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Nascido no Tibete

por 31/12/2011 Comente!


Por Carmen Navas Zamora

Em sua primeira visita ao Brasil, Sakya Trizin participa de debates sobre budismo, cultura de paz e atualidade, e concede transmissões Vajrayana da linhagem Sakya

A primeira visita de Sua Santidade Sakya Trizin, autoridade máxima da linhagem tibetana Sakya, trouxe um novo momento para o budismo brasileiro. Entre 21 e 26 de julho, Sua Santidade esteve nos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco, concedendo transmissões do budismo Vajrayana e participando de encontros e debates sobre questões contemporâneas. As palestras foram marcadas por emoção, alegria e admiração do público brasileiro, que ouviu ensinamentos sobre ação não-violenta, sustentabilidade e a preciosidade da vida humana. A vinda de Sua Santidade Sakya Trizin foi planejada pela comunidade de praticantes Sakya no Brasil, liderada pelo lama brasileiro Rinchen Khyenrab, e a visita tornou-se parte de uma turnê do líder budista pelo continente americano. Ele chegou acompanhado da esposa, Sua Eminência Gyalyum Chenmo, e do filho mais novo, Sua Eminência Gyana Vajra Rinpoche. Durante uma palestra para cerca de 400 pessoas, na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, Sakya Trizin elogiou o acolhimento da sanga e falou sobre a alegria de ensinar praticantes de diferentes culturas. Ele lembrou que durante sua infância não era possível ter qualquer contato com pessoas de outras regiões do mundo, devido ao isolamento do país. “Quando estava no Tibete, eu não sabia que existiam tantos países e nem conhecia seus nomes. Somente quando fui para a Índia ouvi falar sobre o Brasil, por isso é muito bom ter essa oportunidade de estar aqui”, ressaltou. Em Recife, Sakya Trizin e sua família participaram de um evento memorável: o encontro com a população da comunidade do Coque. Numa tenda montada com apoio do Governo de Pernambuco e de ONGs que atuam na comunidade, o mestre abençoou centenas de moradores e assistiu a uma dança inspirada em Tara, deidade feminina da compaixão.

A presença de Sua Santidade teve um significado especial para a população do Coque, que sofre com o preconceito provocado por uma antiga fama de lugar violento e insalubre. Estatísticas não-oficiais contabilizam cerca de 40.000 moradores, que vivem numa área de forte influência das marés. Menos de 1% das residências dispõem de saneamento básico, um forte contraste com bairros vizinhos na capital pernambucana*.

Aos praticantes Vajrayana, Sua Santidade concedeu transmissões importantes em Campinas, no Mosteiro Sakya Tsarpa, em Cabreúva, e também no Recife e em Timbaúba, na Zona da Mata pernambucana. Na mesma região onde já existe o Centro de Estudos Budistas Bodisatva Darmata (CEBB Darmata), sob a orientação do Lama Padma Samten, Sakya Trizin consagrou as terras que poderão, no futuro, receber um mosteiro da sua tradição.

Em busca de valores positivos

Publicamos, a seguir, a transcrição editada do evento Nascido no Tibete, no qual Sua Santidade Sakya Trizin respondeu perguntas do público reunido no Centro de Convenções de Pernambuco, em Olinda.

Quais as perspectivas para os próximos líderes religiosos do Tibete diante da situação da ocupação chinesa?

Quando saí do Tibete eu tinha 15 anos de idade, então tenho memórias muito claras de como era o Tibete antigamente. A situação neste momento é bem diferente. A vida tibetana era muito simples, despojada da busca de valores materiais; vivia-se com o básico; obviamente, era uma vida bastante difícil, mas já que não havia a busca por coisas externas e materiais porque elas não estavam disponíveis, as pessoas se satisfaziam com o que tinham. Elas viviam com uma alegria, uma leveza, porque não tinham buscas e, com isso, tinham uma vida mais saudável. Sou muito otimista e creio que as coisas acabarão indo em uma direção bastante positiva. Esperamos que os problemas possam ser resolvidos e que todos possam viver em paz e harmonia.

Como os rituais budistas podem colaborar para uma cultura de paz, principalmente nas comunidades que vivem em conflito e em violência no mundo todo?

Basicamente, somos corpo e mente e funcionamos dessa forma como seres humanos. A mente comanda e o corpo é o servente. Não deveríamos nos deixar influenciar pelos aspectos negativos da nossa mente, por emoções aflitivas, por exemplo. A nossa prática diz respeito a cultivar valores construtivos e positivos; uma vez que isso seja possível, as nossas ações – que refletem na nossa mente – serão construtivas e positivas.

Como o Budismo entende o processo de adoecimento do ser humano e qual é a linha de tratamento de saúde que o tibetano utiliza?

Primeiro, nosso entendimento é de que mente e corpo estão muito interligados; se formos capazes de desenvolver uma mente forte e equilibrada, isso fará com que a possibilidade de nos tornarmos doentes seja muito reduzida. Uma mente forte, com certeza, ajuda na manutenção de um corpo saudável. “Mente forte” significa cultivarmos os aspectos positivos, como amor, bondade amorosa, compaixão, paciência, tolerância e uma visão correta de mundo. Quando desenvolvemos essas condições, temos a possibilidade de ter uma vida mais saudável. Devemos treinar a nossa mente para desenvolver essas qualidades que, estando presentes no nosso conteúdo mental, nos tornam mais fortes e, portanto, mais capazes de superar as dificuldades que enfrentamos na nossa vida.

Como o Budismo pode contribuir para a educação das crianças no mundo de hoje?

Enquanto seres humanos, buscamos causas e condições de felicidade, então, as ações deveriam ir em direção a esse propósito. Apesar dessas necessidades serem básicas para todos, isso não está acontecendo no momento, e a razão principal é que todos nós estamos preocupados com os nossos próprios venenos mentais. Primeiro, temos que nos conscientizar dessas necessidades; segundo, temos que desenvolver ações, causas e condições para que essas necessidades possam ser preenchidas. Se buscamos felicidade, temos que criar causas e condições para que ela possa ser experimentada. Se há infelicidade é porque nos sentimos insatisfeitos com aquilo que temos, com aquilo que experimentamos. Se estamos insatisfeitos, nossa mente experimenta a infelicidade. Quando estamos infelizes, facilmente desenvolvemos raiva e várias ações vão ter nascimento e acabam sendo causa e condição de sofrimento. Devemos olhar para as nossas necessidades para que, verdadeiramente, não nos sintamos insatisfeitos e, assim, não permitamos que condições de infelicidade surjam em nossa mente. Há que se fazer uma transformação a partir da forma como percebemos as coisas, a partir de nós mesmos. Temos que ver como as ações aparecem a partir de nós mesmos. Certamente, as coisas não podem ser mudadas totalmente de forma perfeita; a melhor forma de iniciarmos esse processo é verdadeiramente nos tornamos conscientes do que é necessário para que as mudanças possam acontecer. Quando desenvolvermos a consciência do que deve ser mudado, aí caberá a nós a responsabilidade de agir em direção à transformação. Nós mesmos seremos responsáveis pelas mudanças, pelo nascimento de novos modos e assim as transformações irão surgindo e se estabelecendo.

Vamos conseguir algum dia ter paz social?

Claro que a existência humana é muito antiga e sempre existiram conflitos. No tempo do Buda também havia muitas discordâncias, muitas dificuldades, mas ele dava ensinamentos que inspiravam as pessoas a terem uma percepção diferente de mundo. A partir disto, elas se propunham a fazer transformações na sociedade e os problemas acabavam sendo solucionados. Esse mesmo exemplo pode ser aplicado em qualquer momento da história da humanidade. Para isso, é necessário que haja pessoas que assumam responsabilidades de transformar a partir de si mesmas, e gerar movimentos, causas e condições mais positivos, nos quais um novo olhar possa surgir.

Sua Santidade o Dalai Lama já anunciou a sua saída das funções políticas. É possível ter um líder político no Tibete que não seja necessariamente um líder religioso?

Essa é uma pergunta um pouco difícil de ser respondida porque a história dos dalai lamas é muito antiga e o atual, mesmo tendo renunciado às funções políticas do Tibete, vai continuar sendo o líder político e religioso. Claro que, se houver necessidade, o Dalai Lama estará pronto para ajudar a encontrar a solução mais pacífica possível. Sob esse ponto de vista, para muitos tibetanos, Sua Santidade o Dalai Lama ainda permanece como supremo líder tanto político quanto religioso.

Como achar o equilíbrio entre o consumo e apego aos bens materiais do capitalismo e a espiritualidade?

Isso não diz muito respeito a ter ou não ter bens materiais. O que temos que olhar é o que esses bens materiais vão nos proporcionar. Precisamos ter o equilíbrio para saber do que verdadeiramente precisamos e o excesso que estamos buscando. Precisamos treinar a nossa mente para olhar a veracidade das nossas necessidades. Ao criar um equilíbrio entre o que nós verdadeiramente precisamos e aquilo que nós buscamos, poderemos desenvolver um sentido diferente sobre o que os bens materiais podem nos proporcionar.

Como Sua Santidade vê o papel da mulher no Tibete e aqui no Ocidente?

Se olharmos o Tibete no passado, sim, havia um pequeno número de expressões femininas em qualquer área e principalmente entre professores espirituais. Mas houve uma mudança e já começamos a ver um número crescente de mulheres que têm expressão, não só na área do Budismo como também em outras áreas. Essa mudança acontece talvez não tão rapidamente como em outras partes do mundo, mas um número crescente de mulheres se destaca em diferentes atividades.

Como a filosofia budista pode contribuir para o pensamento científico da modernidade?

Eu entendo que ciência e filosofia budista são coisas distintas, mas obviamente, há uma interface na qual ciência e filosofia podem se unir e desenvolver conhecimento, principalmente quando se olha a natureza do fenômeno. Uma contribuição que o Budismo pode trazer é quando ele sugere que comecemos a fazer uma análise das coisas a partir do exame de nós mesmos. O Buda deixava bem claro que os ensinamentos dele não deveriam ser tomados como verdades até que, ao experienciá-los, o que surgisse de fato estivesse de acordo com o que ele falava. Aquilo que a ciência mostra não deveria ser tomado como fato verdadeiro até que se venha a demonstrar que o que se está dizendo é verdadeiro e bom. Nesse ponto, eu acredito que a filosofia budista e a ciência podem contribuir muito uma com a outra com esse olhar, ou seja, que as coisas sejam tomadas como experiência até serem provadas como positivas.

Qual a impressão que Sua Santidade teve do Brasil? Como podemos desenvolver uma vida mais espiritual, praticar o Budismo, em meio a todo esse complexo cultural – muito trabalho, consumo e entretenimento – em que vivemos?

Essa é a minha primeira visita a essa parte do mundo e eu vejo o Brasil como um país muito bonito, com pessoas muito amigáveis, amorosas e receptivas e vejo que as pessoas têm demonstrado uma vontade muito grande de praticar, estudar o Darma e colocar o Darma em sua atividade diária, isso é um aspecto muito positivo que me fez feliz nessa visita ao Brasil.

Qual seria o ensinamento mais eficaz para evitar o medo da morte?

A morte assusta a todos e é inevitável, ninguém pode mudar isso. Todos sabemos que cedo ou tarde vamos ter essa experiência; então, o melhor a fazer é nos prepararmos para isso. Enquanto somos jovens ou mesmo se somos mais velhos – não importa. A melhor forma de nos prepararmos é olhar essa realidade de frente e saber que ela vai ocorrer; e quando olhamos para isso, que possamos aprender que algumas coisas são essenciais em nossa vida como o desenvolvimento da bondade amorosa e da compaixão. Se nesse momento em que gozamos de saúde e lucidez, aprendermos a cultivar essas qualidades básicas e agirmos de acordo com elas, isso fará com que nosso momento da morte seja muito mais tranquilo.

Como Sua Santidade consegue ter essa serenidade no olhar?

Acredito e pratico aquilo que eu aprendi com meus professores; eles me transmitiram muitos ensinamentos preciosos, eu os pratico todos os dias e em todas as atividades que eu desenvolvo. Rezo e aspiro a que vocês consigam alcançar os seus objetivos de uma vida plena e feliz e que todas as suas aspirações possam se realizar.

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A revista Bodisatva foi criada na primavera de 1990 e parou de ser publicada em 1998. Em 2007, voltou a ser editada devido a uma nova fase do Budismo no Brasil, na qual se torna prioritário responder aos desafios culturais e sociais contemporâneos. O conteúdo continua oferecendo um olhar budista para todas as áreas da vida, da economia à ecologia, das artes à psicologia, dos relacionamentos amorosos aos corporativos. | Leia outros posts de


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