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Diferenças

por 5/12/2010 5 comentários

 

Por que tenho e temos opinião formada sobre tantas coisas? Por que somos Flamengo ou Fluminense, PT ou PSDB, gostamos ou não de pagode, rock, música clássica, mulheres louras e magras ou morenas bem fornidas, ou não gostamos de mulher? As preferências pessoais são livres, e é saudável que existam diferenças. Que seria das louras magras se todos preferissem as morenas roliças? Tenho tentado pensar de forma desapaixonada nessas questões. Torço pelo Fluminense, certamente não porque seja o melhor time, mas porque meu avô era Fluminense, e, por causa do meu avô, meu pai também era Fluminense. Se não fossem, eu poderia ser Flamengo ou Vasco. Se torcer por um time fosse algo racional eu hoje torceria para o São Paulo, talvez. Ser homo ou heterossexual, gostar de praia ou montanha, ser extrovertido ou calado é tudo questão de carma. A grande maioria de nossas escolhas é irracional e automática, conseqüência de muitas vidas, nossas ou de outros.
 
Em assuntos sem maiores conseqüências, como futebol, pouca diferença faz que escolhas fazemos, embora existam muitos que vêem o futebol como assunto seriíssimo, a ponto de provocar ódios e mortes. No Maracanã, quando o Fluminense faz um gol, pulo e comemoro, mas não consigo mais deixar de olhar a torcida adversária calada e triste. Inversamente, quando levamos um gol e a torcida adversária comemora, penso que toda aquela gente também merece alegria. Da perspectiva de alguém lá do alto, de Google Earth, como diz minha amiga Karla, talvez fosse mais justo a torcida do Flamengo, mais numerosa, comemorar. Embora continue gostando muito de futebol, torcer nunca mais será o mesmo para mim.
 
Perigoso é quando pensamos que nossas escolhas são as únicas certas e passamos a hostilizar quem é diferente, pensa diferente ou apenas nasceu em um lugar diferente. Somos iguais em um aspecto fundamental, o desejo de sermos felizes, e, mais que isso, o direito à felicidade. O traficante pensa que sua atividade é um atalho para a felicidade. Que a polícia ou quadrilha adversária querem bloquear seu caminho até lá, justificando assassinatos. Quando alguém resiste a entregar seu carro ou sua bolsa a um ladrão, está perigosamente resistindo a entregar o que, para ele, parece ser a passagem para a felicidade. Da mesma forma, a vítima do assalto não quer que alguém leve embora a felicidade armazenada na bolsa ou no valor do carro. O corrupto quer alcançar uma casa na praia, um carrão, belas mulheres, sensação de poder, alguns milhões em um paraíso fiscal, qualquer coisa que abafe a angústia de se sentir miserável e infeliz a cada manhã. O argentino que quer ser campeão mundial, o colega de trabalho que disputa conosco uma promoção, o motorista do outro carro que disputa conosco uma vaga no shopping lotado, o chefe que parece nos exigir mais do que podemos ou queremos dar, todos tentam fugir da infelicidade.
 
Porém, qualquer idéia de sucesso que passe pela dor alheia é ilusória. Se buscássemos matar a sede de felicidade na fonte correta, se víssemos com clareza e caminhássemos na direção correta, caminharíamos todos na mesma direção, cada um a seu modo, e não haveria disputas. Quando alguém ergue a cabeça acima da manada, do ponto de vista do Google Earth ou mais alto ainda, e vê além da ignorância, não há mais separação. Nada que antes dividia faz mais sentido. Só faz sentido o que é bom para o todo.
 
Seria bom se, cada vez que eu encontrasse resistência ou ouvisse uma opinião diferente da minha, eu pensasse nisso. Creio que a bússola está dentro de nós, indicando o Norte. No silêncio podemos ouvir a parte de nós que é anterior à ignorância, que escuta além do ruído, e vê além dos obstáculos.

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Ralph Antunes é médico cardiologista, 52 anos, torcedor do Flu, nascido e residente em Niterói RJ (é fluminense duas vezes), frequenta a Sangha do CEBB Niterói desde 2002. | Leia outros posts de


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5 comentários »

  • Monica Pinto da Veiga disse:

    Prezado Ralph, Nossa amiga Sabina me apresentou à sua escrita. Gostei particularmente do texto Diferenças, muito bom. E… parabéns pelo título!

  • Guto
    Guto disse:

    Bonita reflexão.
    Parabéns.

  • natasha disse:

    Muito bom seu site…

    “Faça o bem sempre que possível; se não puder fazer o bem, tente não fazer o mal”.

  • Luiz disse:

    Talvez as diferenças existam para tornar esse mundo interessante. O mar seria enfadonho, com uma consciência de “apenas” um lago muito grande se não fossem as ondas diferentes em todos os dias e em todas as horas.

    No caso das consciências humanas, as diferenças permitem múltiplas e infinitas experiências, para um dia a alma cansar e dizer, “chega, quero ir adiante, as experiências foram tantas que agora ficou monótono”…. ahaha… “quero mudar a ‘faixa de frequencia’ da consciência e de experiência!”.

    Esse é um pensamento de uma “mosca” (eu) em relação a ela mesma, e para concluir daí que existe esse mundo de experiência (e das muitas diferenças) para quem sabe um dia acordarmos em (ou intencionarmos) uma consciência maior, “mais iluminada”. Não é isso realmente que buscamos? A felicidade é mais uma mera ilusão desse mundo da experiência.

  • eduardo elias disse:

    muito legal o seu texto. enxuto e simples direto ao ponto

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