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Lama Padma Samten – Educação, Saúde e nosso Mundo Interno (1)

por 22/01/2013 5 comentários

Primeira parte da palestra realizada  em novembro de 2012 na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Leia a parte 2.

“O nosso tema diz respeito à educação, saúde, meditação. Esse ponto da meditação é um ponto interessante, no budismo nós vamos encontrar muitas diferentes expressões de caminho, sendo que, quando nós pensamos na meditação em silêncio, a gente sempre pensa: é o caminho que o próprio Buda utilizou, então esse é um bom caminho! Aqui no CEBB nós utilizamos esse processo e no budismo tibetano ele também é utilizado, mas existem muitas opções, nós podemos meditar em silêncio, podemos meditar de várias formas.

Aqui eu vou me referir especialmente à meditação a partir do silêncio, que é o caminho mais direto, nós não criamos nada artificialmente, simplesmente nós tentamos descomplicar a operação de nossa mente. Então, esse é o ponto. Esse caminho é tão interessante que ele se torna também útil como um meio hábil para as nossas vidas. Essa parte nos permite desenvolver uma espécie de diálogo, desenvolver uma interface com outras áreas de conhecimento e com outras áreas de ação. Por exemplo, as pessoas podem se interessar pela meditação independentemente do caminho espiritual, independentemente da motivação original, do caminho budista ou do caminho das outras tradições que também falam da meditação em silêncio. E mesmo que as pessoas desvinculem o caminho espiritual da prática da meditação, ainda assim a prática da meditação é interessante. É interessante sob várias conexões que ela pode ter que potencializem nossa felicidade, intuição, capacidade de gestão, de lidar com os obstáculos, e potencializem elementos importantes relacionados à nossa saúde.

Quando nós olhamos essa aparente desvinculação possível entre a própria meditação e o caminho espiritual, quando nós olhamos isso na perspectiva budista, isso não é um grande problema, porque essencialmente quando as pessoas se tornam melhores, quando elas têm uma saúde melhor, elas estão mais calmas, estão funcionando melhor no mundo. Também estão mais receptivas, mais disponíveis para entender outras coisas e poder olhar sua vida de uma forma mais ampla. Então, ainda que não pareça um caminho espiritual, isso é um caminho espiritual. Quando as pessoas entendem que isso é um caminho espiritual, está bem, se não entenderem, também está bem, de qualquer maneira elas estão seguindo, estão andando.

Há essa visão que é chamada visão de Terra Pura que é uma visão que nos impulsiona a constituir um mundo melhor. Quando a gente pensa num mundo melhor, numa visão estreita, digamos, estamos perdendo tempo, porque essencialmente isso é o samsara. O samsara sendo melhor ou pior, todos nós nascemos, vivemos um tempo e estamos submetidos à impermanência, decrepitude, doença, envelhecimento e morte. Tomando suco verde, comendo 75% ou 100% de crus, sendo vegano, ou, seja como for, os veganos também morrem, esse é o ponto. Quando a gente entende esse aspecto, a gente compreende que se a nossa vida fica mais equilibrada, nós temos mais saúde, estamos melhores, nós podemos ter uma vida mais longa. Em princípio, isso não está garantido, sempre tem uma vovó de 110 anos fumando, para estragar completamente qualquer teoria! E aí a gente contra-ataca: mas o homem de Malboro morreu de câncer no pulmão! É uma guerra difícil… Mas essencialmente a gente entende que se a gente se comportar de um certo jeito, a nossa vida melhora, em princípio a gente tem menos doenças e pode desfrutar melhor.

Há uma ênfase no budismo para isso que é chamada a vida humana preciosa, a gente precisaria cuidar da nossa vida, ter mais tempo de viver e também poder focar as coisas mais importantes. Assim, esse é um ponto crucial. Se as pessoas entendem ou não entendem, mas elas melhoram sua saúde, isso é uma boa coisa. Então Terra Pura está voltada a promover a vida humana preciosa e promover as boas conexões emocionais também, que transformam nossa vida em uma vida melhor. Ainda que a gente não resolva a questão do samsara dentro da perspectiva de Terra Pura, mas a nossa vida se transforma, no sentido que ela fica mais apta, mais disponível para o caminho espiritual, isso é superimportante.

Por exemplo, se a gente encontra as crianças na escola, a gente não vai fazer uma educação religiosa para eles. É muito importante que eles se alimentem bem, que eles descansem, que eles aprendam o que precisam aprender, que eles se estabeleçam dentro da vida e aí, paulatinamente, eles vão podendo descortinar melhor a realidade, as coisas, a própria vida deles. Então a gente podia pensar: se nós estamos acolhendo eles, estamos alimentando-os, estamos cuidando, isso não é o caminho espiritual, mas na verdade isso é o caminho espiritual! Isso é a base. Nós precisamos de saúde, precisamos de tranqüilidade, precisamos de alimentação para que a gente possa seguir, para que as crianças possam seguir, então essa é uma base superimportante.

A meditação serve tanto para o caminho espiritual como para nós melhorarmos também as nossas condições de vida dentro de uma perspectiva de saúde emocional, saúde física, para aproveitar melhor a nossa vida humana preciosa. Quando nós olhamos isso, a gente começa a pensar: mas o que a meditação pode efetivamente produzir? Como isso decorre, mesmo para as pessoas que não tenham necessariamente uma conexão espiritual? Como isso pode melhorar efetivamente a vida delas? Como é que isso se dá? Quando começam a perguntar assim, eu naturalmente vou responder dentro de uma perspectiva dos ensinamentos, dentro de uma perspectiva mais ampla. Essa perspectiva mais ampla a gente precisaria caracterizar: o que é isso, como a gente raciocina aí dentro. Esse raciocínio é o que a gente poderia dizer que é faixa 3, ou seja, é o raciocínio que inclui a observação do mundo sutil, do nosso mundo interno.

Para lembrá-los, faixa 1 é quando nós respondemos de forma automatizada a tudo que surge, a maior parte das pessoas atua em faixa 1. As crianças, eu acho que na sua totalidade, atuam em faixa 1. Se elas têm fome, elas choram; se os bebês estão molhados, eles choram. Eles têm uma comunicação direta. Eles não tem uma visão em faixa 2, com uma perspectiva estratégica da vida deles, por exemplo, agora eu vou olhar para o relógio e vou comer a cada duas horas e meia e vou procurar não acordar durante à noite. Eles não têm nenhum pensamento a respeito, eles simplesmente se movem; as coisas acontecem e eles reagem diretamente. Isso é chamado faixa 1, muitas pessoas operam desse modo.

Há aqueles que estão em faixa 2, ou seja, eles estão cursando uma universidade, eles têm uma visão, uma posição, eles têm uma visão estratégica e estão se movendo para obter resultado em um outro lugar. Isso é faixa 2. A característica de faixa 2 é que nós compreendemos a causalidade. Quem está em faixa 1 de modo geral não compreende bem a causalidade de suas ações. A pessoa faz uma ação e ela não percebe bem as conseqüências que aquilo tem. Ela também não é capaz de semear imaginando como que ela vai colher mais adiante, ela é mais direta, quem está em faixa 2 entende isso. Vamos pensar assim: faixa 1 seriam os caçadores, os coletores, vão lá e pegam o que está pronto; faixa 2, eles descobriram as sementes, eles semeiam, adubam, irrigam, afofam a terra e colhem muito. A agricultura é característica de faixa 2, ou seja, nós temos uma compreensão da causalidade e temos uma visão estratégica. Agora é primavera, as plantas crescem, depois tem o verão, tem o outono e depois tem o inverno. Em cada época do ano, uma condição diferente, de acordo com as regiões. É muito importante que a gente aproveite a vantagem de uma época, de tal modo que possa equilibrar as desvantagens de outras épocas. Então eu tenho uma visão estratégica. É bom terminar o telhado antes da época das chuvas, melhor não construir em barro na época das chuvas, seria complicado. Então, nós temos uma visão estratégica, a gente se organiza, isso é faixa 2.

Agora, faixa 3 vai além da causalidade. Nós vamos compreender coisas muito importantes, por exemplo, quando os cientistas olham o mundo ao redor, eles pensam, eu tenho bons olhos e vejo, no entanto, eles vêem de acordo com suas próprias teorias. Quando as teorias mudam, eles povoam seus mundos internos com outras visões. Aí eles olham a partir de outras visões internas, o mundo externo muda, ele se transforma. Então é muito maravilhoso se nós olharmos o mundo da ciência desde o início do século passado para agora, o mundo do cientista mudou várias vezes. É muito interessante perceber essa viagem interna, essa grande transformação de visão de mundo que nos leva até os dias de hoje, isso em todas as áreas do conhecimento, incluindo história. Quando eu comecei na escola, a gente falava de descobrimento do Brasil. Hoje, essa noção de descobrimento é problemática, porque aqui nunca esteve perdido propriamente, talvez a partir do descobrimento é que se perdeu. A gente vai trocando nossa visão interna e vai explicando o mundo externo de outro modo. Quando a gente critica os europeus chegando na África ou em outros lugares, mas nós somos os europeus que chegaram no Brasil, onde é que estão os nativos? Sumiram, os brancos venceram, então essa é uma perspectiva interessante.

Nós podemos perceber que a mudança interna produz uma outra visão de mundo. Cada conjunto de referenciais internos produz uma visão externa correspondente. Quando nós começamos a perceber o funcionamento externo a partir dessas dimensões internas, as coisas todas mudam. Nós encontramos outras variáveis na análise daquilo que nós estamos vivendo. Na área da educação e saúde isso é superimportante, é crucial. Por exemplo, na área da educação, se nós começamos a olhar essa questão do mundo interno, nós justamente podemos perguntar: para qual tipo de sociedade, para qual visão de mundo a gente espera educar os nossos filhos? A gente pode pensar assim: eu estou educando meus filhos dentro da perspectiva econômica. E aí nós vamos terminar descobrindo que as escolas estão justamente aculturadas à visão econômica. Elas paulatinamente foram recuando e hoje nós trabalhamos com a noção de recursos humanos. A visão econômica trabalha com a noção de recursos humanos, a escola vai oferecer pessoas para o mercado de trabalho. Essa é uma visão econômica, a gente olha o mundo sendo gerido pela economia ou pela própria visão econômica.

Isso é tão profundo que a gente tem dificuldade de criticar ou se afastar e gerar outra visão. Mas, aqui e ali, a gente começa a examinar essas outras visões. Vou tomar inicialmente esse exemplo da educação associada à economia, apenas para a gente passear por essa dimensão interna, que a gente precisa elucidar, quando nós tratamos seja do que for. Então a grande contribuição do meditante é o fato de que ele silencia e olha o mundo interno. Essa capacidade de silenciar e perceber os conteúdos que vão produzir as experiências de realidade, isso é a especialidade da meditação. Isso se dá também no âmbito da saúde. Vou começar com exemplos da educação e depois migrar para exemplos de saúde.”

Transcrição: Lorena Pinto Coelho

Leia os ensinamentos do Lama Padma Samten sobre As Doenças Mentais na Perspectiva Budista.

Leia mais ensinamentos no site do CEBB.

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