Foto: Audrey Ruggiero

Seção Praticantes | Daniel Gisé

Neste relato, o artista visual Daniel Gisé diz como transformou o trabalho com adolescentes privados de liberdade em prática

Por
Revisão: Bruna Crespo
Edição: Janaína Araújo

Se diz que tão importante quanto ouvirmos os ensinamentos, é nós recontarmos os ensinamentos para nós mesmo, nos perguntarmos se eles fazem sentido em nossa vida e, caso entendamos que sim, fazê-los virarem ação.

Na seção Praticantes da Bodisatva, trazemos relatos de praticantes sobre como, ao seu próprio modo, eles (as) aplicam os métodos que nos são transmitidos pelos mestres de sabedoria nas suas vidas.

Desta vez, conversamos com Daniel Gisé.


Quando estamos autocentrados em identidades, não conseguimos entender bem os outros, eles se tornam recursos para nós. Recurso significa alguma coisa que pode produzir energia para mim ou não; se pode produzir energia positiva, ótimo; se produz energia negativa, vou considerá-lo inimigo, vou me afastar; se é neutro, não olho muito. A partir desse filtro, nos interessamos por um número muito pequeno de seres.
Lama Padma Santem

 

Após uma hora e meia de metrô, ele atravessa quatro vezes por semana sequências de portões pesados até chegar num pátio aberto, que abre a visão para alguns rostos, a maioria de meninos negros. Daniel Gisé, 40 anos, artista visual, quadrinista, ilustrador e arte educador, leva na mochila desenhos dos meninos em situação de privação de liberdade atendidos na Fundação Casa, em São Paulo.

Nos outros dias da semana, indo de um extremo a outro, ele percorre outro caminho: atravessa as ruas largas e os parques de um bairro de classe alta, até chegar numa das melhores escolas de artes de São Paulo, na Vila Mariana. Sua visão se abre para salas confortáveis e alunos brancos usando o tênis da moda.

“Existe uma linha que une os dois lados. A falta de liberdade. Não sabemos o que fazer com os jovens. Não escutamos eles e já chegamos com as coisas prontas. Claro que foi mais impactante para mim o primeiro contato na unidade João do Pulo, da Fundação Casa*, na Vila Maria. Sabia do racismo, mas nunca o tinha visto de forma tão nítida, tão concreta. Como branco, nunca sentia na pele o racismo. Lá dentro isso é visível. É cruel. Eles são massacrados e funcionam a partir desse desejo inverso de ter coisas, carros, dinheiro, por meio de atos ilícitos. É muito revoltante a polícia perseguir você porque você é negro e pobre.”.

Dentro dos muros da escola de elite, observa Daniel, outro ambiente é cultivado, onde os meninos não fazem o que gostariam. Ficam encaixotados dentro do sistema de ter êxito e sucesso. “Daí eles seguem sem alegria. É terrível! É como a construção de um lugar maravilhoso, mas dentro de um muro, sabe? Esses alunos têm preguiça de fazer tudo porque estão lotados de coisas para fazer. Existe uma pressão para eles darem certo, serem alguém, ocuparem lugares importantes já planejados para eles. Muitos pais querem enviar eles para o exterior, mas eles nem querem ir. Isso também é infelicidade”, conta Gisé.

Arte e mundo interno

 

Filho de ilustrador, Gisé nos conta que achava uma coisa mágica que o pai pudesse fazer alguns rabiscos e dali surgir uma imagem no papel. Aos 18 anos, ele passou a ter aulas de desenho e pintura no ateliê do artista Valdir Sarubbi, onde teve mais contato com as artes plásticas e começou a ver a arte não só como um trabalho, mas também como uma forma de processar questões do mundo interno. Sarubbi estimulou-o a ler Carl Jung e a usar o processo criativo como uma forma de ter contato com os conteúdos internos.

Daniel Gisé, 2018. Foto Audrey Ruggiero

Daniel Gisé, 2018. Foto Audrey Ruggiero

Era uma pessoa muito generosa, com uma didática única. Passei dois anos com ele e via alunos chegando e saindo transformados. O Sarubbi é um modelo que eu tento seguir. Por isso que não gosto de ensinar a desenhar de uma forma muito técnica, prefiro deixar mais espaço para a intuição, que a pessoa descubra por si algumas coisas ao invés de, logo de saída, ter regras a serem observadas”, comenta.

Aluno do Lama Padma Samten desde 2013, Daniel Gisé foi facilitador de meditação no CEBB São Paulo, é ilustrador da seção Ponto Final da revista Bodisatva, que publica semestralmente suas tiras sobre o livro Mente Zen, Mente de Principiante, do mestre Shunryu Suzuki.

“Acredito que o contato com o budismo e a prática me levaram a ter uma abertura para oferecer a arte do desenho em lugares que poucos querem ficar por alguns momentos. Passei dois anos criando as tiras do Mente Zen, Mente de Principiante, entre 2013 e 2015, e um ano depois fui trabalhar com os garotos. Então acho que as tiras, estudar e meditar foram um curso preparatório para depois chegar junto dos meninos”, relata Gisé que diz que abandonou tudo que sabia de metodologia formal adquirido em escolas de arte, oficinas em SESCs e centros culturais desde 2009, para se abrir para uma nova forma de ensinar desenho para os garotos em privação de liberdade.

A arte como caminho

 

Na sua primeira reunião de apresentação com um coordenador pedagógico da Fundação Casa, ele recebeu o aviso: “Você sabe que terá dificuldades, né?”. Nas primeiras aulas, elas apareceram como uma cascata: dificuldade de concentração dos alunos, dificuldade para se manter em uma tarefa por muito tempo, desistência, autocrítica exacerbada.

Ilustrações de Daniel Gisé

 

“Se é comum as pessoas terem dificuldades para desenhar, preocupadas com os resultados das primeiras tentativas em atingirem certo resultado idealizado, na Fundação Casa essa dificuldade é muito maior por causa da autocrítica somada a todos os outros fatores. Em uma das primeiras unidades que trabalhei, nas primeiras semanas de aula, um dos alunos me disse “Professor, isso que o senhor tá trazendo para nós não interessa! Eu vou sair daqui e vou roubar, não vou usar nada do que você está ensinando!”.

A reação não foi a mesma em todas as unidades, mas era um indicativo de que Gisé teria que fazer uma mudança geral. Das duas uma: ou não havia interesse em aprender a desenhar ou a forma de ensinar precisava mudar.

“Para isso eu precisava entendê-los, conhecê-los, saber qual era o interesse deles. Como despertar o interesse dos alunos? De que forma as aulas de desenho podem ser úteis e significativas dentro do contexto deles? O que era preciso para que eles tivessem vontade de sentar e desenhar, sem serem obrigados a isso?”.

Daniel relembra que no início a falta de comunicação era insuportável, mas um dia ele resolveu parar de falar e apenas desenhar retratos dos meninos. De repente, eles fizeram uma fila para participar. “Na verdade, eles estavam gostando de serem vistos, recebendo um desenho, eu dedicando um tempo na frente deles, aquilo fez eles se sentirem valorizados. Os meninos mais fechados sorriam, demonstraram afeto. Foi muito legal isso ter acontecido através do próprio desenho e não de uma conversa. A partir daí comecei a me sentir mais próximo deles, começamos a conversar e a brincar, fazer piadas”.

Qualidades positivas

 

Contratado pela organização não governamental Ação Educativa, que presta serviços para o governo do Estado, Gisé conseguiu uma abertura pra fazer experimentações de metodologia. A proposta de arte-educação da Ação Educativa tem base no método do educador Paulo Freire, onde compreende-se o processo metodológico como uma construção, entre educadores e educandos. Gisé fez uma ligação entre o método Paulo Freire com ensinamentos do budismo.

“Vejo várias semelhanças com a forma de ensinar do Lama Samten, principalmente nessa parte de o professor se colocar no lugar do aluno e introduzir o conhecimento através do mundo dele, daquilo que ele já conhece. Me inspirei nas Quatro Ações de Sabedoria, do Lama Samten, uma delas é a ação incrementadora, que baseia-se em olharmos as qualidades positivas dos outros e os ajudarmos a se manifestarem através dela”, conta Gisé.

Essa forma de atuar é contrária à proposta do sistema educacional vigente. Em qualquer lugar, para adolescentes privados de liberdade a disciplina é rígida e pré-definida em modelos de educação formal e vertical. Os jovens vivem sob uma disciplina rigorosa (por vezes violenta), em condições bastante precárias de vida e, ainda, não estão livres para escolher as oficinas culturais com as quais mais se identificam.

Ilustração de Daniel Gisé

 

O ambiente dificulta a criação de um clima produtivo em sala de aula. Nelas está incluída a presença de agentes de segurança em todo o processo. O perfil de meninos da Fundação Casa também é muito específico, compartilham algumas características que podem ser percebidas em todas as unidades. Eles têm uma maneira própria de se comunicar, códigos de ética bastante rígidos, gostos musicais, a estética do corpo e do cabelo, que dá a eles uma identidade bem definida.

“É perceptível a carência que eles têm de pessoas que os olhem com um olhar positivo, que acredite no potencial deles. Aprendi a escutar. Ouvir primeiro o que eles precisam. Me coloco sempre no lugar de escuta, porque às vezes chego com alguma proposta e vejo que aquilo não vai funcionar. Não imponho nada. Pergunto se eles querem desenhar naquele dia ou o que eles gostariam de desenhar, transformar aquelas cores. Faço esta conexão e lembro dos ensinamentos”.

A experiência diária do desenho na sala de aula parece com a meditação, onde podemos ter aversão ou desejo ordenados pelas emoções e pensamentos. “Na sala de aula tem os que acabam gostando, se identificam, já outros se fecham, não querem nada. Eles veem minha paciência e flexibilidade como fraqueza, me veem branco, já me taxam de diferente. Tive turmas difíceis de conseguir dialogar. Conseguia conversar com apenas com 2 ou 3 adolescentes, enquanto os outros ficavam completamente alheios durante a aula de desenho”, relembra.

Com a relação aberta com os jovens ao longo dos anos, Daniel começou a ouvir sobre o que eles queriam fazer: pintar e desenhar carros e motos, imagens religiosas católicas, imagens vindas da tatuagem (hannya, mago, catrina) e personagens de games e de animês. “Estava longe da minha proposta inicial, mas fui acatando e observando como as aulas poderiam se desenvolver a partir daquilo”. Assim, Gisé relaxou e levou imagens xerocadas para eles começarem a pintar e ao longo do tempo isso foi substituído pelo desenho feito passo a passo na lousa.

O desenho passo a passo é inclusivo, segundo Gisé. Ele inicia com alguns traços simples e gerais na lousa e anda por toda a sala observando o desenho de cada um, incentivando, conversando e ajudando os que estão com dificuldades. Em geral isso anima os que dizem que não sabem desenhar e os estimula a que pelo menos façam uma tentativa.

“A cada aula destaco a importância de fazer esboços, como estruturar o desenho. Um desenho não surge do nada! Tem uma estrutura por trás! Aprender a ver proporção, desenvolver percepção de contornos e linhas, percepção de formas, coordenação motora. Quando voltamos a utilizar alguma técnica, desafio os meninos a lembrarem como fizemos para reforçar o aprendizado.

Converso com eles também sobre a importância de habilidades que não são do desenho, mas que influenciam bastante o processo: paciência, foco, a continuidade da prática. Desenho é prática! A diferença entre eles e eu é que passei mais tempo praticando!”.

Sem expectativas

 

No projeto Arte na Casa, os ciclos de oficinas têm duração de três meses. Cada educador passa em média três ciclos em cada unidade da Fundação Casa. A cada ciclo a turma pode mudar totalmente seus integrantes ou não. Os jovens que se identificam com o educador e com a oficina podem pedir para continuar no curso.

 

Para andar por dentro deste trabalho, Daniel fala que é preciso cultivar uma mente sem expectativas e desenvolver no dia-dia uma motivação maior de olhar os jovens com humanidade, encarar o problema coletivamente. Gisé cita o livro A Mandala do Lótus, do Lama Samten, para se referir a um trecho onde os meninos aprendem a tocar violino em instituições para menores internos. E por melhor que tenha sido o trabalho individualizado, exemplifica o Lama, o menino volta para o ambiente onde vivia, onde as pessoas enxergam ele de uma certa forma, ele já tem o lugar certo dentro daquela estrutura, da comunidade, e por melhor que tenha sido o trabalho feito com ele, o mais provável é que volte a incidir.

“É o que vemos na prática, precisamos questionar esse sistema, é urgente modificar as políticas públicas para adolescentes, principalmente os que estão cumprindo medida socioeducativas. O perfil dos meninos na grande maioria é de moradores de periferia, sem acesso à educação de qualidade, saúde, cultura. É preciso, mais que urgente, desenvolver um olhar de compaixão: assim como eu, todos estão buscando ser felizes e evitar o sofrimento da melhor maneira que podem”.

“Muito além do desenho, acredito que o relacionamento com um educador que escuta o jovem, leva em conta o que eles dizem, respeita e valoriza sua expressão, também tem um impacto em como o jovem vê a si mesmo e se relaciona com o mundo. Eu os vejo como qualquer outro jovem – tirando as características culturais específicas, que são superficiais, não há diferença alguma.

Para algumas pessoas isso é um pouco inusitado porque têm uma imagem do jovem perigoso, violento, que é fabricada pela mídia. Assim como eu e você, são meninos que querem ser felizes, vistos, ouvidos e fazer parte da sociedade de alguma forma. É preciso conhecê-los”, relata Gisé.


*A Fundação Casa presta assistência a jovens de 12 a 21 anos inseridos nas medidas socioeducativas de privação de liberdade (internação) e semiliberdade em todo o Estado de São Paulo.

Daniel trabalha lá desde 2016 pela ONG Ação Educativa, que lançou no dia 27 de julho a publicação “Na linha tênue: experiências de arte-educação em privação de liberdade”, com textos de 12 educadores sobre as práticas de arte-educação na Fundação Casa. Publicados pela própria Ação Educativa, têm tiragem limitada, procurando uma forma de divulgar e distribuir para um público maior.

Saiba mais sobre o artista no site www.danielgise.com


Apoiadores

1 Comentário

  1. Eliane Teixeira Leite Flores disse:

    Gostei demais dessa estratégia deliciosamente budista de por em ação os pensamentos de Paulo Freire. A delicadeza, a inventividade e o talento de Gizé estão carregados de amorosidade.Parabéns!

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