“Nós precisamos aprender sobre nossas emoções”

Em Dharamsala, S.S. Dalai Lama reforça a importância do diálogo e diz que, na sua visão, as pessoas estão se tornando mais sábias

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Revisão: Ieda Estergilda

Nos dias 1, 2 e 5 de março de 2018, McleodGanj, sede do governo tibetano em exílio e morada de S.S. Dalai Lama, se ergueu mais cedo e amanheceu alegre. Milhares de pessoas provenientes dos cinco continentes se reuniram no Monastério de Namgyal em Dharamsala, Índia, com o intuito de compartilhar a presença inspiradora de Sua Santidade.

As bandeiras das cinco sabedorias podiam ser vistas por todos os cantos: dentro dos carros, estendidas entre as árvores, habitando a varanda de casas e hotéis. Os ventos frios do inverno sopravam as aspirações aquecidas das centenas de pessoas que se reuniram para conectar o coração e o olhar na direção apontada por Sua Santidade.

Em meio a uma pequena multidão que desejava vê-lo de perto, tocá-lo e receber suas bênçãos, podíamos perceber o semblante compassivo de Sua Santidade se irradiando como o Sol em direção a todos e todas de maneira equânime.

Um encontro fora da agenda

O encontro que aconteceu neste dia 5 de março entre o Dalai Lama e estrangeiros não estava previsto em seu calendário oficial. No dia 1º de março centenas de monjas de diferentes monastérios da região dos Himalaias oferecerem uma cerimônia de longa vida ao Dalai Lama em uma ritualização conduzida eminentemente por elas. No dia 2 de março, Sua Santidade concedeu um ensinamento público a partir do texto In Praise of Dependent Origination, de JeTsongkhapa, e abordou brevemente os Contos Jataka, mencionando os ensinamentos de Shakyamuni a respeito de suas vidas anteriores enquanto um bodisatva a caminho da budeidade.

Por ter notado a grande quantidade de estrangeiros presentes nesses dois dias de ritos e ensinamentos, Sua Santidade se disponibilizou, de modo comovente, a encontrar com os estrangeiros e falar sobre um de seus temas favoritos: ética secular.

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Entre passos desapressados, fotos coletivas e inúmeros cumprimentos, Sua Santidade dirigiu-se finalmente ao assento que lhe era destinado e proferiu uma fala curta antes de abrir o microfone para perguntas. De saída, afirmou considerar que seu compromisso número um é tentar promover um senso de consciência entre sete bilhões de seres humanos de que nós somos todos iguais, mentalmente, emocionalmente e fisicamente.

Sua Santidade pontuou ainda que, como um simples monge que faz parte dos sete bilhões de seres humanos que convivem no planeta Terra, compreende que nosso dever é perceber que todos têm igualmente o direito de alcançar uma vida feliz e que percebe claramente que cada indivíduo necessariamente depende do resto da comunidade:
Nós todos formamos apenas uma única comunidade: a economia global não tem fronteiras, o aquecimento global não tem fronteiras ou nacionalidades e o crescimento populacional está em crise…

Sua Santidade compartilhou em seguida a memória de quando ele pela primeira vez foi para a Índia como refugiado, contando que, àquela época, havia cerca de 6 bilhões de pessoas no mundo e que hoje já somos em torno de 7 bilhões. Pontuou que há uma estimativa de que até o final do século 21 seremos cerca de 10 bilhões de seres humanos conviventes e que isso acarretará implicações e limitações, incluindo desafios referentes à distribuição de água:
Precisamos pensar em todos os seres humanos e não dizer “minha nação”. Agora vem o tempo em que temos que pensar em 7 bilhões de pessoas… Assim nos tornamos mais sábios e compassivos…

S.S. Dalai Lama com o primeiro ministro da India Jawaharlal Nehru em 1959 em Mussoorie, Índia. (Foto de: cnn.com)

O século do diálogo

Gentilmente, o Dalai Lama se propôs a sair do modo palestra para interagir com seus ouvintes a partir de um formato de perguntas e respostas. A primeira pergunta foi sobre o que ele pensa a respeito do futuro da humanidade.

Ao que Sua Santidade respondeu longamente, comparando suas visões sobre a primeira e a segunda metade do século 20 e como ele enxerga o século 21:
Eu sinto que há alguma razão para estarmos esperançosos. Os eventos estão mudando desde o início do século 20. Na primeira parte do século 20, eu acho que as pessoas estavam pensando muito sobre seus interesses nacionais. E por isso se concentravam em usar a força, a guerra.

E então, na última parte do século 20 as coisas mudaram. Primeiramente, realmente admiro o início da União Europeia. As principais nações que criaram esforços para fazer a União Europeia foram a Alemanha e a França.No tempo da guerra eram arqui-inimigos, mas depois da Segunda Guerra Mundial temos uma nova realidade. Agora está melhor. Eles criaram união. Eu penso que na primeira parte do século 20 isso pareceria impossível… Em cada olho francês um alemão era inimigo e, similarmente, em cada olho alemão um francês era inimigo. Esse tipo de atitude mudou completamente!Então, agora, a União Europeia se desenvolveu. Assim também, após a Segunda Guerra Mundial, houve uns anos de Guerra Fria. Cada bloco preparado para usar armas e agora, esta situação se foi completamente.

O principal fator para desaparecer esse corpo de guerra não foi a força, mas o desejo de movimento. Estes são, eu sinto, indicações de que os seres humanos estão se tornando mais mútuos. Agora, eu penso, o desejo por paz está aumentando. Na primeira parte do século 20, ninguém falava em paz ou coexistência. Agora, no final do século, falar em paz, em paz mundial, tornou-se comum.

E diferentes filosofias, diferentes sistemas de pensamento conceituam a coexistência. Hoje eu penso que as pessoas falam também mais sobre a importância do meio ambiente. Não somente para os seres humanos, mas em relação a tomar conta do meio ambiente de modo geral. Por tudo isso considero que os seres humanos estão se tornando mais mútuos.

A paz é a base da felicidade. Guerra é destruição, é sofrimento. Eu penso que as pessoas estão se tornando mais razoáveis, mais sábias. Esta é a minha visão!

No começo do século 21, nós fazemos tentativas – e não de rezar, mas de agir!
Eu usualmente digo que este século, o século 21, deveria ser o século do diálogo. Quando nós encontramos diferentes interesses, potencialmente causadores de violência, nós devemos tentar resolver isso com diálogo.

Penso que a esperança principal, como os cientistas agora dizem, é que a base da natureza humana é compassiva. Eles dizem também que quando as pessoas estão constantemente sentindo raiva, ódio, esse estado afeta seu sistema imunológico. Isso inclui a mim mesmo, acho que todos aqui já tivemos experiência de raiva, é ou não é?! Acho que ninguém aqui teve a experiência de acordar e pensar “Ah, hoje realmente me sinto muito feliz porque meu time perdeu! É ou não é?
[Todos riem com sua Santidade]

De acordo com nossa própria experiência vemos que a raiva e o ódio são fonte de infelicidade. Então, como eu mencionei anteriormente, de acordo com os cientistas, a base da natureza humana é compassiva.

Mas o problema, eu sinto, é que hoje a educação moderna é muito orientada para valores materiais. Não presta muito atenção nos valores internos, como compaixão, perdão, tolerância. As tradições materialistas tocam nesses assuntos, mas as pessoas consideram que estas são questões religiosas.

Eu sinto que em nossa educação cuidados físicos são abordados, como tomar conta de nosso corpo, incluindo exercícios, algumas vezes práticas de yoga para cuidar do conforto físico. Agora, de modo similar, nós precisamos aprender sobre nossas emoções, não como questão religiosa, mas para produzir uma mente feliz. Uma mente pacífica. Um corpo saudável cheio de raiva não é útil!

Então, a educação deve ensinar a como lidar de modo hábil com as emoções para termos uma mente feliz. Eu penso que a educação é muito importante.

Ou seja, sobre o futuro da humanidade eu me sinto muito otimista. E faço alguns esforços para compartilhar com 7 bilhões de pessoas o desenvolvimento destes valores internos. Cada um de vocês pode fazer pequenas contribuições. Você pode compartilhar estes valores profundos com outras dez pessoas e cada uma dessas dez compartilhará também, então já são cem pessoas, e as cem pessoas se transformam em mil, estas em dez mim, em cem mil. Este é o modo em que se produz mudança.

Em dado momento de sua fala, Sua Santidade explicou o porquê daquele encontro fora da agenda com os estrangeiros. De maneira comovente – também cheia de humor -, disse aos presentes que, com o avançar da idade, cada vez mais os voos longos da Índia para a Europa e da Europa para a América têm se tornado difíceis para ele:
Portanto, uma vez que as pessoas destes países distantes vêm para cá, é meu dever encontrar com elas, dizer olá. Esta é a principal razão de eu encontrar com vocês aqui.E também, para tirar fotos… Quero mostrar o meu sorriso!
[Todos riram do bom humor de Sua Santidade…]

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3 Comentários

  1. Leila disse:

    Ele é um ser extraordinário. O bom humor dele e contagiante. Vida longa para o querido Dalai Lama.

  2. Marcos Anderson disse:

    … Jaya, Dalai! As eternas reverências deste ser senciente…

  3. Vera Lucia disse:

    Seria tão bom se soubéssemos agir pelo menos um pouquinho como Sua Santidade!!!

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