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Dalai Lama: Entrevista à Rede ABC da Austrália

por 14/06/2013 2 comentários

Transcrição e tradução da entrevista à rede de televisão ABC da Austrália, em 13 de junho de 2013.

Clique aqui e veja o vídeo da entrevista em inglês.

Sua Santidade o 14 º Dalai Lama se reúne conosco em Sydney para compartilhar seus pensamentos sobre a autonomia tibetana, sobre não se encontrar com a primeira-ministra australiana, e sobre a presença sempre invasiva da tecnologia em nossas vidas.

Leigh Sales, Apresentadora: Nos últimos três anos, foi relatado que mais de cem tibetanos atearam-se fogo – a chamada auto-imolação – para protestar contra e a brutalidade e o domínio chinês . É uma tendência preocupante em um país que está há muito engajado em protestos não-violentos contra a China.

O Dalai Lama, líder espiritual do país, sempre defendeu uma abordagem pacífica para resistir à opressão. Mas, a medida que o poder da China cresce e o Dalai Lama envelhece – ele agora 78 anos – há dúvidas sobre sua influência estar diminuindo.

Embora o Dalai Lama venha regularmente na Austrália, incluindo nesta semana, a primeira-ministra, Julia Gillard, nunca concordou em encontrá-lo, e no início deste ano a Universidade de Sydney cancelou os planos para sediar um evento com o líder religioso no campus, por medo de incomodar a China.

Leigh Sales: Sua Santidade, obrigado pelo seu tempo.

Dalai Lama: (coloca as mãos em prece)

Leigh Sales: Você vê alguma possibilidade de reconciliação entre o Tibete e a China, ainda durante a sua vida?

Dalai Lama: Ah, sim, com certeza. Eles precisam aceitar a realidade. Você vê, nós temos nossa própria cultura diferente, idioma diferente, essas coisas, então, uma autonomia significativa, é ter todo o direito de manter essas coisas únicas, e ao mesmo permanecer como povo da China, esse é o nosso próprio interesse; o Tibete materialmente ficou para trás. A China agora se tornou realmente a maior potência econômica no mundo; por isso, é nosso próprio interesse. E sobretudo, veja, pensar em um tipo de soberania, estas coisas não são tão relevantes. Veja a União Europeia.

Leigh Sales: Desde Fevereiro de 2009 ocorreram mais de 100 auto-imolações feitas por tibetanos em oposição ao domínio e às políticas chinesas. Isso quer dizer que os tibetanos estão perdendo a paciência com a não-violência?

Dalai Lama: Não. Eu acho que a auto-imolação em si é uma prática de não-violência. Essas pessoas, você vê, poderiam facilmente usar bombas explosivas atingindo mais pessoas, produzindo mais vítimas. Mas eles não fazem isso. Apenas sacrificam suas próprias vidas. Então, isso também faz parte da prática da não-violência.

Leigh Sales: Considerando a sua importância para manter a atenção das pessoas sobre este assunto, você teme que o governo chinês esteja esperando a sua morte para que possa aplicar uma repressão mais dura sobre o Tibete para tentar encerrar esta questão?

Dalai Lama: Alguns radicais estão pensando dessa forma. Mas alguns, incluindo os mais duros, sentem que com o Dalai Lama, é um pouco mais fácil. Se o Dalai Lama não existir mais, então não haverá ninguém, nenhum tibetano, que possa representar seis milhões de tibetanos.

Leigh Sales: Então, você acha que os tibetanos precisam temer o que irá acontecer depois de sua morte, nesse caso?

Dalai Lama: Claro que espírito tibetano permanecerá. A instituição Dalai Lama existe por cerca de 400 anos ou 600 anos assim, e o Budismo, e a nação tibetana por mais de 2.000 anos. Assim, no futuro, também, sem o Dalai Lama, a nação tibetana permanecerá, o espírito tibetano permanecerá.

Leigh Sales: Como você interpreta o fato de a primeira-ministra australiana, Julia Gillard, ter se recusado a se reunir com você?

Dalai Lama: Ok. Sem problemas. A minha principal preocupação é me encontrar com o público, porque o meu principal compromisso, o meu interesse principal é a promoção do valor humano, da afeição humana, da compaixão e da harmonia religiosa. A primeira-ministra que está muito (inaudível) com essas coisas. (Risos) Se eu tenho algum tipo de agenda política e procuro pela primeira-ministra, e então ela declina o meu pedido para me ver, então eu sinto decepção, mas não tenho nada a perguntar a ela.

Leigh Sales: Você mencionou anteriormente que a influência econômica da China está crescendo. É um risco para você a China se tornar mais influente, os políticos de todo o mundo ficarem com medo de encontrar com você porque não querem ofender a China?

Dalai Lama: Não. Não tem problema. Sem problemas. Eu acho que a verdadeira mudança virá de dentro do Tibete, não de fora.

Leigh Sales: Você tem medo da morte?

Dalai Lama: É desnecessário temer a morte. A morte faz parte da nossa vida. (Risos) E também, o budismo é uma tradição espiritual em que nós aceitamos a vida após a morte. Assim, a morte significa mudar nossas roupas. As roupas se tornam velhas, então é tempo de mudar. Portanto, este corpo se torna velho e, em seguida, chega o tempo de tomar um corpo jovem.

Leigh Sales: Quando você olha para trás, para a sua vida, você não se tornou o Dalai Lama por sua própria vontade, foi involuntário. Você já desejou que as coisas tivessem sido diferentes e que você não fosse o Dalai Lama?

Dalai Lama: Isso seria irrealista. Quer eu goste ou não, eu já me tornei o Dalai Lama, então é melhor assumir a responsabilidade, e um determinado modo de vida de acordo com isso. É muito melhor.

Leigh Sales: Você sempre parece tão feliz e calmo. Você tem que fingir isso em algum momento?

Dalai Lama: Não. Como praticante budista e eu sempre digo às pessoas que devemos ser honestos, verdadeiros. Então, automaticamente, você pode agir de forma transparente. Se você tiver uma atitude egocêntrica, em seguida, falar de compaixão, então há contradição. Você não consegue agir de forma transparente, assim você tem que fingir algo.

Leigh Sales: Você tem às vezes que conter emoções como raiva, tristeza, irritação?

Dalai Lama: Mmm. Algumas vêm e se manifestam imediatamente. No outro dia (inaudível) – o oficial chegou um pouco atrasado, então eu imediatamente me expressei, (risos) assim (apontando como se estivesse castigando oficial). Como um ser humano, a raiva é uma parte de nossa mente. Irritação também faz parte da nossa mente. Mas você pode perceber – a raiva vem, e vai. Se guardá-la dentro de você, criará muita dúvida, muita desconfiança, muitas coisas negativas, mais preocupação.

Leigh Sales: Bem, Sua Santidade, eu não quero irritá-lo, tomando muito do seu tempo, por isso muito obrigado.

Dalai Lama: Obrigado. (Mãos em prece)

Tradução e transcrição: Jeanne Pilli

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2 comentários »

  • Paulo Tonon disse:

    Eu sou um admirador de sua Santidade, mas gosto também de vários Lamas, inclusive Lama Padma Samten. Se vcs puderem me enviar outros posts eu agradeceria…

    Trashidelek

  • surdar disse:

    Mesmo em meio a ignorância a compaixão se apresenta, se submete ao escandaloso por amor ._/\_

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