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Não há vencedores reais | parte 1

por 23/03/2014 1 comentário

Primeira parte do texto de Sakyong Mipham Rinpoche publicado na revista Shambhala Sun em julho de 2005. Tradução de Rafaela Batista.

Leia a parte 2.

Ganhar e perder é um jogo de azar, diz Sakyong Miphan Rinpoche. De qualquer forma, todo ganho acaba em perda, e tentar alcançar a vitória sobre os outros é desagradável e ilusório.

Eu sempre gostei de esportes – andar a cavalo, golfe, correr. Uma vez perguntei a meu pai, Chögyam Trungpa, o que ele pensava sobre futebol, já que é um esporte que não existia no Tibete. Ele respondeu, “Eles têm ganhado e perdido o mesmo jogo há uma centena de anos”. Eu fiquei chocado pelo seu senso de humor, mas ainda mais pela verdade sutil por trás do que ele havia dito. Por esses cem anos, ganham-se e perdem-se partidas. Os jogadores podem ter ganhado resistência, disciplina e camaradagem, mas no final, não fizeram nenhum progresso, porque eles sempre jogaram com o propósito de ganhar.

No samsara – o eterno ciclo de sofrimento – estamos sempre ganhando e perdendo o mesmo jogo, esperando fazer progresso, de alguma forma. Passamos uma parte de nossa vida juntando as coisas, e a outra parte vendo tudo desmoronar. Não nos damos conta de que, se tentamos ganhar algo, devemos estar preparados para perder. A partir do momento em que temos tempo – “Tenho uma hora inteira livre” – já estamos o perdendo. Trabalhamos duro para construir um relacionamento, e então ele acaba. Reunimo-nos para uma festa de fim de ano, e então ela termina. Compramos um novo carro, e o para-lama amassa.

Tudo o que ganhamos está sujeito à perda. Embora isso seja tão verdadeiro quanto o céu é azul, continuamos tentando fazer um ganho permanente de modo a tentar trazer felicidade para o “eu”. Nós pensamos, “Se ao menos fulano me amasse, eu seria feliz”, “Se ao menos as coisas mudassem, eu seria feliz”, “Se ao menos as coisas continuassem do jeito que estão, eu seria sempre feliz”, e isso só traz mágoa. Esse tipo de querer envolve muita esperança e medo, todos baseados na negação de uma simples verdade: todo o prazer que o mundo pode oferecer eventualmente se transforma em dor. E tentar se segurar nesse prazer só causa mais dor.

Por que colocamos todo esse esforço em ganhar, quando no fim das contas iremos perder? Satisfazer-se com ganhar e perder é como  induzir a amnésia. Estamos sempre achando algo novo para ganhar, o que nos faz esquecer a última coisa que perdemos, há apenas alguns segundos atrás. Fabricar essa cadeia de desejos é a forma como nos mantemos no samsara. Diferentemente de qualquer coisa que possuímos, esse padrão pode se manter por várias vidas. Contemplar isso nos permite dar um passo para trás e ver tudo por um ponto de vista mais profundo, de modo a ficarmos menos hipnotizados. Assim, estamos menos aptos a trabalhar fervorosamente em direção ao ganho.

O Buda disse que nossa existência é marcada pela impermanência, da não existência do eu, e do sofrimento. Quando contemplamos essa percepção na nossa meditação da manhã, estamos deixando a verdade da existência penetrar nosso ser. Estamos trazendo essa verdade para dentro de nossa própria experiência: qualquer coisa que acumularmos, perderemos. Até esse corpo se dissolverá. Contemplar o ganho e a perda não é dizer que iremos escapar dessa realidade, mas nos ajuda a não sermos enganados a pensar que o ganho terrestre nos trará felicidade permanente. Essa é a forma pela qual harmonizamos nossa mente com a verdade sobre ganho e perda. Nós nos damos conta de que ganhar e perder é apenas uma ilusão – que permitimos que governe nossa vida. Quando paramos de ser confundidos, surpreendidos, ou insultados por ela, não mais iremos experimentar os altos e baixos que acompanham o ganho e a perda.

Leia a parte 2.

*Sakyong Mipham Rinpoche é o diretor espiritual da Shambhala, uma rede internacional de centros de meditação e de retiro. É o autor de “Faça da sua Mente uma Aliada” e ” Governe seu Mundo”. Leia o texto em inglês.

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