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Lama Jigme Lhawang – Entrevista (1)

por 18/02/2013 4 comentários

 Primeira parte da entrevista com o Lama Jigme Lhawang, por Carmen Navas Zamora, para a Revista Bodisatva. Também colaboraram Guilherme Erhardt e  Raquel Rech. Leia a parte 2.

Primeiramente, gostaria de agradecer o convite aos editores da Revista Bodisatva e expressar minha grande alegria em contribuir com a mesma.

Em 1995, aos 14 anos de idade, quando procurava um local onde pudesse aprender a meditar e um professor qualificado que pudesse me ensinar, a Revista Bodisatva magicamente chegou em minhas mãos, com o endereço do Centro de Estudos Budistas Bodisatva, em sua sede não mais existente no bairro Menino Deus, onde haviam práticas de meditação semanais e grupos de estudos de diversas tradições como o budismo zen e o budismo tibetano. Foi através das preciosas informações contidas em suas páginas que as portas do caminho do Dharma se abriram e os primeiros passos foram dados.

Tenho certeza que não serei capaz de expressar o profundo coração dos ensinamentos do Dharma. Entretanto, como um companheiro de caminhada, me alegro em compartilhar algumas reflexões quanto a este trajeto mágico da vida.

Que impressões você teve da evolução do Dharma no Brasil nesta recente visita?

Nos últimos dez anos fora do Brasil tive a oportunidade de visitar três vezes minha terra natal em intervalos de mais ou menos 3 anos. Em 1995, quando iniciei meus estudos do Dharma no Brasil, trago uma alegre lembrança do apoio da comunidade espiritual em termos de brilho no olho, dos ensinamentos ouvidos estarem fazendo sentido dentro do coração, aliviando o sofrimento e diminuindo a insatisfação provinda de jogos e batalhas externas e internas, das dúvidas intermináveis e de um grande anseio por uma luz que iluminasse a escuridão do dia-a-dia comum. Entretanto, no olhar de um jovem de 15 anos vivendo aquele período, lembro-me de estar descobrindo o significado profundo do Dharma junto a meus irmãos, a minha família espiritual brasileira. Todos iniciando o caminho, aprendendo a sentar, a acomodar o corpo, a silenciar a mente, a recitar preces e mantras sem saber direito seu profundo significado e como exatamente aplicar tais métodos de forma eficaz. Nosso refúgio, claramente, não era nas palavras do Buda e nas instruções dos grandes mestres indianos e tibetanos, pois não tínhamos conhecimento nem mesmo acesso a esta literatura dentro da língua portuguesa, além das poucas traduções existentes. Estrelas no céu tais como as que raramente aparecem durante o dia, milagres vivos, transpirando o Dharma que corria em suas veias, eram capazes de nos instruir e guiar num novo caminho, uma via não de palavras, mas de experiências profundas, meditações que iam muito além do mero entendimento conceitual de uma mente racional. O amor, compaixão e profunda visão experiencial destes mestres foi a verdadeira transmissão das sementes que hoje, depois de 16 anos trilhando o caminho do Buda revelado a 2.600 anos atrás, percebo estar crescendo, amadurecendo e já, em muitos casos, dando frutos e flores lindas em nossas terras-verde-amarelas.

Emanações de amorosidade abriram bondosamente as portas de acesso às profundezas de nossos corações. Aos poucos venho descobrindo que o Dharma está nesta verdadeira transmissão, onde budas e bodisatvas estão vivos caminhando e compartilhando entre nós. Palavras são simplesmente o dedo que aponta para a lua cintilante que corre nas veias destes seres extraordinários, e que traz uma brisa luminosa trazendo frescor ao calor de nossas angústias e refletindo como um espelho perfeito a amorosidade e sabedoria inerentes nas profundezas de nosso ser.

Gradualmente, vejo este espelho e o que ele naturalmente reflete, se tornando cada vez mais claro entre os brasileiros. Pouco a pouco, vejo essa mistura de povos e etnias correndo no sangue de uma nação, impregnando-se do natural efeito de gradativamente terem treinado, cultivado e se familiarizado com a vibração tranquila e luminosa do coração de seus mestres, tornando-se também, num passe de mágica, espelhos que refletem as qualidades espirituais de outros que esbarram-se inexplicavelmente pelo caminho da vida.

Entretanto, o Dharma não termina aí. O Coração do Buda naturalmente se expande tocando as buscas e aspirações de todo e cada ser. Ele vai se aperfeiçoando, descobrindo novos meios, novas formas de aliviar o mal-estar e confusão dos seres, que é, em si, a natural e incessante expressão da grande dança da vida. Sua visão vai penetrando e iluminando as várias realidades, nossas várias bolhas culturais, linguísticas e áreas de conhecimento. No Brasil, já há sinais do início deste desenvolvimento. Ainda que pareça estar em seu estágio embrionário, o do lançar sementes, há a certeza de que irá se desenvolver e crescer na exata medida do benefício que trouxer. Vemos já a visão de Buda dialogando com outras tradições religiosas, com a economia, com a saúde, a sustentabilidade ambiental, a ciência, educação, psicologia, desenvolvimento social como também já vemos brasileiros que depois de muitos anos de treinamento, esforços e empreendimentos inimagináveis estudando a filosofia budista em suas próprias línguas raízes em seus países de origem tais como a Índia, Tailândia, China, Japão, Nepal e Tibete, hoje são capazes de traduzir estes textos a partir do páli, sânscrito, chinês e tibetano para suas línguas natais. Acredito que estes sejam alguns sinais de uma nova fase de aprofundamento e engajamento destes ensinamentos em nosso país.

A grande mestra da Linhagem Drukpa, Jetsunma Tenzin Palmo, nos aponta para alguns cuidados que acredito serem importantes nesse desenvolvimento do Dharma no Brasil:

No momento que entendermos que os ensinamentos do Buda nos direcionam a perceber as coisas a partir de fora de nossos caixotes do pensamento conceitual, encontramos um momento especial em nosso caminho espiritual. Como aquilo que é incondicionado pode ser descrito de uma forma condicionada? Aqui a coisa começa a ficar interessante. Todas as palavras e conceitos do Dharma claramente são vistas apenas como suportes. Poderíamos pensar “pelo simples fato de vocês terem vindo a um centro de Dharma vocês já de uma certa forma encontram-se fora dos caixotes de sua própria cultura. Isso é algo bom. Entretanto, o problema é que então você se encontra perseguindo o caixote de outras pessoas. Aqui nós estamos falando sobre budismo. O budismo sobrevive a mais de 2500 anos colocando-se dentro de caixotes. Veja, é como um lindo e precioso vaso. O Dharma do Buda é como um exilir que podemos colocar em diferentes vasos, de ouro, prata, cobre, vidro e assim por diante. Em cada recipiente que o colocamos, esta essência de elixir toma o formato de seu recipiente. Entretanto, o problema é que ao encontrarmos estes vasos preciosos, ficamos maravilhados com o vaso, e frequentemente esquecemos do que o vaso contém. Hoje em dia temos diferentes tipos de budismo – budismo tailandês, birmanês, chinês, japonês, tibetano e assim por diante. É interessante observar que mesmo entre praticantes hoje em dia encontramos alguns tentando proteger seus vasos, não se dando conta que o que realmente precisa ser protegido é seu elixir, a essência que ele contém. Meu mestre, S.Ema. Khamtrul Rinpoche uma vez me disse “Você deve se lembrar que o que vemos hoje na tradição budista tibetana é metade cultura e metade Dharma. Você pode vir a descartar a cultura mas tome muito cuidado para não descartar o precioso e genuíno Dharma.”

Acredito que um possível passo positivo para o budismo no Brasil, para que possamos expandir a bondade e o amor profundo impregnado nessa tradição, seria cada um de nós reconhecer a preciosidade das palavras e métodos do Buda estarem milagrosamente presentes em nossas vidas, em nosso país, independente da tradição, linhagem ou professor. Nos alegrarmos e regozijarmos com cada faísca do Dharma em meio a grande escuridão de nossas mentes confusas, independente de sua cor e formato, entendendo que cada uma destas faíscas surge do encontro de nossa verdadeira natureza de amor com aquilo que a obscurece. Regozijamos do fundo de nossos corações quando percebemos seu brilho iluminando o coração de nosso próximo, despertando sorrisos, profunda tranquilidade e apreciação genuínas. Que possamos aspirar juntos que cada iniciativa do Dharma em nosso país possa ser apoiada e potencializada na exata medida que beneficia os seres, alivia suas dores e revela suas qualidades naturais. Esta expansão não é o trabalho de um ser, de uma identidade ou de um grupo distinto de outros. É o movimento natural do Buda vivo em nossos corações, do profundo e vasto poder do Dharma, da verdade espiritual que é inseparável da verdade convencional de nossas vidas, do despertar da bondade e conhecimento que fazem parte de nossa natureza.

No contexto do Dharma produzido aqui e também do budismo engajado, qual o significado da chegada da Live to Love ao Brasil?

O Live to Love é, como demonstra seu símbolo criado por seu idealizador, S.S. Gyalwang Drukpa, este coração vivo repleto de bondade, amorosidade e profundidade. Representa a profunda união de método e sabedoria, onde o caminho do amor se revela no caminhar, não em um resultado distante.

O coração do Viver para Amar ou Live to Love é o reconhecimento de que tudo e todos são uma incessante expressão do amor primordial, como uma dança mágica da criação divina. De forma mais profunda, Live to Love não é um movimento humanitário ou uma forma de budismo engajado. Viver para Amar é a expressão natural, viva, do acesso a bondade e amor presente no coração de cada um de nós. Independente de nossas crenças, todos temos esta natureza de bondade e amor nas profundezas de nossos corações. Sentar é Live to Love, silenciar a mente é Viver para Amar, sorrir através do sorriso de nosso próximo é Viver para Amar, despertar sorrisos é Live to Love. Ouvir, aprender, compartilhar e apoiar os outros e a nós próprios em tudo aquilo que produza contentamento verdadeiro, é Viver para Amar.

A fundação internacional Live to Love fundada por S.S.Gyalwang Drukpa e seu nascimento em nossas terras como o Instituto Live to Love Brasil surge como mais um ponto de apoio entre muitos outros já atuantes em nosso país. Nos familiarizando com seu coração, proporcionará um novo nascimento, uma nova forma de viver, um novo estilo de vida para aqueles que ainda não encontraram uma fonte de apoio como também naturalmente se unirá a outras iniciativas na mesma direção, dialogando e potencializando parcerias que fortalecem a realização de um mesmo sonho – uma vida mais saudável, mais significativa, repleta de paz, amor e compreensão. O papel do Live to Love é despertar estas sementes. E, individualmente ou em grupo, proporcionar que estas sementes se espalhem chegando as nossas famílias, comunidades, projetos individuais e organizações. Os nomes mudam, mas o coração mantém a mesma vibração do amor.

S.S. o Dalai Lama expressa nossos anseios mundiais da seguinte forma:“O planeta não precisa de mais ‘pessoas de sucesso’. O planeta precisa desesperadamente de mais pacificadores, curadores, restauradores, contadores de histórias…”

No caso de nós, praticantes budistas, meditantes e iogues, como se dá nosso engajamento nas atividades do Live to Love. S.S. Gyalwang Drukpa, o fundador da fundação Live to Love, diz que por muito tempo observou muitos de seus alunos e iogues da linhagem, após longos períodos de treinamento intenso no Dharma através de retiros solitários em cavernas e eremitérios nas montanhas, retornarem para a vida em meio as pessoas, junto as demandas e desafios do mundo contemporâneo e se sentirem completamente desconfortáveis, aversivos, impacientes e incapazes de combinar e mesclar suas contemplações internas com o mundo externo. Sua Santidade percebeu que isto não era um bom sinal. Os efeitos de longos períodos de treinamento deveria ser o contrário, deveríamos ser capazes de compreender o mundo e reconhecê-lo tal como é, uma dança mágica inseparável de nossa mente criativa, luminosa e toda acolhedora. Portanto, hoje, ele tem convidado seus iogues e estudantes a saírem de suas zonas de conforto espirituais, que muitas vezes tornaram-se suas próprias prisões, a entrar em contato com o mundo, a mesclarem suas práticas e a visão do Dharma com aquilo que ‘parece’ ser não-Dharma. Retiros são extremamente úteis, necessários e benéficos quando, aplicados da forma correta, forem capazes de proporcionar uma nova inserção, experiência e visão positiva no mundo em qualquer contexto e situação, diz S.S. Gyalwang Drukpa.

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4 comentários »

  • Sergio Luis Bravo disse:

    Já tinha me cadastrado na bodisatva mas ñ recebi mais os textos.

  • Lama Jigme Lhawang – Entrevista (2) | Bodisatva: um olhar budista disse:

    […] Continuação da entrevista do Lama Jigme Lhawang para a por Carmen Navas Zamora, para a Revista Bodisatva. Também colaboraram Guilherme Erhardt e  Raquel Rech. Leia a parte 1. […]

  • Mahima disse:

    Os ensinamentos do Lama Jigme são reconfortantes. Há muito venho lendo para tentar entender as diferenças entre as diversas linhas e práticas budistas, querendo adotar a “melhor”. Já me confundi e andei valorizando vaso, sem distingui-lo do elixir. Saber do que Phagmo Drupa perguntou a Gampopa e da resposta do mestre me fez compreender melhor as coisas. Os três mantras de Yêshe Dordje são mesmo de estremecer! Acho que os vislumbramos nos momentos de mente clara, mas muitos de nós, entre os quais me incluo, tendemos a esquecê-los quando as coisas não estão ótimas… rs… Meu grande obrigada ao Lama Jigme. Que seus ensinamentos possam se difundir e beneficiar muitos seres. Afetuoso abraço. Mahima.

  • Lama Jigme Lhawang – Entrevista (3) | Bodisatva: um olhar budista disse:

    […] Última parte da entrevista do lama Jigme Lhawang à  Revista Bodisatva, por Carmen Navas Zamora, . Também colaboraram Guilherme Erhardt e  Raquel Rech. Leia a parte 1. […]

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