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Lama Padma Samten – Educação, Saúde e nosso Mundo Interno (3)

por 6/02/2013 3 comentários

Terceira e última parte da palestra do Lama Padma Samten na UERJ. Leia a parte 1 e a parte 2.

Essa é a perspectiva da educação, mas aí entra a perspectiva da saúde também. Nós vamos perceber que de acordo com os conteúdos internos nós reagimos de uma forma ou de outra diante das coisas e essas reações têm impactos sobre a nossa própria saúde. Volta e meia eu encontro algum terapeuta e eu vejo que há uma dor que acomete os terapeutas, médicos também. É assim: eles se veem trabalhando os sintomas que as pessoas apresentam, as pessoas melhoram, depois passa um tempo e elas voltam lá de novo, pioraram. Aí eles consertam aquilo de novo e aí as pessoas melhoram e pioram de novo. Aí, com um tempo, eles percebem que as pessoas têm um componente interno que as leva elas a fazer um tipo de comportamento que piora a saúde, então eles se sentem simplesmente instrumentos manipulados pelas ações inconsequentes, limitadas, das pessoas. Eles se sentem completamente incapazes de produzir transformações maiores e eventualmente, em certo momento, dizem: eu estou aqui como se eu estivesse trabalhando por dinheiro, porque eu não estou fazendo nada de fato, eu reduzo o problema do outro, o outro melhora e ele volta a piorar, não adianta nada.

Então essa transformação interna tem que ocorrer. Ela é crucial para o tema da saúde. Naturalmente a gente precisa ter a paciência das mães. Os filhos vão aprontando aqui, aprontando ali, mas a mãe nunca diz isso. É maravilhoso, não é? “Meu filho anda de moto e já se acidentou uma primeira vez, uma segunda vez, uma terceira vez. Aí o médico no pronto-socorro diz: você de novo por aqui? Acho que eu vou lhe tirar uma perna agora e você já fica”… Ele bate aqui, bate ali, de repente bate com a cabeça. Isso é um fato real que eu vi, bateu com a cabeça, amassou tudo e ficou com sequelas. Aí a mamãe vai lá, vai arrumando aquilo, vai ajudando a fazer cirurgias corretivas, no fim, ele acorda. É importante a gente entender também que as coisas não são lineares. Não é pelo fato de que as coisas não estão indo, que em um certo momento não vai. Não está indo, não está indo e de repente vai. As coisas não são lineares. Então a paciência das mães é uma coisa muito importante, é essa capacidade de acreditar que as coisas podem mudar.

Em termos de saúde é muito importante a gente perceber essa dimensão interna nossa, não só perceber que nós temos um papel a desempenhar no cuidado de nós mesmos, mas a gente precisa entender que nós temos esse papel de localizar os obstáculos internos. Se vocês quiserem avaliar os obstáculos internos façam assim: primeiro vão em um naturopata, um iridólogo. Eles olham e dizem: é sério. Aí, quando a gente vê um diagnóstico desse a gente pensa: a situação é grave. Aí eles prescrevem, depois de olhar e exclamar hum, hum, hum, eles prescrevem sempre a mesma coisa. É assim, suco verde, claro! Aí eles vão dizer: coma crus, frutas, abandone as gorduras saturadas, abandone a gordura quente, tudo o que vocês gostam. Pronto, nada do que a gente gosta vai ser preservado, nada. De um modo geral a gente vai emagrecendo porque não tem nada para comer mesmo.

Aí o que é que acontece? A gente descobre que nós temos um inimigo interno. A situação mais grave ainda, a gente pensa: esse inimigo é tão próximo, tão próximo, que a gente acha que “eu sou isso”! Ou seja, eu sou o impulso da picanha, eu sou o impulso da gordura quente, eu sou aquele que quando vê um churrasco pingando sobre o fogo acha aquilo parecido com o que os budistas acham do incenso. Incenso de gaúcho é gordura quente no fogo. Aquilo dá uma uma energia por dentro. Aí a gente vê onde está o inimigo, o inimigo se escondeu bem, tomou de assalto… situação grave. Então, qual é a nossa chance? Se aquilo está fazendo mal para saúde, mas aquilo é um impulso que vem de dentro de nós, a gente tem que entender que há esses componentes.

Muito importante para o tema da saúde é não só termos boas sugestões sobre o que fazer, mas a gente ter a capacidade de ultrapassar nossas concepções e transformar aquilo que precisa transformar. A meditação é um mecanismo nessa direção. Quando nós sentamos em meditação, naquele momento mesmo que nós estamos sentados na meditação, nós estamos com o corpo equilibrado. Para manter o corpo equilibrado, nós precisamos de uma energia que sustente esse corpo; é uma prática muito incomum, nós ficarmos retos, com uma cara inteligente, sem nada para fazer. Aí vem alguém e diz, que desperdício, ele está com uma cara inteligente e não está fazendo nada. Quando está no mundo, já não tem uma cara inteligente, agora aqui, sentado, enfim, conseguiu, mas não faz mais nada. Mas é isso mesmo, a gente está praticando só isso, uma cara inteligente. Então ele se mantém vivo, que não é fácil, aquela cara inteligente também não dura muito. Daqui a pouco, vem a cara usual e a energia começa a afundar, aí começou a prática da meditação, a gente volta.

Nós temos a capacidade de manter um brilho independente ou não? A gente faz a primeira prática de meditação e chega à conclusão que não. Aí a gente encontrou o inimigo, ou seja, nós encontramos o verdadeiro obstáculo. Nós somos capazes de gerar internamente uma energia autônoma ou nós estamos na dependência do funcionamento das coisas ao redor? Nós posicionamos a nossa mente num foco e aí a mente escapa. Põe de novo, escapa, põe de novo. Aí está o inimigo operando. Esses obstáculos surgem na energia e na mente. Se nós seguirmos com o mesmo padrão de obstáculos, o corpo sente o efeito. Por exemplo, aqui nós estamos retos, não é? Mas vocês experimentem seguir o padrão de obstáculos, vocês seguem um pouco, daqui a pouco vocês já estão assim, se encostando em algum lugar e, claro, vai dar desvio de coluna. A gente vai respirando mal, vai reconhecendo como que esse conjunto de hábitos, esse conjunto de tendências vai impulsionando o nosso corpo e a gente vai tendo os variados resultados. Na meditação nos equilibramos o corpo, a energia, mente e paisagem, nós geramos uma visão de mundo elevada. Dentro da visão de mundo elevada, mantemos energia, mantemos a mente, então essa é a prática. De um modo geral isso vai melhorar nossa saúde diretamente.

Um pouco adiante nós vamos perceber que há um tipo de obstáculo que surge tanto para a energia como para a mente, que são obstáculos específicos. Esse obstáculo pode se traduzir, por exemplo, por uma sensação de infelicidade ao redor, uma sensação de ameaça, uma sensação de competição, que são os seis reinos. Os vários reinos do samsara, dos mundos ilusórios, produzem alterações no próprio corpo. Isso é assim, por exemplo, se você se sentir nos infernos, você desenvolve uma cara dos infernos também, uma pessoa brava está com uma cara dos infernos, com certeza. A pessoa já toma uma posição ofensiva, o corpo dela adota uma outra feição. E assim por diante. Cada um dos reinos tem isso, se você está no reino dos animais, você fique bem quieto, se aparecer a vontade de fazer alguma coisa, persevere, isso passa. Isso já seria o reino dos animais, o reino do desinteresse. E assim por diante, cada configuração interna produz uma aparência de corpo. A forma pela qual nós agimos diante das coisas, é regida também por esse mundo interno.

A gente pode olhar as aulas desde cada uma das perspectivas dos reinos do samsara. A gente pode olhar as aulas como: “oh, que coisa difícil, que coisa penosa, que coisa dolorida”. A gente pode olhar: que coisa impossível de penetrar. A gente pode olhar: isso eu vou estudar por partes. A gente tem diferentes visões sobre como que nós podemos olhar as aulas. Quando nós olhamos alguém explicando alguma coisa, tem um ser humano que entendeu aquilo. Se aquele ser humano entendeu, nós podemos entender. É uma questão de manter a mente com foco e com uma disciplina de tal modo que a gente vai acompanhando o raciocínio e chega em qualquer coisa. Então a forma pela qual nós estruturamos o nosso mundo interno tem reflexos diretos sobre a saúde, sobre como nós nos construímos, como esse processo de educação surge, como que os processos econômicos surgem, como a sociedade como um todo surge.

É muito interessante a gente ver esses estudos comparativos, aqui já se fez várias vezes estudos no Brasil: as comunidades japonesas e as doenças da comunidade japonesa dentro do Brasil e dentro do país de origem deles, então as doenças mudam. Os japoneses no Brasil vão ter hipertensão, vão ter problemas coronários, vão ter problemas variados semelhantes à nossa própria população. Eles, imersos dentro de um mundo com uma visão específica, paulatinamente vão transitando para dentro dessas visões, então essas doenças não são uma questão genética propriamente, mas uma forma de como que se vive, como que se olha o alimento, como se olham as relações, as coisas todas.

Então, se vocês apertarem tudo o que eu disse, na verdade eu estou falando sobre o mundo interno e como que ele se refere, como que ele termina sendo determinante, nas nossas ações, na nossa energia, nos nossos impulsos, tanto no que diz respeito na economia, ação de mundo, educação e a própria saúde. O sistema econômico por sua vez dialoga bem com as nossas dificuldades de saúde. Por exemplo, um doente crônico, para o sistema econômico, é mais interessante do que uma pessoa saudável. A pessoa saudável não expande a economia, mas um doente crônico está acionando a economia constantemente. A indústria naturalmente vai ter que viver de doentes crônicos. A indústria precisa de gente cativa comprando seus produtos o tempo todo. Então é como se a indústria não tivesse como objetivo realmente curar as pessoas, o objetivo está ligado a nos manter dependentes de um conjunto de substâncias e procedimentos que são artificiais, mas essenciais para nossa própria saúde e nós vamos nos tornando dependentes disso. E é natural que esses remédios, essas substâncias todas tenham efeitos colaterais. Esses efeitos colaterais vão ter que ser equilibrados também por outros remédios, por outras substâncias e aí nós ficamos presos nisso.

Por outro lado, se nós vamos modificando internamente e removendo os fatores que produzem o adoecimento, nós vamos nos emancipando disso, então é super importante esse tipo de conhecimento. Hoje, nós estamos vendo também paralelamente o surgimento de profissionais, de pessoas muito hábeis que podem nos ajudar a remover os fatores de adoecimento. Esses fatores de adoecimento, inevitavelmente, todos eles vão depender de nosso próprio esforço de ultrapassar hábitos, de ultrapassar procedimentos que produzem o desequilíbrio. Nós temos que nos tornar aliados do processo de cura, de saúde. A meditação faz parte disso. Nós sentamos em silêncio, aquele momento, nós começamos a nos emancipar dos fatores que determinam o funcionamento da nossa mente, das nossas emoções, da nossa energia.

Transcrição: Lorena Pinto Coelho

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3 comentários »

  • joão vaz disse:

    Muito, muito, muito obrigado pela transcrição desta palestra, foi uma benção muito grande ter assistido e estou imensamente feliz de poder agora guarda-la para sempre!!

  • eunice disse:

    Magnifico… obrigada pela transcrição dessas palavas .. escutar esses ensinamentos causa uma sensação maravilhosa em minha vida, e me ajuda em tudo….

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