Foto: Arquivo Philippe Leduc

Um pedaço de vida, relato de um monge theravada

Após dez dias de ordenação como monge da tradição Theravada, Philippe Leduc nos conta sobre sua prática diária na Tailândia: a mendicância

Por
Revisão: João Yuri
Edição: Lia Beltrão
Tradução: Rosebel Nalesso

Há 10 dias fui ordenado monge theravada no noroeste da Tailândia, em uma pequena Sanga de nove monges, incluindo nosso Mestre Ajahn. A generosidade do povo tailandês é o que mais me impressiona. Todos os dias eles levantam cedo para cozinhar para nós e esperam nossa chegada na vila entre 6:45 e 7:15.

Nos cinco países onde o budismo Theravada é praticado (Tailândia,  Myanmar, Sri Lanka, Laos e Camboja), este tem sido um ritual realizado diariamente durante séculos e, em alguns desses países, por milênios. Um testemunho vivo da generosidade e amorosidade humanas, mas também da fé nos ensinamentos do Buda.

Por 2.500 anos, pessoas ficaram em fila todos os dias sentados sobre as pernas, às vezes na lama, movidos pelo privilégio de alimentar os monges. Este é um momento sagrado e precioso dos seus dias, quando eles expressam o melhor de si mesmos, e eles não o trocam por nada.  Jovens adultos mostram às suas crianças de 2-3 anos como oferecer o alimento: primeiro o levam até a testa com os olhos abaixados para então depositá-lo na tigela do Buda.

A peregrinação (alms round) chamada de vindabah em tailandês, era chamada de pindapata em páli, a língua falada pelo Buda, e significa deixar cair um bocado. Hoje em dia eles depositam a comida cozida embalada em pequenos sacos plásticos.

À medida que os devotos depositam as suas oferendas em minha tigela, eu fico muito comovido com a devoção e fé deles. Para cada um, eu recito silenciosamente uma prece de bem aventurança e felicidade. Como não ficar emocionado?

Eu sou um estrangeiro e provavelmente sou mais afortunado do que a maioria deles, e mesmo assim eles se ajoelham no chão sujo e me alimentam. Não há perguntas, nenhum julgamento, nenhuma condição. E por todos os dias de minha vida, se eu assim o desejar, estas pessoas, seus filhos e netos me alimentarão com tamanha sinceridade, sem hesitação.

 

Chego a chorar quando penso nisto. Sou muito grato a estas pessoas, a prova viva de que os seres humanos são capazes de tamanha grandeza. É tão fácil esquecer que esta generosidade faz parte de nós, e que nós não somos apenas criaturas gananciosas, iradas e mesquinhas como a mídia geralmente nos retrata.

De acordo com os ensinamentos budistas, esta corrente de generosidade e bondade flui muito mais profundamente em nós do que as ondas de ganância e outras delusões.

Amor, bondade e paz são características fundamentais de nossos corações e mentes, e eles naturalmente brilham como o sol, quando não são ofuscados pelas nuvens da raiva, ganância e outras delusões.

É tão fácil esquecer disto, é tão fácil acreditar que a ganância e a raiva podem ser o que nós somos. Esta delusão está na raiz do modo como nós tratamos a nós mesmos, aos outros e ao nosso planeta. Tanto desenvolvimento tecnológico e tão pouco entendimento de nós mesmos, da clareza imaculada da mente.

Agora eu sou parte da Sanga do Buda, renunciando à minha identidade como estrangeiro residente, uma pessoa mundana. Eu segui adiante, o que significa que eu deixei para trás as preocupações mundanas (exceto meu blog e algumas poucas coisas) a fim de seguir o caminho apontado pelo Buda.

E os habitantes locais que durante três meses me viam toda manhã caminhando com Ajahn como uma pessoa leiga, agora me tratam exatamente como aos outros monges. Eu raspei minha cabeça, uso uma roupa monástica e carrego uma tigela, e este comprometimento é levado muito a sério pelos tailandeses. Se antes havia comentários de surpresa sobre a minha pessoa, agora como monge theravada não há nenhum sinal de estranheza por eu usar um hábito monástico.

 

Todos os oito monges juniores (de 21 a 65 anos) pretendem ficar em retiro por três meses, como é tradição nos meses chuvosos na Tailândia. Espera-se que a maioria de nós abandone o hábito e volte à vida mundana depois deste período, mas ainda assim somos muito respeitados, mesmo por este compromisso por tão curto período. Nos últimos três meses, eu assisti a este ritual como uma pessoa leiga e sempre me senti inspirado.

Agora eu tenho o privilégio incrível de participar não como ajudante, mas como mendicante verdadeiro. O alimento que é depositado na minha tigela é aquele que eu irei comer nas próximas horas, e será minha única refeição do dia.

À medida que a fila de monges serpenteia em seu percurso através das ruas da vila, eu me lembro dos milhares de monges que me precederam nos últimos séculos e dos incontáveis que me seguirão, todos guiados pelos ensinamentos de um homem que supostamente viveu 2.500 anos atrás na Índia, e que apontou o caminho para a cessação do sofrimento.

E aqui estamos, oito tailandeses e um franco-canadense, seguindo seus passos milhares de anos depois, a milhares de quilômetros da Índia. Como a vida é estranha e misteriosa!


Sobre o autor

Monge Philippe Leduc

Philippe Leduc. Arquivo Philippe Leduc

Meu nome ė Philippe Leduc e sou canadense. Tenho sido um praticante e estudante do budismo desde 1994, quando eu estive em Dharamsala e encontrei a meditação e o budismo Tibetano. Insatisfação crônica me levaram à Tailândia e ao budismo Theravada há alguns anos, e a um monastério nas florestas do norte da Tailândia, próximo a Chiang Rai, em abril 2017.

Depois de três meses como um praticante leigo, fui ordenado monge theravada há um mês. Minha motivação é me compreender melhor e superar o sofrimento. Esta experiência tem superado todas as minhas expectativas e eu tenho compartilhado minhas ideias neste blog. Este artigo é uma de minhas postagens mais recentes.


1 Comentário

  1. Fatima santana disse:

    Thank you for the inspiring text

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