Clássico: Desarmonia na ordem

por 2/08/2012 Comente!

Trecho do livro Budadarma, o Caminho para a Iluminação.
Tradução em andamento da equipe do CEBB Caminho do Meio

Certa vez o Buda cruzou o rio Ganges e atravessou a pé o país de Wansa, indo para o sul. Em Kosambi, permaneceu algum tempo no parque Ghositarama. Na ocasião, um discípulo cometeu um deslize e pensou que cometera um erro, mas outros discípulos não consideraram aquilo um erro.

Com o tempo, ele veio a pensar que não tinha cometido deslize algum, e outros discípulos pensaram que ele cometera o erro. Os discípulos disseram a ele: “Amigo, cometestes uma falha. Tens que admitir isso”. “Não cometi qualquer falha”, ele respondeu. E como não admitisse a culpa, os discípulos, de acordo com as regras da sanga, o puniram com a expulsão.
Entretanto, conhecendo bem os ensinamentos, sendo inteligente e desejoso de praticar o caminho, ele resistiu à expulsão e disse aos seus amigos: “Amigos, isto não é uma falha. E não é correto me expulsarem. Eu desejo que vocês confiem nos ensinamentos e nas regras e se tornem meus defensores”. Depois disso, enviou mensageiros a amigos que tinham se mudado para outras partes e pediu que o apoiassem e fossem seus defensores. E teve a concordância deles.

Assim, discípulos que acusavam e defendiam começaram a discutir asperamente o assunto e a separação gradualmente se aprofundou. Um discípulo contou ao Buda o que ocorria e o Honrado do Mundo lamentou, “A harmonia entre os discípulos foi destruída”, e dirigiu-se aos discípulos que tinham expulsado o companheiro:

“Oh, discípulos, é um erro, qualquer que seja a causa, invocar o dever de expulsar um discípulo. Temos um discípulo que cometeu uma falha. Ele pensa que não foi uma falha, outros pensam que sim. Neste caso, o discípulo é profundo no seu conhecimento, claro nos ensinamentos, conhecedor das regras, e tem o desejo de praticar o caminho. Mas se expulsam o discípulo e recusam qualquer relacionamento com ele, surgem disputas e desarmonia na sanga. Vocês devem dar mais importância à harmonia na sanga e não expulsar o monge”.

Aos que defendiam o discípulo, o Buda disse: “Oh, discípulos, quando cometerem uma falha, não pensem que não a cometeram e que não há necessidade de corrigi-la. Suponhamos que um discípulo comete uma falha, mas não a entende como falha, enquanto outros pensam que é uma falha. Neste caso, se o discípulo reconhece os que se opõem a ele como profundos no conhecimento, claros nos ensinamentos, conhecedores das regras, inteligentes e desejosos de praticar o caminho, não surgirá nele apego, raiva, ignorância ou medo devido à ação dos monges; e porque ele não admite sua falha, os discípulos oponentes têm a investidura de o expulsarem. Quanto ele vê que isso implantou a desarmonia na sanga e a disputa irrompeu, em nome da fé dos outros e da harmonia na sanga, deve admitir que falhou”.

Desta maneira, o Honrado do Mundo ensinou e iluminou discípulos de ambos os lados e retornou aos seus aposentos.

Entretanto, mesmo com as repreensões do Buda, os discípulos, divididos em duas facções, praticavam jejuns e executavam cerimônias da sanga separadamente. Como expandiam seus argumentos com veemência, suas três ações cármicas – física, mental e verbal – gradualmente os tornaram muito diferentes dos discípulos do Buda. Muitas vezes o Honrado do Mundo repetiu: “Oh, discípulos, quando a sanga não está em harmonia as ações de cada membro têm que ser ainda mais respeitosas. Quando as ações não estão de acordo com as regras ou não são bondosas, é preciso evitar reações discordantes e ficar no seu lugar. Oh, discípulos, interrompam a disputa. Não continuem em desarmonia”.

Um discípulo então disse: “Honrado do Mundo, espere mais um pouco, por favor, saboreie a profunda meditação de um Ser Honrado do Mundo. Somos responsáveis por essa luta e desarmonia e nós as resolveremos”.
O Honrado do Mundo advertiu: “Oh, discípulos, parem de brigar. Não devem continuar em desarmonia”. E o discípulo repetiu o que havia dito, rejeitando as admoestações do Buda.

A história do rei Bramadata

Neste ponto, o Honrado do Mundo falou: “Oh, discípulos, há muito tempo, em Benares, havia um rei, Bramadata, do reino de Kasi. Próspero e florescente, ele tinha um forte exército com muitos veículos de rodas e muitos reinos o seguiam. E havia um rei chamado Kighiti, com um pequeno exército no pequeno reino de Kosala. Ele não era uma ameaça para o rei Bramadata. Um dia, ouvindo dizer que Bramadata tinha preparado quatro exércitos e estava vindo para derrotá-lo numa batalha, ele pensou: ‘Meu reino é pequeno e sem defesa. Será difícil enfrentar Bramadata numa batalha. É melhor deixar o castelo e escapar’”. Sem luta, ele deixou o reino de Kosala para Bramadata. Levando a rainha, escapou secretamente para a vizinhança de Benares disfarçado em um peregrino e se escondeu na casa de um pobre moleiro.

Após algum tempo a rainha engravidou e, como é comum acontecer durante a gravidez, teve um estranho desejo: queria beber a água usada para lavar as espadas dos soldados que estavam alinhados, ao amanhecer, em um campo de treinamento.

“Oh, rainha, nós somos agora um povo derrotado. Como poderei fazer tal coisa?”

“Oh, grande rei,” respondeu a rainha, “se meu desejo não for atendido, eu morrerei”.

Mas o rei Dighiti tinha um amigo brâmane que era conselheiro da casa do rei Bramadata. Não tendo outro recurso a não ser atender o desejo da rainha, foi à casa do amigo pedir conselho. O brâmane disse que gostaria de encontrar-se com a rainha, e Dighiti foi buscá-la. Ao ver a rainha, o brâmane levantou-se do seu assento, dobrou o manto sobre um dos ombros e olhou-a diretamente no rosto. Em seguida, juntou as mãos e a saudou três vezes, entoando um cântico de alegria: “Oh, é verdade, o rei de Kosala veio morar em seu ventre”. E disse: “Oh, rainha não perca a esperança. O seu desejo será cumprido”.

Sendo conselheiro do rei, o brâmane imediatamente foi ter com Bramadata e disse: “Grande rei, um auspicioso sinal manifestou-se. Amanhã, ao nascer do sol, seus quatro exércitos reunidos no campo de treinamento devem lavar suas espadas”. O rei imediatamente deu a ordem conforme o brâmane lhe pedira. Assim, o desejo da rainha foi atendido. Ela deu à luz um príncipe que recebeu o nome de Dighayu. Quando o príncipe tornou-se capaz de utilizar seu julgamento, o rei Dighiti pensou: “Bramadata espera a nossa destruição. Se nós três formos achados ao mesmo tempo, ele nos matará a todos. É melhor  Dighayu ser educado em outro lugar”.  Ele e sua esposa passaram então a viver na cidade, e Dighayu foi levado para fora.

Naquele tempo, o barbeiro do palácio em Kosala vivia na casa de Bramadata. Certo dia, ele viu seu amos anteriores, o rei Dighiti e a esposa, vestidos como viajantes. Soube que eles viviam numa cidade perto de Benares e contou isso ao rei Bramadata. Imediatamente, Kighiti e sua rainha foram capturados. De mãos atadas às costas, foram levados até o terreno das execuções.

Justamente nessa ocasião, o príncipe Dighayu entrou na cidade e por sorte, pela primeira vez durante um longo tempo, viu os seus sofridos pai e mãe. Surpreso, ele estava pronto para correr até eles quando uma voz fez com que parasse no seu intento. A voz dizia: “Dighayu, não deves olhar longamente. Não deves também olhar superficialmente. A razão é que o ódio não é extinto pelo ódio. O ódio só é extinto quando não mais existe ódio”. Como as pessoas não sabiam quem era Dighayu, não podiam compreender as palavras que foram ditas e pensaram que o rei Dighiti tinha ficado insano. Estava pronunciando palavras sem sentido. E o rei Dighiti continuou dizendo: “Eu não sou louco. O que estou dizendo não é algo sem sentido. Quem tiver coração compreenderá. Dighayu, não olhe tão longamente. A razão é que o ódio não é extinto pelo ódio. O ódio só desaparece quando não há mais ódio”. Ele repetiu três vezes essas palavras. Antes que Dighayu pudesse fazer alguma coisa, seu pai e sua mãe foram levados para o campo das execuções e esquartejados. Os restos foram espalhados e um grupo de soldados permaneceu de guarda. Dighayu foi até à cidade, comprou vinho e o deu aos guardas que ficaram completamente embriagados. Ele então recolheu gravetos e cremou os restos dos seus pais numa pira, juntou as mãos e curvou-se em reverência. Era a única coisa que podia fazer para expressar sua dor e seu respeito por eles. O rei de Kasi viu o fogo do alto do seu palácio. Pensou que era trabalho de alguém relacionado à família Kosala, mas, sem ser informado de nada, Bramadata se sentiu desconfortável e amedrontado.

O príncipe Digahyu foi para a floresta onde jejuou, chorou e esperou muitos dias para que o seu coração encontrasse alguma paz. O dia finalmente chegou e ele sentiu na sua mente que era o momento de deixar a floresta. Foi para a área do palácio e pediu ao treinador de elefantes que o aceitasse como aprendiz. O treinador de elefantes alegremente o aceitou.

Dighayu passou a noite no estábulo do elefante. Ao sair, começou a soprar sua flauta e a cantar. O rei, que por acaso estava também gozando o frescor das brisas do alvorecer, foi tocado pelo belo canto e pelo som da flauta. Quando soube que a voz pertencia a um aprendiz do treinador de elefantes, fez com que ele viesse a ser um dos seus atendentes. Dighayu atendeu as ordens e fez tudo para conquistar as graças do rei. O rei, cheio de alegria, confiou nele e o elevou a um alto posto.

Certo dia, o rei levou Dighayu a uma caçada. Dighayu, que conduzia a carruagem do rei, distanciou-se dos soldados e foi para o campo. O rei disse: “Jovem, pare a carruagem pois estou cansado e quero tirar uma soneca”. Dighayu parou a carruagem e sentou-se no chão. O rei usou o seu colo como travesseiro e caiu num leve sono.

Então Dighayu pensou: “Este rei é inimigo de meu pai e de minha mãe, que por causa dele perderam seu reino e suas vidas. Agora é o momento de me vingar”. Contente, puxou a espada e apontou-a contra o rei adormecido. Foi quando as últimas palavras do seu pai lhe vieram flutuando ao peito. Ao relembrá-las, pôs a espada de volta na bainha.

Duas, três vezes Dighayu pensou: “Agora é uma boa oportunidade. Eu tenho que me vingar”. Mas cada vez que empunhava a espada, as últimas palavras do seu pai o dissuadiam e novamente ele a embainhava.
Depois de certo tempo, o rei Bramadata abriu rapidamente os olhos e acordou, olhando em volta, cheio de pavor. “Grande rei, porque estais tão assustado e acordastes tão subitamente?” “Oh, jovem, enquanto eu dormia Dighayu, o príncipe de Kosala, estava me ameaçando com uma espada na mão. Por isso acordei tão apavorado”. Nesse momento, Dighayu segurou a cabeça do rei com a mão esquerda e desembainhou a espada com a direita, dizendo: “Grande rei, eu sou Dighayu, filho de Dighiti de Kosala. Trouxestes a miséria ao meu reino. Matastes meu pai e minha mãe. Nunca tive chance melhor para limpar-me do ódio”. Pondo a cabeça nos pés de Dighayu, o rei disse: “Por favor, Dighayu, poupa a minha vida”. Então Dighayu repetiu as últimas palavras do seu pai e pediu perdão ao rei por seu ato. O rei, surpreso e cheio de alegria, disse: “Muito bem, poupaste a minha vida e eu pouparei a tua!” Os dois, que pouparam um a vida do outro, deram as mãos e prometeram se ajudar a partir desse momento, jurando nunca fazer mal ao outro.

Os dois homens deixaram a caça e retornaram ao palácio. O rei reuniu os conselheiros e perguntou: “Se vocês encontrassem Dighayu, o príncipe de Kosala, o que fariam com ele?” “Eu cortaria as suas mãos”. “Eu cortaria os seus pés”. “Eu cortaria os seus pés e as mãos”. “Eu arrancaria as suas orelhas”. Houve várias respostas. O rei disse: “Essa espécie de ação não é mais necessária. Minha vida foi poupada pelo príncipe Dighayu e eu também poupei a vida dele”.

O rei, de frente com Dighayu, disse: “Caro Dighayu, qual é o significado das últimas palavras do seu pai?”

“Grande rei, sobre as últimas palavras do meu pai, Não olhe longamente significa não guarde rancor por muito tempo. Não olhe rapidamente significa não quebre amizades rapidamente, ódio não se extingue pelo ódio, mas extingue-se onde ele não existe, se por meu pai e minha mãe terem sido mortos pelo grande rei eu tirasse a vida do grande rei, os seus tirariam a minha. Se isso acontecesse, meus seguidores os matariam, e assim por diante. Por isso meu pai me ensinou pouco antes de morrer, o ódio nunca é extinto pelo ódio”.

“Aí, oh discípulos, o  rei Bramadata de Kasi louvou príncipe Dighayu pela sabedoria e devolveu-lhe o reino. Bramadata deu a aia e a própria filha como esposa a Dighayu de Kosala e eles fizeram o voto de eterna paz.”
“Oh, discípulos, este é o sinal da abertura e do gentil amor de um rei que carrega nas mãos armas e espadas. Vocês são monges que deixaram suas casas para entrar nesses bem explicados ensinamentos e disciplina, não é isso? Deverão também brilhar com um gentil amor e clemência. Oh, discípulos, vocês não deverão brigar. Não deverão continuar em desarmonia.”

A despeito da gentil admoestação pelo Honrado do Mundo, os discípulos discordantes a rejeitam, dizendo : “Rei Honrado do Mundo, esperai um pouco por favor, podeis entrar na profunda meditação de um Ser Honrado do Mundo, temos a responsabilidade de terminar esta briga”.

O Ser Honrado do Mundo pensa: “Esses ignorantes com a mente privada pela formalidade perderam de vista o espírito. Não é fácil raciocinar com eles”.

Eleva-se do assento e parte para vila Palaka, o bosque de bambu de Pacina, depois o bosque de Parileyysta e, finalmente, para morar, parou no parque de Rakita, longe da briga e do turbilhão. O prazer do silêncio de morar sozinho. O rei elefante também deixa às vezes a manada de fêmeas, machos e elefantes jovens a fim de gozar a paz e a quietude. Assim, o Ser Honrado do Mundo entrou em Sravasti e passou a residir no parque Jetavana.
Enquanto isso, a gente de Kosambi tinha raiva dos discípulos sem harmonia. “O Honrado do Mundo nos deixou por causa deles. Eles não nos trarão bem nenhum, vamos parar de cumprimentar e oferecer coisas. Assim eles voltam a ser leigos e deixam a sanga em paz. Isso trará a paz ao coração do Ser Honrado do Mundo”.  Dito e feito, eles suspenderam os donativos e os monges, magros e famintos, decidiram parar de brigar na frente do Ser Honrado do Mundo. Deixando para trás as almofadas, eles pegaram seus mantos e tigelas de oferendas e partiram de Kosambi para Sravasti.

Em Sravasti, Sariputra e uma hoste de outros discípulos perguntaram ao Ser Honrado do Mundo como tratar os discípulos vindos de Kosambi. Ele mandou diferenciar os corretos dos incorretos e tratar os corretos tão bem quanto possível. Entre muitos fiéis seguidores, até o velho Anathapindaka perguntou como eles deveriam ser tratados e soube que deveriam receber alimento igual aos outros.

Quando os discípulos vindos de Kosami entraram no Parque Jetavana, todos os discípulos que cometeram falha começaram a se dar conta do tamanho dela. Com isso o coração dos dissidentes foi amolecendo, todos mutuamente se uniram e mostraram um harmonioso espírito. Foram assim capazes de reviver uma sanga pacífica e harmoniosa na presença do Ser Honrado do Mundo.

Erramos:
Na Bodisatva 23 – edição inverno – primavera 2011 – no final da seção CLÁSSICO, p. 50, onde se lê “tradução em andamento de Marcelo Nicolodi”, leia-se “tradução em andamento da equipe do CEBB Caminho do Meio”.

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A revista Bodisatva foi criada na primavera de 1990 e parou de ser publicada em 1998. Em 2007, voltou a ser editada devido a uma nova fase do Budismo no Brasil, na qual se torna prioritário responder aos desafios culturais e sociais contemporâneos. O conteúdo continua oferecendo um olhar budista para todas as áreas da vida, da economia à ecologia, das artes à psicologia, dos relacionamentos amorosos aos corporativos. | Leia outros posts de


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