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Lama Jigme Lhawang – Entrevista (2)

por 25/02/2013 4 comentários

Continuação da entrevista do Lama Jigme Lhawang para a por Carmen Navas Zamora, para a Revista Bodisatva. Também colaboraram Guilherme Erhardt e  Raquel Rech. Leia a parte 1.

Como será a abordagem da linhagem Drukpa entre nós, brasileiros? será de forma tradicional e formal, com iniciações, nongdro e etc…ou será algo similar ao que alguns mestres contemporâneos e menos tradicionais fizeram ao chegar, por exemplo, na Europa e Estados Unidos?

Ven. Jetsunma Tenzin Palmo, uma mestra inglesa da Linhagem Drukpa que permaneceu 12 anos em retiro numa caverna nos Himalaias, seguindo as instruções de seu mestre raíz, Kyabje Khamtrul Rinpoche diz algo que nos aponta para uma direção de reflexão favorável: “A chave é a prática. Mas não a ponha no altar: pegue a chave, abra a porta, e saia da prisão. Não há obstáculos.”

Nos 26 séculos que se passaram desde a iluminação de Buda, os seres foram criando diferentes portas para acessarem diferentes experiências. Cada porta construída, abriu um novo universo, novas formas de perceber e viver a vida. Entretanto, sem perceber, estas mesmas portas construídas por liberdade que proporcionaram novos deslumbres da realidade, tornaram-se prisões. Aos poucos, ao invés de usufruir das várias portas de experiência da vida, passamos a focar nossa atenção em suas características “a minha porta é muito linda, de madeira cedro com sua maçaneta ornamentada…”. Certas vezes, apegados as nossas portas, achamos que é mais prazeiroso fechá-la para que possamos melhor deslumbrar de sua beleza. Esquecemos sua funcionalidade, a de nos levar a outro campo de experiência, a de nos abrir uma nova perspectiva. Aos poucos vamos nos habituando com nossas portas, e já não entendemos como é possível outras pessoas viverem sem as portas que temos, não entendemos o que há de especial nas portas de outros seres. Posteriormente, ao aprender o caminho do Dharma, criamos uma nova porta, que muitas vezes se torna a própria prisão em si. Nos apegamos ao barco, ao veículo e esquecemos que sua função é simplesmente a de nos levar a outra margem, nada mais do que isso.

O budismo não vai dizer “acabe com as portas ou não construa mais portas”. O Buda vai dizer “usufrua delas, sem apego, livre da própria necessidade de concebê-las como portas”. Para atravessarmos portas, não precisamos nem mesmo nomeá-las ou limitá-las dentro de uma concepção individual do que elas sejam. As portas são livres do valor que projetamos nelas, são nada mais nada menos do que expressões de liberdade. Entretanto, onde nos encontramos neste exato momento? Estamos em uma situação onde criamos as portas e as fechamos, construímos nossas próprias celas.

Novamente, Jetsunma Tenzin Palmo expressa de forma muito bela nossa situação:

“É bastante interessante que “samsara” tenha se tornado nome de um perfume. E é assim. Ele nos seduz a pensar que está tudo bem: samsara não é tão ruim – tem um cheiro tão bom! A motivação subjacente para ir além do samsara é muito rara, mesmo para pessoas que vão a centros de Dharma. Há muitas pessoas que aprendem a meditar e etc, mas com o motivo subjacente de se sintirem melhor. E se acabam por se sentir pior, ao invés de perceber que isso pode ser um bom sinal, pensam que há algo errado com o Darma. Sempre procuramos nos sentir confortáveis na prisão. Podemos pensar que se pintarmos a parede com um tom verde claro e pendurarmos alguns quadros, não será mais uma prisão.

O Buda e diversos outros mestres, entendendo a natureza dessas portas e como foram construídas e fechadas, nos ensinam a pegarmos nossa chave, algo que já temos, que já está em nossas próprias mãos ( o poder de nossa mente extraordinária), e usufruir da liberdade de então abrir a porta da mesma forma que a fechamos.

Portanto, há naturalmente diferentes chaves para diferentes portas e fechaduras. Seria insano tentarmos abrir a porta de nossa casa forçando a fechadura com a chave de nosso carro. Entretanto, muitas vezes, nos enganamos a achar que somente a nossa chave abrirá a nossa porta. Não entendemos que outras chaves, de diferentes materiais, se moldadas às características internas de nossas fechaduras, podem até mesmo funcionar melhor que a nossa própria antiga e enferrujada chave de casa.

Quanto as chaves produzidas na Índia e, no caso da tradição vajrayana do Tibete, se olharmos com mais profundidade, vemos que não há qualquer característica de tradicionalismo ou formalidade nos métodos em si. Estes são vazios de qualquer identidade, não tem uma existência e valor em si e por si próprios. Seja qual for a nossa percepção dos mesmos, tradicional ou informal, esta surge a partir de uma lente interna, uma forma de percebê-los que produz diferentes sensações em diferentes seres de acordo com suas pré-disposições mentais e físicas. O agarrar-se a nossas próprias formas particulares de ver e perceber as diferentes manifestações do Dharma que, em essência, são uma expressão pura do contato da mente livre com as necessidades e buscas dos seres, é que gradualmente produz tradicionalismo e formalismo. Achamos que certo método é formal ou muito tradicional, pois não conseguimos perceber que a prisão a nossa forma de olhar é que é o verdadeiro tradicionalismo e formalismo que não conseguimos nos desvenciliar.

Onde está nosso refúgio? Nas fragilidades de samsara? O que nos desperta do sono da ignorância e nos impulsiona a caminhar em grande velocidade? Que elementos nos emperram, nos obstaculizam no caminho e que elementos nos impulsionam no trajeto da realização espiritual e da familiarização com o espelho externo que reflete o caminho de descobertas internas revelando o segredo de nossa própria natureza? Se olharmos com cuidado, veremos o ngondro (do tibetano preliminares) do budismo tibetano presente em cada palavra do Buda Shakyamuni, cada método impregnado de sua essência independente do nome bonito ou não que tenha-se dado ao mesmo. Uma prática idealizada para abranger todos os estágios do caminho deste as práticas fundacionais do veículo de liberação individual como os Quatro Inversores de Mente, o refúgio contendo seus níveis hinayana, mahayana e vajrayana; o vasto coração e profundidade do despertar de bodhitchita, tal como instruído no mahayana; a oferenda de mandala onde acumulamos incontáveis méritos e aprendemos a soltar aquilo que estamos agarrados através do reconhecimento de sua natureza e as práticas que trabalham com o cultivo do resultado como caminho, familiarização com a natureza que já está presente, pura, livre e desimpedida, através do veículo vajrayana nas práticas da purificação de vajrasatva e Guru Yoga, a essência e coração do budismo tântrico.

Independente do nome que tiver e do que for instruído a ser feito, toda a instrução é um treinamento da mente, só depende de como a percebemos. Nossa própria vida, cada instante de experiência, pode ser também usufruido desta forma, basta sabermos olhar na direção correta.

Estamos sendo empoderados a cada instante de nossas vidas. Cada instante de consciência é uma iniciação, um empoderamento espiritual. Entretanto, enquanto não percebemos isso, diferentes mestres nos introduzem a essa verdade de formas variadas, nos empoderando no caminho da realização desta experiência. Quando entendemos melhor os elementos contidos no que é chamado de empoderamento ou iniciação no mantrayana secreto do budismo tibetano, uma nova realidade revela-se, onde cada fenômeno, cada som, cada forma, nos empodera com a transmissão de uma realidade que transcende nossa mente convencional e revela o tesouro que esteve sempre presente e incessante. Em um empoderamento tântrico, nosso guru nos introduz e nos ensina a olhar para a realidade através dos olhos dos Cinco Dhyani Buddhas, de onde uma atuação livre e espontânea surgirá onde estivermos. Após termos paulatinamente nos famliarizado com esta forma de experienciar as coisas em sua natureza vajra, o coração de todo o método vajrayana, a essência do mantrayana secreto é descrita pelo fundador da Linhagem Drukpa, Tsangpa Guiáre Yêshe Dordje, o primeiro Gyalwang Drukpa, através de seus três ferozes mantras:
“O que quer que tenha que acontecer, que aconteça!”
“Seja qual for a situação, está ótimo!”
“Eu realmente não preciso de coisa alguma!”

Certa vez, o grande antecessor da Linhagem Drukpa, o realizado yogue Phagmo Drupa, perguntou a seu Guru Raíz, o mestre Gampopa:

“De maneira que possamos praticar para ganhar real experiência, qual é a instrução oral mais profunda? Eu ouvi algumas pessoas dizerem ‘se a visão de shunyata (vaziez, vacuidade) não for realizada, não há qualquer benefício.’ Ouvi outros dizerem ‘a meditação com yidam (deidade meditacional) é a prática verdadeiramente profunda. Ouvi, também, o Guru Milarepa dizer que a meditação pranayama de tunmo é a prática mais profunda.”

A esta sincera pergunta de seu discípulo, o mestre Gampopa respondeu:
“O Dharma pelo qual uma dada pessoa desenvolva convicção, é o mais profundo para aquela determinada pessoa. Ainda assim, se você devotar-se para com seu professor e treinar sua mente em bodhitchita, ambos benefícios para si e para os outros serão simultaneamente preenchidos. Esta é a instrução mais profunda.”

Essencialmente, o que Gampopa quer dizer com sua resposta a Phagmo Drupa? Uma forma de colocar seria a de que não há um método pior ou melhor do que o outro, mas há aquele que se adapta melhor a característica de cada um. Aquele método que melhor funcionar individualmente, é o melhor para cada um de nós em particular. Ainda assim, como saberemos qual é o melhor para com as nossas características quando ainda estamos cegos? Através da revelação da conexão com nosso mestre e posterior exame para com sua capacidade, treinamento, bondade e conhecimento experiencial, empreendemos o treinamento que ele nos oferece. Testamos suas palavras a partir de nossa própria experiência. Experimentamos seu sabor e avaliamos a partir de nossa própria experiência se resultados positivos estão surgindo.

A função dos métodos não é a de saciar nossas expectativas e medos, nossos gostos e desgostos, mas sim, a de treinar nossa mente a soltar aquilo que estamos agarrados, a de enfraquecer a prisão de nossas avaliações, julgamentos, rotulações, do sonho produzido por nossa mente conceitual. A medida que vamos soltando, vamos abrindo. Nossos corações vão se expandindo, olhando para fora, para além de nosso próprio umbigo. Vamos entendendo os outros em seus próprios contextos ao mesmo tempo em que entendemos a nós próprios em nossa situação particular. Da compreensão surge a compaixão e desta experiência surge o movimento natural do amor que se expressa como uma bondade em ação na direção dos seres. Isso é bodhitchita. A isto Gampopa se refere quando diz que ambos os benefícios de si e dos outros serão realizados.

Qualquer método que nos ajude a avançar nisso, estará impregnado do potencial de verdadeiramente nos despertar deste profundo sonho e de nos libertar da prisão da mente dual.

Existem grandes diferenças entre o budismo praticado no oriente em relação ao ocidente? Se sim, quais são?

O Dharma que chega hoje no ocidente, é a tradução do Dharma que surgiu no oriente. Ou seja, estamos recebendo as palavras, a visão e os métodos ensinados por Buda e por grandes mestres posteriores a ele traduzidos em nossa língua, cultura e realidade atual. Neste nível, não vejo muita diferença. Entretanto, um elemento muito visível, pouco presente no ocidente porém impregnado no coração dos orientais, é o que chamamos de certeza, confiança, convicção, fé. Ouvimos as instruções, mas é muito raro sairmos aplicando imediatamente com total confiança, vigor e perseverança. O que nos obstaculiza? Quando saímos de casa para comprar aguá ou alimento, o que nos faz muitas vezes parar tudo que estamos fazendo, pegar o carro ou caminhar e ir até o supermercado? Há uma certeza de que a água saciará nossa sede, de que o alimento satisfará nossa fome. Esta certeza, esta confiança nos movimenta, nos impulsiona a dar os primeiros passos, a trilhar o caminho. Se nossa prática espiritual não está andando como gostaríamos, talvez seja benéfico examinar se a verdadeira convicção sobre nossa natureza, sobre a eficacidade do caminho e em seus resultados, está presente. Se não estiver, talvez seja interessante trabalhar na direção de tornar cada vez mais claro, óbvio e vivo esta compreensão dentro de nossos corações e proporcionar um espaço para ver se algo muda em nossa prática através disso.

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Lama Jigme Lhawang é o primeiro brasileiro ordenado lama na Linhagem Drukpa do Budismo tibetano pelo líder espiritual da linhagem, S.S.Gyalwang Drukpa e pelo seu regente espiritual, S.Ema. Khamtrul Rinpoche. É o representante oficial de S.S.Gyalwang Drukpa e da Linhagem Drukpa no Brasil, diretor da Comunidade Drukpa Brasil e Presidente de Honra do Instituto Live to Love Brasil.

Para maiores informações visite:www.drukpabrasil.org e www.live2love.org.br

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  • Lama Jigme Lhawang – Entrevista (1) | Bodisatva: um olhar budista disse:

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