno e assim descobrir autoequilíbrio, para que não sejamos um peso, mais uma demanda na vida dos outros.

Quando percebemos em nós a capacidade do autoequilíbrio e essa maturidade completamente disponível, começamos a entender: eu preciso sinalizar para o outro, em algum momento, que ele é responsável pela sua própria vida – e não está só nisso. Como nós aqui: estamos em teia, damos as mãos e nos ajudamos em vários níveis, mas não vamos conseguir fazer isso pelo outro – entrar no coração do outro e desvendar aquilo que só ele pode.

É muito importante nesse trabalho com casais, filhos, sócios, amigos, saber até onde podemos ir. E em que momento precisamos sinalizar para o outro com o nosso silêncio, com a nossa própria maturidade: isso é teu agora. Eu não posso mais. Eu não posso te invadir. Esse é um trabalho teu. Porque, se não, acabamos caindo em um drama: eu preciso salvar as pessoas, elas sem mim não são nada, vão se machucar.

Quanto mais silenciosa me tornar, quanto mais descobrir esse autoequilíbrio, mais eu estou com o coração que pode sinalizar o remédio mais adequado para cada um.

Então, da minha experiência vai surgindo uma coragem cada vez maior de sair desse papel de salvadora, de protagonista da família e dos grupos. Porque percebo que, quanto mais silenciosa me tornar, quanto mais descobrir esse autoequilíbrio, mais eu estou com o coração que pode sinalizar o remédio mais adequado para cada um. Sobretudo, sinalizar que todos e todas podem fazer isso. As pessoas podem estar inteiras sobre os próprios pés, sentindo o seu coração inteiro e aberto.

Nós precisamos cuidar para não empobrecer o outro, não torná-lo frágil quando ele não é. E isso não é desamor, indiferença, distância… Ao contrário, não há amor maior do que isso. É o que recebemos dos mestres. Eles nos olham já furando a bolha da nossa “carinha de dodói” e oferecendo as instruções para nos conhecermos.

A qualidade mais especial é a entrega

Tudo o que estamos ouvindo dos mestres é uma visão possível para todo mundo. Precisamos entender que os ensinamentos deles não têm nenhuma exclusividade. Se os mestres têm alguma qualidade especial, eu diria que é a entrega. Existem mestres mais eruditos do que outros, talvez viveram em condições diferentes, mas na verdade a qualidade mais especial que podemos manifestar – e não é um privilégio deles – é a entrega.

Marcia Baja. Foto: Carlos Alberto Romanelli

Pare de se mexer tanto. Pare de confiar nos teus pensamentos usuais. Dê um tempo” – Marcia Baja. Foto: Carlos Alberto Romanelli

Então, tudo o que ouvirmos como ensinamentos e instruções do Darma precisa ser trazido para essa vivência conosco, no silêncio. Mas vamos deixar bem claro que esse silêncio do qual estou falando não é mais a prática formal, é um posicionamento na vida. É você realmente aceitar, mesmo que teoricamente, as instruções da visão não dual.

Ou seja, o mundo não está lá fora. Pare de se mexer tanto. Pare de confiar nos teus pensamentos usuais. Dê um tempo. Adote uma posição de testemunha, observadora. E simplifique as coisas para poder fazer isso. Você vai fazer da tua vida um laboratório para isso. Essa é a coragem. Essa é a entrega.


Marcia Baja é instrutora de Yoga e tutora de estudos e práticas dos referenciais do CEBB (Centro de Estudos Budistas Bodisatva), sob orientação do Lama Padma Samten.

O Conexão Bodisatva é uma série de conversas online com colaboradores da Revista Bodisatva. O encontro é sempre gratuito e aberto a todos e todas. Confira o último e aproveite para se inscrever em nosso canal do YouTube:


Se você ainda não conferiu o texto “Para abrir o coração”, a revista nº 29 está disponível nas lojinhas dos CEBBs ou em nossa loja virtual: lojavirtual.cebb.org.br.

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1 Comentário

  1. Adriana Leopoldino disse:

    Sempre um presente ouvir e ler essas reflexões.
    Gratidao

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