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Ética para um Mundo mais Próspero – Dalai Lama

por 5/11/2012 3 comentários

Londres, Reino Unido, 23 de Outubro de 2012 – Sua Santidade, o Dalai Lama foi o convidado do Instituto Legatum para o Simpósio sobre Ética para um Mundo mais Próspero, onde conversou com jovens talentos profissionais de diversas áreas, incluindo finanças, política, direito e jornalismo. O Presidente e CEO do Instituto Legatum (www.li.com), Jeffrey Gedmin, apresentou Sua Santidade dizendo que estava encantado com seu recente livro, Beyond Religion – Ethics for a Whole World”.

Em seu discurso de abertura, Sua Santidade disse:
“Irmãos e irmãs, a coisa mais importante é que todos nós somos seres humanos. Os problemas que tentamos minimizar hoje dizem respeito a toda a humanidade. Portanto, temos que discuti-los em um âmbito humano. Somos animais sociais, porque nosso sucesso vem da cooperação de uns com os outros, temos de zelar pelos direitos e bem-estar dos outros, sem nos esquecermos de nós mesmos”.

Ele explicou que tem 77 anos de idade, que perdeu sua liberdade aos 16 anos e depois perdeu seu país quando tinha 24 anos. Logo depois que nasceu, a China e o Japão estavam em guerra, houve a Segunda Guerra Mundial, Guerra da Coréia, Guerra do Vietnã e logo se seguiu a violência de conflitos na Índia. Consequentemente, durante sua vida, foi testemunha de grande violência. Embora no século XX se tenha alcançado imensas conquistas na ciência e na tecnologia, foi também uma era de sangue e sofrimento. Para que o século XXI seja diferente é preciso que haja uma nova abordagem para a resolução de problemas, o que implica uma nova abordagem para a ética. Sua conclusão foi de que, para promover a mudança, a educação é o mais importante. Há uma necessidade de promover os valores humanos fundamentais, que, juntamente com a inteligência humana, podem ser a base para a criação de um mundo melhor.

Ele reconheceu que o auto-interesse tem um papel nisso, o que é certo e apropriado, porque as pessoas atormentadas por ódio por si próprias são incapazes de sentir interesse pelo outro. Pensar que cultivar a preocupação com os outros envolve negligenciar nossos próprios interesses é equivocado. Em relação à ética para um mundo com um todo, ele sugeriu que uma vez que se torne possível incentivar a formação em ética secular dentro de um sistema de educação secular, do jardim da infância à universidade, a apreciação popular de tais valores deve naturalmente crescer. Ele prevê um momento em que políticos, empresários e outros, estarão mais motivados pela ética saudável. Ele esclareceu que, quando usa a palavra secular, não quer dizer que implica uma rejeição da religião, mas um respeito imparcial por todas as religiões como fonte de valores. Ele disse: “Nossos sistemas de ensino no momento se destinam a oferecer benefício, por isso é lógico que, se introduzirmos a ética na educação, poderemos melhorar o bem-estar das pessoas.” Os que compunham a mesa se apresentaram e fizeram comentários breves. Christopher Chandler, fundador do Instituto Legatum disse, “Ética envolve a intenção de fazer o bem; prosperidade é ter os meios para fazê-lo.”

A China entrou na conversa e Sua Santidade disse que considera que o povo chinês trabalha duro, são pessoas realistas. Ele comentou que o comunismo não tem suas origens na Ásia, mas na exploração que acompanhou a industrialização no Ocidente. Ele mencionou que em sua juventude achava que as teorias marxistas de distribuição igualitária eram muito atraentes e que ele mesmo observou como os comunistas chineses dos anos 40 e 50 estavam verdadeiramente dedicados a servir as pessoas. Na verdade, ele ainda se considera um marxista budista. No entanto, após 1956, devido a uma mistura de falta de disciplina e declínio moral, esta dedicação se tornou corrupta.

Respondendo às discussões sobre os méritos da esquerda e da direita, disse: “Esquerda e direita são apenas aspectos de visões econômicas ou ideológicas. Não há esquerda ou direita absoluta; as coisas nunca são pretas ou brancas, há sempre espaço para o cinza e para um caminho do meio. Tudo depende da motivação das pessoas envolvidas. ”

Voltando-se novamente para a necessidade de educar as pessoas sobre valores humanos positivos, Sua Santidade observou: “Assim como nós seguimos as normas de higiene física para proteger nossa saúde, precisamos introduzir normas de higiene mental. Disciplina não é um resultado da influência externa, mas é algo que precisa surgir de dentro.

Ele disse que a sociedade está baseada em relações entre seres humanos, “Se você é verdadeiro e honesto irá atrair amigos verdadeiros, e não apenas parasitas imediatistas. A confiança é o fator chave. Quando você está motivado pela preocupação com os outros, não há espaço para exploração, trapaça e corrupção. A confiança não é algo que você pode comprar, nem pode adquirir pela força. Confiança depende de abertura e honestidade. É uma fonte fundamental de auto-confiança e força interior.”

Ele concluiu a sessão da manhã, observando que as pessoas de sua idade pertencem ao século XX, e que o futuro está nas mãos daqueles que pertencem ao XXI, que têm a oportunidade de torná-lo uma era de paz e prosperidade. Após o almoço, Jeff Gedmin conduziu uma entrevista com Sua Santidade, que foi transmitida ao vivo e que pode ser vista no site do Instituto Legatum, www.li.com. Ele enfatizou que é a nossa motivação que determina a qualidade das nossas ações. Para ilustrar como a nossa própria felicidade depende de todo mundo, ele perguntou, “Como você pode desfrutar de uma refeição, enquanto o resto de sua família está passando fome?” Ele disse que é preciso ter paciência e adotar uma abordagem realista, se quisermos alcançar a mudança, acrescentando: “No geral, é minha convicção de que o mundo está se tornando melhor.”

Durante a sessão da tarde, representantes de grupos de discussão menores relataram o que haviam discutido. Sua Santidade também foi convidado a contribuir com seus comentários, que incluíram a sugestão de que quando uma empresa é transparente, a sua imagem é boa e todos os envolvidos se beneficiam.

“Ser naturalmente generoso e ter um bom coração é um valor muito mais elevado na promoção de um bom nome do que contratar uma empresa de relações públicas. Uma coisa que este idoso aqui aprendeu “, disse ele,” é que a verdade é poderosa. A luta do Tibete, por exemplo, é entre o poder da arma e o poder da verdade. E, embora a arma possa parecer ser mais eficaz a curto prazo, a verdade é mais poderosa a longo prazo. O valor da verdade e da honestidade não mudam, mas é persistentemente resiliente.”

Tendo afirmado que as instituições políticas e religiosas devem ser separadas, ele observou que, quando um eremita é corrupto, não faz muito mal à sociedade, mas quando os líderes políticos são corruptos o prejuízo é generalizado. Ele sugeriu que algumas de nossas idéias sobre liderança podem deixar de ser relevantes; não devemos esperar que os líderes tomem a iniciativa para a mudança. Ele citou o Buda dizendo: “Você é seu próprio mestre e o seu futuro depende de você.”

Christopher Chandler agradeceu a todos pela presença, dizendo que tinha sido uma boa oportunidade para falar sobre o coração e não apenas sobre coisas que podem ser medidas, como PIB e lucro. Amor, compaixão e calor humano são difíceis de medir. Ele apreciou Sua Santidade ter enfatizado a responsabilidade individual. Ele perguntou: “E se parássemos de perguntar quem tem riquezas? E, ao invés disso perguntássemos quem estamos nos tornando? Quem nossos filhos estão se tornando? Ele disse que muitas vezes se sugeriu que o capitalismo é de alguma forma imoral porque é impulsionado pelo lucro, mas propôs que um negócio só é bem sucedido se resolver os problemas das pessoas.

Jeff Gedmin se juntou a ele afirmando que as discussões do dia foram um sucesso. Ele apelou aos participantes a comprarem e lerem o livro de Sua Santidade, Beyound Religion” e a lerem o Índice de Prosperidade Legatum (www.prosperity.com), que será publicado na próxima semana. Ele terminou dizendo a Sua Santidade que sua presença havia sido o presente do dia.

As palavras de encerramento de Sua Santidade foram: “Minha geração criou problemas suficientes no século passado; espero que o século XXI seja mais sensato, próspero e pacífico. Discussões coletivas como esta são muito importantes porque todos nós somos responsáveis. Eu aprecio os seus esforços em nos reunir, obrigado. ”

Durante esta visita aos EUA e ao Reino Unido, ele falou em nove universidades e em outros fóruns públicos; cerca de 73 mil pessoas já assistiram suas palestras.

Tradução: Jeanne Pilli

Leia o texto original em inglês no site do Dalai Lama.

 

 

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3 comentários »

  • Dagmar Martins de Abreu disse:

    Sou muito grata pelos ensinamentos.
    Dagmar

  • José Benetti disse:

    Que maravilha!!
    Que preciosidade vivermos no tempo em que uma criatura como essa vive!
    O que seríamos de nós sem a compaixão, a paz, os valores humanos!
    Como comer de maneira farta se grande parte da minha família (alguns milhões de pessoas) está passando fome?

    Agradeço, refaço os votos!
    Amor.

  • Robert Veras disse:

    Grato pelos ensinamentos. Acredito que o destaque que Sua Santidade dá para a educação nesse processo de mudança é especialmente relevante de ser dito e ecoado quando nossa Câmara dos Deputados perde oportunidade de analisar proposta que destinava a totalidade do dinheiro dos royalties do petróleo para essa área, investimento que garantiria o comprometimento de 10% do PIB brasileiro para a educação, o dobro do atual índice. Trata-se de meta já aprovada pela própria Câmara dos Deputados, no Plano Nacional de Educação, mas que corre o risco de permanecer no plano das idéias, se não for garantida a fonte desses recursos. Que nossos políticos possam enxergar e buscar os benefícios que uma formação de qualidade ao alcance da população em geral pode proporcionar para o planeta. Abraços a todos!

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