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Como a mente se engana?

por 17/10/2010 11 comentários

Eis uma pergunta que em algum momento qualquer praticante budista se faz: afinal de contas, se temos uma natureza livre, desobstruída, como é que nos enganamos? Como surge a ignorância?

Nem precisa ser praticante budista para pensar numa questão dessas: quem nunca teve alguma atitude lamentável e depois de um tempo não pensou “como é que eu fui capaz de fazer aquilo?” Por que só percebemos a bobagem um tempo depois e não antes de cometê-la?

Na palestra de lançamento do livro A Roda da Vida como caminho para a lucidez, em São Paulo, Lama Padma Samten esclarece com sua maestria e bom humor que, na verdade, a mente nunca se engana! Ela só opera dentro de uma determinada paisagem, com referenciais próprios. Essa paisagem seria como um ambiente mental, com referenciais e conceitos específicos. A mente sempre vai agir segundo esse ambiente em que está imersa, sempre respeitando os pressupostos da paisagem. Logo, a mente nunca erra!

A ignorância e o engano surgem quando reduzimos o mundo todo à paisagem em que estamos e passamos a agir segundo tal paisagem, não entendendo que ela é uma coisa bem particular e não corresponde a uma realidade absoluta.

Nosso mundo não é senão nossa experiência do mundo

Temos a sensação que a paisagem em que estamos é, de fato, o mundo todo. É daí que brota o engano: dessa certeza, dessa sensação de vermos tudo. Nem pensamos sobre o fato de que, quando vemos uma coisa, não vemos outra, quando estamos numa paisagem, não estamos em outra, logo, há uma limitação. É como a figura das pernas ali em cima: quando vemos as pernas masculinas, não vemos as femininas e vice-e-versa. O mesmo acontece no exemplo do cubo que o Lama Samten costuma usar.

É por isso que fazemos as bobagens: no momento da ação não vemos outras alternativas e por isso temos a certeza de que aquilo que estamos fazendo é o que tem que ser feito,  seja gritar com alguém, ou o que for. Isso não vale só para as “bobagens” da vida. Qualquer coisa que vemos e fazemos depende da paisagem em que estamos. É um processo muito sutil, basta olharmos para o nosso mundo interno que vamos começar a paulatinamente perceber que as paisagens determinam nossa visão de mundo.

Nessa mesma palestra, Lama Samten lembra que a humanidade passou séculos acreditando que o Sol girava ao redor da Terra.  O homem passou um longo tempo sem conseguir ultrapassar os limites dessa paisagem, tomando-a como fixa. Até que alguns homens corajosos furaram a bolha dessa paisagem e provaram para nossos olhos físicos que a visão de mundo tinha de ser expandida! Mas nós sabemos o quanto foi custoso para homens como Copérnico, Galileu e Giordano Bruno introduzir novas visões de mundo. As pessoas estavam fixadas à visão de mundo anterior a eles, assim como nós estamos fixados a muitas de nossas paisagens.

Mas afinal, como criamos as diferentes visões de mundo e como ficamos presos a elas? Lama Samten explica que nossa natureza livre e desobstruída cria as diferentes paisagens e até mesmo a própria fixação a elas. Essa compreensão é de crucial importância, pois percebemos que as paisagens em que as pessoas se encontram não são fixas, são construídas, portanto, podem ser substituídas por paisagens mais elevadas!

Para mim, a parca compreensão do conceito de paisagem foi muito libertadora! Perceber que os seres agem a partir das paisagens em que estão imersos me fez finalmente entender porque não há como julgarmos nada de certo e de errado, pois esses conceitos só fazem sentido quando analisamos uma ação com referenciais diferentes daqueles da paisagem em que a ação foi cometida. Por exemplo: eu direi que a atitude do meu namorado de gritar comigo está errada, pois EU não estou na paisagem onde o grito possa surgir, assim eu estou analisando a atitude dele a partir da paisagem em que EU estou e não a partir da que ELE está, logo, direi que ele está errado e que ele é um ser horrível por gritar comigo. Mal percebo eu que, basta ele pisar na bola que eu entro facilmente na paisagem que ele estava e passo a gritar com ele mais alto ainda.

Portanto, se estivermos numa paisagem muito negativa, do reino dos infernos, por exemplo, é completamente possível que venhamos a agredir ou até a matar alguém. Dentro da paisagem desse reino, matar pode parecer o correto a se fazer. Porém, sabemos que essas ações nos trarão muitos problemas. Além disso, como nossas paisagens flutuam o tempo todo, logo saímos da paisagem negativa,  percebemos o equívoco e vamos nos sentir muito mal. Por isso, precisamos olhar com cuidado para o nosso mundo interno e perceber com que paisagens estamos andando por aí e começar a transformá-las em paisagens mais positivas, para que enfim nossas ações também o sejam. Caso contrário, estaremos fazendo um monte de bobagens e nem vamos desconfiar disso, afinal, dentro das paisagens específicas as coisas fazem sentido.

Visão, meditação, ação

Lama Padma Samten nos lembra a todo o momento da nossa natureza livre, que nos dá a extraordinária possibilidade de construir as melhores paisagens, as mandalas positivas, que no Budismo chamamos de Terras Puras, onde os seres estão empenhados em construir ambientes mais lúcidos para benefício de todos.  Só iremos perceber que temos essa extraordinária natureza praticando a percepção dela.

Ainda que entendamos bem o funcionamento das paisagens, não estamos livres das paisagens negativas se instalarem sem percebermos. Não estamos livres delas, porque muitas vezes esse entendimento é só no nível de visão; é teórico, mas importante.  Mesmo entendendo bem das paisagens, eu mesma recentemente gritei enlouquecidamente com um amigo, virei um monstro na frente dele por questões bem pequenas.

Reconhecendo que o buraco é bem mais em baixo, precisamos investir na etapa da meditação, na qual tornaremos vivo o entendimento gerado na etapa de visão e assim reconheceremos a inutilidade do surto antes que ele tome conta de nós. Para então podermos efetivar a etapa de ação no mundo e realmente poder trazer benefícios verdadeiros aos seres!

Dedico esse texto a todos os seres sencientes, mas principalmente ao querido amigo com quem gritei recentemente. Minhas sinceras desculpas!

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Stela é uma aspirante à iluminação. Porém, tem diferentes distrações e desculpas esfarrapadas para não meditar. Pode ser encontrada no CEBB Caminho do Meio. | Leia outros posts de


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11 comentários »

  • Tweets that mention Como a mente se engana? | Bodisatva: um olhar budista -- Topsy.com disse:

    […] This post was mentioned on Twitter by RAGNER MORAIS, Andrew Rosa, Marcelo Arruda, Paulo Santana, Gustavo Gitti and others. Gustavo Gitti said: Como a mente se engana? http://bodisatva.com.br/como-que-a-mente-se-engana/ […]

  • Carlos Ernesto de Oliveira
    Carlos Ernesto disse:

    Que beleza! Caiu como uma luva! Obrigado!

  • Leonardo Janz disse:

    Que Maravilha de Texto!

    É isso o que devemos chamar de “a jóia dos desejos”. Rsrsrsrs.
    Muito recentemente eu lia outra preciosidade, do Budismo Kadampa, que, por ‘coincidência’, nos remetia quase que exatamente a esse mesmo ‘insight’! Ou seja.. Através da Bodichita (a mente da iluminação) uma vez que a temos atingida e estabilizada, passamos muito mais naturalmente a manifestar a Ação Correta – a qual é sempre Desempedida e Compassiva. :D

    Hehehe… Assim sendo, parabéns mesmo por essa jóia de sabedoria! Não tenho a menor dúvida de que esta ‘despretensiosa narração’ ainda há de beneficiar a muitos seres; isto porque, de minha parte, não resistirei em replicá-la também lá no meu Blog!

    Grato de coração,
    Tashi Delek,
    Léojanz.

  • Bruno disse:

    Stela,

    Você foi completamente bem sucedida no seu propósito de esclarecer mais, sobre como as relações podem acontecer…

    Fico muito feliz e realizado pela amizade sincera, e pela certeza de ter um coração especial!

    Obrigado por compartilhar a companhia, as risadas, os medos, a clareza e, especialmente: ter internamente a energia que consolida esses momentos que nos engrandecem, e nos fazem sentir amparados.

    Beijo no coração

  • Aqueles Caras disse:

    Seu amigo deve ser muito sortudo!! Imagina, fez merda e ainda por cima recebe de presente um texto como esse! É a prova cabal que Deus existe :)

  • Aqueles Caras Budistas disse:

    Viva! Glória a Deus!! Vamos orar !! (Se prostrando)

  • Filipe disse:

    Obrigado pelo texto! Como um colega acima disse, “caiu como uma luva” e na hora certa.

    Há um tempo eu comecei a ler, aos poucos, o blog e o livro “Meditando a vida” do Lama Padma Samten. Vejo o quanto é difícil colocar na prática todos os ensinamentos aprendidos na teoria.
    Tenho sentido na pele isso, pois começo a ver que tenho muito o que mudar em mim, pra que eu sinta minha vida funcionar de verdade, o que não sinto há um tempo.
    Os ensinamentos budistas têm sido muito importantes e acolhedores pra mim. Estão me dando a força e o esclarecimento necessários pra que eu comece a fazer algo por mim, pela minha vida.

    Obrigado, denovo!

  • Daniel Caldeira disse:

    Entendi!!

  • Dirlene disse:

    Depois de tanto tempo que vc postou o texto, Stela, acabo lendo-o bem no dia em que… pisei na bola… de novo! Obrigada!

  • Compradores necessitam realmente de muita informação antes de tomar uma decisão? | Conexões Estratégicas disse:

    […] o tom do discurso, mesmo budistas atribuiriam a ele um bom mérito por trazer o conceito de paisagens mentais (chamadas por Klaff de frames) ao mundo de […]

  • Juliana disse:

    Seis anos depois, e podia ter sido escrito ontem… Ou 5 mil anos atras.

    escolheu bem as palavras e a construção do texto, Stela.

    adiante nas nossas construções. Reais e imaginarias.

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