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Histórias da minha prática budista de visão, meditação e ação (2)

por 7/03/2011 11 comentários

Como comentei antes, minha prática começou pela ação, pelo uso da liberdade de escolher como agir, no nível de corpo. Foi uma descoberta a posteriori, pois de modo geral não me estava clara essa liberdade. Na verdade, quando me propus a ficar atento a cada relação, ao longo do dia, para não agir da forma impulsiva costumeira, dando espaço para a impaciência, estava apenas exercitando as etapas de resolver e controlar, como uma disciplina que estava me auto impondo. Já havia percebido o sofrimento recorrente de responder com impaciência a percepções acerca das situações e do outro. Começava a verdadeira renúncia, a renúncia ao sofrimento.

Uma única inspiração antes de responder, e a mente já pode fazer escolhas menos sofridas, dando tempo para que a percepção fique mais ampla, menos sujeita a erros. É quase como convidar uma linda mulher para dançar, achando o ritmo e a fluidez dos passos, atento aos movimentos dela. Olhando o outro nos termos dele, não nos meus, como diz nosso mestre.

É interessante ver, mas apenas agora, em perspectiva, que eu já estava meditando ao longo do dia, mesmo sem uma prática formal mais estabilizada, e mesmo sem uma visão de sabedoria e compaixão mais clara. Já estava praticando a liberdade de escolha, ainda no nível mais grosseiro da resposta corporal, mas já ativando sentimentos mais positivos em relação ao outro, escolhendo o que sentir, e já escolhendo o que pensar, mas ainda sem saber disso claramente, pois estava operando com base em disciplina imposta. E também não tinha ainda percebido que as percepções que temos de imediato sobre pessoas e situações podem estar fortemente incorretas, e que o tempo de resposta um pouco retardado pode aumentar muito a chance de acerto.

Comecei com os Budas mais presentes em meu dia a dia: alunos, colegas de trabalho, minha mulher e meus filhos. Com um menor número de julgamentos e ações equivocadas, e um certo cuidado, pensando: a pessoa não é assim, ela está assim, pode estar aflita e, em vez de críticas (veladas ou abertas), pode estar precisando de ajuda.

Fui percebendo a atitude de todos e a capacidade de cada um deles mudar, em relação ao que estava acostumado a ver, de uma forma que eu posso descrever como um serenamento nas relações, quase um prazer de estar juntos. A construção positiva do outro, dar nascimento positivo, como diz o mestre, e verificar que podemos escolher o mundo onde vamos viver, pois nossas respostas ajudam a construí-lo.

Um milagre, para quem sempre foi fortemente aversivo, sem perceber que era aversivo. A aversão ainda está presente, mas muito mais branda e cada vez mais clara em minha mente, o que me dá chance de ir erradicando este carma causador de intensos sofrimentos.

A meditação formal e a visão de sabedoria, e principalmente de compaixão, ainda estavam longe, mas uma certa fé já havia se instalado, não uma fé de fora para dentro, mas aquela que vem de sentir que um caminho valioso foi achado, e de que não haveria retorno aos modos sempre inconscientes e automáticos de agir.

Volto em breve ao assunto.

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Carlos Ernesto de Oliveira é professor e consultor. Procura introduzir o Darma em cada ato da vida, falhando repetidas vezes. Está no CEBB SP às terças e no CEBB Campinas aos sábados alternados. | Leia outros posts de


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11 comentários »

  • Jack Costa disse:

    Bom dia, Carlos!

    Feliz em compartilhar desse artigo tão especial e perceber o quanto todos nós passamos pelas mesmas aflições.

    “mas uma certa fé já havia se instalado, não uma fé de fora para dentro, mas aquela que vem de sentir que um caminho valioso foi achado, e de que não haveria retorno aos modos sempre inconscientes e automáticos de agir.”

    Estou chegando agora e suas palavras conseguiram descrever ‘ipsi literis’ o que se passa no meu coração.

    Tô feliz demais!!

    Obrigada a todos os envolvidos. ;O)

  • Carlos Ernesto de Oliveira
    Carlos Ernesto (autor) disse:

    ALEGRIA!

  • renato disse:

    é gracioso saber um pouco de como um mestre (Lama) teve seu comesso, tenho mais curiosidade em saber de sua vida, pois sou apreciador do (Darma) pratico ch’an, tenho intuitividade sobre sertos assuntos que não sei espricar no momento, tenho 17 anos de idade, pratico zen.. a pouco tempo mais ou menos 6 mezes, leio sobre o Budismo a ppouco tempo, tenho enteresse no Bbudismo, quero que vc lamapadmasamten add eu no msn.. por favore

    tesejo que vc seja tocado pela iluminação. não se esqueça de add eu no msn vio ?

  • renato disse:

    quero saber como posso tornar-se um Monje.

    eh lama vc pode min esplicar ? msn :renatinhuhdino@hotmail.com

  • Carlos Ernesto de Oliveira
    Carlos Ernesto (autor) disse:

    Caro Renato,

    Meu nome é Carlos, e sou o autor do texto que v. leu; o Lama Samten é meu professor; ele tem CEBB´s (Centro de Estudos Budistas Bodisatva) espalhados pelas várias capitais do Brasil; recomendo que v. procure um deles para começar a ter respostas para suas perguntas (veja http://www.cebb.org.br) Também posso conversar com v. pelo telefone ou skipe, nos fins de semana: (011)9985.3447 e carlos.oliveira45, respectivamente.

    Abraço, e saiba que o Darma é um lindo caminho.

    Carlos

  • Rodrigo disse:

    Caro Carlos Ernesto.

    Primeiramente, parabéns pelo seu texto. Admiro a clareza com que demonstrou a prática e seu princípios. Ainda não me considero budista, no entanto, venho realizando uma espécie de “busca” pelo fator religioso em minha vida. Desde sempre tive uma educação nos moldes do catolicismo. Contudo, como era algo ligeiramente “forçado” para mim, resolvi, agora com 20 anos, sair a procura do que realmente pudesse me satisfazer nesse aspecto.

    Cheguei a entrar em contato com o espiritismo e com o taoismo, mas não fizeram brilhar meus olhos, rs. Após uma leitura de uma das obras de Dalai Lama, me interessei pela temática. Desde então, tornou-se uma prática diária, rotineira, estudar a história do budismo, com especial interesse no budismo tibetano.

    Como estou quase terminando meu curso de história, acabo por dar mais valor aos antecedentes do que o presente. Observando isso, passei a, ligeiramente, tentar por na prática os conhecimentos obtidos (ainda que sejam bem escassos). A meditação, sem dúvida, é algo espetacular !

    Próximo de casa tem um dos Cebb’s. Mas confesso que ainda estou com um pouco de vergonha de ir lá,rsrs… Ainda não me sinto seguro quanto ao que aprendi. Acredito que com mais tempo possa entrar em contato mais direto com os praticantes budistas, como faço agora rs.

    Novamente, parabéns pelo seu texto.
    Abraços,
    Rodrigo.

  • Bruno disse:

    Olá Carlos.

    Me identifico com o comentário do Rodrigo. Tenho 21 anos, estou morando sozinho a pouco tempo – busco meu caminho desde cedo. Também fui criado numa família católica e a alguns anos escolhi não mais seguir o catolicismo, acredito que em partes por não me identificar com a religião, talvez também por não concordar com certos ensinamentos.

    Bem, a um tempo venho me interessando pelo budismo, suas práticas. Preciso encontrar um caminho, uma forma de me entender e entender aos outros e acredito que o budismo me ajudará nessa busca. Desde o ano passado estou passando por momentos delicados e sinto a necessidade de uma clareza que ainda não sei dizer bem o que seja, mas sei que preciso dela.

    Aqui onde moro, na Lagoa da Conceição em Florianópolis, encontrei um centro chamado Chagdud Gonpa Rigdjed Ling. Nesse último feriado de Páscoa tive o que alguns chamariam de iluminação ou motivação a me dedicar a praticar a busca pelo conhecimento de mim mesmo. Semana que vem visitarei o centro e, se possível, gostaria de adicionar você no Skype. Acredito que algumas palavras e um pouquinho do seu tempo possa me ajudar a iniciar minha caminhada.

    Abraço.

  • Marco disse:

    Sr. Carlos,

    Comecei a prática a mais ou menos 3 meses, achei muito interessante seu texto, pois tenho percebido as mesmas coisas neste exposto.
    Não digo seja Budista ainda, mas embrionário( ou no caminho que por certo não há volta).

    Abraço,
    Marco.

  • Grasielle disse:

    Que texto maravilhoso…
    INSPIRADOR!!!
    Muito obrigada Carlos

  • Rayane disse:

    Bom dia!

    Obrigada pelo maravilhoso artigo, lê-lo, foi como sentir a alma massageada.
    Eu, que sempre tomei decisões precipitadas e que me irrito facilmente (um simples atraso de alguém que marcou uma saída comigo), decidi viver tranquilamente, sem atropelar a vida.
    Ancorei minhas esperanças no Budismo, e a cada texto que leio, fico aliviada, com a alma mais leve e o coração transbordando!

    Voltarei sempre aqui, estou aprendendo lições valiosas!

  • Rayane disse:

    Bom dia!

    Obrigada pelo maravilhoso artigo, lê-lo, foi como sentir a alma massageada.
    Eu, que sempre tomei decisões precipitadas e que me irrito facilmente (um simples atraso de alguém que marcou uma saída comigo), decidi viver tranquilamente, sem atropelar a vida.
    Ancorei minhas esperanças no Budismo, e a cada texto que leio, fico aliviada, com a alma mais leve e o coração transbordando!

    Voltarei sempre aqui, estou aprendendo lições valiosas!

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