Foto: Lions Roar

Iogue da Ilusão

Em homenagem ao Parinirvana de Chagdud Rinpoche, celebrado hoje, oferecemos este texto do acervo da Bodisatva

Por
Revisão: Alexandre Okamoto
Transcrição: Janaina Perantoni e Wimerson Gomes

A última exalação de Chagdud Tulku Rinpoche dissolveu-se no espaço no início da manhã do dia 17 de Novembro de 2002, segundo o Chagdud Gonpa Brasil. Mais uma vez, honramos sua compaixão, sabedoria e o poder da sua orientação à sanga, oferecendo o resgate deste texto publicado na revista Bodisatva nº 09, que conta um pouco da história deste radiante mestre, o Senhor da Dança. 

Muitas de nós não o conhecemos pessoalmente, mas cultivamos a partir dele no nosso coração a união a todos aqueles que perdemos no jogo ilusório da morte. Neste texto, podemos nos conectar com Chagdud Tulku Rinpoche e a sua vinda ao Brasil, que pode ser comparada à de Padmasambava ao Tibete. Neste momento especialmente auspicioso fazemos uma dedicação de méritos em benefício dos entes queridos e da paz e bem-estar de todos os seres sencientes.


 

“Para onde vôo?”, Chagdud Rinpoche perguntou a alguém no seu sonho,
ao tomar o avião para um lugar desconhecido. “América”, uma voz respondeu.
Mais tarde, ao indagar de outros tibetanos do campo de refugiados na Índia
sobre a América, ninguém sabia onde ficava o lugar. Finalmente alguém disse,
“É muito longe, numa terra de demônios azuis”. Era o ano de 1959.
Este perfil se baseia no artigo “Life and Teaching of Chagdud Tulku Rinpoche”,
de Lisa Leghorn, publicado no jornal Snow Lion, outono de 1994.

 

Sua Eminência Chagdud Tulku Rinpoche, cuja foto está na capa desta edição, só foi para os Estados Unidos em outubro de 1979, a convite de sua esposa, Jane Tromge, e um grupo de outros americanos. Ensinou na Califórnia e no Oregon. Instigado por seus alunos, aceitou ficar no país se estes prometessem aplicar com diligência seus ensinamentos. Em 16 anos, o mestre revelou lenta e metodicamente todos os ensinamentos vajraiana, até o mais alto, o dzogchen, a grande perfeição. Agora, com alguns dos seus primeiros discípulos, ele vem instalar-se no Chagdud Gonpa Brasil, em Três Coroas, RS. Outros centros da Fundação se encontram na Suíça, no Canadá, nos EUA, e em São Paulo e Belo Horizonte.

Chagdud Rinpoche nasceu no Tibete no ano 1930. Sua mãe, Dawa Drolma, era uma famosa lama e delog, pessoa que tinha morrido, viajado pelos reinos de samsara e terra pura e voltado à vida – no caso dela, cinco dias depois. Aos dois anos, o menino foi reconhecido como tulku, ou reencarnação, do abade de Chagdud Gonpa – 16º de uma linhagem de grandes mestres e descobridores de tesouros do Darma, indianos e tibetanos.

Seu ensinamento enfatiza a necessidade de integrar visão, meditação e ação. Ele estabeleceu um programa de treinamento no qual os alunos praticam o Darma tanto em meditação formal como na vida diária. Os ensinamentos dzogchen ou ati ioga, são os mais profundos, libertadores e diretos de toda a tradição tibetana.

Neste contexto, Rinpoche apresenta inicialmente as práticas de nongdro que, concluídas, habilitam a um programa de ensinamentos e transmissão completa através de retiros e meditações. Tendo sempre dzogchen como panorama de fundo, Rinpoche dá muitos outros ensinamentos, incluindo maha ioga. Sua vinda ao Brasil pode ser comparada à de Padmasambava ao Tibete.

Conectado com as quatro linhagens do budismo – seu pai e seu padrasto foram lamas gelugpa, a mãe era da família Sakia, e ele foi treinado nas tradições Kaguiu e Ningma – completou dois retiros de três anos e estudou com mais de 40 lamas, inclusive grandes mestres como Sechen Kongtrul, Khanpo Dorje, Tulku Arig, Tromge Trungpa, Dudjom Rinpoche e Dilgo Khyentse Rinpoche.

Fugindo do Tibete ocupado pelos chineses em 1959, Chagdud Rinpoche passou 20 anos na Índia e no Nepal, servindo a comunidade de refugiados como lama, médico e artista. A capacidade de Chagdud Rinpoche de desabrochar no Oeste não se deve apenas ao seu grande conhecimento, sua iluminação, sua compaixão e seu humor, mas ao fato de ele ser um homem do renascimento.

Artista, poeta, mestre das artes rituais e de canto, famoso pela sua voz extraordinária, autor de obras de arte importantes no Ocidente, como uma estátua de cimento de Padmasambava de sete metros de altura, ele toca o coração de seus discípulos pela compaixão e pela firmeza com que insiste na prática de seus ensinamentos. Seu livro Portões da Prática Budista, publicado em português (Editora Paramita), termina com um conselho:

 

“As pessoas dão muitas razões para não praticar. Algumas dizem que não acreditam nos ensinamentos, outras que não estão preparadas ou não são capazes. Mas é um engano. Acreditando ou não em samsara, é aqui que estamos. Acreditando em carma ou não, nós o criamos. Acreditando ou não nos venenos da mente, eles estão lá.

De que serve não acreditar nos remédios? Estando nós prontos ou não para praticar, a morte e a doença não esperarão. Por que não preparar? Por que não desenvolver a capacidade de ajudar a nós mesmos e aos outros? Estamos prontos para beber veneno, a morte e a doença não esperarão.

Por que nos preparar? Por que não desenvolver a capacidade de ajudar a nós mesmos e aos outros? Estamos prontos para beber veneno, mas não para tomar remédio. Não meditar, depois de recebermos os ensinamentos, é como comprar nossas comidas preferidas, arranjá-las com muito gosto na cozinha e não comer. Morreremos de fome.

Meditar é como comer: nossa despensa está cheia e nós partilhamos aquilo que juntamos.  Em vez de dizer, hoje não tenho tempo, meditarei amanhã; esta semana não tenho tempo, vou deixar para a semana que vem; este ano estou ocupado, faço no ano próximo, precisamos sentir a urgência de fazer a nossa prática agora, não apenas hoje, não dentro de uma hora, mas neste exato momento.”

Quando as pessoas dizem que é muito difícil praticar devido às famílias, filhos pequenos, trabalho, agitação, ruído, falta de dinheiro, problemas de saúde, ele diz:Se isso perturba tanto, imagine a proximidade da morte e o bardo. Use essas dificuldades como estímulo para superar samsara de vez, atingir a felicidade que não flutua e trazer real benefício a todos os seres”. Seus ensinamentos são para todos.


Ensinamentos do Iogue da Ilusão

Ao grande número de estudantes, ligados a mim por aspirações prévias e pelo carma, eu, o tulku chamado Chagdud, este velho afetuoso, inspirado por sentimentos de amor, escrevo esta mensagem e a envio a vocês nas asas do vento. Atentem a ela:

Invocam vocês as correntes mentais iluminadas dos rigdzins das três linhagens com fé, respeito e anelo?

Dão-se conta da essência deste estado duramente conquistado de liberdade e oportunidade, como a flor udumbara, através da prática do Darma sagrado?

Conseguem romper as amarras do seu aprisionamento e apego a todos os outros atos, impermanentes e ilusórios, desta vida?

Visto que os resultados de seus atos, certos ou errados, são infalíveis, comportam-se de acordo com as escolhas morais de virtude e dano?

Visto que não existe oportunidade para felicidade duradoura no ciclo da existência, a atitude sublime da renúncia desponta em seu contínuo mental?

Visto que a não ser que ouçam os ensinamentos, a ignorância não pode ser dissipada, acendem vocês a lâmpada do Darma repetidamente?

Visto que seus fluxos mentais não serão pacificados apenas por ouvir ensinamentos, por meio da contemplação interior vocês deixam para trás a especulação vã?

Para que não fiquem emaranhados em elocubrações conceituais do ouvir e contemplar, vocês praticam de acordo com os pontos-chave das instruções da transmissão direta?

Já que não existe outro refúgio infalível no ciclo da existência, colocam vocês as três sublimes fontes de refúgio no topo da cabeça?

Para serem protegidos do sofrimento deste ciclo de existência, deixam vocês de causar dano a outros, assim como qualquer coisa que possa levar a isso?

Visto que não existe ser senciente nos seis reinos que não tenha sido seu pai ou sua mãe, meditam vocês com equanimidade sobre a semelhança e a bondade de todos eles?

Ao verem esses seres que foram suas mães experimentarem as causas do sofrimento e seus resultados, são vocês levados a ter compaixão?

Além disso, quando veem alguma felicidade ou virtude em outro, meditam sobre isso enquanto se regozijam de coração?

Considerando que a felicidade efêmera não traz satisfação, fazem surgir a aspiração de ocasionar felicidade duradoura?

Enquanto constantemente examinam seus próprios fluxos mentais, direcionam vocês o corpo, a fala e a mente para o caminho da virtude?

Com seus méritos e riquezas, reais ou imaginários, acumulados, fazem oferendas para aperfeiçoar a acumulação de mérito?

Para acabar com os grilhões de sua avidez, oferecem e doam seus corpos aos quatro tipos de hóspedes?

Visto que a natureza fundamental dessa oferenda e doação está livre da especulação, vocês tem a visão de que isso é acumulação da mais pura consciência?

A fim de jogar fora a pesada carga de ações danosas, obscurecimentos, falhas e fracassos, confessam vocês com os quatro poderes como seus antídotos?

Considerando Vajratsava, a união da consciência intrínseca e do vazio, como igual à sua própria natureza, dissolvem vocês os seus mais sutis padrões habituais no espaço base?

Estão cientes de que o mais sublime, o mais profundo de todos os caminhos espirituais é o caminho rápido do guru ioga?

Ouviram falar que, em vez de meditar sobre centenas de milhares de deidades por eras sem fim, é melhor meditar uma vez sobre o lama?

Tem a certeza (confiança) de que os atributos do lama – cores, apetrechos, ornamentos e trajes – são vívida e espontaneamente aparentes, brilhantes e nítidos?

Tem a certeza (confiança) de que os atributos do lama – cores, apetrechos, ornamentos e trajes – são vívida e espontaneamente aparentes, brilhantes e nítidos?

A luz, semelhante à do sol, de sua fé e samaia, brilha sobre a montanha nevada do lama, que é o reservatório do “derretimento” de bênçãos?

A fim de purificar os obscurecimentos acumulados de corpo, fala e mente agindo juntos, seguem vocês o caminho profundo de receber as quatro iniciações repetidamente?

A fim de que as bençãos da linhagem mente-a-mente entrem em seu contínuo mental, fazem a fusão da mente do lama com sua própria?

Já se encontraram face a face com o lama definitivo, a “união da consciência intrínseca e a vacuidade, como sua verdadeira natureza, infinitamente ampla e absolutamente repousada?

Percebem todos os fenômenos de aparência, sons e pensamentos, posteriores à meditação, como sendo forma, fala e mente iluminadas do lama?

Compreendem que, embora todos os fenômenos do samsara e nirvana não sejam suas próprias mentes, eles não existem separados de suas mentes?

A fim de romper através da teia de muitos conceitos, fizeram as preliminares de demolir o casulo da mente ordinária?

Ao seguir a prática principal de encontrar a verdadeira natureza da consciência intrínseca face a face, estabelecem-se sem esforço, de modo amplo e completamente sem artifícios?

Sem meditar deliberadamente, porém sem distração, estão familiarizados com a forma mais majestosa e sublime de consciência?

Embora sua visão possa ser tão grandiosa (elevada) como o próprio céu, cuidam de observar opções morais, escrupulosamente, em sua conduta?

Quanto à meta, realiza de forma espontânea e atemporal, deixaram para trás as amarras da expectativa, da esperança e do medo?

Por favor, examinem de perto para determinar se estes trinta e sete pontos-chave se aplicam diretamente a cada um de vocês, em todas horas e de todas as formas.

Se sentirem que querem sentar, mantém a fortaleza do ser primordial; se sentirem que querem ir, sigam o caminho verdadeiro; se sentirem que precisam fazer algo, tragam grande benefício para os seres.

Para mim, Chagdud, assoberbado com a carga dos seus muitos anos, este corpo velho e gasto, esta árvore retorcida, suporta tempestades de elementos em desequilíbrios; no entanto, não estou machucado.

Hordas de demônios, malevolentes em outras circunstâncias, me servem com respeito. Estabeleci a base para que os ensinamentos dos grandes segredos se desenvolvam no futuro.

Partindo, estarei contente na presença do lama, Padma Jungnay; permanecendo, estarei satisfeito nutrindo o amor de um lama por seus estudantes.

O que quer que tenha feito, estou feliz, um iogue da ilusão, que oferece isto a vocês, com uma mente expansiva e alegre.

Deliciem-se nesta visão. Que ela fique indelevelmente estampada em suas mentes. Eu, o amoroso Chagdud, escrevi isto para meus alunos, em lugar da minha voz.


O texto acima foi publicado originalmente na Revista Bodisatva nº 09, em 1996. 


Acervo Bodisatva

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