Poesia e Budismo

A palavra como prática de conectar o próprio coração ao coração de um Buda

Não sei o que é conhecer-me
Não me vejo para dentro
Eu não acredito que eu exista por detrás de mim.

Alberto Caiero


Do caminho
O peixe nem nota a água em redor de seu
Chapéu
Como mostrar-lhe então
Ser ele mesmo o céu?
Fabio Rocha


Algo Maior
A força da flor
Que se abre em cor
Na noite imensa
A força da árvore persistente
Que busca lentamente
A benção do sol
A força natural
Que nos move igual
Quando a direção
É para fora do eu
Fabio Rocha


. Eu já fui alguém que sabia das coisas
. Eu já fui alguém que sabia
. Eu já fui alguém
. Eu já fui
. Eu já
. Eu
.
Duda Teixeira


No que me torno
me restrinjo.
Quando aprendo
me prendo
nisso
e deixo aquilo.
Mas precisar não precisa.
Em vez de rio
e margens rígidas
as correntes marinhas.
O mar no mar.
Duda Teixeira


Quero um fone de ouvido
Que toque o silêncio
Para abafar todas as vozes
Que tocam aqui dentro
Aline Travaglia


O que pode a poesia? Podemos acreditar que simples linhas em uma página podem nos transportar ou nos transformar? O exercício da escrita pode ser um meio de trabalhar nossos afetos e aumentar nossa potência de agir de forma mais benéfica no mundo?

Estas são questões levantadas por nós e endossadas por Ngawang Zangpo que, ao publicar a biografia Guru Rinpoche: sua vida e tempos,consagra um apêndice do livro para comentar a estreita relação entre Budismo e Poesia. O autor afirma que muitos dos textos-raiz do budismo, os discursos e tantras, foram escritos em forma de poesia, o veículo verbal preferido para a transmissão budista de seus ensinamentos e sua experiência.

Afinal, não é difícil para nós concordarmos que, através de pinturas, canções, poesia ou qualquer outra modalidade de arte, conectamo-nos e afluímos nossa mente ainda que temporariamente, suspendendo o fluxo usual de nossos pensamentos e abrindo o coração para outras emoções.

Sabendo desta potência de comoção e contágio que a poesia pode provocar, muitos mestres realizados transmitiram ensinamentos completos de forma rítmica, verbal-poética. Entre os tibetanos, poderíamos citar as Cem mil canções de Milarepa, os 28 versos de Tilopa a Naropa, as Súplicas a Guru Rinpoche em Sete Capítulos (que foram compostas por Padmasambava em resposta ao pedido de 5 discípulos tibetanos próximos), além também de Um guia para o modo de vida do Bodisatva, escrito pelo mestre indiano Shantideva.

Podemos ainda lembrar algo mais contemporâneo a nós, como as poesias do mestre tibetano Chögyam Trungpa Rinpoche que, na década de 70, teceu relações de mestria com o poeta beatnik norte-americano Allen Ginsberg, o qual escreveu muitos poemas que contribuíram para contagiar o Budismo no Ocidente.

Aproveitamos o exemplo de Allen Ginsberg para, além de ressaltar neste texto a dimensão da transmissão de ensinamentos completos através da poesia, mencionar o aspecto de prática cotidiana que a palavra oferece àqueles que ainda trilham o caminho a fim de conectar o próprio coração ao coração de um Buda. Ao longo dos séculos, muitas foram as maneiras pelas quais os praticantes se exercitaram com o intuito de promover e fortalecer tal conexão.

Houve quem se dedicasse à esgrima, à prática do chá, à escultura ou culinária, quem habitasse e meditasse por longos períodos nas florestas ou seguisse tomando o cotidiano como lugar por excelência da transformação espiritual. Vale ressaltar que raramente encontramos tais práticas acontecendo de modo isolado, pelo contrário, surgem no convívio, sendo tecidas também a partir das conexões que cada um estabelece em seu caminho singular. Além disso, a depender das características culturais de cada região onde o Darma floresce, veremos esta ou aquela forma de exercício ganhar maior força e possibilidade de partilha entre os membros da Sanga.

Uma das maneiras bastante difundidas de exercitar-se no caminho consiste nesta prática aparentemente contraditória de tomar a palavra como uma maneira de habitar e sentir a textura do silêncio:

Talhar as letras como um marceneiro habilidoso e paciente ou esgrimir com a palavra tal qual um corajoso espadachim.

Conta-se que a primeira declaração de Chögyam Trungpa Rinpoche ao colocar os pés no novo mundo foi a pergunta: Onde estão os poetas? Ngawang Zangpo afirma que sempre imaginou o interesse de Trungpa em poesia não em função de uma excentricidade pessoal, mas como reflexo de uma preocupação com a adequação de um mestre budista dedicado a se conectar com uma nova cultura.

Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, portanto, o silêncio e a palavra não se opõem; tampouco se excluem. A escrita literária pode ser uma maneira muito hábil de inibir os pensamentos em burburinho e o excesso de passado e futuro que muitas vezes toma a dianteira de nossas ações. Há quem diga que somente quando a escrita serve a este exercício de presença poderá então ser chamada de escrita literária.

Nesta direção, é célebre uma passagem da entrevista concedida por Clarice Lispector ao programa Panorama no ano de 1977. Nesta oportunidade, o jornalista Júlio Lerner fez a seguinte provocação: Qual a função do escritor hoje?! A resposta de Clarice é acompanhada por um profundo suspiro que entoa seu olhar penetrante: o de falar cada vez menos.

Falar cada vez menos…

Podemos contemplar profundamente esta indicação… A que se refere Clarice? Não seria encontrar a região de silêncio que nos habita e fazer contato com o seu frescor?

É o que vemos se delinear também no livro Cartas a um jovem poeta, do escritor alemão Rainer Maria Rilke. Acompanhamos nas correspondências entre o jovem Franz Xavier Kappus e o poeta alemão Rainer Rilke uma busca de pistas para exercitar este “falar menos” através da poesia.

O direcionamento de Rilke em todas as respostas ao jovem poeta se faz no convite à prática de atenção às sutilezas, à abertura de coração e honestidade de propósitos. E sempre lembrando-o que, apesar do deleite fornecido aos sentidos, a arte é apenas uma maneira de viver… Acolher com equanimidade e apreciar a vida e seu desvanecer em toda a sua beleza, parece ser esta a indicação do poeta.


REFERÊNCIAS

PESSOA, Fernando. Alberto Caiero: poemas completos. São Paulo: Nobel, 2008.

RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. 32.ed. Tradução de Paulo Ronái. São Paulo: Editora Globo, 2001.

ROCHA, Fabio. Poesias — Fabio Rocha [blog — internet]. Consultado em 15/04/2017. Disponível em neste link.

TEIXEIRA, Eduardo. Práticas de meditação e cognição inventiva. 2011, 108 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia) — Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

TRAVAGLIA, Aline. Poema da destruição. Vitória: Secult, 2010.

ZANGPO, Ngawang. Guru Rinpoche: his life and times. Snow Lion Publications, 2002. (trad. de Marcelo Nicolodi — Inédito).

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