Foto: Daniela Degani

Compartilhando a experiência de meditação com crianças

Daniela Degani ensina a prática de meditação para crianças em escolas, centros comunitários e grupos para criar um mundo melhor

Por
Revisão: Bruna Crespo
Edição: Stela Tredice

Mãe medita?

Depois de alguns anos de prática, comecei a me questionar se seria possível incluir meus filhos, trazê-los para mais perto deste “momento em que a mamãe vai para o quarto, fecha a porta e pede que a gente não grite muito”. E como você já deve estar imaginando, o “não gritar muito” nem sempre é respeitado. Crianças não deixam de serem crianças porque os pais meditam. E, confesso, é fácil vê-los como um obstáculo à prática.

Em várias ocasiões, me vi lidando com a frustração de ter os planos de meditar minados, direta ou indiretamente, por causa das crianças. Justo naquela meia hora da agenda, que estava tão lindamente reservada para a prática, seu filho aparece com uma pergunta para a qual você não faz a menor ideia de resposta. Mas é lição de casa, e é para amanhã. Ok, mamãe te ajuda a pesquisar na internet. E lá se foi aquela meia hora, juntamente com a possibilidade de meditar naquele dia. Mas a gente não desiste. Tomei a decisão de que, se não fosse possível durante o dia, a meditação aconteceria logo depois de os pequenos irem para a cama. Parece uma ótima solução, não?

Seria, se eu não tivesse passado o dia inteiro para lá e para cá, tentando dar conta das coisas da casa, do trabalho, de levar um filho para um compromisso, o outro para o dentista, e não me esquecer de, na volta, passar na farmácia, porque faz três dias que a pasta de dente acabou. Nessas circunstâncias, quando sento para meditar já é tarde, o cansaço é grande, e muitas vezes não sei se estou meditando, viajando, ou simplesmente dormindo em uma nova posição — a de lótus, neste caso! (risos).

O bonito é ver que, com o tempo, as coisas foram, sim, se acomodando. Não porque as crianças deixaram de fazer bagunça, mas porque fui abrindo mão do que considerava “a forma ideal de meditar” para abraçar “a forma possível de meditar”.

A forma possível de meditar inclui perceber os filhos abrindo a porta do quarto para espiar o que estou fazendo, levá-los junto para participar de algumas horinhas de um retiro urbano, além de explicar que, em outras ocasiões, não vão ver a mamãe por uns dias, porque ela estará num retiro em outra cidade. Está nesse pacote também introduzir o assunto e responder, com paciência, todas as dúvidas e curiosidades que surgirem, desde: “quem inventou a meditação?” até “se seu nariz estiver escorrendo, você vai se mexer para limpar ou vai deixar a meleca pingar?”

Num belo dia, quando saí do banho, encontrei minha filha sentada, quietinha, na minha cama, com as pernas cruzadas, os braços ao longo do corpo, as mãos apoiadas nos joelhos. Ao me ver, simplesmente disse: — Mãe, eu também sei meditar. Eu “ovo” o silêncio.

Meu coração se encheu de alegria. Ela tinha entendido. E criança… medita? Ao longo dos anos, meus filhos foram, aos poucos, se aproximando da prática. E a dúvida que eu tinha inicialmente — como incluir as crianças na prática? — evoluiu para: será que as crianças conseguem mesmo meditar? Aproximar-se é uma coisa, mas meditar… Será que não era pedir muito para alguém com pouco mais de um metro?

Na busca por informações a respeito desse tema, o livro “Meditação em Ação para Crianças”, de Susan Kaiser Greenland, foi, ao mesmo tempo, uma resposta e uma grande fonte de inspiração. Como precursora no assunto, Susan adaptou para o universo infantil as práticas que havia aprendido ao meditar inicialmente com seus filhos e, mais tarde, em grupos, clubes e escolas. Ela observou nas crianças os mesmos benefícios que a meditação traz aos adultos.

Meditar com os pequenos tem suas particularidades e, como diz Susan, a chave para despertar o interesse é manter a prática breve, simples e divertida. A seguir, sugestões de práticas — atenção plena à respiração, atenção plena ao corpo e bondade amorosa — pelas quais percebemos bastante gosto e interesse nas crianças.

  1. Meditação da borboleta: começamos dizendo aos pequenos que as borboletas gostam muito de sentir a respiração das crianças. Em seguida, convidamos a imaginar uma borboletinha pousando no nosso nariz, ela só quer sentir nossa respiração! Mas as borboletas se assustam facilmente, então temos que ficar com o corpo tranqüilo e relaxado, só respirando, imaginando que estamos ajudando a borboletinha a se acalmar. Depois de um tempinho, que pode ser de 30 a 40 segundos, ela pode voar para o peito, a barriga e outras partes do corpo, de acordo com interesse da criança.
  2. Meditação da lagarta: antes de ser borboleta, nossa amiga imaginária foi uma lagarta. Com a mão esquerda virada com a palma para cima, colocamos o indicador da mão direta no centro da palma. Nosso dedo indicador direito é a lagarta e ela vai caminhar até a ponta de cada um dos dedos da mão esquerda inspirando, e retornar ao centro expirando. Orientamos a criança a prestar muita atenção nos movimentos da “lagarta”, nas sensações que isso traz e em sua respiração.
  3. História da princesinha dócil e bondosa: em seu livro, Susan conta a história de uma princesinha de um reino distante, que vai para a Academia da Sabedoria. Chegando lá, seus amigos e professores começam a ficar preocupados: a princesinha parecia não se interessar por nada, passava o dia “viajando”. Como uma forma de fazê-la estudar, os mestres da academia convidaram-na a dar uma aula aos alunos. Mas nem assim a princesinha estudou. Quando chegou o dia, a princesinha calmamente subiu ao trono designado aos professores e contou aos presentes sobre a promessa que tinha feito a si mesma de ajudar a todos que cruzassem seu caminho. Contou que queria ser um barco para ajudar seus amigos a cruzarem rios caudalosos, uma cama macia e quentinha para que as pessoas pudessem deitar quando se sentissem cansadas, uma lanterna para aqueles que têm medo do escuro, um médico para curar os doentes e uma lâmpada mágica que realiza desejos. Depois de ouvir essa história, convidamos as crianças a fazer como a princesinha e enviarem seus próprios pensamentos positivos às pessoas da família, amigos e animaizinhos queridos.

Quando pergunto às crianças, ao final dessas práticas, como estão se sentindo, as respostas geralmente ficam em torno de: calmo, legal, “de boa”. Não é uma ótima coisa que cada criança aprenda a acessar, por si mesma, este “sentir-se de boa”? Eu acredito que sim!

Meditação nas escolas

Sua Santidade o XIV Dalai Lama disse, uma vez: “Se toda criança de oito anos fosse ensinada a meditar, eliminaríamos a violência do mundo em apenas uma geração”.

Emocionei-me muitas vezes ao pensar no significado profundo dessa frase. Através de uma prática simples e gratuita podemos mudar o mundo, em poucos anos! Até hoje, essas palavras me comovem — mais do que isso: me movem.

 

Esse movimento veio na forma de um curso que fiz na Mindful Schools/EUApara me capacitar a ensinar o programa de mindfulness para crianças e adolescentes. Em países como EUA, Canadá e Reino Unido, as práticas de atenção plena estão se tornando cada vez mais comuns em sala de aula. E aqui no Brasil, haveria interesse das escolas? Como seria a receptividade dos pais?

Hoje, tendo ensinado o programa em 5 escolas de São Paulo e 1 centro comunitário, posso dizer, com grande alegria, que sim, há interesse! Talvez não em todas as instituições de ensino, mas há em algumas. Existem espaços educacionais em que a preocupação não se limita à performance acadêmica dos alunos, mas abrange a formação integral de seres humanos que um dia venham a ser adultos mais presentes, atentos, equilibrados e, sobretudo, mais felizes.

É uma visão inovadora, sem dúvida. Como afirma Susan Kaiser Greenland, o objetivo do ensino secular de mindfulness nas escolas é que crianças e adolescentes aprendam um “novo ABC” (em inglês: Attention, Balance and Compassion).

Os depoimentos de quem passou pelo programa são tocantes, como o de um jovem que disse ter aprendido a se sentir grato, pois nunca antes tinha parado para prestar atenção nas coisas positivas em sua vida. São encorajadores, como o de uma adolescente que relatou como a meditação a ajudou a controlar os episódios de ansiedade. São também engraçados, como o de uma mãe contando que, ao estranhar a repentina calmaria, abriu a porta do quarto onde o filho brincava com os primos para descobrir que estavam todos sentados de pernas cruzadas e quietinhos. Ao serem perguntados sobre o motivo daquilo, esclareceram: a gente estava sentindo muita agitação por causa do vídeo game, o Lucas nos ensinou a meditar.Ao longo do último ano, conheci inúmeras iniciativas nesse sentido, em várias partes do Brasil — interior de São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Recife, entre outros.

Quem sabe conseguimos formar um movimento que leve a meditação para mais e mais escolas? Quem se habilita a juntar-se a nós?

Talvez seja cedo para achar que a violência do mundo estará eliminada na próxima geração. Mas aqui estamos, trabalhando para isso. Todos são bem-vindos!

Daniela Degani

Daniela Degani é mãe do Enzo de 12 anos, da Analía de 9 anos e do Caio de 2 anos. Praticante de meditação, medita com crianças há três anos, sendo treinada em Mindfulness para Crianças e Adolescentes pela Mindful Schools/EUA. Dedica-se a ensinar a prática de meditação em escolas, centros comunitários e grupos, por acreditar ser assim possível dar uma pequena contribuição para criar um mundo melhor, com seres humanos mais presentes, atentos, equilibrados e, sobretudo, mais felizes. Seu site é: www.mindkids.net e no facebook mindkids.


Para adquirir o livro:

O livro Meditação em ação para crianças: Como ajudar seu filho a lidar com o estresse e a ser mais feliz, gentil e compassivo, de Susan Kaiser Greenland, está à venda no Brasil pela editora Lúcida Letra.

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