Não há vencedores reais | parte 2

por 2/04/2014 3 comentários

Segunda parte do texto de Sakyong Mipham Rinpoche publicado na revista Shambhala Sun em julho de 2005. Tradução de Rafaela Batista.

Leia a primeira parte.

Muitas vezes, perdemos nossa perspectiva acerca do ganho e da perda, já que o mundo moderno é muito competitivo. Com essa atitude, estamos num atrito eterno com nosso ambiente. Estamos brincando com o jogo do “E o que tem para mim?”: “Se eu ganhar alguma coisa serei feliz. Se eu perder alguma coisa serei extremamente infeliz”. Esse tipo de atrito sempre nos derruba. A competitividade não nos permite realizar o que queremos. Ela apenas adiciona a chateação de tentar ganhar à custa de outra pessoa. Ela nos torna agressivos – incapazes de relaxar nossa própria mente. Tornamo-nos mais suscetíveis à raiva, o que destrói qualquer virtude que tenhamos reunido.

Tentar manipular o ambiente promovendo a nós mesmos e torcer para que os outros fracassem é desagradável e ilusório. Apenas somos bons do jeito que somos, e forçar outra pessoa para baixo não nos torna nada melhores. A competição é instável. Mesmo quando ganhamos, não ganhamos realmente. Temos sempre que provar nosso valor novamente. Se desejarmos fazer algum progresso no caminho espiritual, não podemos basear nosso valor no sucesso ou fracasso de um evento.

Quando competimos, estamos aprimorando nossas habilidades de agressão. Abstendo-nos de um estado mental de competitividade, estamos confiando no nosso valor como seres humanos que podem cultivar a sabedoria e compaixão. Esse potencial não pode ser perdido ou conquistado. Se nós o desenvolvermos, somos capazes de viver a vida de maneira vasta, com prazer. Não nos afligimos sobre o que o outro esteja ou não fazendo. Nós valorizamos os outros. Quando eles nos superam, não nos sentimos diminuídos, mas vemos isso como uma oportunidade para relaxar na possibilidade extravagante de não estarmos apegados à perda ou ao ganho.

Perda e ganho são preocupações sem propósito que usamos para estimular a ilusão de um eu permanente. Estivemos preocupados desse modo por muitas vidas, ganhando e perdendo o mesmo jogo todas as vezes. O propósito de contemplar o ganho e perda é o de parar de desperdiçar nosso tempo. Essa vida é preciosa, nosso tempo é precioso, e nossa mente é preciosa. A verdadeira vitória é não ser pego pela ilusão da permanência. É não ser fisgado pelas emoções negativas. Ela existe quando nos libertamos da ilusão do “eu”. Esse é o motivo por que o Buda é chamado de “o vitorioso” – ele venceu sobre a ignorância, desejo, e paixão pelo eu. Ao contrário de nós mesmos, o Buda não vê a qualidade onírica da existência em retrospecto. Ele a vê agora. O Buda vê o presente – assim como o passado e o futuro – como um sonho, uma ilusão.

Prajna – “sabedoria elevada” – nos diz que, enquanto acreditarmos que a agressão e competitividade podem trazer ganhos reais, sempre jogaremos o jogo do samsara. Se pudermos ver através de nossa própria ignorância, não mais agiremos a partir de apego à perda e ganho convencional. Não precisaremos mais de provar o nosso valor a cada momento. Podemos superar o ciclo do sofrimento, investindo nossa energia na causa da felicidade duradoura, que é o abandono do “eu”.

Textos antigos de meditação nos dizem que depois que ficamos familiarizados com a verdade da impermanência, deveríamos praticar como se nossos cabelos estivessem pegando fogo. O que praticamos? Praticamos meditação, generosidade, paciência, humor, e ajudamos os outros. Quando nós realmente compreendemos a impermanência, vivemos com gratidão por nossa boa sorte, como se fosse nosso último dia na terra. Acordamos de manhã animados por termos a oportunidade de usar cada momento de nossa vida de modo que levará à sabedoria. Quando fazemos desse modo, ficamos com o coração mais leve, naturalmente e espontaneamente. Não somos apanhados pelo jogo do bem ou do mal. Temos o que os tibetanos chamam de “tropa” – alegria. Tudo o que resta é ser totalmente destemido e dar o primeiro passo em ajudar os outros. É assim que seremos verdadeiramente vitoriosos.

*Sakyong Mipham Rinpoche é o diretor espiritual da Shambhala, uma rede internacional de centros de meditação e de retiro. É o autor de “Faça da sua Mente uma Aliada” e ” Governe seu Mundo”. Leia o texto em inglês.

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3 comentários »

  • ADEMIR VILAR disse:

    esta mensagem é uma verdade,se olhamos para um carro novo á vida desse carro é apenas três anos,tem casamento á vida toda, mais tem casamento com um mês acaba.

  • jose disse:

    Parabéns, meus amigos, por este site.

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