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Ética – Educando a Mente e o Coração

por 1/05/2012 1 comentário

Palestra pública de SS o Dalai Lama na Universidade de Delhi, em Nova Delhi, Índia, no dia 22 de março de 2012.

“Jovens e velhos irmãos e irmãs. Estou de fato muito feliz por mais uma vez estar com muitos alunos e talvez professores e mestres. É realmente uma grande honra.

Como já foi explicado, meu principal compromisso é a promoção dos valores humanos. Em segundo lugar, meu compromisso é a promoção da harmonia religiosa. Essas duas coisas estão muito presentes na tradição indiana. Eu acho que o próprio conceito de ahimsa, não-violência, é o respeito à vida, respeito à existência. Todo fenômeno, todo tipo de coisa que tem vida, tem o direito de existir. Prejudicar suas vidas, prejudicar suas existências, destruir o direito a existir é violência. Conter prejuízos à vida é não-violência. A não-violência a partir do medo não é não-violência. Não-violência é ter oportunidade de lutar ou cometer algum ato violento, mas deliberadamente refrear, conter o uso da violência. Isso é não-violência. Então, a não-violência está muito relacionada a respeitar o direito dos outros num nível mental.

Portanto, no nível mental, a semente da não-violência é o senso de preocupação com os outros seres, compaixão. A compaixão traduzida em ação é não-violência. Então não é suficiente simplesmente continuar dizendo: “Oh! Devemos seguir a não-violência!”, sem compreender todo o sistema. Cada ação humana se tornará violenta ou não-violenta, na completa dependência do bom coração. Não está relacionada à inteligência. A inteligência também muitas vezes se torna muito violenta.

E então, a harmonia religiosa – esse conceito não-violento, de tolerância e respeito a diferentes visões filosóficas. No campo filosófico, sim, há muitos pontos a serem debatidos. Mas esse é um assunto diferente. Mas essas visões diferentes também foram criadas por seres humanos, uma variedade de grandes pensadores, eles criaram tipos diferentes de visão. E eles têm o direito de expressar suas próprias visões. E então, todas essas diferentes visões filosóficas supostamente foram criadas para beneficiar a humanidade. Nos últimos mil anos, todas essas tradições realmente trouxeram imenso benefício à humanidade. Temos razões suficientes para respeitá-las. Com o respeito e a compreensão entre as religiões, e a real aprendizagem mútua, podemos desenvolver uma genuína harmonia entre as tradições religiosas.

Então estes são meus dois compromissos. E da responsabilidade política eu já abdiquei no ano passado. Não abdiquei apenas pessoalmente. Nos últimos quatro séculos, os Dalai Lamas se tornaram líderes políticos e espirituais do Tibete politicamente. Na verdade, o I, o II, o III e o IV Dalai Lama eram puramente líderes espirituais, não tinham poder político. Para o V Dalai Lama as circunstâncias eram de muita competição por poder político entre os grandes lamas. Eu acho que o V Dalai Lama fez uma boa coisa, unificando muitas partes do Tibete. E ele próprio adotava uma política não-sectária. Bom! É claro que havia também algumas críticas. E então, o XIV Dalai Lama, voluntariamente, alegremente, orgulhosamente encerrou essa tradição. E agora um dos meus segredos: no ano passado, na noite do dia em que eu anunciei formalmente minha renúncia, meu sono foi muito incomum, sem nenhum sonho, um sono bastante saudável. Esse é uma indicação de que eu liberei algum senso de responsabilidade pesada. De fato, eu voluntariamente, alegremente mudei isso. Inicialmente alguns tibetanos sentiram-se um pouco desconfortáveis, dentro e fora do Tibete. Então, em diversas ocasiões eu expliquei e por fim eles compreenderam. E agora, tenho apenas esses dois compromissos: promover os valores humanos e promover a harmonia religiosa.

O nosso trabalho, com o qual estamos completamente comprometidos, é um tipo de trabalho muito sério. Com ele nós podemos potencialmente transformar o mundo. Eu tenho sempre dito às pessoas que o século XX foi maravilhoso, o mais importante em toda a história da humanidade. Mas infelizmente, apesar de todo o ostensivo desenvolvimento, o século XX se tornou o século da violência, da violação. Até mesmo a energia nuclear foi usada contra seres humanos em Hiroshima e Nagasaki. Eu tive a oportunidade de visitar Hiroshima e Nagasaki e conheci algumas vítimas da bomba nuclear. Muito triste. O efeito permanece por muitos anos. Não houve apenas uma imensa destruição em um único momento, mas o efeito durará por um longo tempo. De acordo com a história do século XX, o número de pessoas mortas pela violência, pelas guerras foi de 200 milhões. Então eu frequentemente digo que no início do século XXI tivemos alguns eventos tristes, aqui e ali, todos devido a negligência e a erros. Eu acho que nenhuma pessoa sensível quer que o século XXI seja novamente um século de violência, ninguém se beneficia. E na maior parte dos casos, pessoas inocentes são as que mais sofrem.

Há algum tempo eu disse aos cientistas e também a tecnólogos que se houvesse uma bala que pudesse ser direcionada, não a pessoas comuns, mas diretamente aos que causam confusões, isso seria bom. A bala iria e atingiria os causadores de confusão que estão confortavelmente sentados em algum lugar. E as pessoas comuns não sofreriam. Mas esse não é o caso. Vejam a Síria e os eventos recentes no norte da África. E muitos outros lugares onde surge a violência, pessoas inocentes, crianças, mulheres, sofrem. E também há os efeitos negativos imensos na questão ambiental. Também acho que o único propósito da produção de armas é matar. Se as armas não forem usadas para matar, muito dinheiro será desperdiçado. Economicamente, essas fábricas imensas que produzem essas armas são na verdade desperdício de dinheiro.

Eu sempre digo que antes de 1950, todas as nossas fronteiras eram muito pacíficas e por fim essa situação mudou. Muito dinheiro que o governo indiano arrecada em impostos tem que ser gasto para defender essa longa fronteira, áreas muito difíceis. Se essa quantia de dinheiro fosse utilizada em hospitais, escolas, muitas áreas poderiam progredir. E na China também. No ano passado e neste ano também, o orçamento para segurança interna foi maior que o orçamento da defesa exterior. O inimigo interno é maior que o inimigo externo. Se o inimigo interno puder ser contado nos dedos das mãos, não será necessário gastar tanto dinheiro. Eu acho que os regimes totalitários, o comunismo chinês, ainda acreditam que o poder é ter melhores armas. Essa afirmação é míope. Durante a revolução, na guerra civil, na guerra contra o Japão, tal poder é importante. Mas durante um curto período de tempo. Mas por 60 anos, ainda manter esse tipo de política é ter uma mente muito estreita, uma visão muito estreita. É falta de conhecimento sobre a mente humana, sobre a natureza humana.

Vejam os Estados Unidos. Eu realmente respeito a América, admiro a América. Mas e a política no Iraque, no Afeganistão? O objetivo é bom, modernizar é bom mas o método é violento. Então, todo tipo de método violento frequentemente tem consequências inesperadas. Métodos violentos são de fato não realísticos. No nível emocional, você pode obter alguma satisfação, mas com relação à realidade é um método equivocado.

O século XXI deverá ser o século da paz, da não-violência. Isto não significa que neste século não teremos nenhum problema. Não! Os problemas vão continuar ocorrendo. Haverá crises em algumas regiões, a população continua crescendo, acho até que os problemas podem crescer. Então como desenvolver um século pacífico? A cada vez que enfrentarmos um problema, devemos encontrar meios não-violentos de dialogar.

Eu acho que nós, seres humanos, a cada vez que enfrentamos algum desacordo, algum problema, a primeira resposta que vem à mente, a nossa emoção, é como resolver com base na força. Isso é um erro. Então, agora, desenvolver um século de paz está muito relacionado a desenvolver um século de compaixão, como eu mencionei anteriormente. A não-violência está absolutamente relacionada à mente compassiva. Nossa atitude, como eu disse, não é muito civilizada, nem mesmo dentro das nossas famílias; quase sempre acontecem demonstrações de força. Agora, mudar isso, não será através da fé religiosa, nem através da intervenção da ONU, nem por resolução no nível nacional, não. É em cada indivíduo. No momento, até mesmo entre líderes religiosos existem pessoas não muito saudáveis. Então religião suja, política suja, economia suja… é assim. Muita exploração. Muita corrupção. E a desigualdade entre ricos e pobres aumentando. É vergonhoso que neste país, comparativamente uma nação voltada à religião, muitos não hesitem em se envolver em corrupção. Considerando aquelas pessoas que oficialmente negam qualquer valor religioso, é compreensível. Mas uma nação que realmente crê em Deus, Shiva, ou o que seja, francamente falando, eu acho que muitas pessoas corruptas, incluindo pessoas muito influentes, pela manhã fazem preces de adoração, mas no dia-a-dia não hesitam frente à corrupção, em trapacear, em assediar. Vocês acham que essas pessoas são religiosas?

Mas através de resoluções, de ordens, não é possível resolver. Não podemos culpar essas pessoas. Elas cresceram em uma sociedade que não presta muita atenção a princípios morais. A fé religiosa se tornou um instrumento de atitude autocentrada. Uma vez, há muitos anos, na Argentina, num encontro inter-religioso, um dos mais importantes cientistas, físico, mencionou que ele, como cientista, não deveria desenvolver apego ao seu campo científico. Eu compreendi que aquilo era realmente muito importante. E eu mesmo, budista, não deveria desenvolver apego ao budismo. Uma vez que o apego se desenvolve, sua atitude, seu pensamento se torna tendencioso. Uma mente tendenciosa nunca vê as outras coisas de modo objetivo. Acho que muitas pessoas religiosas têm demasiada fé, de forma tendenciosa e com muito apego. O apego vem da atitude autocentrada. “Eu estou certo! Eles não!”

Portanto, sempre faço essa distinção: a minha geração pertence ao século XX; esse século já se foi. Esses jovens aqui presentes, vocês são a geração do século XXI. Até hoje, apenas 10 anos deste novo século se passaram. Restam ainda cerca de 90 anos. Se vocês fizerem um esforço, com uma nova visão, holística, não apenas pensando na sua própria família, em sua própria nação, mas pensando em toda a humanidade, de forma global, vocês poderão contribuir significativamente na transformação da visão da humanidade. Uma vez que a nossa atitude básica tenha mudado de maneira positiva, sendo mais compassiva, respeitando os direitos e a visão dos outros, tentando resolver cada vez problema que surgir através do diálogo, então poderemos construir um mundo pacífico, um século pacífico. Vocês têm uma oportunidade muito boa de mudar o mundo, de construir um mundo saudável. Eu não verei esse resultado. Mas estarei observando vocês, do inferno ou do céu, para ver se vocês irão implementar isso ou não! Culpar os outros ou reclamar não é suficiente. Vocês precisam fazer esforços para que o nível fundamental, que a forma de pensar se transforme. Não através de orações, não através da meditação, não através da sua prática de yoga, mas usando o bom senso, pela consciência plena da realidade.

Nosso último encontro com os cientistas tinha como tema “corpo saudável, mente saudável”. Isso é muito claro. Ter um corpo saudável e uma mente saudável é muito relevante. É impossível desenvolver um corpo saudável com uma mente perturbada, tomando um tranquilizante ou qualquer droga diariamente. Vejam esses artistas que todos admiram; e então vemos nos noticiários que usam muitas drogas. Suas mentes não devem estar muito calmas. A tranquilidade mental que depende de comprimidos, de drogas, de álcool, ou de boas músicas, ou de um bom programa de TV, utiliza um método muito provisório. Porque os verdadeiros destruidores da calma mental não são externos, mas estão dentro da nossa própria mente. Então, a menos que nós descubramos esses destruidores da paz interior e possamos nos contrapor a eles, nós não conseguiremos desenvolver uma mente pacífica, uma mente tranquila. Vendo algo bonito, ouvindo uma boa música… enquanto isso estiver disponível, você obtém algum tipo de satisfação. Assim que isso desaparecer, a satisfação acaba também. A paz interior, a serenidade que surge a partir da consciência, esse tipo de paz mental permanece sempre, inclusive nos seus sonhos. Nós temos esse potencial! Tudo que temos que fazer é utilizar esse potencial. Essa é a questão.

Agora vamos falar de educação. Da mesma forma que desenvolvemos um corpo saudável através da higiene, exercícios físicos e algumas informações, precisamos desenvolver uma mente saudável através da educação, através da consciência. Podemos desenvolver uma melhor consciência. Uma vez que temos inteligência, podemos considerar prós e contras, claro que podemos utilizar nossa inteligência de forma positiva, voluntariamente, sem ordens externas. É possível transformar nossas mentes através da consciência, não apenas através de orações, de fé. Através da consciência, da própria natureza da mente e das emoções, através da educação. Eu acho isso bem possível. Portanto façam esforços, em trabalhos de pesquisa, para compreender melhor como educar, desde o jardim da infância até a universidade. Não através de coisas secretas, mas simplesmente pela educação, pelo conhecimento.

Então, em primeiro lugar, é extremamente importante saber mais sobre o processo da mente, das emoções, como se fosse um mapa. Quando viajamos para países estrangeiros, primeiro temos que conhecer os mapas, saber por onde ir até chegar ao destino final. Da mesma forma, é preciso o conhecimento completo do mapa da mente, de tudo que destroi a calma mental, quais são as emoções destruidoras, identificar essas emoções e então entender como podemos enfrentá-las. Todo tipo de mudança nunca ocorre de forma independente, sempre há causas e condições. Para enfrentá-las, como no caso das doenças, é preciso lidar com as causas; tranquilizantes e analgésicos são temporários. Dores são sintomas; temos que lidar com as causas daquela dor. Da mesma forma, a perturbação da nossa paz interior é também um sintoma, que deriva de emoções prévias. A forma adequada de enfrentar essas emoções destrutivas é lidar com as causas e condições. Portanto, é absolutamente necessário conhecer o mapa completo ou o processo das emoções. As informações podem vir de muitos textos, incluindo os textos budistas. No hinduísmo também estão presentes as práticas de samadhi, vipashyana, que explicam a mente. Temos que coletar informações dessas fontes, mas que devem ser consideradas um assunto acadêmico. São universais, é simplesmente a ciência da mente. Não importa se há fé ou não. Agora chegou o momento de pensar seriamente, de fazer pesquisas, sobre como introduzir, como assunto acadêmico, esses princípios morais, desde o jardim da infância até o nível universitário.

Durante esta manhã, eu também mencionei que a própria constituição da Índia tem fundamento secular, por ser multicultural, multirreligiosa. E o secularismo também envolve respeito à visão dos que não têm fé. Eu penso que transmitir os princípios morais seculares por meio da educação secular é bastante adequado a este país. Alguns dos meus amigos muçulmanos, cristãos, me disseram, quando uso o termo ética secular ou secularismo, que têm uma certa reserva, têm essa visão de que o secularismo é negativo com relação às religiões. Mas não é. O secularismo indiano significa respeito a todas as tradições, todas as religiões. E também, de acordo com alguns de meus amigos, o secularismo neste país respeita os direitos dos que não têm nenhuma fé. Isso é maravilhoso!

A conclusão é de que vocês já possuem essa tradição baseada em ahimsa, harmonia religiosa; agora adicionalmente é preciso promover com a lógica, com a razão, algum tipo de educação para impulsionar mais essas coisas. Assim, não apenas as pessoas deste país serão mais felizes, mas também, a Índia, por ser a democracia mais populosa do mundo, poderá ter um impacto significativo no nível mundial. Então, por favor, tenham maior autoconfiança. Tenham visão e façam mais esforços. Não sejam preguiçosos como eu. Esforcem-se! Há um ditado tibetano que diz: “falhar nove vezes, esforçar-se nove vezes.” Se até pessoas que fazem coisas erradas, destrutivas, se esforçam! Para construir um mundo mais saudável, um século saudável, precisamos fazer esforços sem descanso! Isso é muito importante.

E então, as questões ambientais, a desigualdade entre ricos e pobres, exploração, e, neste país, o sistema de castas, realmente criam muitos problemas, milhões de pessoas pobres. Se desenvolvermos a consciência, um senso de responsabilidade global, de “uma” humanidade – religião é secundária – de que basicamente nós somos seres humanos iguais, com os mesmos direitos, automaticamente todas essas negatividades se reduzirão.

Assista todo vídeo da palestra, em inglês. Com perguntas e respostas no fim do vídeo.

Tradução livre de Jeanne Pilli

 

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Um comentário »

  • GILZA disse:

    Nascemos puros e amorosos essa é a nossa missão, mas as vezes nos perdemos no caminho,,,,,,,Gostei do blog, bacana.

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