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Dharma no semáforo: sobre meditação, foco, buzinas e sinais verdes

por 2/06/2009 11 comentários

semaforo_meditacaoRecentemente estava eu andando de carro por São Paulo, e como de costume, me perdi. Fui parar num bairro que não me parecia muito seguro. Parei num semáforo, eu era a primeira da fila. Conforme os mandamentos de segurança de São Paulo, você deve evitar ser a primeira da fila do semáforo, principalmente à noite, em bairros suspeitos. Mas alguém sempre deverá ser o primeiro, não é? Lá estava eu, a primeira da fila, à noite, sozinha, num bairro suspeito. Comecei então a ficar de olhos arregalados para os retrovisores, afinal, se alguma coisa suspeita acontecesse, eu estaria pronta para arrancar! Minha cabeça fazia um movimento frenético, virando para os espelhos: eu queria estar alerta para qualquer coisa que pudesse acontecer.

Me sentia no controle da situação, o que se passava atrás do carro estava monitorado pelo meu campo de visão. Exatamente isso, só o que se passava atrás do carro. De repente, buzinas começam a soar alto e me acordam da minha vigilância atenta dos retrovisores: o sinal estava verde, eu já poderia arrancar, mas eu continuava lá, ocupada com meus retrovisores. Ora, tudo o que eu queria era sair o mais rápido possível daquele lugar, mas para que a permanência no semáforo fosse tranquila, resolvi focar minha atenção na segurança. Eis que foquei demais, gerei um estado mental que no budismo chamamos de niroda, que é essencialmente a criação de um foco. A consequência da geração de um foco é óbvia: ao focar um objeto, não vemos todo o resto.

Ao ouvir as buzinas, dei um sorriso largo e, é claro, arranquei. O som das buzinas me tirou do torpor de minha vigilância, da niroda que gerei, que acabou impedindo que eu visse justamente o que me tiraria do lugar: o sinal verde!

Muitas de nossas aflições ganham intensidade com o processo de niroda. Acabamos focando nossos problemas de forma tão intensa, às vezes até rígida, o que nos leva a ver poucas alternativas de saída, ficamos presos, achamos que o sinal está permanentemente fechado para passar. No entanto, é bom que lembremos que o sinal sempre ficará verde de novo, não importa quanto tempo dure o sinal vermelho. Aliás, é mais importante que lembremos que o sinal já está verde, que há uma liberdade sempre presente, que o caminho está livre. Por que não enxergamos isso? Pois estamos muito ocupados e concentrados com nossas coisas. Algumas delas, de tanto receber um foco sério, já tornaram se problemões. De qualquer forma, enxergando ou não, o sinal fica verde de novo, nem precisamos nos preocupar.

No entanto, já que funcionamos com o mecanismo de niroda, já que nossa mente foca uma coisa e não vê outra, resta-nos aproveitar esse mecanismo de alguma forma positiva. É o caso da meditação, na qual niroda é bastante útil. A recomendação é que, no início de uma sessão de meditação, nós nos concentremos em algo, por exemplo, na respiração. Ao manter esse foco, todo o resto acaba sendo desacelerado, a mente vagueia menos, o corpo torna-se calmo, reduzindo as perturbações.

Conscientemente ou não, operamos por niroda. Mesmo que continuemos a usá-la sem percebermos, os mestres espirituais incansavelmente cuidam de nós para expandirmos o olhar. Eles estão buzinando sem cessar para enxergarmos o sinal verde permanente e “arrancarmos”.

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Stela é uma aspirante à iluminação. Porém, tem diferentes distrações e desculpas esfarrapadas para não meditar. Pode ser encontrada no CEBB Caminho do Meio. | Leia outros posts de


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11 comentários »

  • Gustavo Gitti
    Gustavo Gitti disse:

    Stela, adorei a metáfora e mais ainda o fato de que aconteceu de verdade! ;-)

    Escreva mais!

    Abraço do companheiro de confusões amorosas.

  • Fernando disse:

    Stelinha querida!
    Quantas vezes nós não estamos esperando o sinal verde e não o vemos?
    Muito importante essa sua chamada de atenção.
    Obrigado e parabens pelo texto.
    Abraço do companheiro das emendas de feriados.

  • kiko disse:

    curti também o texto da stela, será uma grande mestra essa menina.

  • Vanessa Leite
    vanessa disse:

    Aí, Stellona!!!

    Você ia adorar dirigir em Lagoa Vermelha e parar no único semáforo da cidade (obra progressista orgulho da administração). Bem, temos 3 avenidas paralelas e umas dez ruas que as cruzam. Mesmo assim, na avenida principal,onde se concentram motorizados grande parte dos 28. ooo habitantes, o “giródromo” e “namoródromo”, o arranque de carros possantes, assim que é dado o sinal verde,nos faz pensar: para onde vão, com tanta pressa (a avenida logo acaba…)???

    grande beijo, amiga. “ôô…eles já são carrascos e vítimas do próprio mecanismo que criaram…”

  • Stela disse:

    Fernando, querido, quem foi o arquiteto das tais das pontes de feriado, hein!?
    É, na vida esperamos muito os sinais verdes né, e não enxergamos que já está tudo verde. Duro mesmo é esperar na Giovanni Gronchi, com uma aula para dar em 10 minutos…hehe.
    Beijão!

    Kiko!!! Por onde andas? Da próxima vez prometo levar dinheiro para pagar o estacionamento. haha!

    Vanessa!!! Chapecó não é muito diferente. Inclusive já adotou o nome de “bobódramo” para o lugar que descreveste. Grande Raul, tosco e genial né…”Tem gente que passa a vida inteira/Travando a inútil luta com os galhos/ Sem saber que é lá no tronco/ Que está o coringa do baralho” Beijos, querida!

  • Alessandra disse:

    Strela!

    Ótimo texto! Escreva mais guria, suas conexões foram ótimas.

    abraço da companheira de samsara hits and co. rs

  • Leo Caobelli disse:

    Gostei muito do texto.
    Cidades grandes e dharma são coisas que se complementam de maneira peculiar.
    Lembro de quando o Rinpoche ia até o shopping Iguatemi (o de Poa, não de SP) e ficava na praça de alimentação. Ele sempre dizia que o samsara estava ali, no meio daquele barulho e agitação constantes.
    Essa coisa da cidade que tem vida e mexe com o que é nosso e dos outros é o que move o pensar e agir.
    Enfim, pensamentos de alguém que não consegue mais se focar no dharma tanto quanto gostaria. (disse isso uma vez pro Lama Santem e ele apenas sorriu, como se fosse algo natural, fase… espero que sim).

  • Kathia disse:

    Stela, entrei neste site meio que por acaso numa indicação vertical de um Amigo e como me considero muito neurótica nesse aspecto de violência urbana sua história me chamou atenção. Há algum tempo venho tentando encontrar espaços e formas para viver e conviver melhor neste mundo, uma vez que avalio minhas ações e reações como de sobrevivência mas, consegui entender agora, com você, o “significado” do meu modo de agir e reagir e mais do que isso enxerguei uma possibilidade concreta de poder modificá-las. Obrigada por isso.

  • Luciana Valle
    luciana disse:

    Li esse post somente hoje. Bem… no momento certo! E ri ao me perceber ali paradona neuroticamente observando os retrovisores, sem perceber muitos caminhos abertos, em muitas direções.

    Stela, menina, lindo post. Sabedoria e suavidade, como vc inspira. Obrigada por compartilhar.

    Sigamos em frente!

  • Ana Cardoso disse:

    Oi Stela,
    Que texto ótimo!!! Muito boa essa imagem do sinal verde. Eu faço exatamente como você descreve, nos cruzamentos e na vida…mas to começando a arrancar mais depressa…
    Obrigada,
    Beijo
    Ana

  • Felipe disse:

    Oi Stela

    Há muito tempo tinha lido seu post sobre a TPM NÃO É MAIS DESCULPA PRA SUA NAMORADA, e gostei heheh, mas o que mais gostei foi em seus comentários dizendo sobre as palavras de um mestre ao falar que a realidade já é psicodélica suficiente =)

    E agora estava assistindo ao filme SAMSARA e me veio você a mente, e então vim aqui e li este outro POST seu, muito bom.

    Gostei dos temas que você aborda e como os faz heheh

    Também sou um grande admirador da reflexão, meditação, budismo, espiritismo e tudo relacionado à espiritualidade.

    Tinha deixado recado em outra parte da página pra você, pra tentar achar seu contato, mas num obtive muito sucesso como se vê hehehe…bem, espero que desta vez você veja meu recado para podermos fazer contato. Puis meu email ae em cima mas não sei se aparecerá pra você, de qualquer se não aparecer, deixe um comentário seu aqui também (que vai ser avisado no meu email), e então posto um email meu a você para nos falarmos =)

    Até, bjoss

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