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B. Alan Wallace – Um equilíbrio plenamente atento (1)

por 19/03/2013 7 comentários

O quê o Buda realmente queria dizer com “atenção plena” ? B. Alan Wallace descreve como a incompreensão do termo tem implicações na sua a prática.

O acadêmico e professor B. Alan Wallace é um prolífico autor e tradutor de textos budistas. Com títulos de Bacharelado em Física e Filosofia da Ciência pela Universidade Amherst e Ph.D. em Estudos Religiosos pela Universidade de Stanford, ele dedica a maior parte do seu tempo combinando seus interesses pelas tradições filosóficas e contemplativas budistas e suas relações com a ciência moderna.

Wallace é fundador e presidente do Instituto Santa Bárbara de Estudos da Consciência, em Santa Bárbara, Califórnia. Aqui ele fala em profundidade com a Tricycle sobre o que ele considera uma prática budista essencial porém amplamente mal compreendida: a meditação da atenção plena. Wallace argumenta que a nossa pobre compreensão da prática tem profundas implicações na prática de meditação, e que pode facilmente nos afastar do fruto supremo da prática budista – a liberação do sofrimento e suas causas subjacentes.
A entrevista foi conduzida por e-mail ao longo de vários meses em 2007.

Durante os últimos meses você esteve dialogando com vários professores budistas sobre o tópico da atenção plena. O quê o levou a focar esse tópico?

Durante anos estive intrigado, por um lado, com as discrepâncias entre as descrições de atenção plena dadas pelos professores modernos de Vipassana e psicólogos que neles confiam, por um lado e, por outro lado, com as definições de atenção plena que encontramos na literatura budista tradicional Theravada e Mahayana, por outro lado. Quando notei essa disparidade pela primeira vez, há trinta anos atrás, pensei que talvez fosse devido a diferenças entre o budismo Theravada e Mahayana. Mas quanto mais eu olhava para isso, mais me parecia que as fontes tradicionais Theravada e Mahayana estavam amplamente de acordo umas com as outras, e que eram as abordagens modernas que se desviavam de ambas as tradições.

De que formas as abordagens modernas diferem?

Enquanto atenção plena (sati) é frequentemente igualada a atenção simples , minhas discussões com os monges eruditos Bhikkhu Bodhi e Bhikkhu Analayo, e Rupert Gethin, presidente do Pali Text Society – e estudos recentes, levaram-me a concluir que atenção simples corresponde de forma muito mais próxima ao termo pali manasikara, que é comumente traduzido como “atenção” ou “engajamento mental”. Este termo se refere às frações de segundo iniciais da cognição pura de um objeto, antes que se reconheça, identifique e conceitualize e, na abordagem budista, isto não é reconhecido como um fator mental virtuoso. É eticamente neutro. O significado principal de sati, por outro lado, é lembrança, não esquecimento. Isto inclui memória retrospectiva de coisas do passado, lembrança prospectiva de algo no futuro, e a lembrança centrada no presente no sentido de manter a atenção firme na realidade presente. O oposto de atenção plena é esquecimento. Portanto, atenção plena aplicada à respiracão, por exemplo, envolve atenção contínua e firme à respiração. A atenção plena pode ser usada para sustentar a atenção simples (manasikara), mas nenhuma fonte budista tradicional iguala a atenção plena à tal atenção.

O Buda alguma vez mencionou o termo manasikara em suas instruções de atenção plena?

Não que eu saiba. Esse termo aparece com maior destaque nos tratados baseados no Abhidhamma sobre a psicologia budista. Nas instruções práticas do Buda sobre shamatha (meditação tranquilizadora) e vipassana (meditação sobre insight), os termos sati e sampajanna aparecem mais frequentemente. Sampajanna é usualmente traduzida do pali como “clara compreensão”, mas este tipo de consciência sempre tem uma qualidade reflexiva: ela envolve invariavelmente uma monitoração dos estados do corpo e da mente, algumas vezes em relação com o ambiente. Por essa razão, eu prefiro traduzir sampajanna como “introspecção”, que aqui implica a observação com discernimento não apenas da mente, mas também das atividades verbais e físicas.

Quais são os perigos de enxergar a meditação apenas como um mero processo de consciência simples?

Quando atenção plena é igualada à atenção simples, pode-se facilmente ser levado ao equívoco de que cultivar atenção plena não tem nada a ver com ética ou com cultivar estados virtuosos da mente e com atenuar estados não virtuosos. Nada poderia estar mais longe da verdade. No Abhidhamma pali, onde atenção plena é listada como fator mental virtuoso, não é descrita como atenção simples, mas é um fator mental que distingue claramente estados mentais e comportamentos virtuosos de não virtuosos. E é utilizada para sustentar estados virtuosos e neutralizar estados não virtuosos.

Qual é então o papel da atenção simples?

O cultivo da atenção simples é valioso de diversas maneiras, e há um campo de pesquisa sobre seus benefícios psicológicos e fisiológicos que cresce rapidamente. Mas é incorreto igualá-la à atenção plena e ainda mais errôneo pensar que tudo isso é vipassana. Se esse fosse o caso, todos os ensinamentos do Buda sobre ética, samadhi (atenção altamente focada) e sabedoria seriam irrelevantes. Com muita frequência, pessoas que assumem que consciência simples é tudo o que há sobre meditação rejeitam o resto do budismo como sendo conversa fiada ou enrolação. Os ensinamentos essenciais são descartados no lugar de seus próprios preconceitos.

Uma alegação crescente é de que a consciência simples automaticamente evita o surgimento de pensamentos não virtuosos. Há algum embasamento para essa noção nos textos?

A consciência simples , como consciência calma e não-reativa do objeto de meditação , tem um papel crucial na prática de shamatha, que alivia os estados mentais aflitivos como anseio, aversão, embotamento, agitação e dúvida. Há diversos relatos nos textos budistas sobre pessoas que alcançaram insights liberadores e profundos, através do que parece ser atenção simples. Talvez o caso mais conhecido seja o do asceta errante Bahiya. Após se tornar um contemplativo altamente realizado, ele reconheceu que ainda não havia atingido a liberação, e então buscou a orientação do Buda, que disse a ele, “Em referência ao que é visto, haverá apenas o que é visto, em referência ao que é ouvido, haverá apenas o que é ouvido, em referência ao que é sentido, haverá apenas o que é sentido, em referência ao que é percebido, haverá apenas o que é percebido. É assim que você deverá treinar-se.” E Bahiya atingiu imediatamente a liberação.

Poderíamos facilmente concluir daí que a atenção simples é tudo o que é necessário na meditação do insight. Mas devemos nos lembrar de que o caso de Bahiya é excepcional. Ele já havia alcançado um elevado nível de maturidade espiritual antes de encontrar o Buda; assim essas instruções quintessenciais eram tudo de que ele precisava para purificar completamente sua mente de todas as aflições mentais. Para o restante de nós, a rica diversidade de teorias e práticas no Budismo pode ser de grande ajuda. A consciência simples pode desempenhar um importante papel nisso, e algumas vezes pode de fato evitar que pensamentos não virtuosos surjam. Mas se nos limitarmos apenas à atenção simples, também evitaremos que pensamentos virtuosos surjam! Por exemplo, meditações onde são cultivadas as quatro qualidades incomensuráveis, bondade amorosa, compaixão, alegria empática e equanimidade, todas são praticadas com atenção plena, mas não com atenção simples. Atenção simples não é uma prática completa, e por si só pode ser benéfica, mas ainda de forma bem limitada.

As diferentes definições de atenção plena têm alguma importância prática? Ou essa é apenas uma questão semântica?

É muito mais do que uma questão semântica. O uso comum do termo em inglês mindfulness (em português, atenção plena) significa simplesmente estar consciente ou atento. Sati tem uma conotação muito mais rica e, portanto, aqueles que desejam praticar meditações budistas são aconselhados a ganharem o mais claro entendimento destes e de outros termos relacionados o quanto for possível, com base nas fontes mais autorizadas que puderem encontrar. Caso contrário, a meditação budista se degenera em uma vaga mentalidade do tipo “esteja no aqui e no agora”, na qual a extraordinária profundidade e riqueza das tradições meditativas budistas se perdem.

Seria útil padronizar o significado de atenção plena?

Por respeito à integridade de cada tradição, seria um equívoco forçá-las todas a um mesmo molde. É importante ser sensível às diferenças entre as diversas escolas. Mas na medida em que os discursos atribuídos ao Buda e seus principais comentários concordam com o significado de atenção plena, isso deveria ser reconhecido pelos budistas de todas as escolas.

Em sua obra clássica do século V “The Path of Purification”, Buddhaghosa, o comentarista de maior autoridade da tradição Teravada, começa sua explicação sobre este tópico afirmando que é por meio de atenção plena que somos capazes de recordar coisas ou eventos do passado, em ressonância com a definição deste termo dada pelo Buda. Sua característica, escreve Buddhaghosa, é “não oscilante”, na qual a mente está intimamente engajada com o objeto de atenção escolhido. Sua propriedade é “não perdida”, indicando que atenção plena nos permite manter nossa atenção sem esquecimento. Sua manifestação é “vigilante” ou “cara a cara com o objeto”, implicando que “a corda de atenção plena” prende a atenção firmemente ao objeto escolhido, seja ele um objeto único, relativamente estável, ou um continuum de eventos inter-relacionados. Sua base é “intensa observação”, sugerindo uma qualidade discernente, que é crucial ao se praticar atentamente satipatthana (as Quatro Aplicações da Atenção Plena) – atenção plena ao corpo, sentimentos, pensamentos e outros fenômenos. Buddhaghosa comenta que a atenção plena deveria ser vista como um poste fixado em seu objeto, e como um guardião, vigiando as portas da percepção. Com base nesse relato autorizado e clássico, podemos facilmente perceber que atenção plena é essencial para shamatha e vipassana em particular e para a prática espiritual em geral. Tradicionalmente, shamatha é o método principal para cultivar a atenção plena, ao passo que em vipassana se aplica a atenção plena e a sabedoria (panna) ao corpo, mente, sentimentos e outros fenômenos.

Em seu papel psicológico como relembrar, sati é uma faculdade mental comum que usamos na vida cotidiana. Alguns exercícios em satipatthana, como a contemplação de partes anatômicas do corpo, não tem como ser feitos apenas com a atenção simples – por exemplo, quando satipatthana é usada na prática de exploração mental das sensações corporais. Em todos os casos a atenção plena, como cultivada na prática espiritual, é aplicada com inteligência discernente, frequentemente vendo os fenômenos dentro do contexto de categorias budistas como, por exemplo, os cinco agregados. Isto é evidente no principal discurso do Buda sobre satipatthana, que vai muito além da atenção simples.

*Segue na próxima semana.

Tradução: Jeanne Pilli

 

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7 comentários »

  • Sérgio Siebra de Morais disse:

    Muito bom!

  • Eliana disse:

    Quanta lucidez! O budismo só tem trazido novas possibilidades em minha vida. Sou grata.

  • A importância sobre as definições de atenção plena | Mente e Atitude disse:

    […] citação a seguir é de um trecho do post, “Um equilíbrio plenamente atento“. Edição por: Miguel Berredo, tradução do texto por: Jeanne […]

  • B. Alan Wallace – Um equilíbrio plenamente atento (2) | Bodisatva: um olhar budista disse:

    […] Continuação da entrevista do professor  B. Alan Wallace à Revista Tricycle. Leia a parte 1. […]

  • Otavio disse:

    vcs tem gerar uma versão para impressão?

  • alano alexadre disse:

    Estou passando por um trajeto pedregoso em minha existência, mas com as leituras e os ensinamentos tenho desenvolvido um nível de compreensão bom, e consigo já entender meu sofrer, e agora estou mentalizando de que forma atinjo um estado emocional harmonioso, para conseguir passar pelo caminho espinhoso.
    Obrigado ao Budismo Engajado por fornecer, um pouco da experiência Búdica, Filosofia de vida a qual aprendo cada dia a seguir, mesmo na dor e no sofrimento.

  • Alan Wallace – Um equilíbrio plenamente atento | adrianoseixas disse:

    […] http://bodisatva.com.br/b-alan-wallace-um-equilibrio-plenamente-atento-1/ Compartilhe isso:TwitterFacebookGoogleCurtir isso:Curtir Carregando… Este post foi publicado em Sem categoria em 4 de dezembro de 2014 por adrianoseixas. […]

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