Equanimidade, moça de fino trato

Detalhe de Shakya Senge, uma das 8 manifestações de Guru Rinpoche, com sua mão esquerda no gesto da equanimidade, segurando uma tigela de mendigar | Templo Caminho do Meio | Foto de Melissa Flores
Hoje eu estava tomando um café com minha amiga Angela, na minha casa. Eu estava absolutamente fora de controle porque contratei um pintor para restaurar a pintura da casa e ele TROCOU a cor azul. Todas as pessoas que me conhecem sabem que quando herdei a casa, ela era branca e tinha todas as portas e janelas pintadas de verde, assim como as molduras das portas e janelas. Eu tenho um verdadeiro caso de amor com essa casa, mas o verde me incomodava muito. Tal e qual um grande amor que ronca.
Quando por fim decidi trocar pra azul, parece que tudo se encaixou. Um enviado especial dos deuses me sussurrou no ouvido “pinte de azul”, e assim foi que a casa se transformou no caso de amor PERFEITO.
Pois bem, décadas de azul depois, e o azul estava descascando, claro. Contrato um ser humano para vir cuidar da minha preciosidade, e eis que esse ser – humano, descuidado – tinge todas as minhas portas e janelas e molduras de um azul mais claro! Com alguns por cento de branco. Por quê? Altera a personalidade do meu amor, aquele com quem eu convivo há tanto tempo em harmonia, altera o curso das constelações, o próprio ritmo do universo!
Angela, tomada de impaciência diante da minha falta de equilíbrio, condena: “Você está exagerando. A casa continua linda, está só um pouco mais claro! Além do mais, que diferença faz se está azul, verde ou azul claro?”. E, num instante, me dou conta. De tudo. Do meu exagero, da minha arrogância, do destempero, da falta de equanimidade. Equanimidade é uma palavra que significa reagir da mesma forma a conteúdos diferentes. Bom ou mau, feio ou bonito, legal ou chato, qualquer que seja a resposta, reagimos da mesma forma.
A equanimidade é uma moça fina que só anda nas melhores companhias: lucidez, sabedoria, compaixão… Pra chegar perto dela é preciso não ser muito fã do apego, esse sim, rapaz muito dado a paixões violentas que sempre trazem a tiracolo aquele outro desagradável: o sofrimento. Meu mestre diz que o sofrimento nada mais é do que a frustração do movimento de energia. Assim, quando você pensa que é o único ser no mundo inteiro capaz de determinar a cor CERTA de azul quando a vê, isso é o seu carma, sorrateiramente te enganando e te privando da convivência com a doce e linda dama equanimidade, te fazendo crer que não importa estar em profundo sofrimento se você está CERTO.
Os amigos às vezes se revelam espelhos maravilhosos. Obrigada, amiga…
* Texto elaborado para a Oficina de Criação Literária, oferecida aos praticantes do CEBB pelo querido Antonio Guinho no final de 2008 e início de 2009. Foi criado a partir da luminosidade da mente e não corresponde necessariamente aos fatos.
Melissa Flores é formada em Comunicação pela UFRJ. Divide seu tempo entre a prática budista, a propaganda, fotografia e seu documentário sobre Tangka. Pode ser encontrada no CEBB Rio. | Leia outros posts de Melissa Flores






já o meu mestre diz que a gente sofre pq tá apegado…
:P
“Tal qual um grande amor que ronca”… maravilhoso! Só tem um problema… essa verve toda não me ajuda a desenvolver a equanimidade… pelo contrário! Hoje só vou querer ouvir/ler coisas bonitas e delicadas. Vc estragou minha prática… rsrsrs! Bjs!
“o grande caminho não é difícil
pra quem não tem preferência
se não tiveres medo ou esperança
tudo fica fácil e tranquilo!…”
beijinhos
lindo texto!
Que texto lindo, Mel!!!! Quanta delicadeza e que tremendo sacode Quanto tempo ficamos mesmo nesse cultivo de nossas preferências e, mais ainda, na enérgica defesa de nossos “pontos de vista” que nada mais são, mesmo, que a vista de um ponto…E a paisagem é tão mais ampla, não?
Vc tb estragou minha prática…Quero textos tão lindinhos quanto o seu!
beijo
Sol (Niterói)
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