| |

Lama Jigme Lhawang – Entrevista (3)

por 4/03/2013 1 comentário

Última parte da entrevista do lama Jigme Lhawang à  Revista Bodisatva, por Carmen Navas Zamora, . Também colaboraram Guilherme Erhardt e  Raquel Rech. Leia a parte 1.

 

Como você vê o surgimento dessa nova geração de mestres que deixam em segundo plano o aspecto religioso?

Cada elemento da teia da vida, cada surgimento, nasce fundado em uma rede inter-dependente viva, em movimento. Esse grande organismo vivo vai se ampliando e se renovando a partir da vibração de cada ponto em particular de sua rede. Nossos pensamentos emanam vibrações que se transmitem de ponto a ponto por toda a teia. Nossas aspirações e desejos profundos se espalham e se inter-conectam. A essência vital desta grande teia da vida é sua capacidade de criação, de transformação, de preenchimento e acolhimento. A partir deste centro vital, diferentes emanações surgem como expressões desta natureza, desta essência. Suas faces surgem na direta conexão com os outros pontos da teia, como uma demonstração da dança da criação, transformação, preenchimento e acolhimento do que é a sua natureza. Suas diferentes faces e diversificadas manifestações, são expressões da bondade e vastidão de nossa natureza primordial, a essência divina deste vasto organismo.

Como é ser um lama brasileiro no Oriente? Faz alguma diferença?

Esta pergunta me traz a uma reflexão importante. Se olharmos profundamente e honestamente dentro de nossos corações, a sensação de fazer alguma diferença, ainda que sutilmente, estará apontando para a presença de uma identidade, uma noção de eu, outro, contexto, situações favoráveis e desfavoráveis. Quando usamos a palavra lama, precisamos tomar um pouco de cuidado. O lama não pode ser brasileiro ou tibetano, de olhos puxados escuros ou redondos verdes. Este não é o lama. S.S.Gyalwang Drukpa, em uma instrução sobre guru yoga certa vez disse: “Se vocês acharem que estão fazendo lame Naldjor (guru yoga) com este ser sentado neste trono, se pensarem que o lama é esta pessoa em carne e ossos, gordo, magro, elegante ou deselegante, vocês estarão indo na direção contrária da prática espiritual. Se assim o fizerem, rapidamente estarão gostando ou não gostando do jeito do lama, do que ele fala, de como ele faz as coisas. O apego, desejo, inveja, aversão e assim por diante será sua prática de guru yoga. O lama é a sua verdadeira natureza. Os lamas externos são só símbolos, espelhos que refletem o verdadeiro lama dentro de você, são sonhos criados dentro do seu sonho para despertá-lo, não tem nenhuma realidade em si próprios, nenhuma identidade que os distingue das outras coisas e pessoas.”

Entretanto, como um praticante espiritual, trilhando o caminho das instruções dos meus mestres de conexão, sinto um fluxo contínuo de bençãos e boa-fortuna poder estar próximo destes verdadeiros exemplos vivos de bondade, amor e sabedoria, aqui no oriente. Regozijo também ao perceber esta mesma boa fortuna e chuva de bençãos tocando profundamente o coração de pessoas no ocidente, quando encontram seus mestres de conexão muito próximos, em seu próprio país, em sua própria cidade, muitas vezes vizinhos dentro de uma mesma comunidade. Um raro milagre, repleto do potencial de iluminar nossas vidas e aquecer nossos corações.

O que o lama pensa da questão das praticas preliminares formais do nongdro e como elas podem funcionar entre os alunos ocidentais?

Entendê-las como treinamento da mente é a chave. Não como um objetivo em si, não como uma acumulação a ser completada, mas como uma oportunidade de nascer novamente, com um novo olhar, uma nova perspectiva da realidade. A cada invocação, a cada prece, a cada mantra, estamos dando espaço para este nascimento, estamos nascendo como bodhisatvas, como iogues, como budas. Estamos nos familiarizando com o espaço criativo de nossa natureza, com sua capacidade de foco e realização natural. Estamos cultivando estas sementes, nos familiarizando com nossa própria natureza, que é nosso verdadeiro refúgio, que é nada mais do que bodhitchita, a mente do Buda. Nada mais do que Vajrasatva, a natureza vajra (tal como um diamante) de nosso ser, presente na mandala da natureza dos fenômenos oferecida através de nossa visão pura, indissociável do repouso restaurador no coração de nosso guru interno e secreto. Através destas práticas, quando nosso ego vai se enfraquecendo, o céu vai se abrindo e demonstrando todo o campo de espaço de manifestação, livre e desimpedido. O caminho espiritual não é a complexidade de irmos freneticamente adiante para alcançar algo, mas sim, o de darmos passos para trás, em direção ao reconhecimento da essência búdica que já está presente e nos leva a um salto para a verdadeira liberdade.

S.S.Gyalwang Drukpa diz que muitas pessoas estão mais preocupadas com o completar o número de acumulações que lhe foi dado, seja cem mil, um milhão, dez milhões, e pouco atentas propósito de tais acumulações, que é o de transformar nossa forma de olhar e experienciar o mundo e a nós mesmos. Ele diz que o ngondro deve ser empreendido como um treinamento da mente, uma forma de fortalecer nosso refúgio e nossa motivação altruísta, um método extraordinário de purificação de corpo, fala e mente e de união veloz com a mente e realização de nossos próprios mestres. Entretanto, se não estivermos bem focados em nossa prática, em refletir, meditar e estabilizar cada palavra, cada aspiração e visão contida em nossa sadhana, retornaremos ao nosso mestre após termos completado nossa acumulação sem qualquer sinal de avanço. Como resposta, ele nos dará as instruções novamente, e nos aconselhará a treinar nossas mentes na mesma prática ou em uma prática diferente que se adapte melhor às nossas características e dificuldades, até que a realizarmos. O ponto central é o transformar nossas formas de olhar e experienciar. O treinamento termina ou se culmina, quando despertarmos completamente, quando a iluminação florescer, diz S.S.Gyalwang Drukpa.

Todos os métodos ensinados pelo Buddha estão presentes e incluídos dentro desta prática como também todos os ensinamentos do Buda que tratam da disciplina (sânscrito – shila), absorção meditativa (sânscrito –  Samadhi) e discernimento (sânscrito – prajna) estão impregnados da essência do ngondro. O caminho completo, do início ao fim, esta contido nesta síntese extraordinária dos 84.000 ensinamentos do Buddha, surgida dentro do contexto tibetano. Talvez o que nos obstaculize, seja a ausência de uma compreensão mais profunda, não das características do dedo (método), mas para onde ele está apontando. A cada vez que nos dermos a oportunidade de fitar a direção que ele esteja apontando, estaremos gradualmente despertando.

“O Budismo não é uma religião. Portanto, todas as disciplinas e métodos que Buda ensinou não devem ser entendidos como mandamentos. Ao invés disso, devem ser compreendidos como uma ponte ou um remédio que é necessário por um certo período e para uma certa situação ou doença. O propósito último de qualquer que seja o Dharma é o de perfurar o véu da mente conceitual,” nos ensina S.Ema. Khamtrul Rinpoche.

Qual seria a chave para viver a relação mestre e discípulo, de forma a avançar mais rápido na prática?

Não confundir o mestre com nossas projeções mentais. Olhar para seu professor como um espelho que reflete e revela aquilo que ainda precisa ser trabalhado, soltado, apertado, nutrido, enfraquecido e expandido. A função do mestre é proporcionar o olhar para dentro de nós mesmos, não para fora, onde nossas projeções usuais e hábitos mentais se encontram. Pedimos para nossos professores nos ajudarem a despertar, não a potencializar e preencher nossas carências, expectativas e medos. Os contratamos para que nos ajudem a destruir aquilo que nos obstrui a este despertar – o nosso próprio auto-centramento e o agarrar-se às concepções limitadas de nossa mente conceitual. Um tempero adicional importante no desenvolvimento gradual desta relação é um bom-senso profundo unido a uma partilha genuína de bondade, de amor e alegria incondicionais.

S.Ema. Khamtrul Rinpoche explica que “algumas vezes, damos desculpas com respeito a ausência de progresso, esforço e apreciação em nosso prática do Dharma tais como o tão falado ‘tempos de degenerescência do Dharma’, a sangha ou comunidade espiritual, nosso professor, ausência de tempo para práticas formais e assim por diante. Entretanto, a verdadeira prática do Dharma acontece quando conseguimos perceber o Dharma ou nosso mestre como um espelho que reflete a nós mesmos, onde poderemos ver que coisas precisamos melhorar. Sem este tipo de reflexão, não seremos capazes de progredir mesmo se estivermos rodeados 24 horas por dia, sete dias por semana, por perfeitos Buddhas e mestres iluminados.”

O que é ser um bodisatva nos dias de hoje, tempos pós-modernos de muita tecnologia, informação, remédios psiquiátricos, crises econômicas…?

Tanto Buda Shakyamuni, o grande pandita e maha-sida indiano Nagarjuna, acharya Asanga, maha-sida Naropa, Guru Padmasambhava e assim por diante, até os mestres de hoje, dizem que não há vacuidade (sânscrito – shunyata) separada dos fenômenos e que não há fenômenos que estejam desassociados de vacuidade. Reconhecer a vaziez é realizar a inter-dependência de todos os fenômenos. Realizar a inter-dependência, é acessar diretamente a vaziez. Tudo está em constante união, não há uma verdade absoluta separada de nossa realidade relativa.

Há duas palavras extremamente importantes na língua tibetana “dzinpa” e “jenpa”. “Dzinpa” essencialmente significa ‘agarrar-se’ a algo ou ‘apreender’ algo e uma forma de traduzir “jenpa” seria ‘aderir-se’, “prender-se’, ou ‘fixar-se’ a algo. Tal como o grande maha-siddha Tilopa (988–1069) a seu discípulo Naropa (1016–1100):

“Filho, não são as aparências que lhe prendem,
mas sua fixação é que lhe aprisiona.
Corte através de sua fixação, Ó Naropa!”

A cada instante que nos aprofundamos nesta experiência onde quer que estivermos, seja em casa com a família, no trabalho ou em retiro espiritual, usamos a oportunidade de acessarmos e de nos familiarizarmos com esta realidade, de cultivarmos o sabor desta experiência. Nunca houve, não há e nunca haverá o nascimento de um Bodhisatva na ausência deste aprofundamento gradual do um-só-sabor de cada experiência, do reconhecimento de que samsara e nirvana são rótulos adicionais projetados por nossa mente dual naquilo que não pode ser descrito, explicado ou concebido. É entender, progressivamente, que o resultado está contido no próprio caminhar, a cada instante, e não distante num ponto mais adiante. Distância e proximidade são projeções irreais de nossa mente conceitual. Enfraquecer este engano, é o caminho do bodhisatva, que transcende espaço, tempo, nome, forma, etnia, cultura e amplia nosso coração. Toda a crise externa ou interna, está diretamente ligada ao acreditar e agarrar-se a este engano.

Para sabermos se estamos no caminho certo, se nossa prática esta funcionando, S.S.Gyalwang Drukpa nos aconselha a examinarmos “se uma tendência em deixar as coisas acontecerem ao invés de empreender um grande esforço para que aconteçam, está surgindo.” Diz para notarmos que quando posicionamos nosso coração, percebemos o universo, nosso corpo e mentes se movendo naturalmente, sem esforço. Perceba, diz ele, se um leve sorriso dotado de um olhar profundo e compreensivo está manifestando-se espontaneamente. Se frescor e leveza impregnam e se expandem para o meio em que você vive tocando a todos que se encontram com você. Se a sensação de estar completamente inter-conectado com todos e com tudo está presente. Se frequentes episódios de uma apreciação profunda e tocante pelas coisas, pessoas e circunstâncias está se manifestando. Se há uma tendência de pensar e agir espontanea e naturalmente ao invés de agir a partir de medos fundados em experiências passadas ou expectativas para com o futuro. Se uma habilidade de desfrutar cada instante como um surgimento milagraso esteja tomando conta de sua vida. Se uma perda de interesse em interpretar e julgar as ações dos outros, os entendendo a partir de seus próprios contextos e pontos de vista, esteja fazendo parte de nosso dia-a-dia. Se a percepção de que o que vemos no outro começa a revelar nossas próprias lentes internas, que solidificam e cristalizam aquilo que não pode ser cristalizado, que por natureza não é sólido e fixo, esteja mesclando-se com nossa prática espiritual. Se um amor e bem-estar incondicional fundado na paz, no acolhimento, na aceitação, no entendimento e na abertura do coração está sendo vivido como nossa verdadeira morada espiritual.

Por fim, nesta passagem tão rápida por este planeta, neste corpo e mente extraordinários, possamos nós usarmos esta rara oportunidade para usufruirmos de nossa natural capacidade de ampliar e espalhar amor, tocando a todos aqueles que nos ouvirem, nos verem ou se lembrarem de nós. Ao entendermos nossos próprios corações, começamos a entender também o coração de nosso próximo, suas buscas, medos, expectativas, como também seu bom coração. Essencialmente, se toda nossa ação de corpo, fala e mente estiver impregnada disto, não há nada a temer. A escuridão será naturalmente substituída pelo amanhecer da iluminação.

——

Lama Jigme Lhawang é o primeiro brasileiro ordenado lama na Linhagem Drukpa do Budismo tibetano pelo líder espiritual da linhagem, S.S.Gyalwang Drukpa e pelo seu regente espiritual, S.Ema. Khamtrul Rinpoche. É o representante oficial de S.S.Gyalwang Drukpa e da Linhagem Drukpa no Brasil, diretor da Comunidade Drukpa Brasil e Presidente de Honra do Instituto Live to Love Brasil.
Para maiores informações visite:
www.drukpabrasil.org e www.live2love.org.br

Blog Widget by LinkWithin

| Leia outros posts de


Receba o próximo texto

Um comentário »

  • Flavinha disse:

    Muitos falam sobre o “mesmo” alguns tão lindamente. Gratidão pelos ensinamentos e bem estar obtido na série de entrevista com o Lama Jigme Lhawang.

    Que feliz por Bodisatva =)
    __/\__

Deixe seu comentário!

Esse site usa o sistema Gravatar. Para que sua foto apareça, basta se cadastrar.