Khyentse Yeshe Silvano Namkhai – O cortante mestre Dzogchen do Ocidente

por 22/11/2011 1 comentário

Por Liane Alves
Transcrição e tradução: Eduardo Cintra Mauro

Em entrevista para BODISATVA, o mestre Khyentse Yeshe Silvano Namkhai revela os diferentes aspectos da tradição Dzogchen, ou Grande Perfeição.

Sua palavra é precisa, seu pensamento, brilhante. E em suas mãos hoje repousa boa parte do futuro do Dzogchen no mundo. Filho do grande mestre Dzogchen Chögyal Namkhai Norbu, Khyentse Yeshe Silvano Namkhai atualmente comanda retiros em vários países e aos 40 anos se prepara para assumir um papel cada vez mais relevante no ensinamento do precioso Caminho da Perfeição.

Ele relutou até onde pode. Parte da história dessa resistência em assumir seu papel de mestre do ensinamento Dzogchen nos países ocidentais está registrada no documentário My Reincarnation (www. myreincarnationfilm.com), lançado em festivais europeus no ano passado e dirigido pela premiada realizadora Jennifer Fox. Durante duas décadas, ela acompanhou a vida de Yeshe Silvano Namkhai, como é conhecido em família, até ele assumir ser um Khyentse, reconhecido aos quatro anos por Sua Santidade Sakya Trizin, e começar a ensinar o Dzogchen, considerado o mais alto ensinamento do Tibete. Criado numa escola cristã italiana, filho de Namkhai Norbu Rinpoche, um dos maiores mestres do budismo tibetano da atualidade e exprofessor de Estudos Orientais nas universidades de Nápoles e Roma, Yeshe conviveu desde cedo com as similaridades, e as diferenças, entre as culturas do Ocidente e Oriente. Por isso, vejo simultaneamente diante de mim o bem sucedido executivo especializado em altas tecnologias que ele foi até 2007, e também o homem que desde adolescente esteve em contato com um ensinamento espiritual de grande profundidade. Formado tanto pela célebre Faculdade de Filosofia La Sapienza, de Roma, como pela Faculdade de Engenharia da Universidade de Bolonha, Khyentse Yeshe Namkhai se tornou um requisitado consultor de negócios até recentemente. Porém, relutava em tornar-se mestre: queria ser apenas um homem italiano normal, chefe de família e pai de duas crianças. Desde 1989, no entanto, ajudava a administrar a Comunidade Dzogchen criada por seu pai.

Em 2007, Khyentse Yeshe foi ao Tibete para visitar pessoas ainda vivas que o conheceram em sua encarnação anterior, um mestre Dzogchen que morreu nas mãos dos chineses durante a invasão ao território tibetano. Recebido como uma grande personalidade, Khyentse Yeshe ainda teve sonhos e revelações em sua estadia que o ajudaram a decidir pela nova vida. Era o começo de sua aproximação definitiva com a Comunidade Dzogchen, que hoje reúne 10 mil associados em vários países. “Nunca houve tantos praticantes de Dzogchen no mundo como hoje. Esse fato é extraordinariamente auspicioso”, reconhece. No passado, esse ensinamento era dado no Tibete tanto dentro das grandes linhagens como fora delas, por mestres independentes. Pouquíssimos alunos eram escolhidos para obtê-lo, geralmente depois de muitas práticas e condições especiais, como se requeria nas grandes escolas do budismo tibetano. Hoje, o Dzogchen não-gradual é dado sem as práticas preliminares (ngondro) por Namkhai Norbu e Khyentse Yeshe Silvano Namkhai, como era comum entre os mestres independentes do Tibete não ligados às grandes linhagens. Aqui, o bem-humorado, relaxado e sensível Khyentse Yeshe fala para a Bodisatva sobre a presença, o amor, o sonho, a morte e muitos outros assuntos.

BODISATVA: Você poderia definir o que é Dzogchen? E diferenciar o Dzogchen do ensinamento Dzogchen?

KHYENTSE YESHE NAMKHAI: Sim. Há um mal-entendido generalizado sobre isso. Dizemos Dzogchen e ensinamento Dzogchen. Dzogchen é o estado de autoperfeição. Ensinamento Dzogchen é um método. São duas coisas diferentes. Mas se dissermos que o Dzogchen é algo que é o fim último de um processo, um resultado, também não está correto. Antes de tudo temos de entender que esse estado está além da mente e fora do tempo. Mas podemos almejar que o Dzogchen, o estado de autoperfeição, seja nosso estado natural. É para isso que existe o ensinamento Dzogchen, e existe bastante ensinamento Dzogchen [risos]. Há três séries de ensinamentos dessa tradição: Semde, Longdé e Upadesha. E se há um ensinamento, alguém pode aplicá-lo, senão, para que existiria? O ponto é que, ao aplicá-lo, você está diante de sua própria capacidade, de sua limitação. Então, você entende o que você entende. Depois de algum tempo, você entende um pouco mais. Depois, provavelmente, você entende sempre mais e mais profundamente. Mas não há nada misterioso ou elevado. Então, se há o reconhecimento do ensinamento, do mestre e da comunidade, isso já pode ser considerado como capacidade. A partir desse ponto, podemos aplicar o ensinamento. O quanto podemos aplicar? Isso é algo gradual. O professor explica por duas horas, e eu entendo dois minutos dessas duas horas. Podemos dizer que já é alguma coisa, melhor do que nada. Em seguida, eu entendo vinte minutos. Da próxima vez entendo duas horas. Na próxima, estou falando demais [risos]. E quando discuto com o professor, significa que eu estou voltando ao nível dos dois minutos!

BODISATVA: Quais são então as condições necessárias para seguir esse ensinamento?

KHYENTSE YESHE NAMKHAI: Se há o reconhecimento do mestre ou professor, e esse é um reconhecimento espontâneo, essa é a melhor condição. Significa que alguém chegou ao ensinamento de algum modo, guiado por sinal, situação, circunstância, e o reconheceu. Ou simplesmente nasceu em uma condição perfeita, em uma comunidade perfeita, e então tem reconhecimento instantâneo do mestre ou do professor, e o aplica. Esse é o melhor caminho. Mas há também outra maneira: quando eu sou convencido por alguém ou algum aspecto circunstancial, por exemplo, quão famoso é o professor, quão importante é o ensinamento, e assim por diante. Mas no momento que entendo melhor minha condição e que é reavivado meu conhecimento da condição real, não preciso mais disso. Viver minha condição real não é algo que vem de fora de mim, como se o mestre estivesse me dando algo. Quando reconheço a condição real, a verdadeira natureza, não há dúvidas. E quando isso se manifesta, nós sentimos que devemos seguir esse ensinamento. Se for por causa de um minuto, duas horas, vinte minutos… isso não importa.

BODISATVA: Hoje o ensinamento Dzogchen é muito procurado pelos alunos budistas, e até por não budistas. Você pode falar um pouco sobre a introdução do Dzogchen no Ocidente?

KHYENTSE YESHE NAMKHAI: Sim, é verdade, parece que agora o Dzogchen se tornou uma espécie de moda [risos]. Não era assim há trinta anos, ou mais, quando meu pai começou a ensinar e a usar essa palavra – não Atiyoga, mas ensinamento Dzogchen. Atiyoga era mais comum na época, pois a palavra traduz a essência dos tantras superiores, isto é, ela é usada quando estamos estudando de acordo com a tradição Nyingma, onde existem os tantras superiores e inferiores. Nos tantras superiores há um objetivo final que esperamos descobrir, que é nossa verdadeira natureza. Quando nós aplicamos esse conhecimento, dizemos Atiyoga. A palavra Yoga significa que estou aplicando meu próprio conhecimento. Se eu recebo um ensinamento dos tantras superiores, dentro desse ensinamento também tenho o Atiyoga. O Atiyoga é como o estágio final dos tantras superiores. É descrito como permanecendo nesse estado para sempre, assim como a iluminação, e isso é chamado Dzogchen, Grande Perfeição, Estado Autoperfeito, e assim por diante. Meu pai foi o primeiro a utilizar a palavra Dzogchen no Ocidente, porque ele recebeu esse ensinamento específico no Tibete, e detém esse tipo de transmissão. Quando ele começou a usá-la, aos poucos ela começou a ficar famosa, especialmente após a publicação de alguns dos seus livros, como The Crystal and the Way of Light (O Cristal e o Caminho da Luz, sem tradução para o português), um tipo de best-seller que é bem conhecido e difundido. Mas quando você dá uma olhada por aí, principalmente na internet, descobre que todo mundo usa a palavra Dzogchen e não Atiyoga. O mais engraçado é que o modo de transliterar o termo é o mesmo que o meu pai introduziu no Ocidente há alguns anos. Mas não mantiveram o seu jeito de falar Dzogchen, com acento na última sílaba, Dzogxên. Meu pai não é do Tibete central, ele tem mais um estilo khampa de falar. E os khampas dizem Dzogchen[Zzoch´tchên), eles nunca dizem Zzôch’tchen, com acento na primeira sílaba. E é engraçado, porque aí você vê que é a palavra escrita que está sendo copiada, mas não o modo de falar de quem a introduziu [risos]. E se estão copiando a palavra, isso significa que o entendimento do que é o ensinamento não está muito claro, no mínimo.

BODISATVA: Qual a confusão que essa má compreensão sobre o Tantra e o Dzogchen pode causar?

KHYENTSE YESHE NAMKHAI: Alguns estudantes vinham até a mim e diziam: “Ah, sou praticante Dzogchen, estou fazendo isso e aquilo”. E descreviam como se tivessem recebido um ensinamento Tantra. Alguns até o descreviam no estilo dos tantras inferiores. Claro que cada um é livre para escolher e decidir o que prefere. Mas também é claro que é melhor respeitar o modo mais antigo de estruturar esse conhecimento. Se nos baseamos no modo de classificação das tradições Sarma ou Nyingma, e se estamos praticando o Tantra, não é possível dizer ainda: “Isso é ensinamento Dzogchen”. Antes você faz ngondro, os tantras inferiores ou superiores, e daí o Anuyoga – se você tem a transmissão do Anuyoga – e só no final começa-se a falar em Atiyoga. Daí você pode dizer: “Sim, o objetivo final do Atiyoga é o Dzogchen”. Senão fica estranho, caso você esteja usando a classificação Nyingma. Se você está usando outra tradição, como a moderna, do mesmo modo você deve respeitar a classificação, porque existem modos diferentes de classificar. Hoje, por exemplo, se você ler e estudar principalmente a base do Santi Maha Sangha (programa de estudos criado por Namkhai Norbu Rinpoche), você descobre como todos esses veículos são classificados, como eles são estruturados, desde o começo. Você encontra essa explicação nos mais antigos tantras da série Semde do ensinamento Dzogchen.

BODISATVA: É muito importante esclarecer o que é o Dzogchen e o que não é, porque o público dessa revista é budista. E ele quer realmente saber como reconhecer o Dzogchen, suas origens históricas, tanto no Ocidente como de uma maneira mais ampla, aqui nessa dimensão.

KHYENTSE YESHE NAMKHAI: Estudando O Vaso Precioso (livro base do programa Santi Maha Sangha), você pode entender as coisas desde o começo, que é prébudista – porque temos de considerar sempre a conexão com a tradição Bön. Nessa tradição já existia um tipo de ensinamento de transmissão oral chamado Nyendgyud. Tradicionalmente ele se refere à transmissão oral da essência do ensinamento. São apenas algumas palavras, como um pequeno mantra, vamos dizer. Com essas palavras, se desperta novamente todo o conhecimento. Assim é na tradição Bön. Mais tarde, o ensinamento se desenvolveu e continuou. Mas quando inicialmente fazemos uma invocação dos mestres primordiais em nossas práticas, é claro que temos um mestre da tradição Bön, por que essa conexão é reconhecida. Depois o livro O Vaso Precioso esclarece de onde vem o ensinamento Dzogchen, e como ele está muito além da condição humana atual. O Dzogchen já existia muito antes do ser humano como ele é hoje. O homem moderno alcança menos de 100 anos de vida, ou algo perto disso. Mas antes havia outras formas de vida, formas diferentes das atuais, quando esse ensinamento surgiu. Eram formas de luz, formas de energia pura. Lentamente apareceram os mestres, sempre manifestados como uma criança, não um adulto. Naquele tempo não havia ideia de sexo, nenhuma ideia de comida, não havia carência de qualquer espécie. Não havia também a necessidade de sobreviver, a sobrevivência do jeito que é hoje, que é igual à dos animais. Depois, tudo isso mudou, vamos dizer assim. É descrito que o ser humano passou a ter mais apego, e ao apegar-se a alguma condição, descobriu a necessidade. Viu que precisava comer, ou até mesmo sentir vergonha, por exemplo. Sentindo vergonha precisava cobrir o corpo. Precisava também se unir sexualmente para gerar vida. Antes não havia a necessidade disso. Havia apenas pura energia. Vagarosamente, essa forma de vida, que alcançava centenas de milhares de anos, começou a ficar com sua existência cada vez mais curta, até chegar aos 200 anos, e desses 200 anos, a menos de 100, hoje.

BODISATVA: Nesse tempo imemorial, havia mestres e discípulos?

KHYENTSE YESHE NAMKHAI: Sim. Durante todos esses grandes períodos de tempo, sempre os mestres se manifestavam. Até que num certo ponto, apareceu Buda Sakiamuni. Ele ensinou o que era necessário para aquele período, de acordo com o entendimento da época. Esse entendimento, em sua maioria, partia da observação da natureza, e estava mais relacionado com o sofrimento, é um ensinamento de caráter externo. Sendo assim, Buda ofereceu o ensinamento baseado na causa e efeito. Você vê o efeito, descobre qual é a causa e corrige o caminho. Você tenta se manter nesse entendimento da sua natureza, esperando lentamente ter algum tipo de progresso na sua condição. Um desenvolvimento que ao final trará a iluminação. Uma ideia de caminho bem gradual. Garab Dordje, cerca de 500 anos depois do ensinamento de Buda Sakiamuni, traria uma visão complementar.

Continue lendo a continuação desta entrevista.

 Continue lendo Dzogchen, o estado primordial, por Otávio Lila.

 

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A revista Bodisatva foi criada na primavera de 1990 e parou de ser publicada em 1998. Em 2007, voltou a ser editada devido a uma nova fase do Budismo no Brasil, na qual se torna prioritário responder aos desafios culturais e sociais contemporâneos. O conteúdo continua oferecendo um olhar budista para todas as áreas da vida, da economia à ecologia, das artes à psicologia, dos relacionamentos amorosos aos corporativos. | Leia outros posts de


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