Eve Ekman, durante entrevista com a Revista Bodisatva. Foto: Luciana Zacarias

Até onde podemos ir com as nossas mentes?

Eve Ekman esteve em São Paulo, em maio, a convite da Tibet House Brasil. Entre as atividades, conversou com a Revista Bodisatva

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Revisão: Bruna Crespo

Esbanjando simpatia e inteligência, a norte-americana Eve Ekman é uma dessas pessoas com as quais você gostaria de ficar horas conversando. Por um convite da Tibet House Brasil, ela esteve em São Paulo para ministrar o Workshop Cultivando Equilíbrio Emocional e Identificando Micro Expressões Faciais, em maio.

Pesquisadora com pós-doutorado no Centro Osher de Medicina Integrativa da Universidade da Califórnia, em San Francisco (EUA), Eve Ekman é especialista nas áreas de propósito, empatia e esgotamento profissional — conhecido como síndrome de burnout. É também instrutora do programa Cultivando Equilíbrio Emocional, criado a pedido de Sua Santidade Dalai Lama por Paul Ekman, psicólogo americano pioneiro no estudo das emoções, e pelo professor Allan Wallace.

A humanidade está cada vez mais acelerada e sobrecarregada de informações. Estamos todos estressados?

Eu acho que sempre existiu o estresse. As fontes de insegurança, confusão e desespero existem sem pausa na humanidade. Dependendo do historiador com quem conversamos, alguns vão nos dizer que este é o período da história da humanidade menos agressivo e mais pacífico que já tivemos. E, ainda assim, eu diria que neste período os meus pais não têm o mesmo tipo de estresse que eu tenho ou que eu entendo que tenho.

Se estamos sobrecarregados de um determinado tipo de informação, talvez seja uma expectativa que temos em relação a nós mesmos daquilo que estamos fazendo para nos sentirmos valiosos. De certa maneira, nós nos distanciamos de um valor intrínseco do bem-estar.

Talvez as informações reforcem isso, porque nos fazem crer em que é melhor o que está fora de nós mesmos. Sempre existiram conflitos ao longo da história, mas a epidemia do burnout é muito complexa. Não tenho certeza se podemos culpar uma única situação, no entanto, verifico que junto ao burnout surge esta enorme falta de autovalorização. Há uma necessidade constante de a pessoa ser reconhecida como eficiente e sempre atarefada.

Por que o interesse pela síndrome de burnout?

Eu era conselheira de crises na ala de emergência de um hospital municipal em São Francisco. Lá me defrontei com muitas dificuldades e sofrimentos: pessoas morrendo e outras padecendo em decorrência do abuso de álcool e outras drogas. Me dei conta de que, se o burnout acontecesse devido a situações estressantes, todos profissionais com quem eu estava trabalhando teriam desenvolvido essa síndrome — e eles não tinham. O que havia era compaixão e integridade nos meus colegas que consideravam o seu trabalho muito significativo. Então, acabei me interessado em estudar por que esses profissionais não se importavam com o que estava acontecendo com eles no trabalho.

A síndrome de burnout pode ser medida em três níveis distintos: exaustão emocional — situação em que os profissionais sentem que não podem dar mais de si mesmos em nível afetivo, energia e recursos emocionais próprios ficam esgotados; despersonalização: desenvolvimento de sentimentos, atitudes negativas e de cinismo em relação às pessoas destinatárias de seu trabalho, aqui há um endurecimento afetivo; falta de envolvimento pessoal no trabalho — o que leva a uma sensação de falha e sentimentos negativos sobre si mesmo, afetando a habilidade para a realização do atendimento.

Em minha pesquisa recente, perguntei aos os médicos residentes — considerados os profissionais com o maior nível de esgotamento e depressão do mundo dentre as profissões — sobre a sua experiência emocional diária. Não fiz perguntas como “Você se sente sobrecarregado? Você se sente exausto? Você se sente autocentrado?”, mas sim “Quais emoções você está disparando? Quais emoções você sente durante o seu trabalho?” e “Como você responde a elas?”.

Mas, para a minha surpresa, descobri que metade das emoções diárias desses médicos que trabalhavam sob enorme pressão eram, contudo, agradáveis, com sentimentos de alegria, contentamento e felicidade. Além disso, estas eram normalmente disparadas por experiências simples de bem-estar, como tomar café da manhã ou conversar com um amigo.

Portanto, acredito que o burnout não resulta somente de experiências diretas. É mais difuso. Trata-se de uma fadiga emocional séria e opressiva para as pessoas que têm essa síndrome.

Foi o que eu constatei trabalhando com profissionais que lutavam com esse problema.

eve ekman

Eve Ekman, durante entrevista com a Revista Bodisatva. Foto: Luciana Zacarias.

Como podemos estar atentos e conscientes quando as emoções afloram?

As emoções acontecem no seguinte processo: elas são disparadas, vivenciadas e respondidas. Nós podemos colocar a nossa atenção nessas três etapas do processo, encontrando nossos hábitos que fazem disparar certas emoções e também olhar para os tipos de relacionamentos que temos. Esses fatores podem nos dizer, por exemplo, o que há em nosso subconsciente. Mas, se não estivermos completamente atentos aos roteiros e às estórias de como fomos tratados quando éramos jovens ou como imaginamos que o mundo nos acolhe, essas percepções podem influenciar o disparo das nossas emoções.

Precisamos fazer esse trabalho interno de vasculhar nossas emoções para sentir o que vai acontecendo em nosso corpo quando entramos em contato com elas.

O nosso corpo é um lugar muito mais estável para estarmos do que ficarmos somente em nossa cabeça (mente) deludida e delirante. Nós podemos simplesmente levar atenção ao corpo — a medicina chinesa diz para levarmos a atenção ao corpo sútil — e perceber as sensações que estão acontecendo por lá.

Quando notamos essas sensações, automaticamente não somos mais pegos na estória da nossa emoção. Entramos num processo de observá-la, soltamos a energia e, consequentemente, a carga dessa experiência dada pela nossa resposta. Na verdade, não queremos mais responder por uma via destrutiva, mas sim ajudando nós mesmos a seguir adiante, alcançar metas em relacionamentos e em outros objetivos de nossa vida.

Se, em nossas experiências, agirmos com responsividade, de forma destrutiva e de forma prejudicial, acabamos por nos arrependermos, sentirmos vergonha e culpa.

Podemos trabalhar para não sermos mais levados pela nossa emoção.

Mesmo que tenhamos uma emoção de raiva que suprimimos em relação a outra pessoa, nós não agiremos mais destrutivamente, não entraremos mais nos ciclos de ruminação. Dessa maneira, podemos lidar com os gatilhos emocionais e as nossas experiências, investigando a nossa história pessoal e como isso influencia a maneira que vemos o mundo. Podemos entender essa experiência de resposta usando o nosso corpo como uma âncora para compreender como nos sentimos nele. Se estivermos recaindo em ruminação, arrependimento, culpa ou vergonha, agora poderemos entender e saber lidar com as três etapas de manifestação das nossas emoções.

Uma prática simples para ficarmos atentos às nossas emoções: o que você sugere?

Qualquer um que medite e pratique, especialmente, a Atenção Plena consegue ficar atento às emoções difíceis, porque elas naturalmente surgem durante a prática. É normal não querermos colocar um foco nelas.

Tsoknyi Rinpoche nos ensina que é melhor darmos um aperto de mãos com a experiência das nossas emoções. É interessante perceber que tipo de puxão ou empurrarão brota em nós e sentir as sensações que uma emoção desperta em nosso corpo.

Não devemos deixar nossa mente ser apanhada numa estória, mas ficaremos completamente sintonizados com nossas experiências. Assim, começamos a nos familiarizar com nossas emoções.

Podemos olhar para nossas lembranças colocando a atenção no nosso passado, em todos os nossos eventos emocionais, os gatilhos que os desencadearam e como estamos, desde então, respondendo a eles.

Meditar com certeza é muito bom, mas de forma isolada não vai nos ensinar muito sobre nossas emoções. É preciso cultivar o equilíbrio interno.

Há ensinamentos muitos específicos usando as técnicas de meditação de Shamata, Vipassana e aplicando as Quatro Qualidades Incomensuráveis para lidar com diferentes fases da nossa emoção e a desenvolver habilidades para identificá-las quando brotam. É muito rico o curso que o professor Alan Wallace criou, cujas práticas para iniciantes em meditação e em emoções por meio da atenção plena dos sentimentos são reveladoras. Observamos, entre outras coisas, que sempre atribuímos significados às nossas experiências como agradáveis, desagradáveis ou neutras.

O que é preciso para obter paz interior e ter uma vida com sentido?

Eu penso que as pessoas se sentem um tanto oprimidas com esta pergunta, mas pode ser simples, algo que pode ser obtido na nossa prática diária, momento a momento. Antes dessa entrevista, o meu computador começou a pifar, eu sabia que você estava me esperando, eu estava faminta e cansada por não ter não dormido bem na noite passada… Então, pensei: como eu devo agir? Até onde podemos ir com as nossas mentes?

É melhor focar com aquilo que nos motiva na nossa vida. Para mim, é a paz de espírito. Quando eu estava na minha suíte do hotel, com raiva do computador, da internet lenta e comigo mesma, percebi como eu estava tratando a mim mesma.

Por isso, quando eu penso no sentido da vida, eu realmente tento avaliar cada situação. Talvez estejamos tão habituados a certos episódios emocionais e temos oportunidades para reescrever como pretendemos viver no mundo.

Acho que o sentido da vida pode ser abordado por esse caminho, por meio dos nossos pequenos desafios que vão nos preparar para um desafio bem maior.

Para mim e para muitos budistas ter Atenção Plena é uma meta a ser alcançada. Uma técnica que eu ensino a muitas pessoas que não consideram prioritário conhecer as suas emoções, mas ainda assim acham importante serem gentis consigo mesmas e a terem menos estresse. Entendemos, portanto, que ter raiva de outras pessoas acaba com a nossa paz de espírito.

Sobre as peculiaridades das expressões humanas, eu tenho uma curiosidade, Eve. Você acha que o brasileiro tem características marcantes?

Eu adoro dar cursos no Brasil e adoro os alunos brasileiros! Aqui há uma alegria genuína em relação à prática de meditação. Quando dou cursos na América do Norte ou Europa ocidental, observo que o participante sustenta uma determinada autoimagem em relação à prática, algo do tipo: “eu estou tentando meditar, eu estou prestando atenção e eu levo isso aqui muito a sério”. Uma prática para ser feita com leveza e alegria. Basta ver o jeito que as pessoas aqui falam umas com as outras: “beijos”, “carinho”… São muito amáveis.

A palavra “saudade” existe somente na língua portuguesa. É uma palavra tão bonita que exprime “estou sentido a sua falta” com tanta docilidade. Por ser uma palavra ímpar, nós podemos entender que existem distintas associações culturais das emoções expressas por meio das palavras.


Para saber mais


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