Histórias da minha prática budista de visão, meditação e ação (1)

No início de janeiro, estive em Viamão, em um dos retiros de verão do nosso querido Lama Samten, e duas coisas me chamaram muito a atenção: a primeira foi em uma noite em que o mestre abriu para perguntas e respostas, e em que, como costuma ocorrer com certa frequência, os assuntos saem um pouco do foco do tema, ou acabam por entrar pela seara da discussão cognitiva, sem gancho aparente na prática.
Após cerca de uma hora e vinte minutos amparados na costumeira paciência e gentileza do mestre, ele disse algo mais ou menos assim: “Podemos ficar aqui mais duas horas nestas conversas, mas 10 minutos de meditação terão efeito muito melhor”!
Quando perdemos o foco ou o gancho na prática, a impaciência, uma forma branda de raiva e medo, se manifesta, e vocês podem imaginar meu alívio com as palavras do mestre. Ao mesmo tempo em que agora procuro não deixar a impaciência tomar conta, vejo também que perder tempo pode ser um problema.
A segunda foi o encorajamento que o Lama nos deu para falarmos de nós e de nossas práticas aos demais, que me pareceu uma coisa muito boa; imagino que isso dependa muito de cada um, pois pode ser difícil abrir nossas vidas, mas para mim é uma forma de tornarmos a sanga mais efetiva, pois quando contamos sobre nós, podemos auxiliar quem nos ouve, principalmente quem está começando, e receber suporte dos praticantes mais experientes, que podem ver as limitações de nossa prática com maior discernimento.
Nesses seis anos em que tenho tido as bênçãos dos ensinamentos, da paciência e da presença do Lama Samten, e me beneficiado do suporte e do carinho da sanga, em especial dos praticantes de São Paulo e de Campinas que têm a disposição de aparecer nas minhas práticas, fico com a certeza de que os milagres existem, pelas mudanças cada dia mais fortes e positivas que estão efetivamente ocorrendo. Nas palavras do Lama, “a lucidez vai enfim se manifestar como uma não aflição, como um destemor”. A cada dia meus medos vão se dissipando mais.
Quando comecei, não conseguia meditar, a começar com a dificuldade de sentar-me no chão, passando pela estabilização de energia e mente, que sempre foram obstáculos significativos devido ao meu déficit de atenção. Hoje não só estou me sentando no chão com mais facilidade, como consigo estabilizar mente e energia com relativo sucesso na prática formal, e vejo com alegria a meditação se ampliando pelas demais horas do dia, ajudando a não ceder a impulsos automatizados danosos. E não tomo mais remédios para o DDA/TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), só nas crises mais agudas, que têm acontecido com intervalos de meses, intervalos crescentes.
Com isso entrei na prática pela ação, procurando cada vez mais não causar danos e gerar benefícios, dando nascimento positivo ao outro, uma vez que a etapa de visão estava também um pouco difícil, pois sempre tive dificuldade com a noção de absoluto, que na minha criação cristã se chama Deus. Quando o Lama falava em Buda Primordial ou natureza ilimitada, eu pensava: “Estou frito. Não vai funcionar!”. Mal sabia eu das boas surpresas à frente, no nosso lindo caminho.
Volto em breve com mais histórias e detalhes! Enquanto isso, deixe um comentário falando de seu próprio percurso também.
Carlos Ernesto de Oliveira é professor e consultor. Procura introduzir o Darma em cada ato da vida, falhando repetidas vezes. Está no CEBB SP às terças e no CEBB Campinas aos sábados alternados. | Leia outros posts de Carlos Ernesto de Oliveira






Carlos, muito bom saber disso.
Aguardo o próximo da série!
O mais difícil tendo DDA é conseguir ter a disciplina para sentar emeditar todo dia. Mas eu chego lá!
Parabéns pelo artigo
Adorei, Carlos! Estamos no mesmo barco, heim: Quando o Lama falava em Buda Primordial ou natureza ilimitada, eu pensava: “Estou frito. Não vai funcionar!”. Me vi completamente nessa frase!:-) E não é que as boas surpresas vem mesmo?!
Parabéns pelo relato.
Sempre encarei a meditação como cansativa, enfadonha e mesmo “chata” em geral… Como nunca estive suficientemente interessado no assunto, a minha quase-motivação pra meditar jamais conseguiu vencer meus impetos de distração.
Que bom saber que isso é possível, mas então como que o amigo efetivamente conseguiu “sentar-a-bunda-e-ficar-quieto” pra meditar, se pra mim quaiquer 2 minutos parado me deixam pra morrer de ansiedade?
[]’s!
Obrigado, Gus, Bruno e Thaís
Transeunte, o processo é simples mas é difícil: é só sentar; eu consegui aos poucos, aumentando o tempo bem devagar; até hoje tenho alguma dificuldade,mas dou dicas; i) a ansiedade está inversamente relacionada com a respiração cadenciada e serena. Ache uma posição confortável e respire, fazendo primeiro algumas respirações forçadas, enchendo o abdomen, o peito e a parte superior dos pulmões; já cheguei a fazer cinqüenta destas, para dar um sossega-leão ii) ao passar a respirar serenamente, agora apenas observando sem forçar, localize fisicamente a ansiedade (a minha é na parte superior do peito), e visualize a inspiração e a expiração nessa região. como se isso estivesse reduzindo-a. Neste momento, v. estará observando sua ansiedade, e por isso há uma probabilidade de reduzir o controle que ela pode ter sobre você iii) caso tenha uma boa conexão com o princípio ativo do prajnaparamita, á medida que inspira e expira, recite o mantra focando a ansiedade. A primeira dica pára o show fisiológico da amídala, o cérebro primitivo;as demais dizem bom dia para a ansiedade, e com isso tiram o medo que temos dela, e ela perde a força. Podemos nos corresponder: ceo.itaguassu@uol.com.br.
Agradeço a partilha… Espero pelas próximas…O compartilhar sem dúvida nos permite encontrar o outro e a jornada partilhada é uma jornada mais prazerosa e efetiva porque o homem se revela na sua relação com o outro. Grata. A sapiência do Lama Santem é sempre inspiradora… que venham os 10 minutos de meditação…
[...] as emoções. Conheça as histórias e insights de um aluno do Lama Padma Samten. fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]
Carlos,
que bom ler o seu texto e ter uma idéia sobre os obstáculos que tiveste e que foram/estão sendo superados.
Olha, no início eu não conseguia ficar cinco minutos parada. O movimento era tanto, que eu irritava até as pessoas do meu lado.
Uma vez o praticante sentado ao meu lado, um amigo querido, colocou a mão no meu joelho e disse com o olhar: que tal ficar parada, hein!? Aí eu disse: não consigo, é muita dor no joelho! Aí ele me ensinou a colocar a parte inferior da perna o mais próximo do chão possível, de modo que os joelhos ficassem bem perto do chão. Esse foi o coringa!
No início todo mundo tem a tendência a sentar como índio, mas essa posição não mantém a coluna ereta.
Enfim, que bom que eu não parava quieta, pois assim incomodei meu colega que me deu a graça daquela explicação, que corrigiu minha postura!
abração, Carlos.
Carlos,
Adorei o seu artigo. Sou praticante ha pouco tempo, cerca de três anos. Também passei pelas mesmas dificuldades no inicio da meditação: Eu tinha muita ansiedade e já tinha tido duas crises de síndrome do pânico quando comecei a meditar. Logo, foi muito difícil estabilizar corpo, energia e mente. Hoje eu consigo a estabilização com certa facilidade, não tive mais crises de pânico.
Através da meditação descortinei muitas ilusões criadas pela minha mente, assim, me tornei mais calmo, tranqüilo, paciente e desapegado. Ainda estou aprendendo e quase sempre observo algum automatismo em mim, o qual trato de entender e eliminar o mais rápido possível.
Eu acredito que a iluminação não é um objetivo que temos que alcançar, nós já somos livres, liberados, podemos escolher a bondade, a calma e mudar o foco dos nossos olhares a qualquer momento. A parte mais difícil é enxergar a nós mesmos de frente, enxergar o ego e admitir que somos o nosso próprio inimigo. Quando passamos a não crer em nós mesmo, no sentido do ego, então estamos olhando pela perspectiva do nirvana. Quando seguimos o ego, seguimos nossos automatismos sem questioná-los, então estamos olhando pela perspectiva do samsara.
Nirvana e samsara são a mesma coisa. Nós temos liberdade de olhar focados em conceitos estreitos ou de não ter foco algum.
Olá Carlos!
Sabe senti um alívio ao ler o seu depoimento sobre meditação,
pois vejo que as minhas dificuldades não são só minhas. Fazem
parte de um processo. Mas, que não é fácil, não é fácil.
Muito obrigado pelo seu depoimento.
Desejo muita Luz e Paz para você
Sandra, Stela, Manoel e Nair
Grande obrigado pelos comentários e pela renovada motivação de escrever que eles geram; Manoel parece um irmão, tal me parece nossa semelhança de prática; lembra-me Trungpa Rinpoche: sem medo e sem esperança, sem elogios e sem culpa; sem apegos e sem aversões; apenas lidar com a vida como ela vem.
Carlos, que inspirador seu depoimento. Deu pra sentir o carinho em cada palavra e o desejo de nos motivar a manter o foco.
Sei que vc. nao aprecia elogios, mas saiba que nós, aqui de Campinas, nos sentimos muito alegres em ter vc. conosco. Estou esperando a continuação.
Abraços/Sonia
Querida Sônia, pode contar com a continuação; na seqüência vou contar como foi a minha forma, vivida, de descobrir a ligação dos ensinamentos de virtude, meditação e sabedoria com o veneno do autocentramento, que é minha maneira preferida de ver o javali. No que respeita à nossa sangha de Campinas, é uma alegria e um aprendizado inestimáveis para mim ter esta oportunidade de conviver e praticar.V. está no meu coração.
Olá, Carlos!
Sou “simpatizante” do Budismo, pois apesar de ter tido a maravilhosa oportunidade de ter tido contato com o mesmo, logo pós adolescencia, tenho “ainda” muita dificuldade para “praticar” o que o que acho que de ser a “verdadeira” meditação.Mas por ser uma pessoa bastante persistente, e só desistir, quando todas as possibilidades esgotam-se, acredito que em algum momento “certo”, conseguirei despertar verdadeiramente.
Oi Carlos,
Que bom descobrir que você está também aqui, com textos tão bons e inspiradores.
Vou ficar de olho nos próximos.
Carinho
Ana
Ana, obrigado!
Aparecida, no início a meditação é voltar a atenção à respiração, ou objeto que escolher, tantas vezes quantas forem necessárias;com isso v. se livra de idéias de perfeição ou de “verdadeira” meditação; escreva-me se precisar de mais dicas: ceo.itaguassu@uol.com.br; boa prática!
Olá Carlos!
Saudações aqui do Arraial Dajuda na Bahia, gostei de seu enfoque com relação a sanga, acho realmente importante todas as experiências vivenciadas dentro desta comunidade maravilhosa que aos poucos vai se formando e se transformando em nossa base para uma melhor capacidade de entender o próximo e podermos nos incerir de modo positivo na sociedade, cada membro é um representante de uma linha de comportamento, quanto mais difíceis mais ricas as experiências com estas pessoas, isto nos torna mais lúcidos para perceber a diversidade, que cada ser sensciente possui seus méritos seus defeitos mas principalmente sua preciosa natureza búdica a ser descoberta e compartilhada.
Olá, Carmem
Uma beleza seus comentários, pois às vezes esqueço que teremos dificuldades com nossos copraticantes, e que eles próprios vão nos ensinar estabilidade. sabedoria e compaixão, se estivermos com o ensinamento claro em nossas mentes. Neste exato momento estou tendo algumas lições valiosas nesse sentido…muito obrigado!
Grande Carlos;
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção…DA SABEDORIA E COMPAIXÃO.
Abração;
Milton
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