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Lama Padma Samten – Educação, Saúde e nosso Mundo Interno (2)

por 29/01/2013 3 comentários

Continuação dos ensinamentos do Lama Padma Samten. Leia a primeira parte.

No caso da educação, nós queremos que esses meninos e meninas se transformem no que? Se nós estamos pensando em mercado de trabalho, nós estamos pensando na visão econômica, que vai transformar os meninos e meninas em recursos humanos dos vários atores do mundo econômico, essencialmente isso. A gente considera esse elemento importante, ele está presente, no entanto as pessoas não são recursos humanos, elas são seres humanos. Se nós olharmos a economia como o ponto central, a gente pode pensar: ainda que eles sejam seres humanos, se eles não forem seres econômicos, eles não têm solução. Aí nós voltamos a examinar esse paradigma econômico e percebemos, por exemplo, que, quando as crises ocorrem, o paradigma econômico é interrompido. Nós percebemos que o paradigma econômico funciona como uma seção dentro da vida mais ampla. A vida mais ampla é a vida que nos trouxe até aqui. Nossos pais, ou aqueles que exerceram esse papel, cuidaram de nós fora da perspectiva econômica, até que a gente começa a andar sozinho. Então eles investiram em nós, em uma linguagem econômica, a fundo perdido. Isso não quer dizer sem esperança ou sem utilidade, eles encontraram uma utilidade humana, eles cuidam de nós dentro de uma perspectiva humana, que não é a perspectiva econômica. Se nós estamos vivos e aqui, com uma cara de saúde, é porque alguém cuidou de nós fora da perspectiva econômica.

Por outro lado, se nós trabalhamos hoje, ainda que a gente tenha um raciocínio econômico, nós não trabalhamos pelo resultado econômico, nós trabalhamos para que esse resultado econômico possa nos permitir cuidar das outras pessoas. Se nós não temos uma visão humana, a própria ação econômica perde o sentido. A ação econômica por si mesma é completamente fria, ela não tem um resultado. Se nós não tivermos uma visão humana, a gente perde a vontade de viver, perde o sentido da vida. A felicidade para nós está diretamente ligada ao nosso contato humano e não efetivamente à questão econômica. A questão econômica é um braço disso. Por outro lado, quando as crises surgem, agora nós começamos a nos avizinhar de algumas crises importantes, desde 2008 nós estamos vivendo essa flutuação do processo econômico. Espantosamente, os países desenvolvidos estão mais frágeis, a própria noção de país desenvolvido precisaria ser avaliada. Nós vamos encontrar alguns autores, alguns economistas dizem que a partir de 2008 foi feita a maior transferência da história, até hoje, de fundos públicos para fundos privados, ou seja, o socorro dos bancos quebrando, o socorro da estrutura econômica foi feito à custa dos governos. Os governos investiram pesadamente para salvar os agentes do processo econômico, que são instituições privadas. Nesse momento se vocês estão olhando as ruas da Europa, as pessoas estão dizendo que elas também querem ser salvas, não só as organizações econômicas precisam ser salvas.

Agora, o ponto importante nisso é que quando surge uma crise, as regras econômicas são abandonadas e nós utilizamos uma visão humana, ou seja, nós precisamos, para o bem de todos, subverter as regras e ajudar aquelas organizações para que elas continuem funcionando. Agora, nesse momento, as pessoas também estão reivindicando isso, porque na medida em que os bancos foram socorridos e as grandes empresas foram socorridas pelos governos, os governos são as pessoas, aí os próprios governos se endividaram. Para eles poderem seguir girando a dívida deles com os próprios bancos, que eles socorreram, eles precisam uma economia adicional da própria população, então os tempos de aposentadoria se estendem, os impostos aumentam, os investimentos em saúde, educação etc. encolhem, as políticas públicas todas encolhem, e os cidadãos são drenados para gerar caixa, para o Estado poder continuar operando. Aí as pessoas vão para a rua e pedem que as regras do jogo sejam também subvertidas para benefício das pessoas. É simples, em 2008 e em 2009, as regras foram subvertidas para salvar as instituições e agora nós precisamos que as regras sejam subvertidas. É como, por exemplo, um avô jogando pôquer com os netos, depois dele “limpar” os netos, o jogo ficou sem graça, então a gente vai dizer: zeramos tudo, vamos devolver todas as fichas e começamos o jogo do zero! É mais ou menos isso. Nós estamos vivendo o fim do jogo, o jogo se apertou, ficou desequilibrado e agora precisa rearranjar.

Então quando nós estamos olhando isso, a gente está pulando por cima do aspecto causal da realidade, nós estamos olhando aspectos sutis, aspectos internos dessa realidade. Essa operação está além da faixa 2, ela começa a operar na faixa 3, que é o aspecto sutil, que está por trás dos olhos. Então o que é que nós estamos pedindo? Que as pessoas mudem os olhos por um tempo, a gente rearranja as regras, depois a gente pode começar a jogar de novo. Mas existe esse espaço, esse espaço de transformação interna, nós podemos fazer isso. Então, tem os bancos, os governos segurando, as pessoas segurando, é um jogo e, em um certo momento, isso se equilibra ou se desequilibra, mas isso tem seu próprio movimento. Por outro lado, nós também podemos pensar, como que se movimenta todo esse processo econômico, como é que se dá essa movimentação toda. Nós vemos os containers se deslocando e a gente entende que os containers se deslocam pela força dos 12 Elos da Originação Dependente, ou seja, aquilo está girando pelos 12 Elos. As pessoas têm desejos e apegos, elas se alegram em produzir de modo causal transformações nas suas relações. Elas têm a sensação de que precisam de coisas e que isso transforma e melhora a vida delas e assim estão dependentes de objetos que surjam para que o olho delas brilhe um pouco. Depois aquilo vira lixo de novo e precisam de outra coisa para o olho brilhar e nós vamos girando um processo econômico numa dependência de objetos. A gente vai olhando desse modo e vendo como esses conteúdos internos vão produzindo a energia, o brilho do nosso olho, a motivação para a própria movimentação no cotidiano. A gente observando isso, nós vemos que há esses recursos de transformação interna de tal modo que a gente tenha o brilho do olho de uma forma mais simples. Tem esse recado dos mestres Zen que diziam assim: na perspectiva do mundo nós precisamos do máximo para ser felizes, na perspectiva do Zen nós buscamos o mínimo.

É uma coisa paradoxal. Se a gente puder ser feliz com o mínimo, nos já somos felizes. Isso é muito mais eficiente do que se nós formos felizes com o máximo. Precisar de muitas coisas para ser feliz dá muito trabalho. Se nós pudermos ser felizes de uma forma mais simples, muito melhor, sobra muito mais tempo na vida, é muito mais direto. Então essa é uma análise a partir do nosso mundo interno, ou seja, como que a gente olha desse mundo interno e vê desse modo.

Quando nós olhamos para a educação, a gente entende que seria bom que as crianças fossem felizes, que eles soubessem se relacionar de uma forma melhor no mundo. A questão não é simplesmente eles serem aptos a exercer pedaços dentro de um processo produtivo causal, eles deveriam desenvolver visões mais elevadas, mais livres, e deveriam desenvolver algum nível de felicidade, gerar essa capacidade, essa lucidez, nessa direção. Nós queremos formar seres humanos. Isso não quer dizer que a gente também não queira que eles tenham uma capacidade de andar nos mundos oníricos, nos mundos de sonhos das realidades econômicas, mas esses mundos de sonhos, como vocês têm visto, mesmo que as pessoas tenham pós-graduação, tenham pós-pós, sejam engajadas, tenham apoio financeiro e etc, ainda assim o mundo econômico quebra. Acho espantoso que bancos possam quebrar, desde 2008 quebraram mais de 100 bancos americanos. Como é que é possível isso?

Os bancos, naturalmente, podem operar com esse grau de realidade de sonho, de um modo geral eles têm 20% do capital que eles emprestam. Eles emprestam 100%, daqueles 100%, 20% são o que eles têm realmente. Eles estão acreditando em um fluxo, se o fluxo se fragiliza, eles quebram. Mas eles nunca tiveram aquilo, eles vendem o que eles não têm: o mundo onírico. É como, por exemplo, a pessoa vender a soja que ainda não plantou. Isso se faz, hoje nós estamos assim, se está vendendo o mercado do futuro, a gente está vendendo a soja de 2013, ela não foi plantada ainda, mas ela já tem preço e nós estamos vendendo. Então nós estamos nesse mundo onírico, nesse mundo incrível. Esse é o mundo econômico, ele opera desse modo. A noção da vacuidade se aplica no mundo econômico, por isso que essas crises, elas ocorrem. Nesse momento, se vocês olharem o preço dos imóveis, tipo Rio de Janeiro e São Paulo, a média de todos os imóveis comercializados está entre seis a oito mil reais por metro quadrado. Lá no Caminho do Meio, nós estamos construindo entre quinhentos e mil reais o metro quadrado. Isso é chamado de bolha, as bolhas são sustentadas porque existem os bancos que emprestam dinheiro.

Existem outros aspectos desse mundo onírico, há, por exemplo, a quantidade de petróleo que já foi prospectada. Nós temos prospectado como reservas firmes uma quantidade tal de carbono que, se queimado, vai ultrapassar em cinco vezes os limites que nós já estabelecemos como limites possíveis para a atmosfera. Aí, vem a pergunta: esses valores do petróleo já prospectado, eles já estão contabilizados como propriedade de empresas e governos, naturalmente, o que é que vai impedir as pessoas de bombear esse petróleo e queimar? Isso é dinheiro deles, virou recurso. É uma coisa muito interessante, porque o processo econômico não está olhando a vida, ele olha os seus próprios números. As pessoas, as coisas da natureza viram reservas: minerais, de energia, de petróleo, de florestas, de madeira. O mundo econômico, quando olha para nós, vê recursos humanos. Tudo ganha um sentido a partir da perspectiva econômica, a gente não vê mais rios, a gente vê recursos hídricos, aí vira tudo um processo econômico. É natural que, dentro dessa perspectiva, a sustentação da vida, nas suas várias formas, seja um problema, tenha uma contradição com o próprio raciocínio econômico. Mas é superimportante a gente pensar, quando a gente começa a estruturar uma visão de educação: a gente quer que nossos filhos e filhas se atrelem a esse processo? Ou que eles consigam gerar uma visão mais ampla? Uma visão que inclua outras perspectivas que não apenas a perspectiva econômica. A perspectiva econômica não tem como sustentar o planeta, ela não tem esse objetivo, ela é um jogo cego, um jogo de números. Então, naturalmente, quando a gente pensa na educação, nós vamos pensar em educar as pessoas para uma visão ampla.

Por outro lado, a compreensão de que o mundo interno cria uma visão de mundo, como se fosse uma visão externa, introduz a importância da palavra avidya. Avydia seria cegueira, incapacidade de ver além dos nossos próprios pressupostos. No campo da educação isso traduz uma grande diferença em relação aos objetivos usuais do processo de educação. Esses objetivos usuais nos colocam como pessoas em treinamento para oferecer respostas específicas diante de condições específicas. Já a noção de avidya, ela traz um desafio para a educação que é o desafio de ultrapassar a própria visão, ultrapassar os pressupostos, ser capaz de ver além das limitações dos conteúdos internos que nós trabalhamos. Nós queremos educar pessoas para agir de uma forma mecânica ou nós queremos educar pessoas que são capazes de pensar, entender a limitação dos seus pensamentos, a base dos seus pensamentos e ultrapassar a limitação disso? Então a gente precisa pensar sobre isso.

A educação budista naturalmente vai incluir essa aspiração de nos levar além dos pressupostos, além das estruturas que nos estreitam. Então nós entendemos avidya. Quando nós entendemos avidya vem a noção da bolha. Nós estamos dentro de bolhas de realidade, sejam elas científicas ou emocionais. Dentro dessas bolhas de realidade, as coisas parecem apontar numa direção e nós fazemos nossos comportamentos condicionados a partir desses conteúdos internos que a gente nem percebe. Quando nós estamos em faixa 2, nós simplesmente não olhamos para os conteúdos internos, a gente apenas quer encontrar os meios para obter os resultados que a gente está aspirando, a questão é causal, como obter os meios. Quando nós estamos em faixa 3 nós entendemos como que o conteúdo interno limita nossa visão e nossa capacidade de ação lúcida no mundo. Então, a questão toda é como que nós nos liberamos desses condicionantes e podemos ir adiante.

Leia a parte 3.

Transcrição: Lorena Pinto Coelho

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