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Considerações sobre o Lam-Rim

Gueshe Lobsang Jamyang ensina: o Lam-Rim, o caminho gradual para a iluminação perfeita, é o melhor detergente para lavar a sujeira da mente

Por
Transcrição: Wimerson Gomes
Tradução: Tenzing Chimey (tibetano-inglês), Lama Padma Samten (inglês-português)

Temos nas mãos a oportunidade de tocar neste precioso texto sobre o Lam-Rim, o caminho gradual para a Iluminação, do Lama tibetano Geshe Lobsang Jamyang, do Colégio Seramey do mosteiro tibetano de Sera (reinstalado na Índia). Notável por sua compaixão e bom humor contagiantes, fundou, em sua passagem em Porto Alegre, o “Jamyang Choekhorling – Centro de Estudos Tibetanos”. A palestra foi proferida em tibetano na Grande Fraternidade Universal de Porto Alegre, em 1992, vertida ao inglês pelo prof. Tenzing Chimey, ao português pelo Lama Padma Samten, na época Alfredo Aveline e foi publicada na Revista Bodisatva nº7.


Há no nome Lam-Rim duas palavras tibetanas importantes:
uma é “gradual” e a outra “caminho”.
Devido a limitação de tempo, trataremos esquematicamente o assunto.
Inicialmente, vamos compreender a própria palavra. Lam-Rim:
Caminho gradual que conduz à iluminação completa.

Este caminho é abordado em três etapas – inferior, intermediária e superior – indicando a capacidade e a habilidade de praticar, que variam segundo as pessoas. Nem todos são iguais. Diferentes pessoas têm diferentes interesses e aspirações. Para melhor servi-las, Buda estabeleceu as etapas inferior, intermediária e superior do caminho. Esta é a razão do nome “Caminho Gradual”.

Como os três níveis se diferenciam? Tomemos, por exemplo, três tipos de negociantes. Alguns fazem pequeno comércio com bancas, na beira da calçada. Sua atividade é pequena, o investimento é pequeno e também o lucro deve ser pequeno. Já os industriais, investem mais dinheiro porque querem mais lucro. Contrabandistas e traficantes, que trabalham com drogas, querem dinheiro ainda mais rápido. Mais risco, porém, mais lucro. Não vamos diferenciar o nível de atividade em termos de resultado, de lucro. O mesmo exemplo pode ser aplicado a três diferentes pessoas que seguem as três categorias de caminho para a iluminação.

Aquele que segue o caminho inferior é, digamos assim, vendedor de calçada. Seu maior interesse é evitar cair nos níveis inferiores da existência. Ele busca alguma prática do Darma. “Para quê?”, perguntam-lhe. E ele diz: “Eu não quero renascer num nível inferior da existência”, temendo o que possa acontecer na vida seguinte. Ele sabe que depois da morte há outra existência e ela depende da prática presente. Sabe que os níveis inferiores são mais desconfortáveis que o do ser humano.

Passar a próxima existência num inferno é pior do que renascer como homem. O inferno é um nível inferior de existência. Por isso, as pessoas tentam fazer alguma coisa nesta vida, para não renascerem em sofrimento maior. Buscam algum caminho espiritual, para evitar um mau renascimento. Esta é a motivação pequena, das pessoas em nível inferior, para as quais existe no Lam-Rim o caminho inferior adequado.

O segundo caminho é o intermediário. Como os industriais, que têm ambições maiores mas sabem que isto significa mais trabalho e investimento, nele as pessoas sabem que não basta renascer como ser humano, pois vão enfrentar os mesmos tipos de problema que enfrentam hoje: “Se tenho problemas agora, renascendo como ser humano os mesmos problemas vão se manifestar”.

Por isso falamos de “existências cíclicas”, de algo sem fim, chamado “samsara”, em sânscrito. Cansadas e aborrecidas, essas pessoas querem a liberação da existência cíclica. Para elas, existe o caminho intermediário adequado para liberá-las do samsara.

O terceiro caminho é o superior. Como os contrabandistas, que fazem mais cálculos e sabem ser melhor renascer como seres humanos do que no inferno, nele as pessoas calculam: este não é o estágio final, entre uma vida e outra teremos o mesmo tipo de problema. “Isto não basta!” dizem. “Quero a iluminação completa. Afinal, a menos que eu atinja a onisciência, a onipresença, a condição de Buda, não posso ajudar de fato os seres sencientes. Não basta me livrar dos níveis inferiores do samsara. Quero atingir a condição de Buda e liberar todos os seres sencientes. Quero um caminho que conduz à iluminação completa”. Para essas pessoas, há no Lam-Rim o caminho superior.

Por isso o Lam-Rim se chama o Caminho Gradual para a Iluminação. Como a pessoa decide liberar-se do nível inferior? O que a faz decidir? O que move o conhecimento do caminho adequado. Nele, ela tomará contato com a preciosidade do corpo humano. É muito raro, efetivamente, nascer com um corpo humano. Neste momento somos humanos, mas após a morte não temos certeza de renascer com um corpo humano. Poderemos renascer animais, insetos ou espíritos. Nada nos garante a grande sorte de renascer humanos. O corpo humano é muito precioso.

Quando o Lama deu este ensinamento no Tibete, um chinês de Pequim, assistindo a aula, comentou: “Não posso acreditar num velho monge tibetano que diz que é muito raro nascer humano! Existem bilhões de pessoas na China!” Como se vê, às vezes é difícil acreditar. Mas se compararmos a população humana com a de insetos, compreenderemos como é difícil renascer humano e não rato, barata, formiga.

Nossas próprias ações determinam a forma do renascimento. Infinitas vidas passadas determinaram o renascimento humano de cada um de nós. Comparados a outros seres sencientes, somos um tipo muito especial de criatura. Temos o cérebro bastante desenvolvido e faculdades inteligentes que outros seres não têm. Podemos observar e racionalizar o que os animais não podem. Somos capazes de conversar numa língua compreensível a todos; seres inferiores, não. Temos a capacidade de pensar, sentir e expressar isto.

O que torna os humanos mais valiosos do que ouro ou gemas preciosas. Por isso sofremos e ficamos tristes ao pensar que somos impermanentes e vamos morrer um dia. Quanto mais nos aproximamos do fim da vida, mais nos damos conta de quão preciosa ela é. Começamos a pensar sobre a própria vida. O que fizemos? E nos damos conta de que foi quase nada, nos sentimos mal porque jogamos energia fora em pensamentos mundanos e passageiros. Só perdemos tempo com discussões defendendo o ego e não há mais tempo de voltar atrás, a morte bate à porta cada vez mais forte.

E a pessoa se dá conta da sua impotência frente à morte. Ela pensa: “E depois? Como será o renascimento?” E tem dúvida: “Tenho que fazer algo para evitar isso!” Mas não sabe como agir. Ainda que saiba, não tem tempo. Sabe como evitar um mau renascimento, mas já não há tempo para realizá-lo. Além do mais, não sabe a data de sua morte, não dá para colocar na agenda! Ainda que a morte seja indubitável, a pessoa se dá conta de que outros seres não têm a possibilidade de praticar o Darma, mas ela sim.

Ela pode seguir um caminho espiritual, e isso determina o seu destino. Antes que seja tarde, ela decide seguir um caminho espiritual. A pessoa que toma a decisão a esta altura da vida está no nível inferior e só quer evitar um mau renascimento. Se voltar como ser humano, está resolvido. Não há como escapar à morte. Rico ou pobre, bonito ou feio, rei ou mendigo, seja for a posição social, a postura, a capacidade mental, não há como escapar. Todos vão morrer e renascer. Nascemos para morrer e morremos para nascer, até, afinal, atingirmos a iluminação completa.

Mas normalmente não pensamos nestes termos. Somos espertos e inteligentes; podemos cantar rock e dançar. Os pássaros podem cantar. Nós podemos construir coisas belas e destruí-las. Temos inteligência e esperteza mas, ainda assim, não pensamos na vida seguinte. Somos bobos inteligentes. Porque não nos questionamos frente a esta energia que uns chamam de “alma”, outros de “ego”, uns de “consciência”, outros de “mente”. Há algo nesta área.

Morremos, e o que acontece? O que se passa quando renascemos? Para onde vamos após a morte? Para onde? Isto é você. Somos nós. Isto é o que você tanto preza e chama de “eu”.

Se você se ama tanto, observe a condição de ser na próxima vida. Muitos perguntam qual é o destino após a morte. De acordo com o Darma, o fato de o homem morrer para renascer homem, de animais renascerem animais, ou de a mente-consciência, que alguns chamam de alma, migrar de uma para outra forma de existência, depende de nossas ações. Se temos consciência, vemos que quando a morte vem, nossos amigos não podem ajudar. Nem nossos pais. Não podemos levar dinheiro ou poder político. Inteligência, beleza e força física não ajudam. Só o Darma pode ajudar.

Usamos a palavra Darma não apenas para o Darma do Buda. Nela incluem-se todas as religiões. Todas têm por objetivo a purificação da mente, a salvação da humanidade. Seja qual for sua fé ou religião, é hora de segui-la sinceramente. Não insisto que o Darma mais importante a ser seguido seja o de Buda. Impor isto seria errado. Diferentes religiões existem porque há diferentes interesses, perguntas e inclinações filosóficas entre as pessoas. Nenhuma religião, isoladamente, pode responder a todas as perguntas.

Assim, é bom que haja uma diversidade de religiões, assim como há diferentes indivíduos. A minha ênfase é no sentido de não ficar afastado da vida espiritual, mas seguir com fé um caminho. O homem não pode, jamais, ficar separado da espiritualidade. Não há separação, a entidade física e a espiritual são uma só. Sem unidade, não há equilíbrio.

No caminho intermediário, a pessoa quer se liberar da existência cíclica. Ela espera não renascer como ser humano, inseto ou animal. Quer transcender a existência cíclica, libertar-se do samsara. No caminho adequado, ela vai praticar as Quatro Nobres Verdades: o sofrimento, a origem do sofrimento, a cessação do sofrimento e o caminho que conduz a essa cessação. Isto não é difícil de compreender.

Na existência cíclica, a própria existência tem como essência o sofrimento. Nascer no samsara é sofrimento. Algumas pessoas perguntam, “mas como, se gosto de viver assim?” É que há tempos bons, em que gostamos de nós mesmos. Como entender que o próprio renascer em samsara tem a natureza do sofrimento? A alegria temporária que usufruímos em vida não é a liberdade última, não é a felicidade mais elevada; é a ideia convencional de felicidade.

Uma vez que nós existimos no samsara, o sofrimento é seguido pela felicidade e esta pelo sofrimento; novamente, não há como escapar deste círculo vicioso. Tudo o que consideramos felicidade é temporário, não é permanente. Ou seja, temos que transcender a nós mesmos e adquirir a pureza. Assim, a Primeira Nobre Verdade, é a do sofrimento e a Segunda compreender a sua causa ou origem. Quando encontramos a origem do sofrimento, somos capazes de compreender, também, a sua natureza. Então, estaremos aptos a compreender a Terceira Nobre Verdade, a da cessação do sofrimento.

Nesse ponto, vamos compreender que existe um caminho, uma forma de interromper este sofrimento. Há um modo de liberarmo-nos do sofrimento. Realizar este conhecimento é a quarta etapa, o caminho que conduz a liberação do sofrimento. Aí temos, então, as Quatro Nobres Verdades.

No caminho superior, ou Mahayana, a pessoa não mais está centrada na própria liberação e sim preocupada com todos os seres sencientes. Esta atitude é chamada “mente altruística positiva”. Dentro disso, pratica-se o aperfeiçoamento pelos seis Paramitas. Esses três níveis de prática não são independentes, mas se complementam. No estágio inferior, percebe-se quão preciosa é a vida humana. Compreende-se, também, a impermanência desta existência, a certeza da morte e assim por diante.

Com o avanço no caminho espiritual desenvolvem-se aspirações mais elevadas, como a liberação da existência cíclica, no estágio seguinte. Chegando ao nível superior, desenvolve-se a mente altruística da compaixão e a pessoa assume, para si mesma, a responsabilidade de promover o bem-estar de todos os seres. Sem entrar em mais detalhes do Lam-Rim, vou tentar explicar a razão dos diferentes aspectos do caminho que estão aí para serem praticados.

Por que tanta complicação no caminho espiritual? Todos nós possuímos a essência de Buda, todos nós temos o potencial de atingir a consciência de Buda. Mas, o que é esse potencial? O que é a essência? O que é a causa de Buda? É a natureza inata, própria da mente, que é a luminosidade.

Nossa mente está contaminada por emoções aflitivas e ilusões, como um rio escuro e sujo. Nossa natureza inata e verdadeira é incapaz de revelar-se como realmente é, e de se descrever a si própria. Oculta debaixo das emoções aflitivas, como o sol que brilha por trás das nuvens escuras, como remover essas contaminações, purificar esse rio escuro, recuperar essa natureza inata luminosa e pura? Precisamos de técnicas, métodos, caminhos, formas de fazer.

O Lam-Rim, ensinado pelo próprio Buda, é capaz de purificar nossa mente iludida até a iluminação. “Por este caminho”, disse Buda, “atingi a iluminação. Eu o mostrarei a quem quiser segui-lo”. Assim, neste sentido o Lam-Rim não é uma teoria, mas um método provado, um caminho experiencial. Uma vez percorrido por alguém, outros podem percorrê-lo. Ele tem muitos nomes.

Para uns é o caminho Sutraiana, para outros a linhagem Gelugpa ou a linhagem Nyingmapa, que o chama de “Gota da Essência”. A linhagem Sakiapa usa o nome de “Lam-De”. O sistema Kaguiupa tem igual conteúdo. E o objetivo de todos é o mesmo.

Seja qual for o termo técnico que se lhe dê em diferentes sistemas, o Lam-Rim, “Caminho Gradual”, tem um só propósito: lavar a sujeira da mente, lavar suas emoções aflitivas. Aí, podemos dizer que o Lam-Rim é o melhor detergente, a melhor máquina de lavar! Quem segue o caminho para a iluminação, na prática como no espírito, ganha o estágio final, pois a luminosidade é dentro de nós mesmos.
Lam-Rim

Foto: Jim DiGritz

A pessoa brava cria uma confusão tão grande que até os gatos dão voltas para não entrar em casa. Emoções aflitivas determinam nossas ações, nossa fala, nosso comportamento, nossas atitudes. Elas dão cor a isso. Já não somos nós mesmos, isso não é projeção da mente pura dentro de nós.

É como se outra pessoa agisse, uma criação de nossas próprias emoções aflitivas. O passo para contrapor-se a tal situação, através do Lam-Rim, leva à perfeita tranquilidade, à paz permanente, à personificação da perfeição. O tipo de perfeição que a mente pode conceber está além das definições, dos pensamentos, da imaginação e das palavras que possam descrevê-la.

Mas é triste nada fazermos para progredir, comportando-nos nas infinitas vidas como escravos das emoções aflitivas. Estas se tornam profundamente enraizadas em nosso ser. Não é fácil lutar contra elas. Logo, o Caminho Gradual não é fácil. Podemos entender por que é precioso o renascimento como ser humano: possuímos o Buda Primordial, temos a essência da condição de Buda e somente nós, humanos, possuímos tal condição.

Se deixamos um metal precioso dentro da lama por muito tempo ele vai deteriorar. Sua propriedade básica transforma-se. Ele se oxida e vai acumulando sujeira no processo de mesclar-se. Da mesma forma, se mantivermos o corpo humano imerso nas emoções aflitivas, essa natureza preciosa, inata da mente, nunca vai ser purificada. Vai se perder, como o metal precioso na lama.

Agora vocês sabem o que é preciso fazer para purificar a mente, e entendem o importante propósito de purificá-la. Podem, ao menos, lembrar o nome do caminho, o método de purificação que chamamos de Lam-Rim. A escolha de manter esta mente preciosa na lama ou fazer um esforço para lavá-la é sua, pois trata-se da mente de vocês. E vocês querem felicidade, não sofrimento. Neste sentido também posso dizer que é o caminho do Darma do Buda e o caminho para a liberação.

Não se trata de uma religião, no sentido tradicional da palavra, mas de um caminho, que pode ser seguido por qualquer pessoa que queira atingir este nível de liberação. Há outras religiões, outras fés igualmente purificadoras da mente. Mas, em suma, o Caminho Gradual, Lam-Rim, é o detergente para quem quiser limpar a própria mente.


O texto acima foi publicado originalmente na Revista Bodisatva nº 07, em 1994. 


Acervo Bodisatva

1 Comentário

  1. Magnífica explicação do caminho!

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