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Dalai Lama: Responsabilidade universal e o meio ambiente global

por 11/09/2013 Comente!

Em Maio de 2013, Sua Santidade o Dalai Lama participou de um encontro sobre o
meio ambiente em Portland, Estados Unidos

Sua Santidade O Dalai Lama iniciou o seu quarto dia em Portland, Oregon (EUA),
concedendo uma pequena entrevista que constará de um documentário sobre
meio ambiente que está em fase de produção no Maitripa College. Ele expressou
preocupação não somente por aqueles que estão vivos hoje, mas pelas gerações futuras,
sugerindo que os problemas ecológicos podem eventualmente não nos afetar, mas
certamente afetarão os que virão depois de nós se não agirmos. Ao ser perguntado
sobre como o pensamento compassivo pode mudar o mundo, ele disse:

“Um dos meus sonhos, talvez um sonho impossível, é aproveitar o potencial de
energia solar de lugares como o deserto do Saara e usá-lo para executar instalações
de dessalinização que irão produzir água limpa. Este é um projeto que geraria amplos
benefícios e que funcionaria em uma escala que exigiria a cooperação global”.
Diante de uma pergunta sobre o que o deixa feliz, ele respondeu: “ver
outras pessoas
 sorrirem”.

Seu próximo compromisso foi uma conferência de imprensa no Veterans Memorial
Coliseum, onde ele inicialmente esboçou o que considera os três compromissos de
sua vida: explicar a ideia de que a felicidade humana depende das preocupações que
tenhamos para com os outros; estimular a harmonia inter-religiosa e trabalhar para
preservar a cultura, a linguagem e a religião tibetana. Nesse último caso, Sua Santidade
sublinhou a responsabilidade que conserva mesmo estando aposentado politicamente
e não exercendo hoje em dia papel formal na política tibetana. Ele expressou também
sua visão de que a mídia tem um papel importante para apresentar ao público uma visão
realista do mundo. Para fazer isso, eles precisam “ter um nariz comprido, como uma
tromba de elefante, para farejar o que está acontecendo, tanto na frente como por detrás
das cenas”. Por fim, ele mencionou sua convicção da necessidade de introduzir a ética
secular em nossas sociedades de modo a trazer de volta às nossas vidas um sentido de
valores internos.

Indagado sobre o que anseia a cada dia, ele respondeu:
“Eu dedico meu corpo, minha mente e minha fala ao benefício dos outros,
mas 
isso não significa que eu negligencie meus próprios interesses.
Preciso manter minha saúde e 
força em dia se eu quiser ser efetivo nas
minhas
ações”.

E sobre uma pergunta acerca das relações com a China, ele disse:
“As coisas estão mudando, mas os 1,3 bilhão de chineses têm o direito de conhecer
a realidade do que está acontecendo e, uma vez que eles tenham compreendido essa
realidade, eles próprios serão capazes de julgar o certo e o errado. Portanto, a censura
que existe atualmente na China é prejudicial, moralmente errada e conduz a uma
desconfiança das autoridades. Enquanto isso, os camponeses chineses sofrem um
destino miserável que só será aliviado se o sistema legal chinês for capaz de se alçar aos
padrões internacionais”.

Da conferência de imprensa Sua Santidade seguiu para participar de uma reunião de
cúpula ambiental sob o tema “Responsabilidade Universal e o Meio Ambiente Global”,
ao lado do governador do Oregon, John Kitzhaber, de Andrea Durbin, diretor-executivo
do Conselho de Meio Ambiente do Oregon e do cientista David Suzuki, que apresenta
a série de televisão canadense, “The Nature of Things”. As discussões foram moderadas
por David Miller, apresentador do programa de televisão “Think Out Loud.” Sua
Santidade foi apresentado a uma plateia de mais de 10.000 pessoas pelo senador Jeff
Merkley. Sua Santidade tinha uma série de argumentos sobre a urgência da situação
ambiental:“Em 1959, eu consegui escapar do Tibete para a Índia em razão dos problemas
que enfrentávamos lá, mas se o nosso mundo como um todo passa a se deparar com
problemas então não há mais lugar para onde possamos escapar. Na condição de
monge budista, eu não tenho filhos com as quais me preocupar, mas estou certo que
o Governador e outros painelistas têm. Nós devemos nos preocupar com o futuro de
nossos filhos e netos. Permitir que o abismo entre ricos e pobres continue a crescer não
é apenas moralmente errado, mas é também um equívoco em termos práticos. Não é
que tenhamos que tornar os ricos mais pobres, o que precisamos é encontrar meios de
melhorar a sorte dos pobres”.

David Suzuki comentou:
“Nós já ultrapassamos muitos pontos de ruptura, mas não me parece que faça sentido
simplesmente dizer que é tarde demais”.

Andrea Durbin concordou que, em escala global, a mudança climática é a grande
questão e que não fizemos nem perto do suficiente para enfrentá-la, mas ponderou
que, em um nível local, há outras questões, como bebês nascendo já vítimas da
poluição. Nesse sentido, Durbin mencionou que existem hoje 43 produtos químicos
não regulamentados sendo repassados para os bebês ainda no ventre. O governador

John Kitzhaber acrescentou que vivemos em uma economia baseada no consumo e que
precisamos de uma nova medida de como ela funciona. “É o nosso estilo de vida que é
importante”, Sua Santidade respondeu, “mas a liberdade também é importante.
O fosso entre ricos e pobres significa que os pobres não são livres. Precisamos encontrar
maneiras de restringir voluntariamente nossa ganância e consumo e encorajar outros a
fazê-lo também.  Buscando nosso próprio interesse, precisamos ser realistas; esta é a
razão por que a educação é tão importante.Precisamos desenvolver uma forma mais
satisfatória de vida”.

O Governador Kitzhaber enfatizou que não é apenas o que consumimos, mas a nossa
taxa de consumo que precisa ser enfrentada, enquanto Andrea Durbin disse que a velha
ideia que costumava decorar para-choques – “Pensar globalmente, agir localmente” –
ainda é muito relevante.

Questionado sobre o que pode ser aprendido com a visão budista do meio ambiente,
Sua Santidade ressaltou que à época das vidas dos fundadores das grandes religiões não
existiam problemas ambientais. No entanto, ele sente que é instrutivo que o Buda não
tenha nascido em um palácio, mas debaixo de uma árvore. Ele alcançou a iluminação
não em uma caverna, mas sentado debaixo de uma árvore e ele não faleceu em um
monastério, mas deitado sob uma árvore. Pelo código de disciplina monástica, monges
são incentivados não só a plantar árvores, mas também a cuidar delas. Dentro do
contexto de seu modo itinerante de vida, os monges que vêm depois se comprometem
a cuidar das árvores plantadas por aqueles que vieram antes. O singular conceito
filosófico budista de interdependência pode ser visto funcionando em todo o ambiente
natural e é relevante para todos os campos de atividade. A partir disso podemos ver,
sugeriu Sua Santidade, que a felicidade humana depende de levar em consideração os
outros.

Houve consenso sobre a necessidade de uma nova visão a respeito do meio ambiente
em um novo espírito de cooperação. David Suzuki afirmou que precisamos de uma
mudança de paradigma a respeito de nosso lugar no planeta. Segundo ele, soa contrário
ao ethos norte-americano dizer: “nós não podemos”. O Governador sugeriu que ao
mudar nosso modelo econômico precisamos ter clareza acerca do que desejamos. Nesse
sentido, ele ressaltou que, na ocasião em que o presidente Kennedy lançou o programa
espacial dos Estados Unidos, ele não apenas estabeleceu o roteiro mas também indicou
claramente o ponto de destino.

Sua Santidade concluiu com uma explicação dos três níveis de compreensão.
“Primeiro ouvimos ou lemos e recolhemos informações; Depois nós pensamos sobre
o que aprendemos e passamos a analisar o assunto a partir de diferentes ângulos.
Finalmente, tornamo-nos completamente familiarizados com o que compreendemos.
Este é o caminho para alcançar uma firme convicção, sobre a base da qual podemos
mudar o nosso modo de vida”.

O Governador Kitzhaber convidou os palestrantes para almoçar na companhia de dois
senadores do Oregon e do prefeito de Portland. Na parte da tarde, o deputado Earl
Blumenauer apresentou Sua Santidade para um público de quase 11.000 pessoas. Sua
Santidade começou de um modo habitual:

“Irmãos e irmãs, eu estou muito feliz de estar aqui com a oportunidade de compartilhar
alguns dos meus pensamentos com vocês. Estou ansioso para ouvir suas perguntas
estimulantes com as quais eu também posso aprender. Eu também gostaria de aproveitar
esta oportunidade para agradecer aos organizadores, que tornaram isto possível. Nos
últimos 2-3 dias nós tivemos um monte de conversa sobre o meio ambiente, um assunto
sério. Mas agora, eu vou falar principalmente sobre compaixão, isto é, ter um genuíno
sentido de preocupação com os outros. Todas as grandes tradições religiosas têm o
potencial de produzir grandes praticantes dedicados a servir os outros. Mas também
há pessoas que, cada vez mais, têm pouco interesse na religião. Elas continuam a fazer
parte da humanidade; eles também precisam da prática da compaixão”.

“A raiz da compaixão é um fator biológico: O afeto que recebemos de nossas mães
quando nascemos. Essa afeição, que nada tem a ver com a prática da religião, é crucial
para a nossa própria sobrevivência. Além do mais, constitui uma qualidade humana
singular ser capaz de estender nosso senso de compaixão até o bem-estar dos outros.
Se confinamos a nós mesmos a valores materiais e externos, em detrimento de valores
internos como a compaixão, nunca iremos achar o contentamento que é a marca real da
verdadeira felicidade”.

Ele citou o exemplo do prazer que obtemos ao comprar um carro novo; por uns poucos
dias, podemos ficar realmente excitados. Mas, se depois de um mês ou dois, nosso
vizinho compra um carro novo, começamos a pensar em como o nosso é velho e feio, e
desejamos nos livrar dele. Não foi o carro que mudou, mas a nossa atitude para com ele.
Em tal contexto, Sua Santidade sugere que precisamos fortalecer valores internos
tais como contentamento, paciência e tolerância, bem como compaixão pelos outros.
Essa é a atitude que Sua Santidade intitula de ética secular. Tendo em mente que são
expressões de afeto, em vez de dinheiro e poder, que atraem amigos verdadeiros, a
compaixão é a chave para garantir o nosso próprio bem-estar.

Na hora das perguntas, indagaram a Sua Santidade como as pessoas poderiam ajudar o
Tibete e seu povo. Ele respondeu:

“Sempre que vocês se encontrarem com os nossos irmãos e irmãs chineses,
compartilhem com eles um quadro real do que está acontecendo no Tibete, das
qualidades da cultura tibetana e do que está acontecendo com ela. Ajude-os a
cumprirem o dito de Deng Xiaoping: “buscar a verdade a partir dos fatos”.
Há uma pergunta sobre como evitar cair em tristeza e desespero diante das dificuldades,
ele citou Shantideva, o mestre indiano do século oito, que aconselhou que nós
avaliássemos os problemas com os quais nos deparamos. Se eles podem ser superados,
não há necessidade de se preocupar, o que precisamos fazer é tomar as medidas
necessárias para tal. Se eles não podem ser superados, a preocupação não tem utilidade;
melhor fazer outra coisa em seu lugar.

No final da palestra de Sua Santidade e ao final de suas aparições públicas, em Oregon,
os membros do público apresentaram lenços de seda brancos ou katas para ele, a
partir de seus assentos na arena, e, em seguida, penduraram-nos ao redor de seus
pescoços. De repente, o auditório estava repleto de branco. Sua Santidade mostrou
seu apreço pelo gesto do público explicando que o costume tibetano de oferecer tais
lenços deriva de uma tradição indiana de oferecer um xale; o material é de seda, que
tradicionalmente veio da China, e nos lenços constam versos auspiciosos escritos em
tibetano. Finalmente, ele disse que a textura lisa e a cor branca indicam a virtude de
viver uma vida calma e pacífica, com um coração puro.

O anfitrião de Sua Santidade, Yangsi Rinpoche, se adiantou para demonstrar a sua
gratidão e desejar a Sua Santidade uma vida muito longa. Enquanto acenava para a
multidão, que aplaudia, as palavras de despedida de Sua Santidade foram:

“Somos todos seres humanos, o potencial que eu tenho, vocês têm também”.

Tradução: Sergio Ferraz

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