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Em tempos de álcool gel…

por 9/09/2009 28 comentários

mao-suja

Quem conhece a rodoviária de Porto Alegre sabe que não é um ambiente muito agradável para passar o tempo. Pois lá eu estava, sentada num banco sujo, esperando o ônibus para Garopaba, cuidando da bagagem e da bolsa, passagem à mão, vivenciando este tipo de stress que antecede em toda viagem. Estranhamente, no entanto, apesar de ser tomada por ansiedade seguidamente, neste momento estava muito tranquila e relaxada. Minha mãe, sentada ao meu lado no meio do banco, esperava comigo.

Passava o tempo esperando a fila de embarque diminuir, observando a movimentação do ambiente. Muita gente ao redor, alguns passando com pressa, outros com um vagar de quem aguarda.

Pelo canto do olho, me chama a atenção um homem que se move meio cambaleante. Estava vestido com roupas de quem precisa de algo: dinheiro, banho, comida, algo. Pedia, então. Vi que parava ou abordava as pessoas e estendia a mão como quem espera receber moedas. Ele vem se aproximando na direção do banco onde nós estamos. Uma senhora na ponta de lá, minha mãe no meio e eu na ponta de cá.

Ele se coloca em frente a esta senhora e estende a mão. Ela o despacha com um abano ríspido. Ele dá um passo ao lado e se coloca em frente a minha mãe. Porém, antes que estenda a mão, sua visão percebe a muleta apoiada no banco ao meu lado. Ele para, me olha, gira o corpo e se aproxima. Posiciona-se em frente a mim e levanta o braço vagarosamente. Só que a mão, desta vez, não está em concha a pedir esmola e sim estendida como em um cumprimento.

Minha mente congela por um instante e então dispara em pensamentos do tipo: a mão está suja. Onde está mão andou? Há quanto tempo ele não lava a mão? Eu vou ter que viajar com a mão suja, o que faço agora? Mas alguma coisa, certamente, em seu olhar e seu jeito delicado me faz concluir num impulso: tem banheiro no ônibus, eu posso lavar a mão depois!

Então apertamos as mãos. O cumprimento termina, soltamos as mãos. Vagarosamente ele se aproxima ainda mais e movimenta seu braço em direção ao meu rosto. Minha mãe, ao meu lado, se agita e quase intervém em meu “socorro”. Com algum receio, fico parada e me acalmo ao focar seu olhar de puro carinho!

Seu gesto, a seguir, foi o de acariciar minha face delicadamente como um pai amoroso. Ele então pergunta meu nome. Eu respondo e retribuo perguntando o dele também. Penso em abrir minha carteira e ao mesmo tempo ele leva a mão ao bolso de sua calça, tira uma única moeda e me entrega.

Eu vacilo e perco a linha por um momento dizendo: “Não, não, não precisa!”. Ele, com elegância, pousa a moeda no meu joelho e diz: “Para comprar um doce para a viagem”. O tempo parece que flui diferente, envolvente, uma experiência da mais pura amorosidade com um estranho!

Na hora certa ele se despede e diz: “Fica com Deus”. E eu retribuo: “Vá com Deus”. Ele me olha uma última vez e sai andando sem olhar para trás. Eu seguro a moeda com lágrimas nos olhos e ao olhar para o lado vejo que minha mãe também está emocionada. Até a senhora no canto do banco está observando, pasma.

Após um tempo assimilando o acontecido, murmuro baixinho meio que falando sozinha: “Dizem que eles andam por aí…”.

“Quem?” minha mãe pergunta meio atordoada, sem entender. “Os bêbados?”.

“Não”, digo, “os Budas”.

Pausa.

Ela responde: “É. Pode ser. Se tu não fores muito exigente”.

Esta resposta, que a primeira vista me pareceu prosaica, cada vez que me vem a lembrança, adquire maior profundidade. Almejo atingir um estado em que possa ver a natureza búdica se revelando em todos os seres, sem expectativas de como um Buda deveria ser: sujo ou limpo, alto ou baixo, jovem ou idoso.

Que todos os seres sencientes possam realizar e expressar sua natureza luminosa!

O que fiz com a moeda? Minha mãe também me fez esta pergunta: “ O que vais fazer com a moeda?”.

Num primeiro momento pensei em guardar, mas no dia seguinte, já em Garopaba, ao entrar em uma lojinha de artesanato, vi uma fonte. Esculpida em pedra, na bacia inferior muitas moedinhas brilhavam. Pensei em um pedido digno daquela experiência transcendente e joguei a moedinha na fonte.

Qual foi o pedido que fiz?

Importa?

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Luisa é uma leonina com ascendente em Capricórnio que não consegue mais se levar tão a sério... e acha isto um alívio! É torcedora fanática do CEBB Porto Alegre. | Leia outros posts de


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28 comentários »

  • Sol disse:

    Tão lindo, Luísa, justo o que eu precisava pra começar meu dia com o coração generoso!
    Realmente, se estivermos atentos, os Budas são inúmeros, nas mais variadas formas.
    Obrigada por lembrar-me disso!
    beijo
    Sol

  • Vanessa Leite
    vanessa disse:

    uau.

  • clarice disse:

    Minha iluminada Luisa…
    Há muito te conheço,através das falas encantadas de tua amiga e colega Josane,
    Pois é a Josane que mais uma vez me oportuniza te encontrar.
    Desta vez sinto tua alma, teu brilho a se transformarem em poesia.
    A vida é um presente sim, pq existem pessoas que como tu, ” dispensando o alcool gel” , nos mostram o caminho do coração;
    Valeu minha querida!!!

  • Henrique Luis disse:

    oi!

    Eu só queria saber se isso que tu escreveste é mesmo verdade, só isso.
    Nada é por acaso na vida!
    Obrigado pela compreensão desde já.

  • Luisa Levandowski
    Luisa (autor) disse:

    Oi!
    Puxa! Lindo que a emoção continue a repercutir! E que passe pelo texto também. Fico muito feliz de compartilhar a alegria que senti na ocasião.
    Sabe, aconteceu mesmo como está relatado. A única liberdade que tomei foi com o título, pois ocorreu há uns dois anos, no verão. O texto ficou guardado e só agora apareceu a ocasião de divulgar. Achei que seria apropriado o paralelo com nossos dias de tantos cuidados com a higiene. Mas confesso que se fosse hoje não sei se teria o mesmo desprendimento! rs

  • Andréia disse:

    Oiê, Mocinha Amada…
    Muito, muuuuuiiiito lindo teu relato!!!
    Obrigada pela partilha de sempre…
    Adoro dar risada com você!!!
    Com Amor…
    Beijinhos…
    No Dharma…

  • sandra leite disse:

    Generosidade gera generosidade….Fiquei emocionada e meso assim gostaria de saber do pedido…

  • john spencer disse:

    nada mais que confeitaria

  • Camila Dias disse:

    Oi, Lu!
    Esse texto, além de tocante, é um ensinamento profundo. A gente lê nas entrelinhas, o que o Lama diz, repete, fala de novo e não entra na nossa cabeça. Mas agora, com esse exemplo vivo ilustrando, a “moeda caiu”.
    Tu és uma pessoa de muita luz, uma bodisatva!
    Muitos méritos!
    Beijos!

  • Flávio disse:

    Simplesmente linda essa vivência. E o momento do “alcool gel” extremamente oportuno. Muita luz!

  • Stela
    Stela disse:

    Maravilhosa sua experiência, Luisa. Lindo momento, por você estar aberta e deixar tudo acontecer, e pela pessoa que não estava centrada apenas nos problemas dela.

  • Adriana disse:

    Muito belo,
    Fico pensando o quanto perdermos com nossa visão limitada……..qtas aprendizagens no dia a dia……..bastando para isso estarmos atentos e com o coração aberto.Nossos preconceitos, nossa visão estreita, os rotulos, medos, falsa segurança…………nos afastam cada dia mais de nós mesmos.
    Bjs

  • Silvia disse:

    Luisa,

    Linda mensagem. Não sabia que escrevias. Conhecia tua alma de artista, tua alma de colega, tua alma de bondade. Agora estou conhecendo tua alma escritora… Faz tempo que tu já transcendeu em sensibilidade.
    Parabéns!!!
    Bjs

  • cristian disse:

    Maravilhoso! Nos faz lembrar como é bom “baixar a guarda” e vivermos o momento. Belíssima experiência búdica! Agradeça muito pelos méritos que garantiram essa experiência!

  • Carmen Navas Zamora
    Carmen disse:

    Como diz minha amiga Teresa Bessil, emaho!
    Ao olhar pra você, ele teve nascimento como um ser generoso. Esqueceu que antes se encontrava na condição de pedinte e passou a oferecer. Que isso possa se repetir muitas vezes, com todos os que exigem muito dos outros sem lembrar o quanto podem doar, repartir, criar, inventar e fazer brotar em benefício dos seres.

  • Manoel Felipe disse:

    Oi Luisa!
    Adorei o seu artigo no blog Bodisatva. Parabéns!

    É, realmente os Budas se manifestam de várias formas e geralmente nos dão ensinamentos fazendo aflorar o que ainda precismaos aprender e não enxergamos.

    Um abraço!

    Felipe

  • Lia disse:

    Lindo!

    “Que todos os seres sencientes possam realizar e expressar sua natureza luminosa!”

    Todos o são. Pode ter certeza.

  • Douglas S disse:

    Recebi o texto de um amigo e não posso deixar de dar os parabéns pelo texto.

    Me fez lembrar como é interessante a noção de Momento. E muitos ainda pensam que o tempo é constante.

    DS.

  • Melissa Flores
    Mel disse:

    Lindo texto, que experiência bonita!
    obrigada por compartilhar!

  • Luis (bonsai) disse:

    Luisa,

    Que experiência maravilhosa! Também não sabia desta tua veia literária. Conhecia tuas telas que sempre aprecio quando vou na tua casa. Mas este teu relato me emocionou sobremaneira. Vou acessar esta pagina com frequencia para ver se tu nos brinda com mais algum texto maravilhoso como este. Carinhosamente do teu xará masculino

    Luis

  • José Benetti
    José Benetti disse:

    Luísa querida,

    realmente uma transformação fantástica essa de pedinte para ofertante. Que sempre isso possa acontecer.

    um carinho

  • Galeno disse:

    Oi Luisa

    Quem bom ler essa história!

    Bjs

  • Pedro disse:

    Bonita experiência, Luisa. Obrigado por a ter compartilhado conosco =)

  • João Bosco disse:

    Momento maravilhoso e o divino em manifestação presente. Energia pura e sensível. Sentinte, pensante, desejante e feliz.
    A Paz Esteja Contigo e em suas emanações.
    João Bosco

  • Diana disse:

    Lindo relato.

  • leonardo de oliveira martins disse:

    iae jão só d boa

  • gabriel hilbig disse:

    Entrei neste texto sem querer e fiquei impressionado. Os testes para nosso altruismo podem ocorrer a qq momento. Os seguidores ou simpatizantes dos preceitos budistas devem trabalhar a mente p q a respostas em situacoes inesperadas como estas sejam sempre de amor ao proximo.
    Parabens Luisa

  • Guto disse:

    Luiza!
    …Em qualquer momento, em qualquer lugar, com qualquer pessoa… podemos agir com coragem e desapego…elevando o nível energético da nossa alma…revelando no cotidiano, pelas nossas atitudes, a nossa solidariedade… livre de qualquer juízo e pré-conceito, apenas, com o propósito de recuperar nossa dignidade…parabéns pela sua plenitude…obrigado pela oportunidade!

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