“O Solista”: a felicidade atada ao cavalo

por 19/03/2010 3 comentários

Cena do filme "The Soloist"

Você já deve ter visto uma teia de aranha. E já deve ter esbarrado com uma ou tocado propositadamente em alguma. Já notou que a aranha se ouriça toda quando fazemos isso? É que cada ínfima parte está conectada a todas às outras de maneira indissociável. Não há como tocar aqui e não produzir efeitos lá.

O tema de responsabilidade universal já não é mais um estranho entre nós. Cada um, de uma forma ou de outra, já ouviu essa expressão ou já teve contato com a necessidade (urgente) de tornar consciente (e vivo) o fato de estarmos todos conectados uns aos outros, como em uma teia imbricada.

Nós geramos, internamente, o mundo externo em que vivemos. Em outras palavras, o mundo vai ser cruel se nós construirmos essa crueldade. E vai ser benéfico, se construirmos essa bondade.

E por que construir a bondade? Se pudéssemos ter uma entrevista particular com cada pessoa que vive neste mundo e pudéssemos perguntar a fundo o que vai no seu coração quando ela faz o que faz, ela dirá, sem dúvida, que cada ato seu é movido pelo desejo à felicidade. Muitos não precisarão dessa entrevista, pois já percebem isso, embora nem sempre ajamos de acordo com esse desejo. Outros, porém, são mais resistentes, e demoram a aceitar que seus atos (e os dos outros) têm a felicidade por base.

Então nada mais justo do que construir a bondade, visto que ela nos faz felizes, nos une, nos conecta.

  • Primeiro ponto: estamos todos interconectados.
  • Segundo ponto: todos querem ser felizes.
  • Terceiro ponto: realizando a verdadeira felicidade em mim, perceberei que, de fato, não existe um “mim” porque essa felicidade contaminará a todos no exato instante em que for realizada.

Quando Steve Lopez conheceu Nathaniel Ayers Junior, esses pensamentos estavam em sua mente. Porém, junto com eles, a motivação de vender mais jornal, de ser reconhecido na redação da LA Times e de, quem sabe, ganhar um prêmio pela brilhante e inovadora matéria a respeito do violoncelista sem-teto – o que de fato aconteceu – se misturavam com o desejo puro de simplesmente tornar melhor a vida daquele sujeito.

O filme O Solista é baseado em fatos reais, a partir do livro escrito pelo próprio Steve Lopez.


Trailer de “The Soloist”

A expressão “fatos reais” já poderia gerar um outro link. Afinal, de fato o que é real? Estamos o tempo todo construindo realidades e buscando sustentá-las. Repetimos as fórmulas mentalmente, como se tivéssemos medo de que elas se perdessem e retirassem a única coisa a qual podemos nos agarrar para dizer “Sou isso”.

Nathaniel descobriu muito cedo o seu gosto pela música e, desde então, cada segundo desta sua vida foi dedicado a ela. Ele deixava de comer, isolava-se e até fazia inimigos por conta da sua fixação pela música. Ele via a música como uma entidade externa a qual ele deveria prestar louvor, adoração e simplesmente seguir. Ora, o resultado de tal dedicação é indiscutivelmente belo, harmônico, inebriante, excitante, enche os olhos, os ouvidos, o coração, toca a muitos, deve transformar a muitos com certeza.

Mas será que é de fato feliz? Vamos analisar a situação com mais detalhes.

É através dos ouvidos que Lopez entra em contato com Nathaniel. Bom, não propriamente dos ouvidos. E nem propriamente do som. Poderíamos dizer que foi a sensação agradável de se ouvir uma música agradável em meio a uma praça pública, mas isso também seria incompleto e limitado. Agradável para quem? O que é ser agradável? Essa implicância com as palavras é só para que fiquemos atentos: tudo pressupõe uma discriminação, um certo julgamento. E todo julgamento conduz a outros e outros. Se nos fixamos neles, só aceitamos eles. Se discriminamos com liberdade, aceitamos outras visões.

Vamos ver o exemplo do nosso herói. Lopez está descansando, meio desmotivado com a insensibilidade do público diante das matérias de jornal, sentindo-se pressionado pela empresa a cumprir seu papel de jornalista, ainda se curando das feridas do acidente, enquanto bebe uma Coca-Cola sentado na mureta de uma praça pública, dedicada a Beethoven, já meio abandonada.

Nathaniel Ayers

Surge um som de violino. Quem já ouviu sabe como é belo (observem o julgamento universal), principalmente se bem tocado (hehe). Lopez se levanta e busca a origem do som (mal sabe que está na sua própria mente). O que encontra é um sujeito roto, maltrapilho, negro, algo nada harmonioso com aquele belo som. Esse foi o auge do julgamento preconceituoso, mas acreditem, foi isso que motivou a ação de Lopez. Não só isso, claro, mas preferencialmente.

Os contrastes atraem. O teatro é repleto deles. Um bom diretor com um bom dramaturgo, sustentado por uma boa equipe de atores, consegue imprimir um ritmo constante a um espetáculo através de sucessões de conflitos. Normalmente há um conflito principal, digamos o objetivo maior do protagonista. Ele é entremeado por uma série de conflitos menores, intercalados. Os grandes filmes hollywoodianos são escritos com base nessa matemática. Não se engane: quando você pensa que pode respirar, vem outro conflito, com início, meio e fim, e depois outro, até o derradeiro final. Muitos dramaturgos e cineastas vão trabalhar na contramão desse fluxo justamente para não seguir a regra. No intuito de negá-la, estão a confirmando.

Isso porque nossa mente opera assim.

E justamente porque Lopez já tem esse tato, devido à sua experiência como jornalista, é que, ao ver Nathaniel, aquela figura tão marginal, portando um violino, aquele instrumento tão nobre, percebeu a bizarrice do contraste e pensou: está aí meu sucesso!

É claro que essa é só uma parte da história. Sem dúvida que Lopez, por ser um ser como eu, como você, como seu irmão ou sua cunhada, também tem a potencialidade de ser compassivo. É claro que isso brilhou no seu coração quando viu Nathaniel e que o sustentou durante todo o percurso de contato com o músico. Ele realmente se dedicou ao seu ídolo, esperando-o pacientemente diversas vezes, buscando ouvi-lo, buscando entender seus rompantes e seus sumiços. Buscando inclusive entendê-lo no auge do seu entusiasmo que o fez chamá-lo de Deus e dizer que o amava, ao mesmo tempo que o fez agredi-lo fisicamente.

Porém a nossa motivação nunca é perfeitamente pura. A necessidade de aliviar seu sofrimento diante da pressão do público, da competitividade com a ex-mulher, da chacota dos colegas e da ameaça de desemprego, também foi decisiva na escolha por Nathaniel e sua paixão pela música. E quando somos movidos apenas por esse desejo de aliviar um sofrimento temporário, sem nos darmos conta de seu caráter ilusório, inevitavelmente colhemos sofrimento. A maior prova disso você pode ver ao longo do filme.

Lopez não tem um olhar livre diante da situação.
Nem Nathaniel.

Lopez está buscando um personagem para sua história.
Nathaniel, alguém que ouça a sua barafunda incontrolável de palavras.

Lopez quer mostrar serviço.
Nathaniel quer alguém que o ame.

Lopez tem que pagar as contas.
Nathaniel tem que dar conta de tirar a obra completa de Beethoven no cello.


Os verdadeiros Nathaniel Ayers e Steve Lopez

E quando Lopez está desacreditado do mundo, quando vê sua vida bagunçada pela série de demandas e falta de estabilidade, ele encontra Nathaniel. Nathaniel devolve a ele o desejo de viver. Ensina que é possível perseguir um sonho até o fim porque vale a pena. Porém permanece a dúvida: ele é feliz?

Um sonho tornado concreto, desenhado por um arco de crina de cavalo, quatro cordas, alguns pedaços de madeira, bastante breu, é um sonho para ser sonhado ou para ser fixado?

Quando fixamos determinados aspectos da nossa experiência sensorial e os perseguimos como as únicas verdades possíveis, inevitavelmente caímos em sofrimento. Basta ver a situação de Nathaniel. Ao final do filme, Lopez diz que aprendeu com ele todo esse gosto pela vida, mas há um reconhecimento de que ninguém pode “curar” ninguém. Não há como deter terremotos, do mesmo modo que não há como fixar elementos “agradáveis” a fim de persegui-los como caminho para a felicidade.

Porque a felicidade não se encontra em lugar algum. Ela simplesmente é. Momento a momento.

Se permitirmos que o momento atual morra para deixar nascer o seguinte, então estaremos disponíveis para o frescor da vida e a verdadeira alegria de viver. Independentemente de música, de cor, de paixão, de emprego. Não importa se é Beethoven ou Zeca Pagodinho. Não importa se sei tocar violoncelo ou pedra no lago. Não importa se sou jornalista ou mendigo.

Arrancar um sujeito da condição de pedinte e colocá-lo diante dos holofotes é fazê-lo feliz? Quando ignoro o sistema de teia em que vivemos e resolvo impor minhas regras, algo vai mal. O ponto é: simplesmente permitir a felicidade. Simplesmente deixar ir, como o fluxo fluido da famosa sinfonia de Ludwig…

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José Benetti aspira que todos os seres se livrem das complicações que os tornam menos felizes. Para isso tenta praticar o budismo, mas é preguiçoso, vaidoso e costuma colocar os seus julgamentos diante da sabedoria última. | Leia outros posts de


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3 comentários »

  • Vera Barbosa disse:

    Amigo Benetti,

    Constantemente vem a dúvida: o que é ser bondoso? Como exercer a compaixão? Será que devo dar uma moeda a menina do semáforo? Ou ignorar a aquela mão estendida ou suprir uma necessidade imediata? Será que impor o meu modelo de vida a quem “deseja” esse modelo é a minha missão?

    E como interagir nessa “Teia da Vida” com tantas diferenças aparentes?

    É assim que me encontro como iniciante do budismo. De uma lado o coerente do outro o hábito ocidental.

    Porém, aprecio muitíssimo os textos disponíveis aqui e lhe agradeço por esta reflexão.
    Obrigada e paz.

  • Adriane disse:

    Querido José,
    não sabia que eras um maravilhoso escritor!!!
    Parabéns pelo artigo e obrigada pela reflexão,
    irei assistir este filme tão tocante!!!
    bj
    Adri (ctba)

  • Anizio disse:

    Um dos melhores textos que já li na revista. Para aumentar sua vaidade(risos). Muito obrigado. Seu texto coloriu meu sábado à noite.

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