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Carta de Dzongsar Khyentse Rinpoche

por 14/02/2012 3 comentários

O mestre budista Dungsey Thinley Norbu Rinpoche  faleceu no dia 27 de dezembro de 2011. Abaixo segue a carta que Dzongsar Khyentse Rinpoche, seu filho,  com recomendações de lembrarmos da verdadeira natureza da mente em qualquer momento. Thinley Norbu Rinpoche (1931-2011) nasceu no Tibete, como o filho mais velho de Dudjom Rinpoche. Ele foi um grande poeta e autor de importantes textos como “A Small Golden Key”, “Magic Dance”, “White Sail” e “A Cascading Waterfall of Néctar”.

“Agradeço a todos por seus sentimentos e melhores votos, neste momento. Vivemos em um mundo que nós mesmos criamos, um mundo montado a partir das nossas percepções pessoais, no qual acreditamos por inteiro: todos os anos, todos os dias, todas as horas, todos os momentos da nossa vida.

Embora esta vida na realidade seja fugaz, durando não mais do que o saltar de uma fagulha, ela é vivenciada por alguns como interminável, arrastando-se por eras e eras. Já para outros, a experiência deste mundo dura menos que um piscar de olhos, embora na realidade este mundo exista por um tempo infinito.

Para alguns, este mundo não é maior do que o buraco de um caruncho; no entanto, eles se sentem insignificantes e isolados, perdidos em um vazio vasto e sem fim. Outros percebem o mundo como pequeno − tão pequeno quanto um universo inteiro − e se sentem desconfortavelmente confinados e claustrofóbicos.

A maioria de nós − e aqui eu me incluo − fomos condicionados a viver e morrer em um mundo criado por nossas próprias percepções; e mais, continuamos a criar condições que asseguram que repetiremos o mesmo jogo, vez após vez.

Dentro uma infinidade de possíveis percepções, Thinley Norbu Rinpoche é visto por alguns como uma pessoa comum, por outros como um pai, um professor, um ser perfeito − diferentes percepções determinadas pelo mérito (ou falta de mérito) de quem percebe.

Para pessoas como eu, cuja limitação me leva a vê-lo apenas como meu pai, as condolências manifestadas por vocês são aceitas como apoio emocional.

Para aqueles dotados de “qualidades superiores” − ou que aspiram desenvolver essas qualidades − e que conseguem enxergar Thinley Norbu como um ser perfeito, esta é mais uma oportunidade para pôr de lado percepção não-pura e gerar percepção pura, para que se possa ao final passar adiante de toda percepção.

A “consciência” ou “estado desperto” é a essência dos ensinamentos de Buda − desde a consciência do ar fresco que entra e sai por nossas narinas, até a profunda consciência da natural perfeição. E em sua compaixão e coragem incomensuráveis, o único propósito e atividade de todos os budas é tocar o sino que nos alerta e nos conduz para essa consciência desperta.

Para os que têm mérito suficiente, a passagem deste grande ser pode ser interpretada como o soar desse sino de alerta, e uma recordação oportuna de todos os ensinamentos − desde a simples verdade da impermanência até a realização da compaixão ilimitada. Sob esse ângulo, na mesma medida em que a nossa mente obscurecida apreciou e valorizou o aparecimento de Thinley Norbu neste mundo, cabe a ela, agora, apreciar e valorizar o desaparecimento dele.

Ainda que seja tocante saber daqueles que estão oferecendo preces, recitações, lamparinas e tantas outras atividades benéficas nesta ocasião, permitam-me lembrar, a mim mesmo e a todos os interessados, que nenhuma dessas práticas que estamos fazendo são para ele; antes, são para nós mesmos.

Por mais cintilante que seja a lua ao aparecer no céu, seu reflexo não será visto, se as águas do lago estiverem turvas. Igualmente, é por meio da purificação dos obscurecimentos e da acumulação de méritos em nossa própria mente que conseguiremos, com o tempo, perceber o reflexo de Buda − intacto, completo, nunca afastado.

Então, melhor do que nos congratularmos com o pensamento de que estamos acumulando todas estas práticas nesta ocasião especial, é termos presente que nós já as deveríamos estar fazendo − e que deveremos continuar a fazê-las por toda esta vida, e também ao longo de todas as nossas vidas futuras. Se imaginarmos, porém, que nossa prática é algo como proporcionar “ritos de passagem” a este grande ser, definitivamente esse não é o melhor caminho a seguir.

Foi-me perguntado que práticas específicas deveriam ser feitas. Repito, uma vez mais, que nossa prática é a vigilância, ou seja, o “estado desperto”. Somos seres ignorantes, o que quer dizer que precisamos de constantes lembretes da importância de nos esforçarmos para pousar nessa consciência desperta. Portanto, todas as atividades do nosso guru − desde quando ele boceja ou tosse, até quando ele aparece ou desaparece − são modos que ele tem nos lembrar de voltarmos para o estado desperto, vez após vez.

E, se estivermos conscientes e despertos, não há prática que seja melhor, nem prática que seja pior.

Escrito e dedicado à iluminação de todos os seres sencientes, na presença do rupakaya de Thinley Norbu”.

O texto foi publicado primeiramente no site da Khyentse Foundation.

Tradução para o português de Manoel Vidal.

*As frases em negrito são de responsabilidade do editor do blog.

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3 comentários »

  • Rosani Ries disse:

    Olá Miguel obrigado por lembrar sempre de alimentar nossas almas famintas por conhecimentos, e se não for pedir demais, gostaria de saber mais sobre Chagdud Rinpoche.
    Um abraço,
    Rosani Ries

  • Luiza Berredo disse:

    Que ensinamento….nossa. Obrigada!

  • Maria Lucia disse:

    Miguel, acordar hoje de manhã e ler um texto como esse, foi maravilhoso. Obrigada! Um beijo no seu coração.

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