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Confie na bondade que existe em você

Como podemos cultivar uma real confiança em nós mesmos? Aprecie as respostas de Trungpa Rinpoche

Por
Tradução: Caroline Bertolino

Ao invés de tentarmos nos promover ou nos defender, diz Chögyam Trungpa Rinpoche, nós podemos basear as nossas vidas em algo mais poderoso e confiável – a nossa bondade essencial.

“Olhe no espelho: aprecie-se.
Você é belx de um modo simples e humilde”

A prática da meditação não é uma abordagem exótica e fora de alcance. É imediata e pessoal e envolve uma relação íntima conosco. É começar a nos conhecer examinando nosso processo psicológico atual sem nos envergonharmos disso.

Somos frequentemente críticos conosco ao ponto de nos tornarmos nossos próprios inimigos. A meditação é um caminho de encerrar essa luta fazendo amizade conosco. Então, poderemos perceber que não somos tão ruins quanto pensávamos ou disseram de nós.

Se nos rotularmos como casos perdidos ou nos enxergarmos como vilões, não há como usar a nossa própria experiência como base. Se tomarmos a atitude de que tem alguma coisa de errado conosco, devemos constantemente buscar fora de nós por algo melhor do que somos. Essa busca pode continuar indefinidamente, sem cessar.

Em contraste com essa abordagem, a meditação é contatar a nossa situação atual, a raiz e o estado áspero de nossa mente e ser. Não importa o que esteja aí, deveríamos olhar para isso. É similar a construir uma amizade de longo prazo com alguém. Como parte do processo de se tornar amigx, você começa a conhecer coisas que não gosta na outra pessoa, e encontra partes da relação que são muito desconfortáveis.

Reconhecendo os problemas e chegando a um acordo com eles é frequentemente a fundação para uma amizade de longo prazo. Tendo incluído essas coisas desde o início, não nos assustaremos mais tarde. Como você já conhece todos os aspectos negativos, você não precisa esconder esse lado da relação. Então, você pode cultivar o outro lado, o lado positivo, também. Esse também é um ótimo caminho de começar a fazer amizade consigo. Do contrário, você pode se surpreender ou se sentir alvo de traição quando descobrir as coisas que tem escondido de você.

O que quer que exista em nós é uma situação natural. É uma outra dimensão da beleza natural. As pessoas algumas vezes percorrem grandes distâncias para apreciar a natureza, escalar montanhas, ir a um safári, ver girafas e leões na África, ou fazer um cruzeiro na Antártica. É muito mais simples e mais imediato apreciar a nossa própria beleza natural. É, na verdade, ainda mais bonita do que a fauna e flora exóticas, ainda mais fantástica, colorida, dolorida e deliciosa.

A meditação é extremamente “pé no chão”, irritantemente pé no chão. Pode também ser exigente. Se você permanecer com ela, irá compreender coisas sobre você e sobre as outras pessoas, e assim ganhará clareza. Se praticar regularmente e seguir essa disciplina, suas experiências não serão necessariamente dramáticas, mas você terá uma sensação de descobrir a si mesmx.

Através da prática de meditação “com o pé no chão” você pode ver as cores da sua própria existência. A terra começa a falar com você ao invés de o céu começar a enviar mensagens, por assim dizer.

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Foto: Matthew Henry | Unsplash

“Se você desenvolver uma real confiança em si, a autodefesa constante não será mais necessária”

Nós frequentemente abordamos a vida como se estivéssemos nos defendendo de um ataque. Muitos de nós, quando estávamos crescendo, fomos frequentemente repreendidos de maneiras que nos fizeram sentir mal conosco. Independente da crítica ter vindo dos nossos pais, de uma professora da escola, ou de outra pessoa, isso reforçou um sentimento de que havia alguma coisa de errada conosco.

A crítica frequentemente produziu um sentimento de isolamento, um sentimento de você e eu, separados por uma grande divisão. Nós aprendemos muitos mecanismos de defesa em uma idade precoce, pensando que uma boa defesa seria a melhor proteção para uma futura reprovação.

Nós continuamos essa abordagem enquanto adultos. Seja uma confrontação com uma pessoa estranha na rua ou uma argumentação com nosso parceiro na cama, acreditamos que precisamos de boas desculpas para nos explicar e de uma boa lógica para nos defender. Nos comportamos quase como se fôssemos negociadores profissionais, nossos próprios pequenos advogados.

Na psicologia ocidental, algumas abordagens ressaltam a importância de reforçar o ego elevando a autoestima. Podemos interpretar mal isso achando que deveríamos nos promover às custas das outras pessoas. Uma pessoa pode se tornar muito autocentrada com essa atitude.

É como se você estivesse dizendo ao mundo “Você não sabe quem eu sou? Eu sou o que eu sou. Se eu sou atacado por isso, é muito ruim. Estou do lado correto”. Você se justifica pelo que está fazendo, como se Deus estivesse do seu lado, ou pelo menos a lei e a ordem estivessem do seu lado.

Talvez devêssemos reexaminar essas premissas para ver o que realmente funciona. Precisamos investigar se é benéfico nos colocar pra cima, especialmente se isso significar colocar as pessoas lá embaixo. Precisamos seriamente questionar o que é prejudicial e o que é benéfico. Em minha própria experiência, percebi que empregando uma atitude autocentrada e estando constantemente na defensiva não são úteis.

Em vez de reforçar nosso senso de eu e nos justificar constantemente, deveríamos basear as nossas vidas em alguma coisa mais poderosa e confiável. Se desenvolvermos uma confiança verdadeira em nós mesmos, a autodefesa constante não é mais necessária.

Para começar, precisamos olhar dentro de nós. Quando olhamos, o que vemos? Pergunte a você: “Há algo valoroso e confiável em mim?”. Claro que há! Mas é tão simples que tendemos a perder isso ou negligenciar. Quando olhamos dentro de nós, tendemos a nos fixar em nossas neuroses, inquietação e agressão. Ou podemos nos fixar em quão maravilhosos, realizados, e invulneráveis nós somos, mas esses sentimentos são geralmente superficiais, mascarando as nossas inseguranças.

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“Celebre a sua capacidade por simples atos de generosidade e gentileza”

Dê uma olhada. Há algo mais, algo maior do que tudo isso. Nós estamos dispostos: a esperar, a sorrir, a sermos decentes. Não deveríamos desperdiçar esse potencial, essa poderosa semente de gentileza. Até mesmo o animal mais vicioso possui uma natural afeição e gentileza pela sua prole. Esse elemento de gentileza existe em todos os seres. Não precisamos nos embaraçar com isso ou tentar esconder. Não precisamos nos identificar como meninos ou meninas ruins ou heróis ou heroínas. Podemos reconhecer e cultivar a gentileza e, primeiro de tudo, nos tratar de modo mais gentil.

Vale a pena nós apreciarmos, termos afeição por nós, e tomar cuidado de nós mesmos. Genuinidade, bondade e apreciação são presentes extraordinários. Ultimamente, é onde repousamos a nossa confiança. Essa confiança é tão verdadeira que não precisamos fingir de nenhum modo. Ela é real.

Cada um de nós é capaz de se amar. Nós também somos capazes de nos apaixonar. Somos capazes de beijar as pessoas que amamos. Somos capazes de estender nosso braço para dar as mãos. Podemos oferecer uma refeição a alguém, dando as boas vindas a ele ou ela na mesa, dizendo “Olá. Como você está?” Somos capazes dessas coisas simples. Estamos apresentando tais atos ordinários de bondade por um longo tempo.

Geralmente, não damos muita importância para essa capacidade, mas de algum modo deveríamos. Deveríamos celebrar ou ao menos reconhecer nossa capacidade pelos simples atos de generosidade e gentileza. Eles são a verdadeira coisa, e no fim são muito mais poderosos e transformadores do que a agressão, egomania e ódio.

Quando você se aprecia, você percebe que você não precisa se sentir miserável ou condenado. Você também não precisa se colocar para cima artificialmente. Você descobre a sua dignidade básica, que vem junto com a gentileza. Você sempre possuiu isso, mas pode nunca ter reconhecido isso antes. Você não precisa ser egocêntrico para se apreciar. Na verdade, você se aprecia mais quando está livre da feiura do egotismo, que na verdade é baseada no ódio por si mesmx.

Olhe no espelho. Aprecie-se. Você é belx de uma maneira simples e humilde. Quando escolhe as suas roupas, quando escova o seu cabelo, quando toma banho, você está expressando um elemento de completa e fundamental bondade, vigília e decência. Há uma alternativa ao invés de se sentir condenado. Na verdade, você pode fazer amizade com você.


Adaptado de Mindfulness in Action: Making Friends with Yourself through Meditation and Everyday Awareness, por Chögyam Trungpa.


Caroline Bertolino é psicóloga, facilitadora do Cultivating Emotional Balance e do programa Mindful Self CompassionSaiba mais aqui.


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