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B. Alan Wallace – Um equilíbrio plenamente atento (2)

por 3/04/2013 1 comentário

Continuação da entrevista do professor  B. Alan Wallace à Revista Tricycle. Leia a parte 1.

Qual é a diferença entre atenção plena e atenção plena correta? Existe algo como atenção plena incorreta?

Um atirador se escondendo na mata, esperando para alvejar o inimigo, pode estar bastante atento ao que quer que surja a cada momento. Mas, porque seu objetivo é matar, ele está praticando atenção plena incorreta. Na verdade, o que ele está praticando é atenção simples sem um componente ético. Falando de maneira geral, a atenção plena correta deve estar integrada a sampajanna – mais uma vez, introspecção envolvendo compreensão clara – e é apenas quando esses dois trabalham juntos que a atenção plena correta pode cumprir seu propósito. Especificamente, na prática das Quatro Aplicações da Atenção Plena, atenção plena correta tem que ocorrer no contexto do Caminho Nobre de Oito Passos: por exemplo, deve ser guiada pela visão correta, motivada pela intenção correta, embasada na ética, e ser cultivada em conjunto com o esforço correto. Sem a visão correta ou intenção correta, pode-se estar praticando atenção simples sem que nunca se desenvolva a atenção plena correta. Então, atenção simples não capta de nenhuma forma o completo significado de vipassana, e representa apenas a fase inicial do desenvolvimento meditativo da atenção plena correta.

Há uma tendência em alguns círculos de privilegiar a prática de vipassana com relação à prática de shamatha. Você pode comentar algo a respeito disso?

O termo shamatha, muitas vezes traduzido por “tranquilidade” ou ”quiescência meditativa”, refere-se a uma vasta gama de práticas com o propósito de atingir samadhi, ou a atenção altamente focada, ou concentração unifocada. Tanto a atenção plena quanto a introspecção são partes integrantes de todas as práticas de shamatha, e a concentração da consciência que se atinge através de tais práticas pode ser aplicada a qualquer tipo de objeto, pequeno ou grande, simples ou complexo, relativamente estável ou mutável. A prática de shamatha é frequentemente ignorada ou, na melhor das hipóteses, marginalizada em muitas escolas contemporâneas do budismo, incluindo Zen, Teravada e Budismo Tibetano. Com sua ênfase na “iluminação repentina”, a tradição Zen não ensina shamatha como uma prática separada. Ao invés disso, ela é incorporada à prática de zazen do “apenas sentar” e dentro das meditações sobre koans. Essa mesma tendência foi transportada à tradição Vipassana moderna, que remove a ênfase em shamatha. Mas no Teravada tradicional e na literatura Mahayana, as práticas de shamatha têm um papel central na familiar tríade da ética, equilíbrio mental (significado mais amplo de samadhi) e sabedoria. Além do mais, a matriz de práticas budistas ensinadas na categoria de samadhi cobre muito mais do que simplesmente desenvolver concentração unifocada. Estas práticas têm o objetivo de cultivar estados de saúde e equilíbrio mentais excepcionais, e todas as meditações de insight são idealmente praticadas sobre essa base. Sem atenção plena, o equilíbrio mental não pode ser desenvolvido. E sem a estabilidade e a vivacidade da atenção alcançadas pela prática de shamatha, as práticas budistas de sabedoria destinam-se a serem prejudicadas pela agitação mental, embotamento e outros obstáculos. Ética e equilíbrio mental apoiam-se um ao outro, assim como shamatha e vipassana.

A atenção plena como prática é normalmente associada à tradição Teravada. Que papel ela desempenha na prática Vajrayana?

A atenção plena, como a habilidade de sustentar continuamente a atenção a um objeto escolhido, é indispensável a todos os tipos de meditação. Nos vários exercícios de visualização que fazem parte das meditações Vajrayana, a atenção plena permite que se sustente tais imagens com estabilidade e clareza. O Vajrayana também inclui meditações Mahamudra e Dzogchen, e aqui, mais uma vez a atenção não reativa, luminosa e estável é fortemente enfatizada, como é no Zen. Mas a base para essas práticas de sabedoria ainda é o cultivo do equilíbrio mental, incluindo a atenção vívida e calma.

Na autêntica prática Mahamudra, por exemplo, primeiro se treina nos ensinamentos fundamentais das Quatro Nobres Verdades, incluindo as práticas de ética, equilíbrio mental e sabedoria. Então prossegue-se nos ensinamentos Mahayana, especialmente sobre o ideal do Bodisatva, as explicações sobre vacuidade e originação dependente da “Perfeição da Sabedoria” e a natureza de buda. Sobre essa base, o praticante é iniciado no Budismo Vajrayana, com suas práticas únicas de transmutação de seu corpo, fala e mente no corpo, fala e mente de um buda. Por fim, o praticante é treinado na visão específica, meditação e modo de vida da tradição Mahamudra. A meditação implica em um tipo de radical “não fazer”, no qual se repousa na consciência não estruturada, liberando a fixação a todos os tipos de aparências sensoriais, memórias e pensamentos. Como um resultado de tal prática, todas as experiências gradualmente surgem como um auxílio ao despertar espiritual e, finalmente, todos os fenômenos são percebidos como expressões puras da consciência primordial ou natureza de buda.

A primeira fase da meditação Dzogchen, conhecida como “atravessar ”, é muito similar ao Mahamudra, e à primeira vista pode parecer idêntica à atenção simples praticada na tradição Vipassana moderna e no Zen. Mas, como notamos na discussão sobre atenção plena correta, o contexto da prática é crucial e práticas que superficialmente parecem as mesmas podem ter diferenças subjacentes profundas. Tradicionalmente, os monges Zen, por exemplo, treinavam ética e estudavam os grandes tratados de sua tradição por anos antes de se devotarem à meditação unifocada. O mesmo é geralmente verdade nos Budismos Theravada e Tibetano. Cada uma dessas tradições apresenta a prática de meditação dentro do contexto de suas próprias visões de mundo, profundamente informadas pelos insights budistas.

Quais são as características distintas das visões de mundo Mahayana e Vajrayana que poderiam tornar o uso da atenção plena diferente do que é na tradição Theravada?

A atenção plena correta emerge apenas no contexto da visão correta e da intenção correta, e cada uma dessas escolas tem suas próprias interpretações desses dois elementos do Nobre Caminho de Oito Passos. No Budismo Teravada, a visão correta foca os três temas da impermanência, sofrimento e ausência de um eu. A intenção correta é uma motivação para a prática com base no reconhecimento da natureza e causas do sofrimento e a aspiração de atingir a liberação irreversível de todas as aflições mentais que existem na raiz do sofrimento. Alguns professores contemporâneos de vipassana raramente enfatizam visão correta ou intenção correta e eu considero duvidoso que a prática de atenção plena isoladamente possa resultar em qualquer realização transcendental. Mais uma vez, se a atenção plena tal qual comumente entendida hoje fosse tudo o que é necessário para atingir a liberação, então todo o restante dos ensinamentos do Buda seriam inúteis.

No Budismo Mahayana, a atenção plena correta é praticada em conjunto com a visão da vacuidade, originação dependente e natureza de Buda, e com a intenção de atingir a perfeita liberação para benefício de todos os seres sencientes. Sem tal visão e motivação, diz-se que a prática de atenção plena e todas as formas relacionadas não levarão à natureza de Buda. Na tradição Vajrayana, a visão correta inclui a “visão pura” de perceber todos os fenômenos como expressões da consciência primordial, e a intenção correta é a motivação altruísta de alcançar a perfeita iluminação tão rapidamente quanto possível para o benefício de todos os seres. Essa é a mesma motivação da prática Mahayana, mas com um maior senso de urgência.

Em cada um desses casos, a atenção plena apresenta um sabor diferente, da mesma forma que acontece quando é praticada com a visão de mundo materialista e uma motivação mundana – ou seja, simplesmente para aliviar o estresse e encontrar mais felicidade nesta vida apenas. Quando a atenção simples é praticada dentro do contexto de uma visão moderna materialista, não tem fundamento acreditar que produzirá os mesmos resultados de quando é praticada dentro do contexto do Budismo Theravada, Mahayana ou Vajrayana.

Ao longo do século passado, o Budismo foi submetido a um tipo de Reforma Protestante, com o declínio do monasticismo budista e a crescente popularidade da meditação entre os praticantes leigos. É maravilhoso que tantas pessoas hoje em dia tenham incorporado a meditação budista a suas vidas cotidianas. Mas é importante não negligenciar o valor de devotar anos ao estudo e prática da meditação como vocação exclusiva. Afinal de contas, nós não confiaríamos nossos dentes a alguém que simplesmente tenha participado de algumas oficinas para dentistas e praticado por uma hora e pouco por dia.

Então, não deveríamos ser mais cautelosos ao confiar nossas mentes a instrutores de meditação sem anos de treinamento profissional na teoria e prática da meditação?

Tudo depende da nossa visão e intenção com respeito à meditação. Se o que realmente queremos é um tipo de terapia meditativa que nos ajude a aliviar o estresse, lidar com problemas psicológicos pessoais e levar uma vida mais equilibrada, nós não precisamos de instrutores altamente treinados. Mas na medida em que estabelecemos metas mais elevadas – a liberação da existência cíclica e a realização da perfeita iluminação – então precisamos confiar em pessoas que foram profissionalmente treinadas por anos na teoria e prática da meditação. Tradicionalmente, os monásticos têm desempenhado um papel crucial a esse respeito, e espero que continuem assim no futuro. Mas para que isso aconteça, eles precisam ser apoiados pelos leigos budistas, assim como foram no passado.

Com os budistas meio-período em nossa comunidade budista ocidental, é improvável que possamos produzir mestres iluminados?

Se tivéssemos apenas cientistas meio-período, então nenhum ramo da ciência teria progredido ao nível atual de sofisticação. Da mesma forma se tivéssemos apenas professores e psicoterapeutas meio-período, estaríamos em situação bem pior com respeito a cuidados de saúde físicos ou mentais. De forma mais ampla, imagine o mundo com mecânicos, eletricistas, fazendeiros e professores apenas meio-período. Se tivéssemos deixado todas as principais profissões nas mãos de amadores, a civilização moderna estaria imensamente empobrecida.

O caminho do despertar espiritual é a mais desafiadora de todas as empreitadas humanas e implica na transformação mais profunda do ser humano, de uma criatura miserável e deludida a um sábio iluminado. Se quisermos produzir mestres iluminados na sociedade moderna, indivíduos que desejam sinceramente se dedicar a esse caminho – tomando ou não os votos monásticos – deveriam receber todo o apoio possível. Este seria o nosso maior presente às gerações futuras.

Tradução: Jeanne Pilli

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Um comentário »

  • Maria Clara Olivi disse:

    Gostei muito das colocações de Alan Wallace!

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