O feminino e a unidade sagrada

Elizabeth Mattis Namgyel fala sobre insight sagrado e explora a conexão entre a sabedoria e o feminino


Por
Revisão: Sandra Coelho
Tradução: Filippe Ximenes Oliveira

Nesta palestra oferecida pela renomada professora budista Elizabeth Mattis Namgyel no Festival of Faiths 2018, cujo tema foi Sacred Insight, Feminine Wisdom, ela explora a fundo a conexão entre a sabedoria e o feminino e destrincha a noção de insight sagrado. Como ela explica, o insight sagrado não tem a ver com priorizar a perfeição em detrimento da imperfeição, ou colocar o sublime acima do temporal. Seu significado é muito mais profundo e só se revela quando pisamos para fora de toda e qualquer dualidade. Sua compreensão depende do nosso senso de humildade e da nossa capacidade de não limitarmos o mundo àquilo que vemos, reconhecendo o aspecto insondável da vida e do universo. 


O tema da palestra de hoje é “uma, não duas”, mas eu não sei se penso que as coisas são uma, não duas… porque estamos falando sobre diversidade, por um lado — e isso não é um — e, por outro lado, estamos falando da nossa semelhança, daquilo que é similar ou essencial ao que somos enquanto seres humanos. Portanto, talvez não possamos falar que somos uma, nem que somos duas, o que nos deixa em um lugar interessante de não-dualidade. Talvez seja como a água e o gelo: não se pode separá-los, e ainda assim existe esta expressão que diz que a água pode assumir várias formas diferentes. Se você perguntar a qualquer esquimó, ele poderá lhe falar melhor sobre isso. Aparentemente, existem cem palavras para gelo ou neve — para água, na verdade, e para as diferentes formas em que ela se apresenta.

Esta palestra gira em torno do tema “insight sagrado e sabedoria feminina”. Assim, pensei em algumas perguntas que gostaria de compartilhar com vocês e tentar destrinchar à medida que avanço.

A primeira pergunta é: o que significa, exatamente, insight? E qual é a diferença entre insight e insight sagrado? E por que estamos unindo os termos “feminino” e “sabedoria”? O que significa atribuirmos um gênero a algo que tem um significado e um escopo tão vastos, como “sabedoria”? Tenho de ponderar se “sabedoria” realmente tem um gênero. E, ainda assim, ao mesmo tempo me parece que o “feminino” tem certamente um papel a cumprir nas nossas tradições espirituais e na nossa vida, histórica e simbolicamente. Então, eu gostaria de explorar isso um pouco mais.

Penso, por exemplo, no taoísmo: há o Yin, que é o feminino, e o Yang, que é o masculino, e há o círculo com as cores branca e preta que se encontram e se unem. Temos também sophia, que é o termo grego para feminino e para sabedoria. Há algumas tradições que falam sobre a “mãe divina”, a Mãe Terra. Na tradição budista mahayana, que é a minha tradição, o feminino é o aspecto de sabedoria, enquanto o aspecto masculino é a ação compassiva — informada pela sabedoria [risos]. Este é o momento das mulheres!

Há, também, o aspecto mundano do feminino. Aqui, nós honramos nossas avós, mães, irmãs, esposas e filhas. Não é menos divino do que os aspectos simbólicos que eu mencionei anteriormente. Na verdade, quando eu vi e ouvi as mulheres na igreja ontem à noite, pensei: “isso é divino, isso é sagrado”. Em meio a tudo aquilo que estava sendo expressado, senti uma atmosfera de proximidade. Tudo me pareceu muito íntimo e autêntico.

Quando penso no feminino, a primeira coisa que costuma vir à mente é a figura da mãe. Penso nas qualidades de uma mãe. Para começar, as mães são aquelas que dão nascimento — e isso não é pouca coisa! Mas a gravidez e o trabalho de parto são as partes fáceis, e eu falo por experiência própria. Considero que as mães têm um desafio muito interessante e, ao conversar com outras mães, percebo que isso também é verdadeiro para elas. Mães têm de testemunhar as alegrias, os sofrimentos e as dificuldades das(os) suas(seus) filhas(os). Logo, elas realmente são um símbolo de amor incondicional, tanto entre os humanos quanto entre os animais. Eu mesma, como mãe, lembro-me da alegria insuperável que senti quando meu filho nasceu. Este era, entretanto, um sentimento agridoce, pois, a partir desse exato momento, já comecei a sentir a dor da separação. Enquanto mães, penso que sentimos que nossos filhos são quase como um apêndice de nós mesmas, e esta conexão tem raízes muito, muito profundas.

Há cerca de um mês, quando eu estava em San Francisco, passei pela Grace Cathedral no momento em que ocorria um funeral. O viúvo da mulher que havia falecido por esclerose múltipla estava fazendo uma exposição nas paredes. Ele tinha produzido algumas esculturas de madeira e também exposto fotografias de moradores de rua. As esculturas representavam o que ele chamou de as “Oito Estações da Cruz”: a jornada da peregrinação sagrada de Cristo em direção à sua própria crucificação. Nessa apresentação, a mãe dele, Maria, tinha um lugar de destaque. Até então, eu não tinha considerado a fundo o fato de que Maria esteve lá em cada passo do caminho, durante essa sagrada e penosa peregrinação, e que ela teve de testemunhar os atos mais dolorosos. Ela viu o filho construir o instrumento de sua própria execução, viu quando ele caiu três vezes por conta do peso da cruz, testemunhou sua crucificação e, ao final, segurou seu corpo sem vida nos braços. Essa imagem profundamente dolorosa e amorosa da mãe e do filho que nós conhecemos tão bem: isto é uma mãe. E, apesar de eu não ter sido criada como cristã, pude entender.

Minha tradição espiritual é o budismo mahayana e a mãe aparece muito nela. Uma das nossas práticas é a de olharmos para cada ser como sendo nossa própria mãe. Ao mesmo tempo, também praticamos olhar para todos os seres com o mesmo afeto e adoração que sentiríamos pelos nossos filhos. Há um grande santo budista, um grande praticante chamado Shantideva, que no seu famoso texto, O Caminho do Bodisatva, disse que assim como nós incluímos os nossos braços e pernas como parte do tronco do nosso corpo — quando batemos o dedão do pé, por exemplo, automaticamente nos abaixamos e tentamos aliviar sua dor — da mesma forma, deveríamos considerar que todos os seres são uma parte de nós mesmos. Em outras palavras, devemos fazer do mundo nosso corpo.

Isso é interessante porque muitas pessoas entendem que o cuidado pelos outros requere que nós nos livremos do cuidado próprio ou rejeitemos o ego. Mesmo no budismo existe confusão em relação a isso. Mas o fantástico é que o que está sendo dito é que você não precisa, de maneira alguma, se livrar do ego. Tudo o que você precisa fazer é torná-lo tão grande quanto possível e fazer dos outros os receptores da bondade amorosa que você geralmente reserva apenas para si mesmo. Nós podemos fazer isso. E isto nos tira dessa existência autocentrada, estreita e medrosa, e desperta coragem, inteligência e amor.

Minha sogra, que nasceu nos platôs do Tibete oriental, numa cultura de cavalos, sempre disse: “você deveria tornar o seu coração grande o suficiente para abrigar uma corrida de cavalos”. Para ela, isso era enorme. Portanto, esse tipo de amor do qual estamos falando é feroz, incondicional, e abrange tudo. O desejo de expandir a si mesmo para incluir todos os seres é o que guia o Bodisatva — aquele que desperta o coração para servir aos outros — no caminho da iluminação. E o Bodisatva possui apenas um medo, porque seu caminho é de destemor: o medo de se desconectar do sofrimento do mundo e viver em um estado pessoal de paz.

Devemos entender que essa não é propriamente uma jornada religiosa. Eu acredito que seja uma jornada humana. É a prática de nos fazermos grandes o suficiente para testemunharmos a beleza e a dor do mundo, sem nos fecharmos. Quando fazemos isso, essa espécie de sentido estreito e medroso de “meu” e “eu” começa a encontrar liberdade e alegria ao incluir outros, e isso se torna uma obsessão.

Ao começar a caminhar, nos damos conta de que nossa liberação e a dos outros está intimamente conectada. Quando começamos a adentrar esse tópico de expandir o “eu” para incluir os outros, acredito que, de certo modo, estamos nos afastando da noção de “sabedoria feminina” como gênero, em direção àquilo que significa ser um praticante espiritual. E o insight não se trata mais apenas do corpo que habitamos.

Eu gostaria de dizer algo sobre o insight. Penso que o insight é realmente um dom humano básico. Ele nos permite reconhecer padrões e ligar os pontos, o que significa saber ou discernir. Ele sintetiza a semente e o fruto. A semente gera o broto, que gera o fruto, que gera mais sementes, e nós podemos ter a agricultura e nos sustentarmos. Por meio da habilidade de reconhecer padrões em nós e nos outros, aprendemos a navegar no mundo de forma inteligente. Aprendemos qual é o melhor cereal matinal a comprar, qual é a melhor escola para os nossos filhos estudarem, ou se estamos causando sofrimento ou benefício e como podemos servir. Tudo isso requer discernimento. Acho que muitas vezes confundimos insight, conhecimento ou discernimento com capturar a verdade. Mas, na verdade, o insight não é algo estático.

Somos parte de uma teia infinita de relações dependentes e o mundo continua a mudar e nós mudamos junto com ele. Portanto, o que chamamos de experiência é, em realidade, uma troca lúdica entre nossos mundos interno e externo. Existe um constante feedback acontecendo e ele pode ser muito lúdico e muito doloroso também. Mas o que eu acredito – não sei quanto a vocês – é que a vida está sempre eclodindo das interfaces das minhas ideias.

Dessa forma, o insight pode nos servir enquanto nós soubermos que as coisas não se limitam ao que nós pensamos sobre elas. Considero esse ponto importante, porque quando achamos que as coisas se limitam assim, caímos no que eu percebo como sendo fundamentalismo. Geralmente, pensamos que o fundamentalismo é algo que outras pessoas fundamentalistas fazem, mas, na verdade, fundamentalismo é olhar para alguém e pensar que nós sabemos quem essa pessoa é. Nada é singular, permanente, ou existe fora da natureza de causas e condições. Sou muitas vezes atingida por esse fundamentalismo, como quando nos fechamos ao redor de uma experiência e pensamos que a compreendemos. Na sequência, emoções negativas começam a surgir. Reconheço isso como uma forma de fundamentalismo em mim mesma.

Acredito que a humildade é algo maravilhoso. E me impressiona o senso de humildade que vi nas culturas indígenas. Nos últimos dois anos, tenho ido ao Canyon de Chelly com um grupo de pessoas para fazer retiros de meditação. Há um povo indígena vivendo lá. E quando você olha para uma determinada pedra — lá existem lindos monólitos — e pergunta a eles “como ela se chama?”, eles respondem “se você se posicionar à direita, ela se chama ‘pedra da sela’, mas se você se colocar à esquerda, é chamada de ‘pedra do urso’. Depende de onde você está”. Há uma flexibilidade, abertura e o senso de que as coisas não existem no objeto. Assim, a forma pela qual eles veem o mundo natural se torna muito viva e sagrada. Penso que é sobre isso que estou falando. O insight precisa ser aberto, flexível e dinâmico porque é assim que o mundo é.

Quanto ao insight sagrado, não acho fácil falar sobre ele, pois ele não é muito valorizado nas sociedades convencionais. Não é visto como algo prático. Portanto, sinto-me grata por estarmos falando disso aqui. Às vezes, sinto como se vivesse num universo paralelo. Em alguns momentos, ligo o noticiário e experiencio um forte desespero. Em outros, vejo alguém fazendo algo brilhante ou contemplo a última folha de outono caindo de uma árvore e me sinto, repentinamente, inundada pela beleza e pela pujança disso tudo. E me parece perfeito.

Acredito que quando falamos que tudo é perfeito, corremos o risco de que as pessoas pensem que vivemos num estado total de negação. De certa forma, é verdade: existe envelhecimento, doença e morte, abuso, guerra e degradação ambiental. Entretanto, eu não entendo o insight sagrado como ver a perfeição das coisas em oposição à imperfeição, ou o sublime em oposição ao temporal ou comum.

Descobri que a felicidade perfeita acontece quando nós pisamos por completo para fora do dualismo. É uma mente admirada com seu universo insondável. Há um senso de humildade. Não existe a arrogância de tentar afastar a dor e se apegar à beleza. Mas há destemor e a vontade de abranger a tudo. Acredito que, no mundo convencional, as pessoas apreciam esses momentos de encantamento, mas não os consideram práticos e pensam que devem retornar à dureza da realidade da vida, ou seja, à sobrevivência básica. Porém, acredito que esses momentos têm um lugar prático na nossa vida: eles nos protegem do fundamentalismo e das certezas. Se somos desprovidos de humildade, mesmo nas coisas virtuosas em que nos engajamos, tornamo-nos fundamentalistas. Por exemplo, você pode ser um vegetariano fundamentalista ou um ativista fundamentalista ou um ambientalista fundamentalista.

Nesse sentido, operar a partir da certeza de que estamos certos significa, de fato, falhar em ver o mundo como ele realmente é. Reconhecer que nós sempre vemos apenas uma parte das coisas, que esse momento presente é uma mistura de infinitas relações dependentes e que o mundo é muito dinâmico e selvagem para a existência das nossas ideias: penso que isso tem a ver com o insight sagrado. E não creio que ele seja provido por algo superior. Para mim, ele surge da compreensão da nossa relação com o mundo e de como vivemos, e de nós sermos capazes de acolher isso com humildade.

Assim, considero esta uma grande oportunidade para honrar esse entendimento, essa verdade maior que não é um objeto do nosso intelecto. O intelecto é bom em se apegar e rotular, mas há algo muito profundo em honrarmos o insight sagrado. Na minha tradição, a habilidade de aceitar ou experienciar as coisas, sem se fechar em rótulos e ideias, realmente é o “sagrado feminino”.


*Palestra oferecida no Festival of Faiths 2018 e disponível na íntegra, em inglês: neste link


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