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O papel da energia e da mente na saúde

O que nos ensinam as medicinas orientais

Por
Revisão: Bruna Crespo

Antes mesmo de o homem ser homem, talvez desde que o mundo é mundo, os seres tentam encontrar formas de apaziguar o padecimento do corpo. Até um animalzinho doente fuça o mato para encontrar aquela ervinha cujo cheiro lhe parece que fará bem. E, a bem da verdade, quando se trata de adoecer, podemos ser acometidos de unha encravada a infarto fulminante: as possibilidades são tão diversas quanto a amplitude da mente que constrói o adoecimento.

E o mesmo se dá com a cura. Por um lado, mesmo os mais caros medicamentos de última geração e as cirurgias ultra precisas, por mais eficazes que sejam, são incapazes de garantir a cura para todos os indivíduos que compartilhem um mesmo diagnóstico. Por outro lado, a cura segue se manifestando nos casos mais improváveis, por mais incompreensível que possa parecer aos olhos da ciência, que não tem outra escolha senão afirmar: Milagre! Ou ainda: Magia! E assim, por operarem curas insondáveis pela mente causal, muitas bruxas foram queimadas e muitos santos canonizados ao longo da história.

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Foto: Edwin Lee

Mas o que é saúde mesmo?

O próprio conceito de saúde é algo bastante flexível. Para a medicina ocidental, há saúde quando não existem lesões estruturais verificáveis — e por que não dizer “visíveis”, mesmo que microscopicamente. Essa visão foi eleita a mais confiável referência para aferir a veracidade da doença: se não há lesão visível, “não existe” doença. Neste caso, o mal estar é relegado ao plano do psicológico, do irreal, do inventado.

Outras medicinas vão entender a saúde como a harmonia em um nível mais sutil. As medicinas orientais percebem o adoecimento surgir no plano da força vital, que todos os povos de lá conhecem bem: os chineses chamam de Qi, os japoneses de Ki, os indianos de Prana, os tibetanos de Lung. Os médicos ocidentais desconhecem-na, uma vez que não se pode vê-la.

Buscando uma definição que contemplasse tais diferenças culturais, a própria Organização Mundial de Saúde aprimorou o conceito, definindo saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não somente ausência de afeções e enfermidades”.

Visões de saúde revelam visões de mundo

Todos os saberes médicos se desenvolveram com base em uma dada cultura, em uma forma específica de ver o mundo. A medicina ocidental contemporânea se emancipou da igreja e se desenvolveu utilizando as regras do método científico moderno proposto por Descartes. Isso lhe conferiu um caráter biológico centrado na estrutura do corpo e mecanicista, que compreende o corpo como uma máquina cujas partes podem ser separadas, manipuladas e substituídas. Tal caráter favoreceu um minucioso processo de especialização. A seguir, Darwin observou a evolução das espécies e introduziu o determinismo genético. Então, passamos a reconhecer: se meu pai ou minha mãe tiveram, minhas chances de ter também são grandes. Se, além deles, meus avós e tios também tiveram, minhas chances de não ter são bem pequenas…

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Enquanto isso, as medicinas do Oriente se mantiveram fortemente ligadas às filosofias fundantes de suas culturas. Os Vedas são a base da medicina ayurvédica, enquanto budismo, taoísmo e confucionismo embasam a medicina chinesa. A medicina tibetana, devido às fronteiras com Índia e China, sofreu forte influência de ambas e aprofundou ainda mais a vertente espiritual do adoecimento.

 

O taoísmo, por exemplo, forneceu à medicina chinesa uma forte compreensão das relações do ser humano com a natureza, contemplando como os ciclos de dia e noite interferem no repouso e na atividade ou como os ciclos sazonais e os fatores climáticos — vento, frio, calor, umidade e secura — influenciam nos quadros clínicos ao longo do ano. Confúcio introduziu na medicina a perspectiva relacional, favorecendo as sociabilidades básicas, as relações harmoniosas entre as pessoas e o respeito aos demais. Enquanto isso, o budismo trouxe o reconhecimento das emoções perturbadoras como a origem do sofrimento que se inicia na mente, interfere na energia e termina por se manifestar no corpo.

Desequilíbrios sutis, respostas grosseiras

Perceber o desequilíbrio do organismo ainda em seus estágios sutis mais iniciais confere às medicinas orientais um caráter altamente preventivo, posto que é possível atuar antes mesmo que os sintomas físicos se manifestem. Na China há um ditado: “se você adoecer, mude de médico”.

As medicinas do Oriente são também bastante emancipatórias: permitem que o doente deixe de ser paciente e se torne protagonista de seu processo de cura a partir do autoconhecimento. A medicina chinesa, por exemplo, baseia seus diagnósticos em uma compreensão profunda sobre como as emoções afetam cada órgão interno, cada órgão dos sentidos, cada tecido, cada função orgânica.

A tristeza, luto ou pesar (e por que não dizer a carência?) afetam os pulmões, diminuindo consideravelmente a energia do corpo. O peito se fecha, a respiração encurta, o corpo se curva e a imunidade cai. Surge a depressão, um rótulo que, por vezes, em nossa visão ocidental apressada, se cola rapidamente na testa sem que se permita olhar para dentro, inspirando e expirando. A habilidade do pulmão é deixar ir o que já não cabe mais, abrindo espaço para o novo, respeitando os ciclos da vida e a impermanência.

A preocupação, ancorada em desejo e apego, atiça a fome e afeta o estômago, que chega a queimar, ao mesmo tempo em que nos lança para um momento futuro desconectando-nos do presente, o que acaba por desgastar-nos, enfraquecendo a musculatura e o sangue. Daí um cansaço constante, que piora após o almoço e vem acompanhado daquela imensa vontade de comer doce — porque cada órgão também está ligado a um sabor.

O medo é um frio que percorre a espinha. Pode dar aquela dor lombar ou atacar o ciático. É o que acontece quando nos sentimos sem chão e nossas raízes estão ameaçadas. Com o tempo, os ossos também podem ficar fracos. Afeta os rins, e se vier com força, podemos até perder o controle dos esfíncteres — musculatura das estruturas que os chineses chamam de “orifícios inferiores”. Mas também tem um medo mais quente, como o ciúme e as manias de perseguição, que podem esquentar a urina e gerar infecções.

O fígado se arvora com a raiva ou suas nuances, tais como a irritação e a impaciência. A raiva é uma emoção quente, e quanto mais quente e explosiva ela for (ódio e ira), mais ela esquenta nosso corpo e nosso sangue. Surgem coceiras aqui e ali. A raiva sobe, e com ela nossas taxas de pressão. A cabeça fica quente e dói, pulsando, isso se não estourar um vaso sanguíneo. O fígado também está no comando dos olhos, e por isso a irritação deixa os olhos vermelhos. Podemos ficar cegos de raiva, perdendo a amplitude do olhar e enxergando apenas o alvo, no centro, prontos a atacar.

Ela ainda pode se misturar com a tristeza, gerar culpa (raiva de si mesmo) e mágoa (raiva de quem consideramos e não nos retribuiu), afetando fígado e pulmões ao mesmo tempo. Outro aspecto interessante é que o fígado está atrelado aos nossos desejos, ao que nos impulsiona. Ele, juntamente com sua parceira, a vesícula biliar, vão nos dar coragem para tomar atitudes em direção ao que queremos realizar. Mas se nos sentimos incapazes, surge a frustração. A energia fica bloqueada e não circula adequadamente, causando obstruções e dor por todo o corpo (nó na garganta, angina, prisão de ventre, cólica e principalmente, dor e rigidez da musculatura e das articulações), o que também acontece quando não expressamos nossa raiva. Mas a raiva pode cessar sob o efeito da compaixão, a emoção positiva do fígado, que nos torna capazes de enxergar pelos olhos do outro e, assim, compreendê-lo, quem sabe até ajudá-lo.

O coração é diretamente afetado pela euforia, uma alegria artificial e excessiva, obtida por constantes estímulos externos. Seu desequilíbrio manifesta-se na língua e a pessoa dana-se a falar, desembestada. É no coração que mora o que os chineses chamam de Espírito Supremo (Shen), mas que a gente pode chamar de EU, para simplificar. Se este EU é forte e autocentrado, bate no peito para dizer orgulhosamente “EU sou isso, EU sou aquilo”. E como é o EU que gosta ou não gosta das coisas, ele aparece no brilho do olho, sempre que nos conectamos com algo externo. O excesso desse brilho gera apego e ansiedade.

A falta dele também é chamada depressão — aqui, menos triste que a do pulmão, tendendo à apatia. Quando me perco do EU, surge baixa assertividade, incoerências e até transtornos psiquiátricos. Mas esse Espírito Supremo também é capaz de manifestar lucidez, deixando de se perceber separado do outro e se conectando com tudo e com todos a nossa volta. Passamos a nos alegrar não apenas com nossa própria alegria, mas com a alegria do outro. Com o tempo, isso nos torna capazes de gerar benefícios a todos os seres que se aproximam. Aí, o brilho do olho fica autônomo. Brota alegria genuína e constante.

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Medicina para não precisar de médico

Quiçá esta breve explanação possa ajudá-lo a ter uma pista de onde se origina aquele seu ponto fraco que, vira e mexe, aflora. Ou aquela mazela que você chama de sua há muitos anos, e aqui no nordeste é chamada popularmente de “sara, morreu” — quando uma ferida está aberta há tanto tempo que não se pretende mais a cura: só vai te deixar no fim da vida (isso se não seguir contigo até a próxima…).

O fato é que todas as medicinas, tanto as de cá quanto as de lá, são bastante complexas e, quando precisarmos de ajuda, devemos mesmo ir buscá-las. Ao longo de milênios, estudiosos se dedicaram a compilar saberes para executar procedimentos terapêuticos com maestria. A formação médica no Tibet se deu em 10 anos de treinamento e tomou mais algumas décadas de dedicação do praticante até amadurecer.

Cada medicina possui uma visão morfológica própria, por vezes bastante distintas da ênfase anatômica dos ocidentais. Estão mais interessados nos canais por onde o Qi circula e em mapear os pontos capazes de interferir neste circuito. Alguns dos pontos de acupuntura coincidem com o que os indianos chamam de Chakras, regiões potentes de concentração de Prana. Também entendem o funcionamento do organismo de maneiras distintas e possuem métodos próprios de diagnóstico, identificando padrões de desequilíbrio energético sob os quais irão propor ações terapêuticas específicas.

As plantas, por exemplo, são utilizadas não apenas por seus princípios ativos, mas por sua ação sobre a energia vital — subir, descer, entrar, sair, aquecer, amornar, refrescar, esfriar, mover e assim por diante. Foram desenvolvidas técnicas de massagens curativas, que organizam o corpo e interferem no estado mental. Existem hospitais inteiros dedicados à massoterapia, inclusive com alas para internação e cuidados intensivos. A acupuntura, apesar das desconfianças dos primeiros momentos, continua surpreendendo e vencendo preconceitos com seus resultados fantásticos: recebeu da UNESCO, em 2010, o título de Patrimônio da Humanidade, além de a Organização Mundial de Saúde ter reconhecido sua eficácia há algumas décadas.

Mas, como o povo não é besta, lá onde o sol se esconde eles nem querem precisar de cuidados. Por isso, buscam se manter saudáveis. Daí que trocam a ida à farmácia por uma boa feira, rica em cereais, verduras, legumes e raízes. Além disso, para eles envelhecer bem é manter-se flexível: adotam práticas corporais, tais como Tai Chi Chuan, Qi Gong e Yoga, que trabalham não só o corpo, mas principalmente a energia e a mente. Tais práticas são consideradas meditação em movimento, capazes de alinhar céu, homem e terra.

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Foto: Edwin Lee

Mas não nos esqueçamos dos poderosos recursos da medicina ocidental e da alegria que é poder contar com seus incríveis avanços quando a porca já torceu o rabo. Nos dias atuais, a lógica da produtividade em saúde mercantiliza o sofrimento e massacra tanto pacientes quanto profissionais. Quanto mais doente está a população, mais a indústria farmacêutica lucra. Mas em sua origem, todos os saberes médicos surgem de uma qualidade inata do ser humano: um imenso desejo de cuidar, de diminuir o sofrimento do outro.

Se adoecemos, sejam as medicinas orientais ou a ocidental que escolhemos como tratamento, o importante mesmo é que precisamos conversar com nossa doença. Buscar entender como ela brota e como estão nossas emoções quando aquele sintoma chega. Mesmo que elas se escondam, sorrateiras, cavuque. Tem hora que não queremos olhar dentro, parece que vai doer ainda mais e achamos melhor deixar doer só no corpo mesmo. Mas vale a pena. Há que se almejar a cura das marcas deixadas por vivências dolorosas que, sem serem descortinadas, seguirão conosco por anos a fio. Tá certo, podemos precisar chorar um bocado, mas vamos compreender, e é só assim que se cura um adoecimento em sua base.

De um jeito ou de outro, vai passar. Se compreendermos que o corpo é mesmo perecível e tanto a decrepitude quanto a morte são mesmo inevitáveis, percebemos que a verdadeira cura transcende o corpo. É a cura dos condicionamentos da mente. É possível estar livre deles. Em verdade, já estamos.


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