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O que significa Felicidade Interna Bruta (FIB)? (1)

por 2/12/2012 1 comentário

Primeira parte do discurso proferido por Jigme Y. Thiney, o então Exmo Ministro da Habitação e Assuntos Culturais do  Butão (atual primeiro-ministro) na 2ª Conferência Internacional sobre FIB, Canadá 21.06.2005. Desde 2008,  Jigme Thiney é o primeiro- ministro do Butão.

Saiba mais sobre o FIB no Blog Bodisatva.

Introdução

Felicidade Interna Bruta, como filosofia que guia o processo de desenvolvimento do Butão, foi pronunciada por Sua Majestade Rei Jigme Singye Wangchuck, logo após sua coroação, em 1972. Durante décadas, muitas conferencias e discursos levaram à um contínuo refinamento e desenvolvimento desse conceito, bem como de sua prática. Nosso Rei foi claro ao afirmar que a felicidade é o desejo final , mas não necessariamente seguido por cada butanês, na verdade, tão pouco por todo ser humano. Todas as outras coisas pelas as quais lutamos são meios para cumprir esse desejo. Ainda assim, é irônico que a sociedade seja suscetível em confundir entre esse simples objetivo e a sua complexidade. Isto explica porque o desenvolvimento convencional ou o paradigma do crescimento da economia é seriamente falho. É animador observar que entre o final do ultimo século e o começo do novo milênio, os processos de reflexão e análise no âmbito das sociedades estão reconhecendo a necessidade da busca por uma proposta clara e mais racional para o desenvolvimento. Existe um crescente nível de insatisfação em relação ao caminho que vem impulsionando a sociedade, pelas forças de suas ações, sem uma clara e significativa direção, pela força de suas próprias ações. É também notório que o processo de desenvolvimento convencional e o estilo de vida contemporâneo não são sustentáveis. Nós vemos o FIB oferecendo uma aproximação mais racional e humana ao desenvolvimento:

1º, o FIB se suporta nas necessidades holísticas humanas individuais – bem estar físico e mental. Enquanto os indicadores de desenvolvimento contribuem inegavelmente para fortalecer o bem estar físico, o estado da mente mais importante do que o corpo, não é condicionado somente por circunstâncias materiais .

2º, o qual é consequência do primeiro ponto, é que o FIB procura promover uma consciência , uma busca interior para a felicidade e habilidades necessárias as quais devem estar em harmonia com gestões benéficas e o desenvolvimento de circunstâncias exteriores.

3º, o FIB reconhece que a felicidade não deve ser interpretada ou vista como bem competitivo a ser atingido pelo individuo. Isso respalda a noção de que a busca e realização da felicidade dentro do contexto do bem maior da sociedade oferecem maior possibilidade de felicidade sustentável do indivíduo. Além disso, ao reconhecer que a felicidade não pode ser considerada como um bem ou um serviço, insisto sobre a importância de que seja respeitada como uma responsabilidade puramente individual, sem que o Estado tenha um papel direto. Deve ser enfatizado que a sociedade como um todo não pode obter a felicidade se os indivíduos competirem irresponsavelmente por ela, a todo custo. Sua Majestade acredita que a legitimidade de um governo deve ser estabelecida com base em seu comprometimento de criar e facilitar o desenvolvimento das condições que viabilizem as metas dos cidadãos na busca de seu objetivo mais importante e o propósito da vida. Para este fim, o FIB enfatiza a felicidade coletiva como uma meta a ser diretamente perseguida através de políticas públicas nas quais a felicidade se torna um critério explícito no desenvolvimento de projetos e programas.

4º, como a felicidade é de interesse comum do eleitorado individual e coletivo e transcende valores ideológicos ou controvertidos, as políticas públicas baseadas no FIB, são muito menos arbitrárias do que as baseadas nos instrumentos do padrão econômico.

Predisposições sócio culturais para o FIB 

A política tradicional do Butão, alicerçada na cultura Budista, sempre foi direcionada ao FIB. O equivalente budista ao “Contrato Social”, declarado no Butão em 1675, estabelece que a felicidade de todos os seres sencientes e os ensinamentos de Buda são mutuamente dependentes. A Legislação de 1729 visa que as leis devem promover a felicidade de seres sencientes. Como é conhecido popularmente , muito do que podemos chamar de Budista, ciência da mente, é sobre gerir sentimentos e emoções. Assim, uma grande parte do conhecimento cultural e educacional na sociedade tradicional visou condicionar a mente para dar ou causar felicidade para todos os seres. Iluminar o interior ou a natureza humana torna-se uma tarefa consideravelmente maior do que dominar a natureza e manipular o mundo para ganhos pessoais ou mesmo nacionais.

Isso ajuda a explicar porque o butanês deve, em geral, ter a predisposição para uma meta de desenvolvimento mais holístico e não convencional que reconheça a felicidade como o principal e talvez o único objetivo de desenvolvimento.

Contexto internacional 

Em geral, modelos para países desenvolvidos e em desenvolvimento não incluem, claramente, a felicidade como um objetivo final e medidas contemporâneas de progresso normalmente não costumam abordar a felicidade. É assumido que a felicidade é o resultado colateral das políticas sócio econômicas. Isso não deve sugerir que devemos rejeitar todas as abordagens completamente atuais e seus parâmetros. De fato, os objetivos do Desenvolvimento Humano, Desenvolvimento Sustentável e as metas de Desenvolvimento do Milênio são nobres e apoiadas por indicadores bem concebidos. Da mesma forma , o Índice de Progresso Genuíno , pioneiro aqui na Nova Escócia, é uma notável medida do verdadeiro avanço humano. Igualmente, existem outras instituições e indivíduos, na America do Norte e na Europa, que estão desenvolvendo um trabalho semelhante. Contudo, precisamos estar cientes da possibilidade de que metodologias variadas e cenários resultantes possam ser diferentes dos objetivos do FIB.

O que o FIB procura é uma abordagem holística e abrangente para o desenvolvimento. O FIB contempla as políticas publicas proativas, programas de intervenção e o comprometimento dos recursos necessários. Mas nós podemos concordar que esses diversos esforços e convergências dos interesses podem e devem contribuir para o desenvolvimento da felicidade como um estado grave de responsabilidade e que não deve ser rejeitada convenientemente como utopia ou ideologia.

É gratificante notar que os meios de comunicação, e acadêmicos, especialistas em desenvolvimento e sociólogos tem igualmente mostrado crescente interesse no tema da felicidade, nos últimos anos. O desejo e a viabilidade da felicidade como um objetivo essencial e como meta da sociedade tem sido ressaltada com resultados empíricos e um aumento nas pesquisas. Certamente, isto são reflexos das crescentes preocupações populares e interesses da sociedade – esta sociedade não está satisfeita com o nosso estilo de vida insustentável, insatisfatório e infeliz com os sinais ameaçadores de nosso futuro coletivo. Isto deve ajudar a gerar mais compreensão , conhecimento e sabedoria, através de atividades dignas como aquelas nas quais estamos presentemente envolvidos. Estou certo que o interesse público no assunto não é uma tendência passageira e que a aceitação pública do poder e razões fortes, servirão para impulsionar um aprofundamento da pesquisa e da política de intervenção.

1. Uma das primeira boas justificativas, corroboradas por estatísticas incontestáveis, é que o múltiplo crescimento da renda real em vários países altamente industrializados nos últimos 50 anos não levou a incrementos iguais de felicidade. Resta, evidente, que as vitórias na exaustiva rotina para ganhar mais dinheiro, ter mais e consumir mais, não trazem a verdadeira e duradoura felicidade. O rico, o poderoso e o glamouroso, ao que parece, são frequentemente os que são mais empobrecidos espiritualmente e socialmente e portanto, menos felizes. Embora exista espaço considerável para melhorias para “o que” e “como medir a riqueza e a felicidade”, a falta de qualquer correlação entre os dois, após satisfazer as necessidades básicas, indica claramente que a felicidade não pode ser encontrada no caminho, sem rumo, sem fim, alimentada pela ganância insaciável do homem.

2. Isto me leva à segunda razão – a ilusão da felicidade mercadológica, ou seja “orientada pelo mercado”. O mercado exige grande eficiência e alta produtividade. Exige maximização do lucro, demanda impiedosa de competição, e se utiliza do engodo como meio. Mas estas são as causas básicas que servem para desumanizar a sociedade e minar os fatores que criam a felicidade. Como foi bem documentado, trabalho exigente e pesado que são necessários para a eficiência e a produtividade, é difícil de ser balanceado com prazer e vida social que nos traz satisfação. Além disso, mobilidade e mudanças de emprego impostas pelo mercado são inconsistentes com a necessidade vital para o sustento de vida comunitária assim como a segurança emocional é diminuída pela economia de mercado. E vale a pena repetir que, alijando os fracos, tornando o lucro o motivo central da indústria e capitalizando os instintos mais básicos da inveja e da ganância não constituem os ingredientes para uma sociedade harmônica.

3. Relacionado com mudanças de mobilidade e localização como ditadas por nossas vidas profissionais, é nossa tarefa , ao mesmo tempo, ficarmos conectados através dos melhores meios virtuais e reais. Uma outra preocupação vem da realidade de que as pessoas estão vivendo cada vez mais distantes, apesar de estarem sempre conectadas. Nós somente temos que lembrar da quase completa desintegração da estrutura familiar ou redes nas sociedades urbanas ou industrializadas , os altos índices de divórcio, pais solteiros, quebra de confiança e perda da verdadeira amizade que são conhecidos como fatores de infelicidade. Se a educação por pais solteiros é um aspecto crescente da vida moderna, o envelhecimento por si só é também uma perspectiva crescente. É irônico que a longa vida oferecida pela ciência e pela medicina sirva para prolongar as dores da solidão e desolação.

4. A quarta razão é encontrada no aumento de doenças mentais, alcoolismo e crimes relacionados em todas as faixas etárias. Em seguida, há o suicídio , que é um claro sinal de ausência de suporte emocional e psicológico. É um sintoma de falta de qualquer propósito na vida e na perda da esperança da felicidade. Taxas de depressão também são substanciais em várias sociedades e a mais recente estatística americana é alarmante mas reveladora. Minha lista, claro, não é exaustiva. Estes exemplos representam algumas das várias preocupações populares, alvos de destaque nos meios acadêmicos e de comunicação. Tendo em vista os impulsos sócio-culturais internos e as evidências externas, não foi com pouca consideração ou convicção que nós, no Butão, optamos por um processo de desenvolvimento que alguns reconhecem como um novo paradigma.

Tradução:  Gleisy Coimbra 

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Ainda sobre o FIB:

O artista e web designer Jonathan Harris (nascido em 1979) que vive no  Brooklyn, Nova York, desenvolveu o projeto com alguns butaneses chamado The Ballons of Bhutan, Os Balões do Butão, inspirado no FIB. Ele ganhou três Webby Awards e foi homenageado como “Líder Global Young” pelo Fórum Econômico Mundial. Vale a pena conferir o belo trabalho de Jonathan Harris.

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Um comentário »

  • marcia disse:

    Obrigada por compartilhar! abraços Márcia

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