Questionando o bem viver

Um olhar sociológico sobre a transição de uma vida de busca pelo sucesso convencional para uma vida simples.


Por
Revisão: Eloise Porto

“Eu devia estar sorrindo e orgulhoso por ter finalmente vencido na vida, mas eu acho tudo isso uma grande piada e um tanto quanto perigosa (…)” (Raul Seixas)

A frase de Raul sintetiza histórias de pessoas que alcançaram o dito “sucesso”, mas perceberam a limitação de uma receita de felicidade pronunciada: emprego, dinheiro, status e família. Os modelos de uma “vida boa”, repetidos para nós como exemplo do que deve ser alcançado, falam sobre médicos, doutores, advogados, engenheiros, artistas com um grande reconhecimento social e renda considerável. Fama, dinheiro, amigos, diversão. Aquilo que faz tudo parecer bonito!

Mas por que então, cada vez mais, sujeitos estudados, empregados, pessoas tipicamente “bem-sucedidas”, negam tudo isso em prol de vidas alternativas? Eu me explico: escolhem viver simples, em comunidades, pequenas cidades, com menos fama, com menos grana e, dizem eles, com um sentido na vida que lhes faz brilhar os olhos. Executivos que viram astrólogos, políticos que viram acupunturistas, médicos alopatas que viram homeopatas, professores universitários que viram viajantes, estudantes que viram hippies, advogados que viram produtores de orgânicos, publicitários que viram meditantes. Uau! Perguntava-me: “O que tem embaixo desse tapete”?

E foi esta pergunta que conduziu minha tese de doutorado em Sociologia na UFRGS. Através dela, pude ouvir relatos de encontros estrondosos, transformadores, chocantes, que inauguram novos capítulos, novas histórias na vida de muitas pessoas. Em termos práticos, a pesquisa acabou tendo 41 entrevistas, realizadas em três comunidades alternativas do Rio Grande do Sul – Centro de Estudos Budista Bodisatva, Arca Verde e Sol Nascente (nome fantasia), e uma cidade alternativa em Goiás – Alto Paraíso.

Ilustradora: Elia Colombo

O começo de tudo: questionando o bem viver

As histórias que quero lhes contar são fruto desse trabalho e falam de pessoas que largaram empregos, mas não só isso: largaram um ideal, largaram práticas, largaram condutas incrustadas e colocaram em xeque os esforços e as rezas dos pais.  Histórias de pessoas que questionaram tudo o que, em geral, aprendemos sobre o bem viver, como neste relato de uma jovem de 31 anos, que foi proprietária de uma loja online de decoração para crianças, e devido ao estresse e à quantidade de trabalho, abandonou tudo para morar em Florianópolis com um namorado.

Eu ia começar o mestrado, mas eu já tava vendo que não sei, mas sei lá, eu tava no fluxo, todo mundo tava fazendo, daí você pega e meio que faz junto, porque o que eu vejo muito é seguir o fluxo e não parar pra realmente pensar, porque você não encontra apoio de lugar nenhum, você começa a questionar muito, ah essa aí não sabe o quer da vida e você acaba acreditando nisso.

Mas porque sair do fluxo? Como sair do fluxo? Ir para onde? Bem, uma pergunta por vez.

A vontade de sair do fluxo – nas 41 entrevistas que fiz com pessoas que tinham “largado tudo”– relacionava-se com um esgotamento que se instaurava a partir do trabalho imposto pelo modelo de produtividade capitalista convencional. De um lado, a vida daquela pessoa se restringia ao trabalho, com poucas incursões sobre outros universos. A escassez de tempo, devido à alta produtividade exigida para se tornar “um grande homem” digno de reconhecimento, cansava as pessoas, mesmo aquelas que gostavam de seu trabalho.

De outro lado, em muitos casos, o próprio trabalho não era considerado ético pela pessoa. Conto dois exemplos: uma professora de uma escola bilíngue que se via obrigada a exigir das crianças conhecimentos não apropriados para a idade delas, e uma engenheira que dava laudos ecológicos nos quais a empresa recuperava 30% da área devastada, mas seguia poluindo outros 70%.

Não era nada claro, mas tinha um sentimento de vazio, de falta de sentido, trabalhando pra quê, vivendo aqui por quê, eu fui dividir um apartamento na zona sul com um amigo, um apartamento ótimo, eu tava namorando, tipo, se eu fosse seguir o protocolo, iniciando uma vida ideal, pô geógrafo trabalhando em empresa, raríssimo, um apartamento bacana, uma namorada bacana e tudo mais, mas eu comecei a sentir que não era bem por aí, quando chegavam os finais de semana que eu saía daquele regime de trabalho louco e tinha um tempo maior pra mim, eu ficava louco cara, o que que eu tô fazendo aqui, tipo ia pra praia, fazia esporte e tudo mais, mas igual eu sentia uma agonia, cara, uma ansiedade, eu pensava, o que tava acontecendo comigo.

Aí todo mundo se engana, fala em motivação e tal, mas na verdade tá todo mundo defendendo o seu lado, o funcionário negociando o melhor salário e a empresa querendo tirar o máximo pra ter lucro, na multinacional ninguém é muito ingênuo não, meu ideal de vida é fazer carro, ganhar dinheiro rápido, esse era o ponto, é claro que as pessoas se sentem sugadas, elas não tão numa situação de trabalho adequada, mas elas têm essa sensação de que não tem saída, daí vem a sensação da dependência do carro, do status, do dinheiro, e eu não tinha mais isso, o budismo tinha me dado outros valores.

Ilustrador: Fernando Cobelo @fernandocobelo

Buscadores do sentido perdido

Na grande maioria dos casos, mesmo em crise existencial, as pessoas seguem aquela dinâmica de vida/trabalho por não vislumbrar outra opção. Mas algo começa a surgir a partir da abertura que o próprio sofrimento traz: as pessoas, frustradas com a felicidade prometida e não efetivada, passam a experimentar novas práticas e vivências e se transformam em “buscadoras do sentido perdido”.

Aqui, começamos a responder a segunda pergunta: Como se dá a transformação? A partir de encontros! Mas, encontros do quê? De quem? Para usar um jargão sociológico, são encontros de sujeitos modernos com objetos autênticos, uns agindo sobre os outros e fazendo coemergir novas bolhas de realidade.

Explico-me melhor: segundo Charles Taylor, os sujeitos modernos – nós – são esses que buscam um sentido para a própria vida, já que em tempos anteriores esse sentido, em geral, era dado ou pela religião ou pela posição que se ocupava na sociedade. Diferentemente, agora o “quem sou eu” torna-se uma questão social e identitária fundamental, não restrita a filósofos ou estudiosos. Então, os sujeitos modernos seriam esses buscadores de sentido. E os objetos autênticos? São arquiteturas, lugares, coisas, práticas corporais, rituais que encarnam lógicas vinculadas ao desenvolvimento interior, ao universo dos sentimentos, da fruição, da natureza, da autoexploração e da criação, tendo como consequência subliminar uma crítica ao universo produtivista e consumista que predomina em nossa sociedade.

Resumindo, nos casos que eu estudei, os objetos autênticos englobavam natureza e a espiritualidade, incluindo religiões orientais, como o Tao ou o Budismo, rituais xamânicos, entre outros. Os meus entrevistados, sujeitos modernos, buscadores, ao conhecerem vivências vinculadas aos objetos autênticos, que são essencialmente subversivos por privilegiar o mundo interno e não a lógica produtiva, passavam a questionar suas vidas e a traçar possibilidades de transformação.

Estas transformações se davam de forma variada: subitamente, a partir de um encontro de um sujeito com um objeto que lhe fazia brilhar os olhos, ou lentamente, quando o sujeito experimentava vários espaços e vivências até encontrar o objeto que tocou o seu coração e o encheu de coragem para largar tudo. Neste relato abaixo, um jovem de 28 anos, que atualmente trabalha como guia de trilha em Alto Paraíso – GO, conta como, após uma vivência extensiva na natureza, resolveu abandonar a cidade e ir viver na Chapada Diamantina.

Você tá no meio da natureza selvagem, você vai ter uma experiência realmente marcante, porque como você falou o fato de você estar isolado e ao mesmo tempo diante de uma natureza muito poderosa, muito majestosa, pô essa trilha é dentro de um canyon com mais de 100m de paredão de altura, você olha aquelas rochas, aquelas formações geológicas de mais de bilhões de anos, você se sente uma formiguinha entendeu, então tudo faz você refletir sobre tantas coisas na tua vida que você não sai daquela experiência a mesma pessoa, você sai mudado, pra mim foi realmente muito transformador, tanto é que dias depois que a gente terminou essa caminhada, eu voltei pra Salvador e cerca de 20 dias depois eu mudei pro Vale do Capão, então foi uma coisa que mexeu tanto comigo que eu mudei toda a minha vida.

@vanlian_illustrations

Depois do encontro, os espaços

E depois de encontrado o objeto? Bem, ao redor de cada objeto existem espaços, lugares protegidos, dotados de arquiteturas diferentes, formas novas de se viver, às quais os sujeitos passam a experimentar. Esses espaços são, normalmente, cidades pequenas ou comunidades que se tornam o novo lugar de morada dos sujeitos, pois é quase impossível mudar a vida e continuar vivendo nos mesmos espaços. Os sujeitos concluem num nível prático o que minha pesquisa concluiu em um nível teórico: é preciso viver outros “ares”. É preciso condições de possibilidades para que outra forma de vida possa emergir. É preciso ter tempo para se autoconhecer e se autocriar. É preciso ter tempo para se doar!

Em geral esses espaços são no meio da natureza, têm práticas espirituais e grupos com fortes elos emocionais. Há uma valorização da natureza, um privilégio no cuidado de si e do mundo, assim como a realização de trabalhos coletivos. Nestes lugares, as pessoas precisam de menos dinheiro para viver, e assim ocorre uma descapitalização: menos bens, menores salários, menos trabalho (no sentido formal, pois há sempre muitos trabalhos a serem desenvolvidos nesses lugares). Tudo em prol de mais tempo para contemplar, mais tempo para a natureza e mais tempo para movimentos coletivos que divulgam o objeto encontrado: budismo, alimentação orgânica, terapias alternativas, etc. Assim, creem mudar a si próprios e mudar o mundo, pois se consideram exemplos de outras possibilidades de existência. É o que se pode observar no depoimento deste homem de 37 anos, que deixou sua profissão, como fotógrafo de natureza, para se dedicar ao projeto da comunidade onde vive, plantando, produzindo sementes e ministrando cursos na comunidade.

Não tem uma grande liderança, eu sou apenas um elo, um nó, de uma grande rede de transformação que eu tô otimista que tá acontecendo, eu acho que sim, que é possível outro mundo, hoje o que eu busco ser é ser exemplo, vulnerável, com defeitos e dificuldades, mas eu busco alguma coerência com que eu sou e pro o que eu quero.

Para fazer jus aos novos espaços de morada e suas possibilidades, a grande maioria dos entrevistados opta por trabalhar menos e, muitas vezes, mudar de profissão, como nesse depoimento de uma mulher de 34 anos, que abandonou sua profissão como professora em uma escola municipal para torna-se terapeuta.

O trabalho que a gente faz é muito bonito, a coisa do crescimento humano, da expansão, hoje a gente olha as pessoas, elas vivem muito pouco, amam muito pouco, transam  muito pouco, sentem muito pouco e o trabalho que a gente faz é de trazer uma abertura, de facilitar que as pessoas encontrem essa abertura, que possam amar mais e detonar menos o planeta e viver com mais amor.

Ou como no caso desse homem de 41 anos, natural de Porto Alegre, que começou a trabalhar com 13 anos em um escritório de advocacia e seguiu como advogado na vida adulta. Após viver um acidente de carro, decidiu experimentar outra vida: pediu demissão e foi para Alto Paraíso. Lá, tomou contato com a religião do Santo Daime e comprou uma terra com outros companheiros. Atualmente, tem uma significativa produção de orgânicos e também conduz cerimônias da religião.

O daime vai exigindo comportamento (…) então, é mais ou menos assim, eu era um advogado drogado e prostituído e hoje eu sou pai de família, plantando orgânico, morando no meio da natureza, quer mudança melhor do que a minha? É literalmente do vinho pra água (D20).

Contei para vocês de encontros que mudaram vidas, já que o elemento central de uma mudança de vida são os encontros. Encontros entre sujeitos e objetos a partir dos quais coemergiram novas bolhas de realidade. E, para mim, o mais interessante é perceber a própria ação dos objetos, que na tese eu chamei de autênticos – o poder subversivo desses objetos.

Sim, é possível largar “tudo”! Ou melhor, largar um tipo de vida. Mas é preciso entender que não há respostas mágicas. Assim, se está insatisfeito, procure encontrar para se encontrar. Procure objetos, explore suas arquiteturas, seus rituais, suas práticas. Olhe para dentro, faça silêncio. Com a motivação certa, a motivação de gerar inteligências mais harmoniosas consigo, com os outros e com o mundo, tudo se encaminha.

Sobre Andressa Correa:

Sou socióloga, mãe, artista, praticante budista e professora de teatro. Atualmente tenho realizado palestras sobre o tema de vidas alternativas, com a intenção de repercutir a minha pesquisa de doutorado em sociologia em outros ambientes que não o acadêmico e me dedicado a um projeto pessoal chamado “Ouro de Tolo”. Com o título inspirado em uma música de Raul Seixas, Ouro de Tolo prevê o lançamento de três livros pockets popularizando o material produzido na tese: 1) “Concretjungle” – que aborda as limitações da vida bem-sucedida; 2)“Metamorfose Ambulante”– que fala sobre as agências da natureza e espiritualidade nas vivências dos sujeitos dentro do universo alternativo; e 3)“Aquarius” – que descreve os novos trabalhos dos sujeitos, junto às condições de possibilidade de se viver com menos grana, menos fama e mais simplicidade.


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8 Comentários

  1. Carla Tunes disse:

    Muito bom! Adorei❤🌟

  2. Rosana miguel de aragao soares disse:

    Gostaria de saber se os entrevistados tinham filhos pequenos e como foi a adaptacao das criancas a nova vida.

  3. sualda disse:

    Parabéns. .pelo belo trabalho…muita luz.

  4. Ormando disse:

    Vivam as sociedades alternativas 🙂

  5. Marta disse:

    Boa noite! Existe alguma comunidade de vida alternativa aqui na região Sul de Santa Catarina ?

  6. Antônio disse:

    Bem difícil quebrar esse paradigma moderno de sucesso, onde quanto mais tu trabalha, menos tira férias, mais tu é exaltado como uma pessoa dedicada ao trabalho. Família e relacionamentos parece que tem que se moldar ao “sucesso”. Remar contra essa maré é tipo enfrentar o mundo. Mas não desisti, estou em busca da minha tribo…

  7. Fernanda Silveira Rosa disse:

    Maravilha Andressa! Muito bom.. esses encontrismos transformadores que enchem a vida de sentido, é um caminho sem volta, porque percebemos que não podemos mais viver a lógica do capital, da posse e do egocentrismo. Adorei.. parabéns

  8. Valeria Prates disse:

    Parabéns. Acredito que seu projeto ajudara muitas pessoas a tomarem uma decisão. Dou força. Eu nesma ja nos anos 70 fui viver com minha filha de 2 anos na ilha de Itaparica, buscando uma vida junto da natureza, fazendo macrobiotica. Fugindo da ditadura.Mas eramos intuitivos. Hoje aspiro ir para a comunidade budista em Alto Paraiso onde existe uma ação mais objetiva , uma conunidade budista.

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