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Autocentramento, uma praga curável (sobre a sabedoria do espelho retrovisor)

por 23/08/2009 18 comentários

espelho-retrovisor

Estávamos parados no sinal vermelho quando um carro avançou, cortou veloz e – paf! – bateu no nosso retrovisor direito.

Já presenciei no CEBB Rio algumas dezenas de discussões sobre como é difícil manter a cabeça fria quando se tem um volante nas mãos. Volta e meia alguém descreve que por pouco conseguiu não responder com raiva a algum confronto de trânsito. O praticante respirou fundo, convocou a lucidez e “segurou a onda”, como se diz nas praias cariocas. Talvez por ter ouvido tantos relatos eu somente dei risada, disfarcei o susto e comentei com meu amigo alguma coisa como “Que pressa a desse cidadão”.

Ultimamente, a cada vez que me flagro reclamando de alguma atitude inconveniente de alguém, rapidamente me lembro de quando cometi a mesma ação – nem maior, nem menor, exatamente a mesma coisa que estava me incomodando. Isso traz uma sensação rápida de vergonha e arrependimento, como se fosse um arrepio, e ao mesmo tempo um sorriso, porque vejo que esse é mais um “efeito colateral” da prática budista.

Dizia Chagdud Rimpoche que o mundo é um espelho, não é uma janela, e talvez eu esteja começando a me incluir numa paisagem que antes parecia externa. Assim eu me vejo segurando o elevador do CEBB Rio enquanto os praticantes acabam de amarrar os sapatos. Apenas alguns dias antes, eu tinha reparado com um pouco de má vontade em umas moças do meu escritório que atrasavam a fila do elevador só pra esperar um colega que ainda não tinha acabado de desligar o micro. E no dia seguinte dia cheguei com sono no trabalho e não cumprimentei ninguém no trajeto entre o elevador e a minha mesa – assim que liguei o computador lembrei que pouco antes tinha criticado uma colega que costumava chegar sem dar bom dia!

O autocentramento é essa praga que nos faz ignorar o outro e suas infinitas possibilidades. Quando nos concedemos o direito de criticar supostas falhas alheias, condenar seus comportamentos, julgar o que deveriam ou não estar fazendo, posso diagnosticar com alguma certeza que estamos vivendo um surto de autocentramento. O autocentramento que me ataca é uma fixação exagerada na minha própria paisagem, aliada a diferentes graus de indisposição de incluir o outro.

E ainda saímos por aí querendo paz. Como seria possível viver uma experiência de paz? No mundo convencional dos seis reinos, cada um está defendendo o jogo da sua identidade e na melhor das hipóteses tentando moldar o outro ao conforto do seu próprio mundo. Em algum momento os interesses vão colidir, certo? Para experimentar a paz, precisamos deslocar nossa paisagem para fora deste mundo das identidades. Sentir compaixão e amor. Ceder. Aceitar.

No meu caso, tenho a aspiração de um dia poder experimentar a equanimidade, uma inteligência maravilhosa que não distingue o amigo do desconhecido. Já ouvi o lama Samten dizer que a equanimidade facilita absurdamente a vida. Pra todo mundo, o mesmo sorriso, o mesmo acolhimento, a mesma ternura e disposição de ajudar. Pra nós mesmos, também. Porque de nada adiantaria salvar o planeta e nos condenar ao martírio. Tudo resolvido com a equanimidade. Todo mundo igual.

Bem, decidi escrever tudo isso pra vocês por uma razão. Meia hora atrás eu dirigia por uma rua estreita, não percebi um carro estacionado à minha direita e – paf! – bati em seu retrovisor esquerdo. Fiquei na dúvida entre sentir vergonha de mim mesma e dar risada. Escolhi a segunda opção.

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Carmen Navas Zamora é aluna do lama Padma Samten desde 2003, pesquisa Comunicação, Memória Social e Cibercultura e colabora com as publicações do Cebb em diferentes mídias. É uma das editoras da revista Bodisatva. | Leia outros posts de


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18 comentários »

  • Gustavo Gitti
    Gustavo Gitti disse:

    Ri alto no fim. ;-)

    Esse foda esse lance do Lama de simplificar as relações pela equanimidade. Ele diz que quando percebemos a postura do bodisatva, tudo fica simples: em vez de 311 tipos de preocupações, em vez de 234 tipos de relações, apenas uma.

    Escreva mais, Carmen!

  • Sandra Leite disse:

    Carmen, como sempre adoro os seus textos… parece que eles chegam na hora certa pra mim… feitos de encomenda…Dar risada é sempre melhor… Was kann mann machen????? Undrechen und lauchen… O que o homem pode fazer rodopiar e rir … Mudar o eixo , o foco e dar uma resposta nova…
    Como sempre concordo com o Gustavo….. escreva mais… O passeio no veleiro vai rolar??? Espero por um texto escrito no alto as montanhas… Pax et bonum!!!!!!!!! Paz e bem !!!!!

  • Antonio Carlos disse:

    Muito legal o texto, principalmente “E ainda saímos por aí querendo paz.”

    E a parte que vc escreve que o mundo é um espelho,não uma janela.

    Fantástico !

    Por favor, continue escrevendo, já virei teu fã rsss …

    E dediquemos os méritos a todos os seres ….

  • André disse:

    Muito bom o texto, gostei da parte sobre equanimidade. Deve ser extremamente agradável tratar todos como amigos (:

  • paula vargas disse:

    Parabéns Carmen !

    O teu texto é brilhante. Serviu como um chapéu na minha cabeça. Tenho muito que aprender e melhorar como pessoa. Que venha a equanimidade em nossas vidas. GRande abraço!

  • Guto
    guto disse:

    Carmen,

    Belíssima reflexão.
    É muito interessante ver como cada um procura trazer para a vida cotidiana a sua prática.
    Obrigado por compartilhar conosco.
    Abraços,
    Guto

  • Carlos Ernesto de Oliveira
    Carlos Ernesto disse:

    Se a equanimidade é moça de fino trato, seu texto é biscoito fino, finíssimo. Esse descobrir experiencial do autocentramento do javali, desde os níveis mais grosseiros de corpo e energia, para os mais sutis de mente e paisagem, quando leva afinal à risada, é viver os milagres. Que todos possamos, ao longo do dia, estar atentos e perceber essas sutilezas nos envenenando. Sentemo-nos, pois!Emaho!

  • Camila Dias disse:

    Muito bom!
    Eu estou em São Paulo há quase um ano, vim de Porto Alegre.
    A coisa que mais me aborrece aqui, logicamente, é o trânsito. Moro 9km de distância do meu trabalho e quando vou rápido, demora 40 minutos.
    O inter-relacionamento entre os motoristas no trânsito aqui é uma coisa que me irritava demasiadamente até que, (tcharan!) comecei a me imaginar dirigindo com um monge sentado ao meu lado. Toda vez que sentia vontade de xingar, buzinar, colocar luz alta nos olhos do motorista da frente, imaginava um ser iluminado ali sentadinho no carona e como eu ficaria com vergonha se ele me visse fazendo isso tudo. Às vezes dá vontade de chutar o monge janela à fora, óbvio!

    Viver no Samsara.

  • Carmen Navas Zamora
    carmen (autor) disse:

    Contei no Cebb Rio essa do “monge sentado no banco do carona” e acharam muito legal. É como se no instante em que a gente está babando de tanto dormir na prática de meditação, de repente imaginamos que a porta se abriu e o lama acabou de entrar na sala. Boa, não?

  • A sabedoria do espelho retrovisor « Gota de Orvalho disse:

    […] Na revista Bodisatva. […]

  • Carta pela Compaixão « Temas Sugeridos disse:

    […] site encontra-se uma reflexão bem actual em que se aplicam estes princípios, denominada a sabedoria do espelho retrovisor, que vale a pena […]

  • Rosuita disse:

    Oi Carmesita
    Amei o texto e a foto…e sigo tentando acessar a tal da Equanimidade e tua segunda opção, dar uma boa risada dessa tal de reatividade
    Abraço
    Rosu

  • Leila disse:

    Eu para não ter que defenestrar o carona optei pelo ônibus. São 40 minutos (de carro seria a metade) que aproveito para recitar mantras, a metabavana e as 37 práticas do Bodisatva. Até porque precisaria de uma Van com vários caronas para percorrer o trajeto até o trabalho.
    Ah… sem contar que preciso acordar as 5h, o que ajuda no treinamento para a vida no cebb viamão – sonho acalentado.
    Carmem, adorei teu texto.
    Amorosamente.
    Leila

  • Anizio disse:

    Obrigado por este texto!

  • Carmen Navas Zamora
    carmenjinpa (autor) disse:

    De nada! Fico espantada de ver como as palavras seguem reverberando…

  • geSSé disse:

    Muito bom.

  • Eliane Xavier disse:

    Parabéns! ótimo texto! Compartilhei.
    Um beijo,

  • Cacau Schindler disse:

    Superaplicável!!!

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