Capa do Livro Educação Valente. Foto: Lúcida Letra.

Educação Valente

Livro recém lançado pela Lúcida Letra levanta o tema de uma criação superprotetora e inspira pais para uma educação focada na autonomia

Por
Revisão: Fábio Rocha

Na busca incessante por evitar que as crianças sejam expostas ao sofrimento, pais tentam garantir que as questões e problemas de seus filhos sejam resolvidos de imediato, ou até mesmo evitados, certos de que, desse modo, serão mais felizes e viverão mais tranquilamente.

Este diagnóstico sobre a crença básica por trás da criação de filhos é levantado pela autora Krissy Pozatek em seu livro “Educação Valente — um guia de inspiração budista para formar crianças com resiliência emocional”. Com esta premissa, a obra tem o intuito de discutir a importância de rever este modo de educação e, para tal, utiliza a poderosa metáfora da confecção dos sapatinhos na vida das crianças.

Aprender a cobrir nossos próprios pés

A metáfora é baseada nas palavras do sábio budista Shantideva em “O Caminho do Bodhisattva”, que diz que, ao invés de nos preocuparmos em forrar todo o caminho com folhas de couro, mais sábio seria confeccionar nossos próprios sapatos de couro, e nos tornarmos nós mesmos capazes de proteger nossos próprios pés. “Onde se poderia encontrar tal quantidade de couro? Mas com solas de couro apenas nos meus sapatos é como se eu cobrisse toda a terra!”, coloca o sábio.

Confeccionar os sapatos de couro significa compreender que é mais urgente e lúcido contemplar a impermanência e preparar nosso mundo interno para lidarmos com adversidades e mudanças, do que demandarmos energia para tentar garantir que o mundo externo dê conta de todas nossas expectativas e apegos.

Assim, durante todo o livro vamos entendendo que o uso que Pozatek faz desta metáfora condiz com a equivocada tentativa dos pais de forrarem os caminhos de seus filhos, tentando protegê-los de qualquer desconforto, ao invés de despenderem energia e tempo em contribuir para que as crianças possam confeccionar seus próprios sapatinhos. Neste caso, a confecção dos sapatinhos de couro corresponde à habilidade de conhecer e aprimorar seus próprios recursos internos para superar as adversidades da vida.

De modo muito didático, a autora nos apresenta uma obra recheada de conceitos exemplificados, de propostas de exercício e reflexão para os pais, além de tarefas e sugestões muito claras de como esse suporte familiar pode passar a confiar mais e mais em suas crianças, compreendendo que elas podem e devem crescer assumindo a responsabilidade de suas próprias vidas.

Felicidade “construída” não significa saúde emocional

Para a abordagem dessa proposição de sua obra, Pozatek, que também é terapeuta e orientadora parental, se utiliza de estudos e experiências com o budismo e com a terapia da natureza — que consiste em benefícios à saúde (mental e física) proporcionados pelo contato com ambientes naturais. Para ela, ambos os conceitos apresentam métodos simples para muitos dos problemas domésticos, e se resumem a uma visão de “menos é mais”.

A verdade é que já não é mais novidade para ninguém de que no ocidente a busca desenfreada e até imprudente pelo prazer externo — o que erroneamente entendemos como felicidade — , corresponde a uma inumerável e sempre constante procura por soluções e formas para tornar a vida cada vez mais fácil e prática.

Conscientes desse movimento, os pais — que, como a terapeuta coloca, “querem ficar bem na fita” — acabam por não perceber que muitos de seus esforços em facilitar a vida de seus filhos os torna incapazes de vivenciar as emoções e as adversidades de modo adequado. Desesperados em privá-los de qualquer possibilidade de estresse, ansiedade, tristeza ou decepção, não conseguem compreender que esta felicidade construída por eles, infelizmente, não significa saúde emocional.

Uma vez que as crianças se acostumam a ter seus caminhos sempre forrados a qualquer possível sinal de embate ou problema, elas, na verdade, acabam se tornando cada vez mais dependentes e ansiosas. Além disso, ao invés de serem capazes de compreender suas próprias emoções e se fortalecerem a partir de suas próprias experiências, os filhos começam a acreditar que há um problema em sentir emoções negativas, que é a forte mensagem cultural que tem sido difundida pelo ocidente.

Entretanto o que ela coloca, apoiada no conceito de impermanência, é que não há como sermos capazes de evitar os problemas nos caminhos dos filhos e que muito mais justo seria se os próprios pais também parassem para olhar seus próprios sapatinhos, a fim de observar se eles não estão passando uma mensagem errada às suas crianças, evitando também suas próprias emoções.

O ensinar pelas costas

Neste sentido, ler a obra de Pozatek nos remete com frequência a um dos ensinamentos mais difundidos e conhecidos do Lama Padma Samten: o “ensinar pelas costas”. A terapeuta se preocupa em questionar e provocar os leitores, principalmente os pais, a estarem atentos aos seus próprios movimentos. Fica nítido sua preocupação em não apenas sugerir e ensinar um método de educação, mas também em nos lembrar de que apenas podemos cobrar responsabilidade emocional de nossas crianças, se estamos atentos em apresentar para elas um mundo onde as emoções negativas também não são evitadas pelos adultos.

É preciso entender que o lar deve ser um ambiente que os faça se sentir seguros, mas também que seja um lugar de transparência das emoções, onde os conflitos domésticos sejam honestamente discutidos e experienciados, para então serem superados de um modo mais natural.

Validando as emoções das crianças

Entre tantos conceitos e abordagens apresentados na obra, acredito que um dos mais ricos e abrangentes seja sobre a importância de validar as emoções de nossas crianças. Depois de compreendermos que todas as emoções são vitais, sejam elas positivas ou não, Pozatek fala sobre como precisamos estar conscientes de nossas respostas automáticas para podermos de fato permitir que a inventividade criativa dos filhos venha à tona.

educação valente

Foto: Katii Bishop

A autora mostra que muitas vezes estamos tão interessados em proteger os pequenos, que não damos tempo para eles processarem suas próprias emoções. Por exemplo, se uma pequena diz “acho que meu rosto é estranho”, automaticamente já respondemos dizendo que é bobagem e que ela é linda, atentos em evacuar qualquer possibilidade de frustração da vida da criança.

Para a autora, este tipo de estratégia acaba por se tornar inválida e vazia depois de um tempo, sendo aplicada sem discernimento. A criança, ao invés de se sentir apoiada e feliz, começa a questionar suas próprias sensações e impressões, e até pensar que talvez o problema seja com ela, por não ser capaz de superar a própria frustração.

Pozatek diz que estes pequenos casos são as melhores oportunidades que os pais têm de validar a emoção de seus filhos. Ou seja, ao invés de já tentar resgatar sua filha, talvez os pais possam validar aquilo que ela sente e se mostrarem curiosos. “Estou vendo que você se sente confusa. Como seria um rosto estranho?”.

Ao invés de automaticamente evitarmos um possível problema — que na verdade nada mais é que nosso próprio medo — confiamos que a criança, com toda sua capacidade criativa e inteligência, comece um processo de autoconhecimento, permitindo também que ela possa encontrar soluções e respostas sozinha.

Nas relações, a responsabilidade emocional tem duas vias

Educação Valente” é uma leitura indicada tanto para aqueles que têm crianças em suas rotinas — sejam alunos, sobrinhos, netos, etc — como também para aqueles que não tem contato com crianças e inclusive para os que eventualmente possam até não curtir muito lidar com os pequenos.

Ainda que eu não tenha filhos, por várias vezes me identifiquei com os exemplos — vivências e conflitos internos presentes na vida de qualquer um — e também pude refletir sobre a minha própria relação com meus pais, o modo como lido com o mundo e como vi meus pais lidarem. Sendo filha de pais bastante atenciosos, reconheci em vários momentos de minha criação as consequências de um cuidado às vezes excessivo.

Ao morar sozinha pela primeira vez, compreendi o quanto meus pais tinham tornado minha vida fácil demais — e não exatamente simples. Isto resultou numa menina de 18 anos que sofreu um pouco para aprender coisas nem tão difíceis assim, como cozinhar, lavar a própria roupa, trocar uma lâmpada queimada, lidar com insetos no quarto, etc.

Claro que compreender isto agora não diz respeito a responsabilizar somente meus pais pelos percalços que tive que enfrentar devido ao amor que me proporcionaram. No fim, suas proteções provinham de uma fonte genuína de verem sua filha feliz. Poder notar isto nesta fase adulta não é o fim do caminho de uma vida com saúde emocional, e sim mais uma oportunidade de me responsabilizar pelos meus próprios sapatinhos.

Ao final das contas, a abordagem proposta por Pozatek, ou seja, permitirmos que as crianças tenham real responsabilidade dentro de qualquer relação — que deve ser sempre mútua, e elas que estejam conscientes de que seus comportamentos têm consequências e afetam as pessoas ao seu redor, nos faz necessariamente ponderar sobre a nossa própria responsabilidade emocional em todas as nossas esferas de relações. Afinal, estar a par da causa e efeito de nossas emoções e comportamentos é, por fim, o segredo para uma vida com mais resiliência.


Indicamos

Educação Valente — um guia de inspiração budista para formar crianças com resiliência emocional, de Krissy Pozatek. Você pode adquirir o livro Educação Valente da editora Lúcida Letra aqui →


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